Capítulo 2 - Serena

Serena estava confortável. Oh não! Mais do que isso, parecia estar no céu.

Seu corpo planava sobre as nuvens. O céu era um mar degrade de azul cintilante. Ao longe, o sol nascia, formando uma paisagem digna de um quadro.

Aquele deveria ter sido o único sonho nos últimos meses. 

Então se permitiu levar, pulando de uma nuvem a outra. Depois, deixou o corpo cair, e quando bem quis, se impulsionou novamente para cima, perfurando outra nuvem que parecia feita de algodão.

Ela ria, gargalhava.

Mas então, quando se virou para o horizonte, as coisas ficaram estranhas. Onde o sol nascera a pouco segundos, formava-se uma nuvem negra. Ela parou imediatamente a brincadeira, procurando algum lugar para se esconder. Porém, nada havia ali senão o céu e a tempestade que se tornava cada vez mais forte, vindo cada vez mais rápido.

Era hora de acordar.

Serena apertou os olhos, se beliscou. E nada aconteceu. Somente a tempestade a um palmo de encontrá-la. Ela tentou correr, mas seus pés começavam afundar nas nuvens como se tivesse pisando em areia movediça. Iria cair. 

Não, não , não.

- Eeei! – A voz masculina a sobressaltou. Seu corpo era balançado. Serena tentou ver no escuro, mas com seus olhos ainda nublados pelo sono, somente a sombra gigantesca dele estava a sua frente. – Ei! Está tudo bem?!

Serena piscou mais algumas vezes, antes de encarar os familiares olhos negros que a observavam. As mãos dele ainda estavam segurando seu antebraço, como se tivesse medo que caísse do sofá. 

Ela tentou sorrir. Estava com tanta saudade, tinha tanto para contar. Mas... se focou no rosto do homem. O queixo quadrado e rude. Os olhos afiados, negros e redondos. Os lábios finos e marcantes. 

Não era Henrique. Era parecido, muito parecido. Mas não era ele.

Seus olhos devem ter ficados tão arregalados, que o homem deduziu que precisasse ser balançada novamente. Então ele a chacoalhou. Ela se debateu entre as mãos masculinas.

- Quem... Quem, é você?! – Conseguiu balbuciar a pergunta. O homem a olhou perplexo por um segundo, antes de rir ironicamente.

- Eu é quem deveria perguntar, não acha?! Você invadiu a minha casa! – Ele a soltou e se levantou, ficando 10 vezes maior. Serena ficou irritada.

- Eu não invadi a sua casa! 

- É mesmo? E como é que está aqui se não fui eu que a convidei?! – Ele devolveu, andando manco e impaciente pela sala. O homem foi até as cortinas que ela havia fechado antes de cair no sono, e as abriu.

Ela protegeu os olhos da claridade das luzes do jardim, e quando finalmente se acostumou ao ambiente, o encarou. Ele estava de pé a sua frente, e tinha os músculos tão definidos que a camisa polo estava esticada sob o peitoral.

Não era só ela que o observava.

O homem a encarou de cima abaixo, e pelo menear da cabeça, não gostou muito do que viu. Ela bufou enquanto tirava um cacho de seus olhos e o colocava atrás da orelha.

- Quem é você? – perguntou novamente.

- Não, você quem entrou na minha casa. Você que deve dizer quem é.

Serena encarou o homem, que sustentou bravamente seu olhar.

- Não lhe devo nenhuma explicação! Muito menos tenho que falar quem sou eu! – argumentou. O homem explodiu em uma risada fúnebre, fazendo os músculos da perna dela se contraírem. 

- Era só o que me faltava. – Ele estava com as mãos na cintura. – Chegar em casa e encontrar uma desconhecida dormindo no meu sofá...

- Eu não estou na sua casa! E você não precisava ter me chacoalhado...

- O que você queria que eu fizesse, hã? Do nada começou a gritar feito uma louca! 

Serena dobrou os braços na frente do peito. A raiva quase explodindo por todos os poros. 

– Olha só, é o seguinte: já que você invadiu a minha casa e não quer me dizer quem é...Vou ligar para a polícia.

- Eu não invadi a sua casa, estou no endereço correto! Me certifiquei disso diversas vezes. - repetiu.

O homem suspirou longamente, tentando conter a própria raiva. Ele tirou o boné e passou a mão pelos fios negros, que antes estavam todos alinhados.

- Tudo bem, vou te dar uma chance. – Ele ergueu o indicador. - Quem você pensava encontrar? 

Serena cruzou os braços com ainda mais força.

- Não vou te dizer nada.

Em resposta, o homem sorriu torto.

- Tudo bem... – Ele sacou um iphone do bolso da calça de moletom da adidas. Serena arregalou os olhos quando o viu digitar 190.

- Henrique. – soltou exasperada. Instantaneamente, o homem parou. A expressão irônica se tornando furiosa. – Estou procurando por ele. Foi exatamente este o endereço fornecido.

- Ele não está aqui. 

- Quê?! Onde ele está? Eu preciso falar com ele! 

Não encontrar Henrique não era uma opção, era sua única alternativa. Não tinha um plano B.

Ela levou as mãos à cabeça. Toda a economia que guardara as escondidas de Hector não adiantaria de nada se fugir até o Rio de Janeiro fosse um plano fracassado.

- Você não pode falar com ele!

- Como não?! – Quase gritou.

- Porque ele está morto. Henrique, está morto!

Os braços dela caíram ao lado do corpo.

- Não...- Os olhos estavam ficando nublados por lágrimas empoçadas. A imagem de Henrique sorrindo perpassou como um clarão em sua mente. Ela fungou, tentando segurar o choro. - Não, ele não pode estar morto! 

Serena deu um passo para trás, sentindo as pernas moles. Instantaneamente, o homem a segurou, as mãos firmes novamente em seus braços.

- O que você quer com ele. – Foi uma ordem. Ela tentou se desvencilhar. 

- Eu só vou falar com ele.

- Qual é o seu problema?! Você não me escutou? O cara morreu, escafedeu-se. Foi para o sono eterno. – O modo banal como o ouviu dizer fez com que as lágrimas dela irrompessem. – Ah... Não, pelo amor de Deus. Não chora. – O pedido só fez com que as lágrimas se tornassem mais forte, como dois rios correndo por sua face.

- Você está mentindo, ele está aqui, tem que estar aqui!

- Henrique faleceu há dois meses, moça.

Agora era a vez dela olhá-lo ironicamente.

- Quê?! É impossível! Ele falou comigo ontem.

O homem tornou a soltá-la, mas dessa vez, para rir.

- Você não cansa de mentir, mulher?! Eu estou perdendo a paciência. Acha que eu não saberia se meu irmão não estivesse morto?

- Eu não estou mentindo... E posso provar! – Ela colocou a mão no bolso posterior da calça jeans, e tirou o celular. – Aqui...Olha aqui. Não é ele? 

Os olhos masculinos se apertaram para olhar com atenção a conversa no WhatsApp.

- Isso é impossível... Quando Henrique faleceu minha mãe... – Ele parou imediatamente.

- O que foi?! Me diz!

A respiração dela estava tão afobada que parecia ter corrido por quilômetros. Na sua situação, não deveria se colocar diante de uma contenda daquelas. Mas, em vista de tudo o que vinha passando nos últimos meses, aquela discussão não seria nada.

- Não era Henrique. Você estava falando com minha mãe.

 Um suor frio desceu por sua nuca. Ela colocou a mão na face, sentindo-se estranha e tonta de repente. Ele a segurou novamente, dessa vez mais forte.

- Está tudo bem?! – O homem indagou. Serena balançou a cabeça negativamente.

- Quem... Quem é você? – Perguntou novamente. 

- Bruno.. sou Bruno. – Ele respondeu. Ela sentiu a perna vacilar, porém, antes que caísse, um braço enlaçou sua cintura, levando-a para o sofá. – Cacete...

Os olhos de Serena cambaleavam consumidos pela náusea que subia pela bile, a tonteando. 

– Não, não, não, moça. Fica comigo! 

O semblante de Bruno estava retorcido. Serena fez força para piscar, e o observou olhando ao redor, como que procurando alguma saída. 

– Me diz alguma coisa... - Bruno tentava mantê-la acordada - Qual seu nome?

- Se...Serena. 

Ela engoliu a ânsia em seco, o gosto amargo permanecendo na língua.

- Serena, o que você queria com meu irmão? - Ele ainda a interrogava. Mas ela temia que se falasse, não conseguisse segurar. 

Bruno a balançou impaciente.

- Eu... precisava falar com ele...

- Por quê? Me fala, Serena.

- Porque eu... – Serena respirou fundo, sentindo a ânsia aumentar. – Estou carregando...o....o...

Era tarde demais. 

Quando tentou abrir a boca novamente, todo o café da tarde que tinha tomado às pressas no aeroporto voltou pela garganta. Serena vomitou, observando a gosma ocre se espalhando no piso de porcelanato branco.  

- Puta.que.Pariu. – Bruno ralhou, segurando os cabelos dela atrás da nuca. 

Ela ficou estatelada, assustada pelo o que acabara de fazer. Porém, depois de engolir em seco mais uma vez, terminou a frase:

- Eu estou carregando o filho dele.

Os olhos dele foram para seu baixo ventre - onde um botãozinho já podia parecer -, e depois retornaram para ela, arregalados. 

Mas o pior ainda estava por vir.

A consciência dela oscilou, a fazendo apertar os olhos com força. Não bastando, tentou segurar a própria cabeça, antes de dar batidinhas na bochecha para despertar a própria atenção. O olhar assustado dele tornou-se preocupado.

- Serena...O que foi?!

Ela estava sem forças. O corpo amolecendo a cada segundo no sofá. Os olhos piscando lentamente, a visão se nublando. Bruno segurou-lhe a face. 

- Bruno, eu...

- O que foi?!

- Preciso de ajuda.

Foi tudo o que disse, antes de apagar por completo. 

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