Capítulo 21 - Serena

Ela segurou uma prévia das fotos sem acreditar no que via. Pelo jeito que Bruno observava, ficava claro que pensava o mesmo.

Os dedos dela alisaram a fotografia, como se dedilhasse o tecido do vestido que usara. Ele era longo e floral, com uma amarração embaixo dos seios que evidenciava a barriga de cinco meses.

Ela tinha uma expressão altiva e plena, como se todos os problemas que estivesse passando não passassem de um reles sonho. Só Bruno continuava o mesmo, com o semblante impassível e duro.

Na foto, ele estava atrás dela, a cabeça um pouco arqueada sobre a nuca feminina. Parecia cheirar e aprovar a fragrância do perfume que ele havia borrifado na curva do seu pescoço. Os olhos dele estavam erguidos pra câmera, o ônix negro brilhando em desafio.

Serena franziu o cenho.

- O que foi? Não gostou? – Bruno indagou sem tirar os olhos da rua. Depois de almoçarem umas quentinhas na agência de modelos, eles já estavam a caminho para a consulta com o obstetra.

- Gostei. Estamos lindos. – admitiu. – É só que... sei lá, não parece eu.

- Por quê? – a atenção dele foi pra ela quando o trânsito aliviou.

- Sempre gostei de fotos. Acho que a fotografia pode, além de eternizar um momento único, capturar o melhor da gente. Mas agora... – Serena comprimiu o cenho. – Olho pra essa foto e sinto que estou protagonizando outra pessoa que não seja eu. – guardou a fotografia rapidamente na bolsa. – Não me vejo assim.

Bruno pendeu a cabeça, descansando o cotovelo no braço da poltrona de couro do carro.

- Não é porque não se vê assim que não é você na foto.

Serena uniu as sobrancelhas, cruzando os braços.

- Bruno, olha pra mim. – pediu com ênfase. – O que eu tenho a ver com aquela mulher da foto?

- Tudo, Serena. Tudo. – o rosto dele se virou em sua direção, mirando-a nos olhos. – Eu te vejo exatamente assim.

Ela meneou a cabeça, surpresa com a revelação dele e descrente de si.

- Então por que você também estava encarando a foto com dúvida? 

- Não era dúvida. Era... Deixa pra lá. - Ele passou a mão pelo cabelo. - Você alguma vez já pensou que talvez esteja olhando pro lugar errado?

- Como assim?

- Não sei. – ele divagou, freando suavemente para ultrapassar o quebra mola. – Talvez você esteja dando muita atenção para coisas menos importantes. Não sei o que passou e o quanto pode estar sendo difícil. Mas se continuar colocando todo seu foco na dificuldade, não vai conseguir apreciar coisas boas.

Uau.

Os olhos dela desviaram para janela, observando a alameda comercial que eles entravam.

- Você parece saber bem sobre isso.

Bruno meneou a cabeça.

- É mais fácil falar do que fazer. - deu de ombros. - Vai que você saiba colocar em prática os conselhos terapêuticos de Sarah? 

Ele estava certo, e se odiou por isso. Se pensasse bem, era óbvio que a traição de Hector abalara sua autoconfiança e autoestima. Apesar disso, ela continuava a mesma, não é?

Não.

- Não sei se concordo. - revelou. 

Bruno estalou a língua em contragosto, porém preferiu ficar em silêncio. Serena suspirou e pegou o telefone, continuando a conversa via wathsapp com Sarah e Renato. Eles estavam preocupados com o que havia acontecido no churrasco. 

Um sorriso genuíno brotou nos lábios dela. Talvez estivesse fazendo amigos verdadeiros dessa vez. 

- Tudo bem? - Bruno a olhou de esguelha, ciente da sua repentina alegria. 

- Sim. - sorriu. - Estou falando com Renato e Sarah. 

- Hm... Ok então. 

Serena observou a desavença que ele tinha por Renato estampar o semblante dele. Ela até ia dizer algo para acalmá-lo, porém se deixasse as coisas fluírem, seria provável que ele se convencesse de que o fato de Renato querer conhecê-la nada tinha a ver com o passado. 

Pelo menos, assim esperava.

O celular vibrou na mão dela, capturando sua atenção. Ela desbloqueou rapidamente e observou as duas mensagens, uma de Sarah e outra de Renato. A da amiga era um conselho sobre Bruno: Não permita que ele tente afastá-la. Serena respondeu: Por que ele faria isso

O visor indicou que Sarah estava fazendo um áudio. Ela só esperava que não fosse mais um de três minutos. Enquanto isso passou para a conversa com Renato, que a deixou ansiosa pelo pedido: Aceita sair comigo hoje

Quando Serena tocou no teclado para responder, Bruno chamou:

- Vamos? - Estava tão vidrada nas mensagens que mal tinha percebido que chegaram. Assentiu rapidamente.

Eles saíram do carro, caminhando pra fora do estacionamento em direção à rua movimentada. Bruno estava com um boné e óculos escuros para não ser reconhecido. Ainda assim, algumas pessoas olhavam duas vezes na direção dele, incertas sobre a verdadeira identidade.

Bruno segurou a porta giratória do prédio para ela passar. Serena passou, vislumbrando na parede ao lado o nome da obstetra que a atenderia. Ela inspirou fundo, ansiosa por notícias do bebê. 

O elevador acionado se abriu e eles entraram.

- Por quê? – Bruno tirou o óculos de sol enquanto o elevador subia. Serena franziu o cenho, a cabeça já longe. – Por que não concorda que talvez seja uma questão de perspectiva? 

- Ah. – se lembrou, observando a imagem deles no espelho do elevador. – Acho que eu mudei.

- A aparência? – os olhos dele a analisaram no reflexo.

- Não, o interior.

- E isso te faz mais bonita?

O olhar dela se cruzou com o dele. Quando teve certeza que não era um brincadeira, sorriu, sentindo as bochechas queimarem.

- Quem dera. – suspirou. – Mas, não. Só me faz... diferente. – assentiu para o próprio reflexo.

- Isso te fez diferente. Te deixou mais forte.

Serena sentiu os olhos marejarem, e ante que ele percebesse, desviou o olhar. O elevador se abriu. Bruno ia saindo quando ela o segurou.

- Também te fez mais forte? – Serena perguntou, se referindo às perdas que ele havia tido na vida. Ele fechou os olhos ligeiramente.

- Não.

- Por quê?

- O que eu passei foi diferente do que você passou. – Ele tomou a mão dela, entrelaçando os dedos aos seus e a guiando-a para o corredor. – Não me faz mais forte, só me deixa vulnerável.

- Por que você não me contou, Bruno? – ela se referiu ao fato de ele ser gêmeo de Henrique. Bruno parou de andar.

- Não entendi. – a encarou.

- Não me disse que Henrique era seu irmão gêmeo.

A expressão dele se clareou, um vestígio de tristeza perpassando rápido. Bruno deu de ombros.

- É, eu nasci onze segundos depois dele. Isso muda alguma coisa?

- Depende.

Ela sabia que alguns irmãos talvez não tivessem um grau de afinidade tão forte. Contudo, esse não era o caso de Bruno, que pela dor visível ficava claro que perder Henrique fora o mesmo que perder uma parte de si mesmo.

Serena continuou:

- Quando ele se foi, você perdeu uma parte de si, não é? Perdeu a outra face de sua moeda. – colocou a mão na direção do coração dele, fazendo a analogia antes usada. O peitoral musculoso retumbou embaixo de sua palma. Bruno pressionou os lábios.

- Você não sabe do que está falando. – a voz saiu áspera. Serena chegou mais perto, sustentando o olhar duro.

- Sei. Eu passei por isso, Bruno – apenas a lembrança dos pais falecidos fez com que uma lágrima descesse dos olhos, rolando pela bochecha. – Meus pais faleceram quando eu era nova. Os dois. Juntos.

- E daí?! – Foi grosso, mas ela conseguia ver como ele estava quase desmoronando.

- Eu sei o vazio que fica no nosso peito. Sei como parece que sempre ficaremos quebrados. Eu sei. – sentiu de abraçá-lo. – Não estou diminuindo ou igualando nossas dores. Como sou filha única, não sei o que é nascer junto com outra pessoa. Mas sei que por mais que as perdas nos façam vulneráveis, também nos fazem mais fortes.

Uma pessoa pediu licença a eles. Bruno a puxou mais ao canto.

- Como, Serena? – Ele exigiu saber, as mãos a segurando pelos ombros.

- Por eles, Bruno. – sentiu outra lágrima cair. – Tentamos ser melhores por aqueles que se foram. Porque eles iam querer que fosse assim, entende? – Ela espalmou o rosto, afastando o caminho molhado. – Henrique era um homem bom, me apoiou quando precisei mesmo sem me conhecer muito. Ele iria querer o melhor pra você, assim como seu pai.

Uma lágrima caiu dos olhos de Bruno. Serena pousou a mão na bochecha dele.

- Seja feliz por eles. – sorriu triste. 

- Serena.... – ele meneou a cabeça.

- Bruno, me escuta.

- Não... – ele murmurou, virando-se de costas. 

Serena teve uma ideia. Com os dedos ágeis, ela tirou da bolsa a foto deles.

- Olha só. – o chamou novamente. Bruno olhou por cima do obro. – Está vendo essa foto? – apontou com o dedo trêmulo. – Então... Posso não ter me visto como essa mulher daqui. Mas você... você é exatamente assim, Bruno. É confiante, e...

- Isso é uma máscara, Serena. Não sou assim. Você não me conhece.

- Então me diz como você é!

Bruno se virou bruscamente, segurando seu rosto.

- Não quero que você me ache ainda pior.

- Posso ter te achado um homem desprezível no início... Eu errei. Você não é assim embora tente parecer...só precisa deixar o verdadeiro Bruno sair.

- Não posso...

- Tenho certeza que depois de tudo o que fez por mim, você não é assim tão mau.

Bruno fechou os olhos novamente, e quando os abriu, um brilho estranho e destemido os perpassou.

- Nada disso foi por você! Tudo foi por minha mãe.

Os braços dela ficaram moles por um segundo, soltando-o. Apesar disso, engoliu o ego e tentou novamente:

- Ainda assim fez por ela, e isso não te faz mal. Não é possível que não veja alguma chance de tentar ser melhor. Alguma coisa que queira ou te estimule. Não é possível!

Ele chegou mais perto do rosto dela. Serena umedeceu os lábios, sentindo a respiração mentolada dele. O olhar ônix caiu pesaroso sobre si. 

- Pela primeira vez em muito tempo eu tenho algo que me estimule... Mas não posso. Não sou bom pra ninguém, nem pra mim mesmo. Quando meu pai estava doente eu preferi viajar com o clube do que renunciar meu contrato pra estar perto dele. E quando Henrique se foi, eu estava jogando... Perdi de viver ao lados das pessoas que mais amei na vida por causa do trabalho. E hoje só consigo jogar porque transformei minha culpa em raiva. E agora...

- Agora o quê?

Bruno mordeu os lábios, o rosto a menos de um palmo do dela. Serena sentiu a boca aguar em expectativa. 

- Agora não posso ter o que quero sem que a culpa me destrua. – Ele a soltou de supetão. 

Contra toda a razão, tentou mais uma vez:

-E se for uma questão de perspectiva? Você não está focado no lugar errado? 

Bruno a encarou. 

- Não. Eu estou olhando pra parte mais bonita da minha vida. Só que a única maneira de manter ela linda, é ficando longe. 

- Bruno... - Tentou tocá-lo, ainda que não entendesse muito bem. Ele deu um passo pra trás.

 - Não tente me melhorar. Não tente me ajudar. Fique longe de mim. Uma hora ou outra todo mundo que está por perto acaba se machucando.

Serena pressionou a boca, prendendo a vontade de chorar. Bruno desviou os olhos.

- Podemos ir agora? – ele perguntou, indicando com a mão o caminho do consultório. Serena se abraçou, ciente de que precisava de um tempo pra si. 

- Acho melhor eu ir sozinha. Obrigada por ter me trazido aqui. 

- Eu vou com você. 

– Não... - Não tinha como mentir sem que ele soubesse, então pegou pesado. - Não tem porque você ir se sua presença vai acabar me machucando.


Olá minha gente! Esse cap trouxe uma certa dose de drama, eu sei. 

Mas e aí,o que vocês acham, voltamos à estaca zero? haha Eu acho que o Bruno até pode pedir para Serena ficar longe dele, mas não tenho certeza se ele irá conseguir. 

Os próximos caps trarão novidades. E esse pedido de Renato para um encontro com a Serena, será que ela aceita? E a resposta de Sarah sobre Bruno? Continuem com esses dois pra saber! hihi 

Obrigada por acompanharem esse casal (e desculpem pela demora) <3 

Não está revisado :(

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