Capítulo 15 - Serena

Sua mãe tinha lhe ensinado que as pessoas deviam se colocar no lugar uma das outras em busca de mais empatia. Porém, até aquele momento de sua vida, esse exercício tinha funcionado pouquíssimas vezes. A verdade era que talvez ela não tivesse astúcia suficiente para entender o que poderia estar por trás das atitudes das pessoas.

Então, por ser um exercício difícil, Serena tinha se convencido em não mais tentar. Era melhor se conformar com a gentileza, pois ainda que não entendesse o que se passava com o próximo, não julgaria nem menosprezaria o seu passado.

"Sê gentil, sempre. Você não sabe o que o outro pode ter vivido." A voz doce da mãe ecoou na mente dela.

Todavia, Serena tentara as duas estratégias com Bruno: empatia e gentileza. Céus. Precisava admitir, aquele homem não era fácil.

Embora Bruno carregasse no olhar a tristeza de quem tinha um coração despedaçado, suas atitudes eram contraditórias e assertivas, como se em determinado momento perdesse o controle e depois o recuperasse novamente.

Serena suspirou, totalmente alheia ao que Michele e Sarah confabulavam entre goles de drinks. Se sentia perdida, mas protegida. Com receio, porém confiante. Características totalmente conflitantes. Talvez um indício de que o tempo passado ao lado de Bruno estava começando a afetá-la também.

- (...) Você está impactando a vida dele... -Sarah parecia ter dito para si própria. Serena retornou dos devaneios, erguendo uma das sobrancelhas.

- É claro que ela está! – Michele exclamou, como se Sarah tivesse falado algo absurdo. – Serena está esperando um filho dele. 

- Eu diria que é ele quem está me impactando... – Murmurou Serena. 

- Não é isso. – Sarah disse coçando o nariz. – Tenho certeza que se fosse a monstrinha grávida Bruno não estaria assim.

- Quem é monstrinha? – Serena indagou. Michele riu com o canudo na boca.

- A Rebeca... Não sei como ainda não a conheceu. – Michele a respondeu.

- Ah, eu a conheci sim.

- E? – Sarah perguntou interessada. Até Michele parou de bebericar para encarar Serena também.

- Ela disse que se vingaria de Bruno...

- O quê?! – Michele a cortou com um berro, a voz quase sobressaindo ao som do batuque do pagode. – Menina! Como é que você ainda não tinha contado isso pra gente?!

- Mas, por que ela faria isso? – Sarah complementou outra pergunta. Serena sentiu a face queimar.

- A-ah... Eu e Bruno estávamos discutindo, e quando ele tentou me ajudar... caímos na piscina. Só que eu não sei nadar e ele...

Certo. Estava se expressando muito mal. As duas amigas olhavam boquiaberta pra ela. Serena deu de ombros como se não fosse nada.

Mas tinha sido tudo.

Aquilo tinha significado algo pra ela. E se se concentrasse, ainda poderia sentir as mãos dele em sua cintura a segurando firme.... não. Parou imediatamente.Não iria pensar nele desta forma. 

Eles não tinham nada a ver. Não se gostavam. Mal se suportavam. E ele havia deixado claro que não gostava dela.

- Vocês se beijaram?- Michele perguntou um pouco mais perto. – Ah – soltou uma risadinha. – Eu sei que com certeza vocês se beijaram... afinal vocês tem um bebê e pessoas não fazem um bebê sem sequer se beijar, né?! O que eu quero dizer é que sei lá...

- Ela acha que vocês se parecem dois adolescentes apaixonados. – Sarah acabou com o tormento de Michele, mas começou outro. O susto de Serena foi tão grande que ela chegou a pigarrear.

- É claro que não! – soltou um pouco desesperada. – Temos uma relação um pouco estranha... Mas somos apenas amigos. Não amizade colorida... só amigos.

Estava em uma sinuca de bico. Deus do céu. Por que Bruno achara que aquela era a melhor história a se contar, mesmo? Já não sabia mais. Tudo o que sentia era desconforto e vergonha. Estava óbvio que aquela mentira estava se tornando uma grande bola de neve, prestes a enterrar os dois.

Serena só não queria que ninguém mais a perguntasse. Podia ser que Bruno conseguisse não dizer nada sobre. Mas a garganta dela queimava para contar a verdade.

Passara por tanto em pouco meses...ninguém merecia se mudar para recomeçar e entrar em outro problema. Ela esfregou as duas mãos no rosto aparentando cansaço.

- Mimi! – Alguém gritou de longe. Serena seguiu com o olhar o destinatário da voz. Passando entre alguns corpos dançantes, vinha uma mulher com os mesmos cabelos avermelhados de Michele, que levantou o braço acenando. – Caramba, mi! As roupas que ganhei desse desfile...

A mulher ruiva olhou Serena. Sua expressão era de puro espanto.

- Sim! É ela mesmo! – Michele entoou alegre. Serena franziu o cenho. De repente a mulher deu um berro, um som que quase rasgou os tímpanos dela.

-Cristo! É verdade! Eu achei que a Mi estava mentindo para eu vir... Serena! Eu sou tipo...a sua fã número 1. – ela jogou os braços por cima de Serena que riu um pouco sem graça. Aquela mulher parecia ser uma versão mais animada e alta de Michele. Com certeza irmãs. – Ai desculpa, eu nem me apresentei, meu nome é Munique.

- Prazer, Munique. – Serena balbuciou dentro do abraço. 

Aqueles poucos encontros com fãs davam um calorzinho no seu coração. Pena que não teria mais. Nunca mais.

Munique a deixou, mas continuou segurando as suas mãos.

- Mas assim... por que você esta por aqui no Rio? Eu achei que morasse no Sul... Ah, eu escutei dizer que esta grávida do Bruno... – aquela história de novo. Eles tinham que desmentir isso. Serena a observava completamente deslocada, embora Munique parecesse uma matraca prestes a explodir . – Mas você não é casada com o Hector? Meninas vocês precisam conhecer o Hector, ele é um super empresário! É influente até no mercado da moda!

- É um longa história... – Serena murmurou tentando interrompê-la.

Porque além de não querer escutar o nome de Hector nunca mais, a história a fazia parecer uma cachorra, como sua tia costumava dizer das mulheres do bairro que ficavam com outros homens enquanto casadas. Munique não se intimidou, continuou a olhando com os olhos brilhantes e maquiados em formato gatinho.

- Tudo bem! Eu terei muito tempo para longas histórias depois... Estou feliz que esteja com o Bruno!

- Eu não estou com ele. -se apressou a dizer. Mas Munique mal pareceu ter ouvido.

- Tudo que eu a peço é que você e Bruno façam uma sessão de foto com nossa agência! Tenho certeza que A.G models vai amar essa oportunidade!

- J-juntos? – Serena gaguejou.

- Claro! Poderíamos fazer algo referente ao dia das mães, sabe? Um pouco precoce já que estamos em novembro, eu sei. Mas já até imagino! – Munique espalmou a mão no ar, como se gesticulasse um sonho. – Vocês seriam o casal do ano!

- Munique, é claro que faço uma sessão com você, mas...

- Mas o quê?! Temos que aproveitar esse seu momento aqui!

- Eu estou desempregada, e como disse antes, Bruno e eu não estamos juntos.

- Quê?! Serena Condeço desempregada?! – Munique se virou para sua irmã e Sarah, ignorando a parte mais importante da fala de Serena novamente. 

Serena deu de ombros, desistindo de tentar explicar a relação dela e Bruno.

- Isso foi uma consequência da longa história. – ela tentou explicar sobre o desemprego. Sarah tocou no seu ombro em apoio. Ela tentou esboçar um sorriso de alegria, mas a única coisa que sentia era seus olhos encherem de água.

Lembrar da carreira de modelo era como ter ciência de um sonho que jamais poderia se tornar realidade.

- Tudo Bem! – Munique apertou as mãos dela com mais força. – Eu não quero nem saber o que aconteceu. Mas vamos dar uma jeito nessa sua situação! - O cenho de Serena franziu. – Eu a acompanho desde que começou nas passarelas...Você sempre me inspirou, sabe? Perder os pais tão cedo, e depois caminhar com determinação em direção aos sonhos não é pra qualquer um. Então se eu posso ajudá-la, é o que vou fazer. Vá na A.G Models com o Bruno amanhã.

Serena sentiu uma lágrima perpassar por sua bochecha, feliz e triste. Munique abriu um sorriso gigantesco. Até Michele fez biquinho segurando uma lágrima.

- Vocês são tão fofas... – Michele limpou a própria bochecha e depois abraçou a irmã em orgulho.

- Obrigada...

- Opa opa opa, não me agradeça ainda! Você ainda me deve uma sessão com o Bruno, viu?

Serena assentiu, apesar de não saber se compareceria.

Todas as amigas ficaram exultantes. Depois disso, elas engataram em uma conversa animada acerca do próximo jogo do Flamengo. Serena tentava acompanhar, mas entendia muito pouco de futebol. E era difícil prestar atenção quando seus olhos eram sempre atraídos para a multidão dançante, procurando por alguém que não devia ser procurado.

Ela suspirou e baixou o olhar. Uma mão apertou seu ombro. 

Renato piscou para ela, abrindo um largo sorriso.

- Vem comigo. - Ele pediu, estendendo uma mão. Serena assentiu, aceitando seu cumprimento. Depois de pedir licença as amigas, ela o seguiu. 

Renato entrelaçou as mãos dos dois, levando-a para um canto um pouco distante dos corpos dançantes. 

- Está resolvido. – Renato declarou afagando a bochecha dela. Serena franziu o cenho.

- O quê está resolvido?

- Bruno. Eu falei com ele. Disse que queria te conhecer.

- Por que fez isso? – ela sentiu uma irritação subir pela espinha.

- Serena, nós tivemos um passado... só quero que fique claro que o fato de eu querer conhecê-la não tem a ver com isso.

Ela balançou a cabeça negativamente. Porque mesmo se tivesse algo a ver, ela não tinha nada com isso. Não era um objeto pelo qual deviam brigar, como se fosse um osso que não queriam largar.

- Não devia ter feito isso. Bruno não é meu dono. Não tenho nada com ele.

- Não? - Ele ergueu as sobrancelhas.

- Não. – falou com um pouco mais de entonação, mas sem muita convicção. Renato sorriu, não percebendo sua hesitação.

- Ótimo... Por que não nos sentamos perto da piscina?

Ela queria. Mas mais do que isso, queria ir com calma. Não sabia muito do que passava pela cabeça dele, pois mal se conheciam. E ainda que sua voz dissesse que nada tinha a ver, sentia nas entranhas um remorso estranho, como se fizesse algo errado estando com ele.

Certamente Bruno ficaria irritado. Afinal, ele sempre estava com aquela cara de bravo, parecendo aborrecido com as coisas. Não precisava incitá-lo ainda mais.

- Tudo bem, Renato. Mas preciso deixar algo bem claro... eu quero ir com calma.

- Estamos indo com calma. Mas, por que diz isso?

- Porque ela é casada. – uma voz falou atrás dele, saindo da penumbra perto do coqueiro.

Serena não precisava olhar para saber quem era. A ânsia de vômito que subia por sua garganta já dizia tudo.

Hector.



Gente, o que me dizem desse cap? Já aviso que o prox promete. 

Continuem com Serena e Bruno <3 

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