Capítulo 38 - Serena
Enquanto o observava, suas mãos suavam frio. Bruno tinha os braços cruzados, a expressão fechada e letal.
Não parecia o homem que amava.
Serena abriu e fechou a boca, sem saber por onde começar.
- Vamos! Fale de uma vez o porquê de ter sido fotografada com um cara que disse não querer ver mais.
- Eu...
- Eu o quê, Serena?!
Ela se encolheu.
- Não sei por onde começar.
- Qualquer lugar é válido, desde que me conte porque agora ele parece estar do seu lado.
- O Renato... ele está me ajudando.
Bruno umedeceu os lábios, erguendo a cabeça como se rogasse por alguma intervenção divina.
- Serena, vou pedir somente uma vez: me conte tudo.
Os olhos dela se ergueram temerosos.
- Bruno...
- Não confia em mim para compartilhar seus segredos?!
- Não são segredos.
- Então por que diabos não me contou?! Não havíamos combinado que seríamos sinceros um com o outro?!
Serena pressionou os lábios, engolindo em seco.
Todo o passado abusivo que compartilhava com Hector pressionava sua glote, numa ânsia de vomitar a verdade misturada ao medo do julgamento.
Porque nada era pior do que o sentimento de que errara consigo mesma, ao permitir que suas dores se arrastasse por tanto tempo sem que fizesse nada.
Os sinais estavam ali, escancarados: a chantagem que utilizava sua ausência profissional para fundamentar a falta de afeto e carinho; e quando finalmente presente, a dor de ser ignorada e usada como troféu para alavancar o status dele; o sentimento de impotência e culpa que a perseguia... Indícios impossíveis de contabilizar, que cresceram gradativamente até aquele noite na garagem.
O momento em que os abusos deixaram de ser psicológicos para se tornarem físicos.
Serena encheu os pulmões de ar, tentando ignorar o passado para focar no presente. Porém, aquelas dores não só a perseguiam como pareciam tatuadas na mente.
Por mais que tivesse um parceiro maravilhoso, ainda sentia medo de se abrir. E não por vitimização, mas receio de receber olhar de pena e julgamento que lhe dirigiam quando entendiam o que passara.
Não, ela iria contar tudo na hora certa: depois que finalmente, sozinha, conseguisse colocar aquele monstro no devido lugar: a cadeia.
Por isso, ela respirou fundo e murmurou:
- Não te contei porque não se trata de nós... é sobre mim.
Bruno pareceu trincar o maxilar, voando em cima dela para segurá-la pelos ombros. Os olhos negros desceram sobre seu corpo, atravessando-a como flechas.
- Qualquer coisa sobre você, se trata de nós.
- Você não entende, Bruno...
- Então me ajude a entender. – o indicador rolou por sua bochecha, afagando-a num carinho ligeiro. – Me ajude a entender porque ele pode ajudar você, e eu não.
- Hector me quebrou - piscou a visão marejada. – Não quero que ele faça o mesmo com você.
Bruno meneou a cabeça, um sorriso triste estampado nos lábios.
- Eu já sou quebrado, Serena...
- Não, não é. – ela segurou a mão que ainda repousava sobre sua bochecha. – Você escolheu se manter quebrado.
Ela disse a verdade, apontando o casulo de dor e raiva que ele optou viver por não se achar digno de outra vida.
Um momento infinito se passou enquanto se encaravam, coligados ao elo das dores que travavam.
Foi ele quem interrompeu a conexão, jogando de volta:
- E não é isso o que você está fazendo agora?!
- Não. – a resposta saiu rápido, a denunciando na própria lama da incerteza. Ela engoliu em seco e explicou: - Não é a mesma coisa porque estou tendo a chance de resolver esse problema de uma vez por todas.
Ele assentiu de forma dura.
- Como a ajuda de um cara que também te traiu?
- Não é bem assim...
- Então como é?!
Ela baixou os olhos.
- Renato me traiu... mas agora está tentando fazer o correto.
Ele se distanciou, levando as mãos na cintura enquanto repetia o que dissera antes de voltar-se novamente em sua direção.
- Engraçado, antes você me perguntava o que era pra mim, e agora sou eu que estou na dúvida do que sou pra você.
- Bruno... – murmurou, se preocupando com o caminho que a conversa tomava.
- Desde que estou ao seu lado venho tentando fazer o correto. Então outro cara que traiu a sua confiança pede desculpas e diz que a ajudará. Você aceita e me coloca de escanteio... o que eu sou pra você, Serena?!
Os olhos dela deviam estar saltando das órbitas, tamanha surpresa que a atingia. Serena precisou piscar algumas vezes para ter certeza que era verdade, antes de avisar:
- Isso é o oposto do que aconteceu, Bruno. Eu jamais te coloquei de lado! Estou evitando seu envolvimento para proteger você.
- Não é decisão sua.
Dessa vez foi o semblante dela que se fechou.
- Como não é decisão minha?! Um problema do meu passado vem me assombrar, e...
As mãos dele apoiaram-se em cada lado do seu rosto, a cortando:
- Quando eu perguntei se queria ficar comigo como minha mulher, estava perguntando se queria dividir sua vida comigo.
- Eu sei! E estou fazendo isso justamente para voltar a viver do seu lado.
Ela a soltou de supetão.
- Fazer isso é o quê, exatamente?! Escolher estar entre os braços de um homem que não sou eu?!
As pernas dela cambalearam pelo chão do quarto até chegar à cama.
- Não acredito nisso... – seus olhos arregalados se ergueram na direção dele. – Você acabou de dizer que acreditava em mim quando falei que não te trai com Renato!
- É... agora entendo o que Dodô falou - Ele pareceu ter murmurado pra si mesmo, antes de encará-la e completar: – Traição é um conceição amplo.
Serena franziu o cenho.
- Não entendi o que quis dizer... mas em nenhum momento te traí.
Bruno sorriu enquanto balançava a cabeça. Assustada pela atitude dele, ela reiterou o objetivo que tinha com a ajuda de Renato:
- Só estou dando a oportunidade de uma das pessoas que causou tudo, consertar. O Renato...
- O RENATO ESTÁ FAZENDO TUDO ISSO PORQUE QUER VOCÊ!
Ela se levantou de repente, surpresa pela explosão e tom agudo que irromperam dele. Bruno pigarreou, expirando descompassado para voltar ao normal, e complementar:
- Não duvido que ele tenha aceitado a proposta do Flamengo para ficar mais perto...
- Não! – se adiantou a explicar – Renato aceitou vir pra esse time porque era o sonho de infância dele!
Bruno lhe direcionou um olhar semicerrado:
- Então agora vocês conversam sobre seus sonhos?!
Serena teve vontade de puxar os fios loiros da cabeça.
- Bruno, pelo amor de Deus! Escute as coisas que você está dizendo!
- É alguma mentira, por acaso?! – ele abriu os braços. – Vim aqui por uma explicação, na certeza de que, apesar de estar puto, tudo isso não passava de um mal entendido. Mas cada frase sua, em vez de melhorar a situação, tende exatamente para o contrário, confirmando tudo o que estão dizendo!
- Você nunca ligou para o que outros falam!
Em um segundo, o rosto dele estava a centímetros do seu, murmurando com a voz grave:
- Eu ligo para o que você fala. E, até agora, o nome de Renato saiu mais vezes da sua boca do que a verdade que deveria ser contada a mim. – a testa dele se encostou na sua, permitindo que compartilhasse da respiração desritmada - Acha que não machuca o fato de saber que vocês conversavam sobre seus sonhos, enquanto você acordava todos os dias ao meu lado, e jamais me contava os seus?!
- Bruno...
- Doí, Serena. – ele levou a mão ao peito. - Doí muito.
Ela segurou o rosto dele entre as palmas, encarando-o:
- Eu jamais precisei contar meus sonhos a você. Sabe o porquê? Cada dia ao seu lado era a realização dele.
Bruno reavivara todos os sonhos que pensara estar esquecidos: à volta ao trabalho; o filho; o casamento; uma família.
Ele, aquele homem de armadura tão dura, fora se despindo cada vez mais. Expondo não só o amor, mas tudo o que mais desejara na vida.
Bruno fechou os olhos por um momento, tirando suas mãos do rosto dele, para então se distanciar e murmurar:
- Eu também achava que vivia um sonho. Por poucos meses você me mostrou uma vida que jamais pensei que poderia me encaixar, mas então...
O início daquela frase à levou as nuvens, e a parte final agora a largara à deriva na gravidade. Antes que caísse, ousou perguntar:
- Então o quê?!
- Então nada. – ele deu de ombros secamente. – Abri minha vida pra você, e não foi capaz de fazer o mesmo por mim... Sempre me dizia pra falar o que sentia, e pra quê?! – gesticulou na frente do corpo e depois bateu no peito. – Posso ser uma merda pra falar de sentimentos. Mas, pelo menos, sei que diálogo é uma via de mão dupla.
Ele jogou a sentença no ar, caminhando para a porta. Serena correu, se colocando na frente dele.
- O que... que você quer dizer?! Para onde vai?!
- Deixar você seguir seu plano com a ajuda de Renato – Ele ergueu as sobrancelhas – Como deixou bem claro... minha presença não é necessária aqui.
Ela o encarou, o ar retesado dentro do peito. As pernas afundando na areia movediça que as nuvens do céu parecem se transformar, a puxando cada vez mais para baixo.
Voltando à realidade cruel, se viu parada no centro do quarto, observando ele puxar a maçaneta.
- Bru-no...e a gen-te?! A-cabou?!
Ele parou no meio da porta, respondendo:
- Preciso de um tempo.
De repente, seus pés começaram a despencar em queda livre.
Então lembrou.
Era o mesmo sonho que tivera no dia em que o conhecera: a brincadeira no céu que logo se interrompeu pela tempestade que se aproximava. Enquanto afundava entre as nuvens, exatamente como agora, os próprios dedos a beliscavam tentando acordá-la.
Mas foi ele que a salvou.
Bruno tinha razão. Não queria a ajuda de nenhum homem que não fosse ele, e se precisasse sangrar todas suas feridas para tê-lo ao lado, faria.
Só que ele já tinha atravessado a porta. Então, o que agora poderia fazer enquanto estava em queda e sozinha?
Sem forças, ela caiu.
Esse cap fala sobre aquelas coisas que cobramos do outro sem dar nossa parte em troca. 💔
Ah gente, se os outros capítulos foram difíceis é porque eu ainda não havia chego a este. Não tive dúvidas de que o vídeo exposto na mídia combinou perfeitamente T-T
Obrigada por acompanhar esse história tão importante pra mim! Espero que esse casal também esteja mexendo com você <3
Não está revisado :(
PS: Fiquem à vontade pra surtar nos comentários kk e não se esqueçam da estrelinha
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