Capítulo 2 - Moronguetá
Lacerda leva-os à distinta Peixaria Moronguetá² localizada na zona sul da cidade, que dispõe de decoração regional e deslumbrante vista para o Encontro das Águas. Quando adentram o restaurante todos ao redor lançam olhares para Lyara, devido ela estar descalça e com roupas surradas. Um garçom se aproxima dela e fala de forma desdenhosa:
— Aqui não é lugar de mendigar, não incomode os nossos clientes.
— Ela não está nos incomodando, é a nossa convidada e irá almoçar conosco. Algum problema?
— Problema nenhum, diretor Lacerda. Peço desculpas, senhorita. Fique à vontade!
O garçom se retira envergonhado. Lacerda, Lucas e Lyara sentam-se à mesa e o gerente vem atendê-los prontamente. Após fazer o pedido, Lacerda tenta descobrir mais sobre a moça que lhe fez lembrar tanto alguém do passado.
— Então Lyara... — Lacerda tenta puxar conversa.
— Os meus amigos me chamam de Lya — comenta a índia, sorrindo para Lucas.
— Muito bem, Lya, você tem quantos anos?
— Dezoito anos.
— Dezoito completos ou ainda vai fazer? É que você parece mais nova.
Lyara tira um documento de identidade do bolso da calça e mostra a Lacerda.
— Lyara Rio Negro e Solimões, nascida em primeiro de outubro — fala o empresário, lendo o documento. — Então hoje é seu aniversário — constata, surpreso. — Parabéns pelos 18 anos.
— Sério? Feliz aniversário, Lya! — disse Lucas, batendo palmas.
— Que estranho no seu documento não consta o nome da mãe, apenas do pai. Você não tem mãe? — indaga, devolvendo o documento a índia.
— Tenho sim, minha mãe é Yara³, a deusa das águas — anuncia Lyara, convicta.
Após a afirmação Lucas e Lacerda começam a rir, deixando a índia visivelmente constrangida.
— Desculpe não tive intenção de caçoar de você, pensei que fosse uma piada. Acredita mesmo ser filha de uma deusa indígena? — questiona Lacerda, contendo os risos.
— É a verdade, eu sou filha da Yara... Há alguns anos a tribo Waimiri-Atroari foi atacada por garimpeiros malvados. O pajé⁴ Yanomaká Kumã, foi o único que conseguiu escapar do ataque com vida, se escondendo em uma caverna perto do rio. Muito entristecido com a solidão e a escuridão da caverna, o pajé chorou e as lágrimas caíram num olho d'água, foi então que a deusa Yara apareceu para ele e disse que lhe daria uma filha para lhe fazer companhia e essa filha seria tão branca que ele nunca mais ficaria no escuro. Por isso eu tenho a pele clara, e os olhos cor de água são como os da minha mãe, a deusa Yara — conta Lyara, convencida da história.
Lacerda e Lucas ficam de boca aberta, atordoados com a lenda da índia. Nesse momento, o garçom traz a bandeja com o tambaqui assado e as guarnições. Os três almoçam sem pressa. Lyara conta histórias da sua infância e Lacerda toma metade de uma garrafa de uísque.
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Saindo da peixaria, Lucas está ao volante e Lacerda está sentado no banco de trás junto com Lyara. O empresário puxa assunto tentando descobrir um pouco mais sobre a vida da jovem índia de olhos verdes.
— Faz muito tempo que mora na cidade, Lya? — questiona o diretor, curioso.
— Alguns meses. Depois que o papai pajé morreu, Kanauã achou que seria uma boa ideia vir morar na cidade.
— Esse Kanauã é o quê pra você, é o seu namorado?
— O senhor diretor parece trabalhar no governo.
— Não, eu sou do ramo hoteleiro. Por que você acha que eu trabalho no governo?
— Faz muitas perguntas. Toda hora perguntas.
— Desculpe por lhe aborrecer com tantas perguntas, é que eu gostaria de lhe conhecer melhor.
— Por quê? — pergunta a índia, franzindo o cenho.
— Porque... — pigarreia, tentando pensar em uma resposta e em seguida continua: — Bem é que a minha empresa tem um projeto social de ajuda aos indígenas e como você é índia se precisar de ajuda, se precisar de qualquer coisa é só pedir pra mim.
— Desde quando o Grupo Lacerda tem projeto social, tio?
— É um projeto novo.
— A mamãe sempre quis abrir uma fundação, mas o senhor nunca deixou, falou que era um desperdício de tempo e de dinheiro fazer trabalho social.
— Eu mudei de ideia, Luquinhas. Cala a boca e presta atenção no trânsito — disse irritado.
— Eu acho importante o trabalho social. Quando eu cheguei à cidade, não tinha onde morar, nem o que comer ou vestir, aí o pessoal da ONG me ajudou. Eles me deram roupas, comida...
— Só se esqueceram de lhe dar um sapato — brinca Lucas.
— Deram sim, mas a minha sandália quebrou hoje de manhã, quando eu estava indo para o trabalho, depois eu conserto com um preguinho.
— Aproveitando que é o seu aniversário, posso lhe dar uma sandália como presente?
— Não precisa, diretor Lacerda. A sola da minha havaiana ainda tá boa é só colocar um preguinho pra segurar a alça.
— Por favor, Lya — insiste, com um sorriso simpático.
— É só uma sandália, Lya. Aceita logo! Faz parte do projeto social do tio — disse Lucas, sarcástico, contendo o riso.
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Lucas estaciona o carro em frente a uma sapataria feminina.
Os três adentram a sapataria com vendedores entojados, que ficam confusos ao ver um homem e um jovem bem vestidos e de boa aparência, acompanhados de uma moça maltrapilha e descalça.
— Bem vindos a Sapatos de Luxo. Posso ajudar, senhores?
— Pode. Precisamos de sapatos para esta moça chamada Lya, hoje é o aniversário dela — disse Lacerda, sorrindo amavelmente para a índia.
— E que tipo de sapato a mocinha vai querer? Um tênis, uma sapatilha, um salto? — pergunta a vendedora, olhando Lyara da cabeça aos pés.
— Só uma sandalinha tá bom — responde timidamente.
— Todos os tipos. O sapato que ela quiser, ela vai levar — pontua Lacerda, colocando a mão no ombro de Lyara.
— Ótimo! Vou trazer alguns modelos para experimentar. Qual é o tamanho do seu pé?
— Descubra! Esse é o seu trabalho — manifesta Lacerda, irritado com a vendedora.
— Sim, senhor. Pode deixar.
— A vendedora saiu se peidando de medo do tio — comenta Lucas, sussurrando no ouvido da nova amiga. — Vem, Lya! Vamos sentar ali.
Lucas e Lyara sentam-se no confortável sofá preto da sapataria. Lacerda vai até o carro e quando retorna traz consigo uma caixa de lenços umedecidos. O empresário ajoelha na frente de Lyara, saca alguns lenços de dentro da caixa e pergunta:
— Posso?
— Pode o quê? — questiona intrigada.
— Limpar o seu pé? Para provar os sapatos — completa o diretor, fazendo a índia encarar os pés sujos e após alguns segundos aceitar a gentileza com um aceno de cabeça.
— Lya, lembra quando eu disse que o meu tio era só um pouco estranho? Acho que agora ele alcançou o nível total de estranheza — conclui Lucas, embasbacado com a atitude do tio.
Lacerda limpa os pés sujos de Lyara. A vendedora, com ajuda de mais três auxiliares, retorna com dezenas de caixas de sapatos de todos os tipos, cores e modelos.
Lyara experimenta vários sapatos, a maioria com dificuldade por não estar acostumada com calçados fechados e muito menos saltos. Ela se agrada de cerca de seis pares, sendo cinco sandálias rasteiras e um tênis. Lyara sai da loja carregando além das sacolas, uma alegria imensa pelos presentes de aniversário.
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Anoitece. Lucas dirige até o endereço indicado, parando numa ruela escura no bairro da Matinha.
— É aqui que você mora, Lya? É meio assustador — fala Lucas, olhando a vizinhança. — Ainda bem que o carro do tio é blindado — comenta sussurrando.
— Moro mais adiante, entrando naquele beco, dobrando a esquerda, no final da ponte de madeira, é a última palafita⁵ — explica Lyara apontando.
— Parece ser perigoso. Deveria chamar o tal Cauã pra lhe acompanhar — insinua Lacerda.
— Não é Cauã, é Kanauã, significa dançarino em Tupi. Ele tem esse nome, pois não pode ouvir uma música que começa a dançar, aquele velho peludo.
— Se curte velhos peludos aproveita que o meu tio tá solteiro — disse as gargalhadas.
— Luquinhas, faz alguma coisa útil e abre a mala do carro — fala o diretor, dando uma tapa na cabeça do sobrinho.
Lacerda desembarca do veículo e retira os objetos e sacolas do porta-malas. Lyara se aproxima e segura seus pertences.
— Consegue levar tudo sozinha ou precisa de ajuda? Eu posso lhe acompanhar se quiser...
— Não precisa, diretor Lacerda, o senhor é um homem muito bom. Obrigada, esse foi o melhor aniversário da minha vida.
Num impulso, Lyara larga as sacolas de compras, caixote e tudo mais no chão e pula no pescoço de Lacerda o prendendo em um forte abraço. Lacerda retribui o abraço de forma calorosa, demonstrando carinho acaricia os cabelos dela. A índia que por um breve segundo chegou a pensar que seu gesto seria recusado e causaria repulsa, por estar molambenta, se espanta com a aceitação e troca de afeto. No entanto, o abraço acaba durando um pouco mais do que ela esperava. Chegando a atrair olhares curiosos dos vizinhos, ao ver a cena da índia esfarrapada abraçada a um homem de terno e gravata. O abraço se encerra, os olhares se encontram. Lyara espontaneamente comenta:
— Você é muito cheiroso.
As palavras lhe faltam, sem saber o que dizer ele apenas sorri. Ela recolhe seus pertences do chão e vai embora entrando num beco escuro e estreito, enquanto ele a observa com o olhar vago.
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2_Moronguetá no tupi significa falar de coisas boas, verdadeiras.
3_Pela mitologia amazônica, Yara era uma talentosa guerreira que, após se afogar no encontro entre os rios Negro e Solimões, foi transformada pelos peixes e o poder da lua cheia em uma sereia indígena. Em guarani Y-jara significa Senhora das Águas, pois Y quer dizer água e jára, senhora. É descrita com os cabelos negros, olhos esverdeados e metade do corpo de mulher e a outra metade de peixe.
4_Pajé é uma palavra de origem tupi-guarani utilizada para denominar a figura do curandeiro e intermediário espiritual de uma comunidade indígena.
5_Casa construída acima d'água, de lago ou de terreno alagado, sobre estacas fixas no fundo.
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