Capítulo 19 - Serena
Quando Serena acordou, ela não sabia se era dia ou noite. O local estava tão escuro que a impedia de ter ciência sobre qualquer condição do tempo. Sua cabeça pesava e doía, e quando os acontecimentos da noite passada retornaram como um sonho, ela soltou um arquejo.
Hector era como um pesadelo recorrente que não conseguia se livrar. Mas, pelo menos, agora se sentia mais segura. Não sabia o porquê, mais confiava em Bruno para ajudá-la nessa tarefa de libertá-la das amarras do ex-marido.
Serena virou-se de lado, acariciando distraída o ventre. Logo depois, inspirou fundo, pronta pra despertar, e...
Um cheiro amadeirado inundou seus sentidos.
Franzindo o cenho, esticou os dedos no tecido sedoso da cama, trazendo-o rente ao nariz. Ela conhecia bem aquele cheiro marcante, sensual, encorpado...sexy.
Era a cama dele?
Serena se sentou tão rápido que a coberta deixou seu corpo, permitindo que fosse revestida por uma lufada de ar frio. Envolvendo os braços ao redor do corpo, se levantou. Depois, guiada pelo nervosismo, caminhou depressa e sem rumo algum, topando o dedo mindinho em um móvel.
- Ai!. – pulou em um pé só.
De repente, a luz se acendeu,clareando todo o cômodo e quase a cegando. Serena fez sombra em cima dos olhos.
- Bruno...
Ele estava colocando um relógio de pulso que estava em cima da cômoda. Seu corpo estava todo molhado, e tudo que havia em volta da cintura era uma toalha preta.
– Meu Deus! Você nunca parece estar vestido!
- Você também está seminua, sabia Serena? – ele indicou com o queixo o look improvisado dela, composto somente da blusa dele. Ela revirou os olhos. Bruno abriu uma porta ao lado da do banheiro, Serena foi atrás dele. – O que foi?
- Eu dormi aqui?
- Sim. – ele respondeu, abrindo uma gaveta cheia de blusas dobradas.
- Por quê?
- Não sei. Eu também gostaria de saber. Você não disse que iria dormir no seu quarto?
- É. Mas quando eu ia sair... – Ela ia explicando o fato de que não queria topar com alguém no corredor estando seminua. Porém, de que ia adiantar ficar remoendo o passado se já tinha dormido ali? Outra coisa era mais importante. – Onde você dormiu?
Ele apontou para a poltrona que ela havia adormecido ontem. Serena suspirou, sentindo-se culpada.
- Por que não me acordou?
- Eu tentei. - ele pegou uma blusa verde neon com o brasão flamenguista, e se virou pra ela. – Olha Serena, não se preocupe. O que aconteceu ontem passou, hoje teremos um dia cheio.
- Sim... – concordou, ainda incomodada. De repente, o pensamento dela voltou para o ex. - Ahn... você ficou sabendo algo de H-hector?
- Não, e nem quero saber. – ele enfiou a blusa pela cabeça.
- Só queria saber se ele... você sabe... já voltou para o Sul.
- Ah, ele não foi. – Bruno respondeu com convicção.
- Como você pode saber disso?
- Porque eu também não iria.
- C-como assim? - dobrou os braços na frente dos seios.
- Serena, estamos atrasados, ok? - ele mudou de assunto.
- Tudo bem, eu te perguntou mais tarde.
- Não. – Bruno sentenciou, pegando um short de moletom preto da gaveta ao lado. – Não tem que perguntar nada daquele cara.
Serena se irritou e deu dois passos em sua direção.
- Eu tenho o dire...
Bruno deixou a toalha cair de sua cintura. Serena gemeu de irritação e rapidamente virou de costas.
- Sei que tem o direito de saber. – Bruno continuo a dizer, como se não acabasse de fazer algo ultrajante. – Mas acredito que tenha outras coisas para se preocupar.
Bruno passou por ela vestido. Serena continuou em seu encalço. Ele parou do lado da cômoda para pegar e colocar o celular no bolso.
- Você consegue se arrumar em meia hora? - ele perguntou.
- Sim.
- Tudo bem então, daqui a pouco você me encontra na cozinha para a gente tomar café e...
- Bruno, você tem certeza?
Ele chegou mais perto, encarando firme os olhos dela.
- Eu poderia dizer que sim, mas acho que só vai acreditar quando estivermos juntos no mesmo enquadramento das fotos. Então, por que você não espera pra ver?
Bruno deu um passo à frente, a encurralando na parede. Serena piscou, engolindo em seco. Incapaz de se mover, ela apenas respirou, observando-o esticar o braço e pegar a chave, pendurada no cabideiro ao lado.
Ele soltou uma lufada de ar, ciente do desconforto dela pela proximidade dele.
- Eu acho melhor eu ir... – Serena ia falando, se desvencilhando da presença masculina que estava amolecendo as suas pernas.
- Serena?
Ela ergueu os olhos, temerosa com a faísca que o contato visual podia provocar. Bruno pendeu a cabeça, analisando a reação dela.
- Eu vou com você.
Serena franziu o cenho.
- Onde?
- Na consulta com a obstetra.
Os olhos dela se arregalaram levemente.
- Não precisa ir. Eu vou sozinha. – disse rápido demais.
Bruno se afastou, abrindo a porta do quarto.
- Eu vou. – deu o ultimato, seguindo pelo longo corredor em direção a cozinha.
Serena soltou um arquejo, irritada pela arrogância dele. Quem ele pensava que era? Ela saiu do quarto, apressando o passo para segurar o antebraço tatuado dele.
Em uma reação rápida, ele a girou, colocando-a a sua frente enquanto a segurava pelos ombros. Os rostos ficaram a centímetros de distância. Serena mordeu os lábios, contendo o gritinho que quase irrompeu de si.
Os olhos negros dele eram de um ônix impressionante, e a encaravam como se fosse a única coisa que existisse no mundo. Serena sentiu a pele do rosto corar.
A atenção de Bruno escorregou para os lábios dela. Serena tentou falar algo, qualquer coisa. Mas seus lábios ficaram entreabertos, respirando sofregamente.
- O que foi, Serena?
- Pare de fazer isso.
- O que eu estou fazendo? – ele indagou novamente, o peso do olhar caindo sobre ela. Tudo, queria responder. Porém, a única coisa que fez, foi fechar os olhos e suspirar fundo pra recobrar a compostura. – Seus hormônios estão à flor da pele.
- Não estão! E mesmo que estivesse, como você poderia saber disso?! – ela torceu o nariz.
- Eu sinto a sua excitação.
- Ai meu Deus...que conversa estranha. – se desvencilhou dele.
- Não está? – ele exigiu saber.
- Por que eu deveria responder suas perguntas quando você não responde as minhas?! – devolveu, recordando-se que ele não quisera responder as indagações acerca de Hector.
- Eu vou com você, Serena. Sabe por quê? Minha mãe não pode te acompanhar e seu ex está por aí.Não acho que ele tenha desistido de perturbar você. - Bruno girou no calcanhar, continuando a andar pelo longo corredor.
Bufou resignada, prosseguindo a trajetória pelo corredor até o seu quarto, que se situava no lado oposto da casa.
Ela tomou um banho rápido e se vestiu, reencontrando Bruno na cozinha. Silvana limpava o fogão, cantarolando uma música desconhecida.
- Bom dia, menina!
- Bom dia, Silvana. – Serena se sentou na banqueta ao lado de Bruno, que lhe repassou um copo grande com um líquido laranja, que parecia guardar uma estrutura quase leitosa.– O que é isso?
- Suco de Laranja.
Ela uniu as sobrancelhas.
- Só isso?
- Cenoura, suplemente vitamínico e...
- Inhame! – Silvana completou com um sorriso.
- Só vamos embora depois que você beber. – Bruno determinou, bebendo naturalmente o copo dele que estava com o mesmo suco. Serena fez uma careta, imaginando o gosto terrível.
- Bruno... – suplicou, meneando a cabeça.
- Não, não, mocinha. – Era Silvana. – Izabel me falou das suas recomendações médicas, e comer sovertes não é cumpri-las adequadamente.
Bruno olhou pra Silvana surpreso.
- Nossa, Vana! Agora você falou que nem a minha mãe.
A mulher riu, afagando os cabelos molhados de Bruno. Serena ignorou o gesto carinhoso, perturbada pelo copo dos terrores à frente.
Não que ela fosse uma pessoa viciada em comer besteira, pelo menos não sempre. Ok, tá legal. Era isso mesmo.
Era bem mais fácil quando tinha alguém que equilibrasse sua alimentação sem que tivesse que se render a um cardápio de couves, sucos verdes e orgânicos.
Tinha sido abençoada com uma magreza genética, igual a mãe. Mas aqueles sucos lhe lembravam da terrível infância ao lado da tia, viciada na vida natureba dos pampas gaúchos.
- Não está ruim. – a voz de Bruno a despertou dos devaneios. – Silvana tempera com mel. Prove.
Serena levou o copo à boca, fechando os olhos com força para o gosto... a expressão dela se clareou.
- Não está ruim. – repetiu. Também não estava bom, é óbvio. Mas só o fato de não estar ruim já a fazia ganhar metade do dia.
Bruno sorriu.
(...)
A voz de Jack Johnson cantava a música Upside Down, tornando mais leve o clima dentro do carro. Bruno tamborilava os dedos no volante, toda a atenção voltada para o trânsito carioca. Serena era uma caixa de nervos.
Sempre se sentia um pouco nervosa antes das sessões de fotos. Era a mesma apreensão sentida pré-desfile: as pernas viraram duas britadeiras, as mãos tremiam e suavam, e o coração chegava a palpitar. Porém no fim, tudo dava certo.
Então por que a angústia agora era diferente?
Ela olhou Bruno de soslaio, observando-o franzir o cenho para uma moto que arrancou rente ao carro.
- Por que está me encarando? - Ele perguntou. Serena desviou os olhos.
- Não estava.
- Aham. – Ele relevou, se virando pra ela quando parou no semáforo. – Está nervosa?
- Sim. – mordeu os lábios.
- Eu também.
Dessa vez foi ela quem se virou pra ele.
- Sério?
- Sim. Nunca consegui relaxar em sessões de fotos.
- Por quê?
Ele pendeu a cabeça, voltando a atenção para o trânsito.
- Me lembra de coisas que não gosto de recordar. Mas Henrique sempre conseguia mudar isso.
A mente dela voltou ao dia que conheceu o pai do filho. Detrás das câmeras, Henrique brincava a cada clique, a elogia, ria. Tornava o trabalho quase que uma brincadeira.
No final, as fotos saiam espontâneas e ainda assim profissionais. O diretor da agência o amava. Tirar fotos com técnica qualquer um tira, mas conseguir encontrar as nuances únicas e ângulos inéditos de um pessoa...poucos são capazes.
- Vocês realmente eram unidos... – ela constatou, ciente da tristeza que perpassava o semblante dele a cada lembrança do irmão.
- Éramos duas metades da mesma moeda.
A frase de Bruno a mergulhou em perguntas, porém, antes que pudesse expô-las, ele estacionou em frente à um grande prédio espelhado.
- Eu preciso ir até o centro de treinamento para um exame rápido. Enquanto isso, você fica aqui e conhece a equipe.
Sozinha? A pergunta brotou na mente.
Uma ansiedade misturada à medo se embrenhou dentro dela. Serena balançou a cabeça, se forçando a seguir em frente.
- Tudo bem. – abriu a porta do carro, pronta pra sair.
- Serena?
Ela o olhou por cima do ombro.
- Quando você menos perceber, já estarei de volta. – o canto da boca dele se ergueu brevemente. – Você consegue.
- Nós conseguiremos. – ela devolveu com um sorriso nos lábios. Bruno assentiu sem jeito.
Serena o deixou, observando o carro partir. Depois, girou nos calcanhares e subiu o prédio.
Da recepção até o andar que aconteceria a sessão de fotos, ela foi parabenizada e ovacionada. As pessoas a paravam para suplicar por autógrafos, abraços e selfies.
- aaaah! – Munique veio correndo na direção dela, a apertando em um abraço. – Estou tão feliz que você está aqui! Ué, cadê o Bruno?!
- Ele já vem. – Serena comentou, sendo cutucada por mais uma pessoa. Ela se virou na direção do cutucão. – Michele!
Michele sorriu largamente, a abraçando forte.
- Como você está?
- Bem...
- Na medida do possível, né. – Michele completou. Serena assentiu. – Tudo bem, vamos falar de coisas boas agora...
Michele a puxou pela mão, conduzindo-a por numerosos corredores e salas. A colega revelou que ajudava a irmã como uma espécie de empresária, estando presente em cada trabalho de Munique, que saltitava ao lado, gritando para todos os lados que Serena Condenço estava ali.
A colega explicou o que aconteceu com Hector, dizendo que o ex estava bem, ainda que estivesse muito enraivecido e machucado. (Bem feito!) Lhe apresentou a equipe, que se mostrou muito bem humorada e receptiva. A levou para o camarim, onde trocaria de roupas, e...
Serena piscou.
- Eu vou ter que vestir isso? – Ela ergueu o cabide com duas peças íntimas. Um sutiã e uma calcinha de renda, com direito a cinta liga.
- Sim. Munique não lhe falou?! É para uma campanha de dia das Mães da Intimisse, uma marca de roupas íntimas e sensuais... Ih, pela sua cara já vi que não gostou.
- Não, eu gostei, é muito lindo. Só que...
- O problema é Bruno não é? Eu percebi a tensão entre vocês na festa, se bem que Renato também entrou no meio...
- Não! É sério, não tem nada entre a gente. Estou aqui pra recomeçar de novo. É só isso.
Michele a encarou, pressionando os lábios pra segurar uma risada.
- Não precisa fingir comigo, Serena! Eu tô com o Farley, o maior galinhas de todos os tempos... Ou seja, entendo de boys complicados. - riu - Vamos fazer assim: você troca de roupa, e se não gostar, podemos ver outro modelo mais... encorpado. Pode ser?
- Claro. – anuiu. Aquela era uma proposta muito boa. Ela colocou o cabide no lugar e sorriu, se permitindo observar o camarim.
- Vou te esperar lá fora...
Serena sentiu os olhos se arregalarem.
A sua frente um grande quadro estampava uma foto com dois rostos conhecidos. Bruno e Henrique. Eles se abraçavam de lado e sorriam amplamente para o fotógrafo. As duas expressões tão felizes que quase parecia irreal.
- Michele! – a chamou de volta. A colega voltou. – Esse ao lado de Bruno é...
- Henrique!
- Eles pareciam tão unidos e felizes... – ela sentiu o coração transbordar de dor.
- Essa foto foi antes de tudo acontecer. Bruno era outro homem...Ele e Henrique eram muito parecidos e unidos em todos os sentidos. - Ela apontou pra foto, indicando que eles usavam o mesmo estilo de roupa e tinham o mesmo brilho nos olhos. - É compreensível.
- Como assim?
-Ué... - Michele a olhou confusa. - Eles são diferentes fisicamente, mas ainda continuam sendo gêmeos. Você não sabia?!
Até que enfim esse cap saiu minha gente!
Mas me diz, e você, já sabia dessa revelação? Se sim, quando notou?
Ao longo dos capítulos veremos mais esse lado fragilizado de Bruno. Entenderemos todas as nuances que podem ter auxiliado para que ele se transformasse no que é hoje.
Veremos também a relação dele e Serena se aprofundar, baseada na amizade, e muita, muita atração. (Vai ser quente, viu! hehe)
Aos poucos, nossa mocinha conseguirá adentrar essa couraça que nosso mocinho agressivo e arrogante tem. Prometo um caminho lindo, de muita redenção e renúncia. <3
Obs. ---> Me desculpem pelos erros ortográficos, fiquei chocada de encontrar muitos ao longo da leitura. Aos poucos, isso será revisado. (E não por mim! Acho que vocês já devem ter percebido que não tenho uma gota de talento pra isso kkk)
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