Capítulo 13 - Terra das Cachoeiras Parte II
Depois de cerca de três horas andando floresta adentro.
— Lya, para, por favor. Eu não aguento mais, os meus pés estão gangrenando — reclama, sentando-se num tronco caído.
— Você é um fraco, garimpeiro.
— Eu já disse pra você que não sou um garimpeiro. Eu sou um engenheiro florestal...
— Fica calado — disse a índia, cobrindo a boca dele com a mão. — Tá ouvindo? Tem alguma coisa se aproximando — comunica sussurrando.
Ela retira a mão da boca dele, quebra um galho e começa a fazer uma espécie de lança primitiva.
— Ai meu Deus! Eu não acredito que passei a vida inteira estudando pra morrer virgem e ter o meu corpo devorado por uma onça — desabafa, choramingando.
— Shi! Fique quieto, garimpeiro.
— Achei! — exclama Lucas, saindo de trás de uma árvore. — Eu pedi pra vocês me esperarem na trilha é perigoso andar no meio da floresta. A sorte de vocês é que eu tenho Curso de Sobrevivência na Selva e Rastreamento.
— É a primeira vez na vida que eu estou feliz em ver você, Luquinhas — comemora Vitório, abraçando o rapaz. — Por um minuto eu pensei que teria meu corpo dilacerado por uma onça. A Lya disse que ouviu algo se aproximando e eu definitivamente surtei.
— Eu ouvi a sua confissão, seu nerd virgem.
— Dá pra vocês dois calarem a boca? Tá chegando mais perto — fala Lyara, preparando a lança.
— Escutei um barulho também. Espera um minuto, eu tenho uma faca na minha mochila — disse Lucas, tirando a mochila das costas e abrindo para procurar o objeto.
De repente, um porco-do-mato-queixada¹⁹ avança ferozmente na direção dos dois rapazes que começam a gritar. Nesse momento, Lyara rapidamente atinge o porco com um golpe certeiro, atravessando a lança na garganta do animal selvagem que cai morto bem próximo aos pés dos rapazes.
— Achei a faca — fala Lucas boquiaberto, tirando a faca de dentro da mochila.
— Pra nossa sorte ela é mais rápida com o graveto do que você com a faca — retruca, com os olhos arregalados na caça. — Tem uma cueca limpa aí na sua mochila?
— Isso fica uma delícia assado — comenta Lyara, pegando a faca da mão de Lucas.
Com a faca em mãos Lyara começa a limpar e cortar o animal.
— Eu acho que eu vou vomitar. Deixa esse bicho aí e vamos embora — reclama Vitório.
— Uau! Você é muito boa com a faca, Lya. Se estivéssemos num Curso de Sobrevivência na Selva, ganharia uma medalha com certeza — elogia Lucas, impressionado com a habilidade dela.
— Ensinaram você a fazer uma fogueira nesse tal curso?
— Sim, Lya. Eu sei fazer fogo de cinco maneiras diferentes, apenas usando coisas da natureza.
— Então faz a fogueira pra gente assar esse porco, que eu vou me refrescar.
Lyara termina de tratar o porco e sai caminhando pela mata, acompanhada do macaco.
— Vai acender a fogueira de que maneira, Lucas? Com pedras, gravetos... — questiona Vitório, curioso.
— Com os fósforos que eu trouxe na mochila. Vem, vamos juntar madeira para a fogueira.
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Lucas e Vitório com muito esforço conseguem erguer o porco e colocá-lo em estacas sobre o fogo aceso.
— Nunca precisei fazer tanta força na vida. Acho que distendi um músculo — comenta Vitório se alongando. — Eu estava vendo a hora a Lya voltar e nos humilhar de novo, fazendo isso de um jeito rápido e simples.
— Falando em Lya. Onde ela está?
— Droga, Lucas. Você precisa implantar um chip rastreador nessa sua prima.
— LYA! LYA!
— Para de gritar. Vai que aparece outro animal selvagem, a Lya nem está aqui para nos salvar.
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Alguns metros à frente eles encontram Lyara, de biquíni, boiando de costas tranquilamente em uma água cristalina.
— Que lugar incrível! Você achou uma lagoa, Lya?
— Isso não é uma lagoa, Lucas. É um fervedouro.
— Qual é a diferença, Vitório?
— Fervedouros são nascentes de rios subterrâneos, que por não ter espaço para vazão da água, formam uma espécie de piscina natural. A pressão da água é tão intensa que você não consegue afundar nem que queira.
— Nossa você é muito nerd. Vamos aproveitar e flutuar na água — fala Lucas, se despindo.
— Vamos! Eu já quase fui morto por um porco mesmo, o que mais pode acontecer?
— Talvez apareça um candiru²⁰ e tire sua virgindade.
— Você é tão engraçado. Deveria desistir do vestibular e entrar num circo, seu palhaço.
Lucas e Vitório juntam-se a Lyara tomando banho no fervedouro recém-descoberto, parecido com um oásis de águas cristalinas, formando uma bela paisagem natural.
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Anoitece na floresta.
Os três sentados em volta da fogueira apreciam o saboroso porco assado.
— Os vegetarianos que me perdoem, mas esta carne está uma delícia. Estou me sentindo tão aventureiro, comendo carne de caça, sob o céu estrelado e a lua cheia. Lya, como se diz lua na língua tupi-guarani?
— Não existe língua tupi-guarani, garimpeiro. Existe o tupi e existe o guarani. São as mesmas raízes linguísticas, mas a língua é diferente. Eu falo apenas o tupi — explica, enquanto come.
— Quem é o burro agora, Vitório? — pergunta retoricamente, debochando do amigo. — Essa eu sei, em tupi a lua se chama Jaci. Acertei, Lya?
— Acertou, Luquinhas — Lyara levanta-se, fita a lua e continua: — Diz à lenda que Jaci era um deus namorador que escolhia as jovens índias mais bonitas da tribo e as transformava em estrelas do céu. Os velhos índios da tribo passaram a esconder as jovens índias de Jaci, proibindo-as de sair ao luar. Uma bela índia chamada Naiá desobedeceu e saiu à noite, quando ela olhou para Jaci se apaixonou perdidamente. Ela não queria mais saber de beber e nem de comer nada, só queria admirar a lua. Numa noite de lua cheia, como esta, Naiá chegou à beira do rio, viu a lua refletida no meio das águas e acreditou que Jaci havia descido do céu para se banhar ali. Então, Naiá se atirou no rio e nadou para bem longe em direção ao reflexo da lua. Quando a jovem índia percebeu que aquilo não passava de uma ilusão, tentou voltar à margem do rio, mas não conseguiu e morreu afogada. Comovido com a morte de Naiá, o deus Jaci resolveu transformar a jovem em uma estrela diferente de todas as outras: uma estrela das águas, que ficou conhecida como Vitória-Régia²¹. Por isso, as lindas flores brancas perfumadas da Vitória-Régia só abrem a noite, para admirar a lua.
— Uau! Você é uma ótima contadora de histórias — elogia Vitório, suspirando.
Latidos de cachorro são ouvidos. Lacerda, Sebastião e mais quatro homens, munidos de terçados e espingardas surgem por entre as árvores junto com cães de caça. Lacerda corre para abraçar Lyara.
— Minha filha, graças a Deus! Está tudo bem, meu amor, o papai tá aqui — Ele beija a cabeça dela e externa: — Pensei que tivesse te perdido de novo...
— Eu estou bem.
— Que bom. Estão todos bem? — pergunta, voltando-se para os rapazes recebendo acenos de cabeça como resposta. — Lucas, como se perdeu com tantas placas de sinalização na trilha?
— Não nos perdemos, tio. Só estávamos explorando a área. Tem porco assado, galera. Servidos?
Os funcionários de Lacerda sentam-se próximos ao fogo e tiram pedaços do porco para comer. Lacerda irritado chama a atenção do sobrinho.
— LUCAS, EXPLORAR? Sabe que a floresta é perigosa. Eu mandei voltar antes do pôr do sol. Estamos andando há horas à procura de vocês. A Valéria quase enfarta preocupada com o Vitório. Pensamos que tivessem feridos, perdidos ou até mortos. E eu encontro vocês aqui fazendo churrasco. VOCÊ É UM IRRESPONSÁVEL, LUCAS!
— Não briga com ele, Cael. Quem saiu da trilha fui eu. O Kanauã queria me mostrar um lugar e eu o segui.
— Lya, o Kanauã é um macaco. Ele não é o seu guia turístico. Um macaco na floresta fica apenas pulando de árvore em árvore...
— Na verdade, diretor Lacerda. O macaquinho da Lya descobriu um fervedouro há poucos metros daqui — comunica Vitório, apontando.
— É mesmo tio, encontramos um fervedouro e a gente não afunda nem se quiser. É top!
— Fervedouro aqui nessa região? — questiona, duvidando. — Sabe algo sobre isso, Sebastião?
— Sei não, diretor — responde Sebastião de boca cheia.
— Pelo amor de Deus, homem. Todos vocês parem de comer esse porco, estamos em uma Área de Preservação Permanente, a caça é proibida. E como vocês dois magrelos conseguiram capturar um animal desse porte?
— Foi a Lya, tio. O porco veio correndo violento na nossa direção, o Vitório gritou que nem uma menininha. Aí a Lya pegou um graveto. UM GRAVETO! E BANG! Acertou o bicho e ele caiu mortinho. Eu devia ter filmado, ia viralizar na internet — conta Lucas, gesticulando.
— Nem pensar em filmar algo desse tipo. Caçar nessa região é proibido. Proibido! Entenderam? Mas estou muito impressionado, Lya. E agora me mostrem o tal fervedouro.
Lucas e Vitório levam Lacerda e Sebastião ao fervedouro. Lyara e os outros homens permanecem em volta da fogueira comendo o porco.
No fervedouro. Lacerda fica encantado com a beleza da vegetação e da nascente cristalina.
— Que maravilha! Tudo bem eu perdoo vocês por terem saído da trilha, só porque descobriram uma nova atração para o meu hotel. Vai ser um grande sucesso quando inaugurarmos. Vamos expandir a trilha e construir uma ponte naquele canto pra facilitar o acesso, talvez uma rampa do outro lado. O que você acha, Sebastião?
— Sim, senhor. Dá pra fazer.
— Está muito tarde. Amanhã voltamos Sebastião, para estudar melhor o projeto.
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No hotel durante a madrugada.
Duas viaturas da polícia. O grupo de busca e os três aventureiros retornam da floresta. Valéria corre para abraçar Vitório, enquanto Alice começa a brigar com Lucas, Lyara corre para o chalé e Lacerda relata o ocorrido aos policiais.
No quarto. Lyara está sentada na cama contando sementes. O diretor bate na porta e pergunta:
— Posso entrar?
— Entra.
— O que é isso? — questiona Lacerda, sentando na cama ao lado dela.
— Sementes que eu peguei na mata. Vou fazer umas pulseirinhas.
— Ótimo! Lya, entende que foi errado sair da trilha? Você me deixou muito preocupado.
— Eu vivi na mata por anos. Por que tanto alarme por apenas algumas horas?
— Justamente por isso, Lya. Eu passei tanto tempo sem saber onde você estava e se estava viva, que agora eu quero saber o que acontece em cada minuto do seu dia e quero proteger você — fala docemente, arrumando o cabelo dela atrás da orelha.
— Eu sei me proteger sozinha. Sou uma índia guerreira.
— O porco que o diga. — Ele respira fundo e continua: — Lya, a gente precisa conversar sobre aquilo que me falou na cachoeira.
— De estar apaixonada por você?
— Isso. Eu sou seu pai. É perfeitamente compreensível que o primeiro amor de uma garota seja o pai, porém é um tipo de amor... — fala Lacerda, procurando as palavras certas. — Como eu posso explicar? Platônico, ou seja, é impossível de acontecer. Entendeu?
— Entendi. É impossível como o amor da índia Naiá pelo deus Jaci.
— Eu não sei o que isso significa, mas se você conseguiu compreender por meio de alguma analogia, tudo bem. Você deve estar cansada. Eu já vou. Boa noite! — despede-se, beijando a testa dela.
— Pode ficar mais um pouquinho aqui comigo? Só até eu pegar no sono.
— Claro! — confirma o diretor, deitando-se na cama.
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19_Porco-do-mato-queixada é um animal silvestre caracterizado pelo tamanho e valentia, pesando em média 40 quilos e chegando a medir 01 metro de comprimento.
20_Candiru é um peixe de água doce, encontrado nos rios da bacia amazônica, muito temido na região. O peixe que tem perfil de um supositório pode aprumar suas nadadeiras, ao fluxo da urina e nadar até penetrar na uretra, no ânus ou na vagina.
21_Vitória-Régia é uma planta aquática típica da região amazônica, dotada de folhas circulares enormes, que chegam a alcançar até 2,5 metros de diâmetro.
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