A Mesa Negra para as Decisões
Malévola foi despertada de seu sono mórbido por uma voz que ela reconheceria mesmo sem querer, os pedidos de "mantenha os olhos abertos", "aguente firme, você não pode me deixar" suplicados com a mesma dor que ela sentia a fez olhar para trás. Fingiu não ver seu homem-corvo friamente largado ao chão, se olhasse para aquele corpo não conseguiria se manter de pé para ajudar.
"Udo." Malévola se aproximou do fada que se fechou ao redor de algo no chão, as asas brancas criando uma cúpula ao redor de quem quer que estivesse ali dentro, e ela podia suspeitar quem era.
"Ele está morrendo... Oan em exied uem roma! Ecov oan edop em raxied!" As últimas frases Udo sussurrou em sua língua materna enquanto retraia as asas para que sua rainha visse o que ele tentava proteger.
Então Malévola viu, o corpo quase sem vida largado ao chão. A primeira vez que Malek não tinha um sorriso no rosto, era perturbador. O rosto pálido de Udo estava todo avermelhado pelo choro, eram lágrimas de dor, de medo.
Malévola ainda carregava aquela imensidão de sentimentos, mas não achava justo chorar perante todos. Ela queria usar suas últimas forças para ajudar a filha quando a encontrasse, mas Malek era seu amigo e precisava de ajuda agora. Malévola se ajoelhou ao lado do fada das neves. O tórax de Malek mal subía tamanho a gravidade de seus ferimentos, tamanha a escassez de vida em seu corpo, os olhos fechados se contraíram em dor as vezes. A fada colocou a mão sobre o peito do outro, sentindo o coração fraco sob suas mãos. Deixou seus últimos esforços saírem com sua magia, estava exausta, mas não assistiria o amor de alguém morrer. Ferida a ferida se curou de forma indolor. Udo observava tudo com grande alívio em seu coração, não suportava a ideia de perder o homem que amava. Sim ele estava disposto a admitir aquilo, pois agora que vivenciou a sensação de perder Malek, desenvolver uma redoma de coragem em seu coração, a qualquer um que pudesse querer saber ele diria então, Malek era o homem de sua vida.
Outros guerreiros se juntavam no campo onde um dia havia estado a árvore dos mortos. O céu escuro retrocedía vagarosamente, mostrando que já era noite em seu lar. Os menos feridos ajudavam os mais feridos a se tratar, as ervas e pomadas para cura de Nazca estavam sendo muito requisitadas no momento. A anciã demonstrava a fraqueza atravéz dos olhos. A fada estava exausta. Malévola ignorou o corpo sem vida de Diaval enquanto auxiliava seus iguais com a ajuda de Udo, Malek ainda descansava de suas feridas recém curadas. Um certo medo estava fixo na mente da fada que pedia pela fênix que entre os corpos que retirava, não encontrasse o de Aurora, não entre os mortos!
"Olha." Um dos fadas negras que ajudava no pós batalha apontou para o céu noturno.
A espessa manta negra ainda não havia se afastado muito, mas não era suposto a lua estar assim tão grande. Nazca caminhou para mais perto da beira na montanha onde estavam, diferente dos outros que se afastavam da lua em crescimento. Malévola seguiu a anciã, era como se ela escutasse a lua chamando o seu nome. Então uma sombra de um grande par de asas se refletiu na lua, e para eles foi a coisa mais bela que tiveram visão depois da guerra e de toda podridão. Malévola, Nazca, Udo e Borra foram sugados pelo brilho quase cegante da lua que obviamente já estava muito maior do que o normal.
Em uma grande mesa de mármore escuro como carvão um banquete de frutas estava servido, pássaros e pequenas criaturas de todas as cores e tamanhos se divertiam no dia ensolarado e ameno que estava pintado ao redor. Malévola, Nazca, Udo e Borra estavam sentados a mesa vestidos em trajes formais de respeito, as asas impecáveis e brilhantes. Não disseram uma palavra, e no segundo seguinte algumas outras fadas se juntaram a eles na grande mesa, entre eles alguns dos guerreiros mortos e por incrível que pareça os familiares, herdeiros da Fênix estavam também. Perfeitos, pareciam ainda estar vivos, mesmo Malévola sabendo que eles não estavam, ainda assim tinha vontade de chorar.
"Filha." Os pais da fada se levantaram de suas cadeiras e atravessaram a mesa provando que seus corpos não eram reais. Abraçaram Malévola, e ela sentiu se sendo abraçada. Pareciam corpos reais a embalando no abraço, tinha calor, toque e ela quase podia sentir o cheiro das lágrimas da mãe.
"Eu amo vocês." Melévola enfim se permitiu chorar, nos braços tão firmes de seus pai ela estava segura. Ela sabia que estava.
Selina acariciou os cabelos compridos da sua filha enquanto ele se desfazia do penteado fechado através de sua magia, caindo em longas ondas pelas costas da filha da Fênix. Victorio sorriu abertamente olhando a cena. Todos a mesa estavam em silêncio, principalmente a criatura na ponta da mesa.
Na ponta da grande mesa de mármore escuro jazia uma criatura desconhecida dos recém chegados, mas um tanto familiar para Nazca. A velha fada sabia quem era aquele que se sentava na ponta da mesa.
"Devemos começar a reunião." A voz falou amena na cabeça de cada um naquela mesa. Os pais de Malévola retornaram aos seus lugares e todos olharam o ser na ponta da mesa. "Eu sou Lumus. Sou a Lua, a magia, o vento. Eu sou a vida mais antiga na terra, a última fase da evolução dos seres terrestres. O que talvez, um dia vocês possam se tornar." Todos estavam calados naquela mesa. "Passemos ao ponto importante e o motivo desta reunião. O que aconteceu lá em baixo, foi resultado do desequilíbrio. Uma criatura esteve solta, devido a promessa de seres que escolheram o amor ao invés da lógica."
Victorio deu a mão a esposa e se levantou da cadeira onde se sentava, o metal fino e delicado dos móveis ao redor da mesa, se quer parecia capaz de aguentar o peso de uma pessoa real. De pé eles olharam nos olhos de Lumus, assumindo a responsabilidade de suas escolhas.
"Selina e Victorio. Vocês decidiram pela segunda chance de seu filho e herdeiro da Fênix, Gilic, o cruel. O resultado desta segunda chance está aqui." Um tipo de imagem se fez na mesa que se sentavam e mostrou Ulstead. O reino que seria governado pela filha de Malévola estava lavado em sangue. Pedaços de corpos e sangue escuro como lama pintavam de forma grotesca as paredes das casas, pessoas e crianças em desespero. Era doloroso de se observar. A imagem mudou, e agora mostrava Moors. O reino encantado estava em chamas, tantas criaturas mortas, Malévola reconheceu um dos homens árvores entre os mortos. As lágrimas de Malévola ainda desciam pelo seu rosto dolorido. E enfim a imagem da ilha sagrada. Sangue e fadas feridas por todos os lados, guerreiros carregando corpos com vida ou sem vida. "Hoje ele será novamente julgado e a decisão será sua filha da Fênix."
A criatura que foi trazida para o convívio daquela reunião era podre, notável a começar pelo odor que tomou a sala. Não habitando mais o corpo de seu amigo corvo, Gilic não tinha uma aparência agradável. O rosto apodrecido e cheio de furos, a pele era cor de pus amarelado, não havia cabelo ou pelos pelo corpo, haviam feridas e uma casca rachada e endurecida. Não havia pés, apenas uma coisa sem fim. Os olhos amarelos como o sol, olhavam Malévola dentro dos olhos. Os verdes da fada não transmitiam nada, mesmo que por dentro Malévola sentisse todo seu sangue gelado. Era apavorante imaginar que Diaval tivera que conviver com aquele ser, e imaginar que havia dormido ao lado daquilo.
"Eu decido que ele pague. Gilic, o cruel, pagará pelos seus crimes e todos os males causados durante todo tempo que esteve na terra preso em uma prisão na lua, até que seu espírito sucumba." Malévola declarou sem meias palavras. Não foi difícil condenar de maneira justa aquele ser, Gilic não havia inspirado o amor nela, apenas o medo e a raiva. Ela havia confiado em alguém assim a muitos anos atrás, não confiaria novamente.
Gilic gritou agudo, tentando se lançar sobre a mesa para atacar alguém, mas estava preso aquela placa de vidro, a magia de Lumus era mais forte do que qualquer uma ali.
"Assim então será feito." O último grito de Gilic sumiu em direção ao céu. Selina e Victorio estavam aliviados e tristes. Era triste ver que seu filho não tinha mais salvação, mas aliviados sabendo que ele já não poderia ferir mais nada nem ninguém. "Uma decisão firme pelas mãos de uma herdeira." Lumus ajeitou sua postura, sabendo o que ainda havia preparado para Malévola, a filha da Fênix teria que provar sua força. "Agora terás uma outra decisão a tomar." Uma caixa de vidro surgiu onde a mesa estava posta. Dentro um pequeno corvo adormecido, Malévola não precisou de nem um segundo para saber quem era aquele pássaro bobo. O coração fada errou algumas batidas de tão acelerado que se encontrava agora.
"A decisão está em suas mãos, como a muitas décadas atrás esteve nas mãos de seus antecessores. O corvo foi a casca de Gilic o cruel, por seis días inteiros. Diaval o metamorfo, canibalizou outros pássaros, desejou outras criaturas, cobiçou corpos e teve sua alma ferida e possuída diversas vezes. Dominado pela magia daquele que não possui luz. Ele pode carregar traços da alma obscura de Gilic, como também pode estar limpo de tudo e ainda de coração fechado. Não posso trazê-lo a vida e mandar ele de volta caso se arrependa da escolha. Só posso trazê-lo a vida uma vez, ou eu posso permitir que ele descanse eternamente em suas memórias mais felizes." Malévola tentou se recompor das lágrimas, essas não eram como as de antes, eram muito mais dolorosas. A segunda opção de Lumus era muito difícil de várias formas. "O trarei de volta ou ele terá a chance de descansar em sua melhores memórias?"
(...) Continua
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E aí pessoas, hora da decisão da nossa fadona.
Será que ela vai fazer como a Selina e o Victorio? Momento tenso no coração da poderosa.
A frase que o Udo fala lá em cima é isso: *Não me deixe meu amor, você não pode me deixar!*
É isso, então
Até o próximo!
❤️
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