Capítulo 42

"Eu preciso me tratar melhor
Eu realmente posso ser tão cruel
Eu sei que eu mereço melhor
Se você pudesse ouvir o que se passa na minha mente
Eu não diria as coisas que digo para mais ninguém, 
Então por que não há problema em dizer para mim mesma?
Eu preciso me tratar melhor."
-Treat Myself
Victoria Justice

ATENÇÃO: Esse capítulo contém
gatilhos de: relato sobre
relacionamento abusivo.

Desde que vim para a casa de Jhonatan, as horas rapidamente se transformaram em dias, os dias em semanas e as semanas em um mês.

No começo eu tive muito medo de que os seus pais ficassem bravos com uma intrusa bagunçando a sua rotina, no entanto, eles provaram várias vezes que são duas pessoas maravilhosas.

Makenna fez questão de me levar quase todos os dias para treinar com ela na sua academia e confesso que estou amando a experiência.

Isso, e o fato de que conheci outras garotas que passaram por situações similares à minha. É reconfortante saber que elas estão bem, porque assim posso pensar que eu também ficarei bem.

A mãe de Jhonatan queria que eu denunciasse imediatamente depois de chegar, no entanto, eu estava com tanto medo que simplesmente não consegui.

Cada vez que ela tocava no tema, meu coração se acelerava e sentia que o ar escapava dos meus pulmões, mas mesmo assim, ela esperou pacientemente que eu me sentisse cem por cento segura do que queria fazer.

Mas agora já estou determinada a não deixar passar mais nenhum dia.

Eu sei muito bem que Roberto deve estar ciente de que os Cross estão me protegendo, mas até agora ele não deu as caras, e isso me assusta um pouco.

Beto é imprevisível e saber disso não me deixa dormir direito.

Ainda mais quando a confusão está prestes a começar.

Hoje será o dia que vai marcar a minha vida para sempre.

Hoje eu vou denunciar aquele verme e fazê-lo pagar por tudo o que ele me causou.

— Só espero que dê tudo certo... -Penso baixinho.

Escuto um farfalhar dos lençóis e dois braços me puxam para perto de si me fazendo soltar uma longa respiração.

— O que faz acordada tão cedo, amor? -Jhonatan acaricia a minha barriga por cima do pijama de algodão.

— Para ser sincera, não consegui pegar no sono. -Me viro ficando de frente para ele.

Seus olhos me analisam por um segundo antes dele balançar levemente a cabeça para cima e para baixo compreendendo o motivo da minha ansiedade.

— Vai ficar tudo bem, meus pais e eu vamos estar ali para te apoiar.

Espremo as pálpebras para conter as lágrimas e sou abraçada tão apertada que quase nos fundimos um ao outro.

Desde que cheguei aqui, Jhonny dormiu comigo todas as noites.

Ele fez questão de me garantir que seus pais não ligam, mas mesmo assim é inevitável não me sentir envergonhada quando nos reunimos.

Quero dizer, seu filho está literalmente dormindo com a namorada bem debaixo dos seus narizes, quem em sã consciência apoiaria uma coisa dessas?

Por falar em Angel e Makenna, os dois são tão bons comigo de uma maneira que jamais imaginei que fosse possível.

Eles me fizeram sentir parte da sua família, me incluíram nos seus planos e me passaram uma segurança indescritível.

Angel foi quem me convenceu a finalmente abrir o jogo na delegacia da mulher, ele me fez entender que se eu permitir que Beto continue livre por aí, eu nunca mais vou conseguir dormir tranquilamente. Que sempre andarei nas sombras, me escondendo daquele demônio, quando quem deveria estar atrás das grades é ele.

— Acho que vou tomar um banho para tentar relaxar um pouco... -Digo para mim mesma depois de alguns minutos.

Jhonny não reclama, na verdade ele me solta com cuidado para que eu afaste o edredom e me levanto indo direto para o banheiro a passos desajeitados.

Retiro a roupa em um movimento mecânico e ligo o chuveiro por alguns segundos para que a água esquente.

Enquanto isso, encosto a cabeça no box de vidro deixo rolar algumas lágrimas pela minha bochecha aproveitando que estou sozinha para que Jhonatan não perceba e fique ainda mais preocupado.

Um soluço escorrega pela minha garganta e aperto a barriga em uma tentativa de me controlar.

Droga.

Ele não vai me dominar.

Não vou mais tolerar que o medo me impeça de fazer o que é correto.

Roberto finalmente vai receber o seu merecido.

Respiro profundamente me convencendo de que vou ficar bem, de que não estou mais em perigo e que tenho pessoas que vão me proteger se for preciso.

Fico tão imersa na preocupação que nem ouço quando a porta se abre, sou puxada para trás e as mãos tatuadas sobrepõem as minhas me fazendo sentir todo o peso que carregava nos meus ombros se esvaindo lentamente.

— Vamos... -Jhonny sussurra contra o meu ouvido e me leva até debaixo do chuveiro sem dizer mais nada.

Ficamos encharcados em questão de minutos e quando o meu cabelo está completamente ensopado, ele pega o vidro de shampoo e despeja uma boa quantidade do líquido viscoso nas mãos antes de levá-las até a minha cabeça e massagear o meu couro cabeludo como de costume.

Ele repete o mesmo processo com o condicionador e quando termina, pega a esponja enchendo-a de sabonete, franzindo o cenho em concentração.

— Sabe que não precisa fazer isso sempre, não é mesmo? -Espalmo seu peitoral musculoso deslizando as pontas dos dedos pelas tatuagens que brilham com o reflexo da água.

— E perder a chance de tocar esse seu corpo maravilhoso? -Ele rebate com seriedade e abro um enorme sorriso.

Esse garoto definitivamente sabe o que faz.

— Você é único, Jhonatan Cross. -Sussurro ao mesmo tempo em que enlaço sua cintura e ficamos debaixo do jato de água quente por alguns minutos. — Te amo. -Completo levantando a cabeça e encarando seus olhos castanhos que me devolvem um olhar carregado com aquele brilho que aprendi a reconhecer depois de vários dias juntos.

— Eu também te amo, meu amor. Eu também te amo.

Desse jeito fica difícil conter o sorriso involuntário. Cada vez que Jhonatan diz que me ama, é como se cada rachadura do meu coração se fechasse me levando a acreditar que algum dia ele estará inteiro novamente.

Retiramos todos os vestígios de sabonete dos nossos corpos em um silêncio confortável e depois nos secamos completamente acostumados com essa rotina maluca para duas pessoas que se conhecem a tão pouco tempo.

É incrível o fato de que ele me acolheu sem nem pensar duas vezes, que mesmo sabendo do meu passado sombrio, de que literalmente tenho um psicopata na minha cola, Jhonatan não soltou a minha mão.

Ele me apoiou incondicionalmente e serei sempre agradecida por isso, mesmo que não estejamos mais juntos em um futuro.

Jhonatan Cross sempre será o meu primeiro amor.

Seus olhos atentos me perseguem enquanto passo creme nas pernas, braços e rosto.

Um sorrisinho se forma nos meus lábios ao perceber o quão afetado ele fica ao me ver fazendo algo tão simples.

Me aproximo da poltrona onde ele está sentado apenas com a toalha enrolada na cintura e passo uma perna de cada lado das suas sentindo sua ereção por baixo do tecido felpudo.

Desde que cheguei, quase não transamos e isso foi uma escolha minha.

— Seus pais já foram trabalhar? -Indago contra a sua orelha e ele engole em seco algumas vezes antes de confirmar com um aceno rápido.

Não quero desrespeitar Angel e Kenny na sua própria casa, então sempre que as coisas esquentam entre nós dois, faço questão de me certificar de que estejamos sozinhos.

Sei que talvez esse não seja o melhor momento para transar, que estou com a cabeça cheia de paranoias e traumas, mas hoje será um dia difícil, e a única coisa que preciso agora, é de me sentir amada pelo garoto que se tornou dono de cada pedacinho do meu coração.

Jhonny não perde tempo e em questão de segundos, seus dedos estão dentro de mim, massageando meu clitóris e espalhando todo o meu líquido na medida que nos beijamos apaixonadamente.

Quando me canso da sua mão, afasto a toalha lentamente revelando-o por completo e levo o seu membro até a minha entrada, deixando que ele me penetre pouco a pouco sem parar de me olhar.

Ofego ao senti-lo dentro de mim e encosto a testa na sua enquanto movo minha pélvis para frente e para trás.

— Caralho isso é tão bom... -A voz rouca faz meu corpo inteiro se arrepiar.

Seus dedos apertam as minhas coxas ditando o ritmo que ele gosta e a fricção das nossas intimidades me faz ver estrelinhas. — Você não faz ideia de que basta apenas um olhar seu para que eu queime por inteiro, Ava. -Suspiro completamente excitada.

Oh, eu sei. E como sei.

Jhonny provoca o mesmo efeito e devo admitir que essa é a melhor coisa que possa ter me acontecido.

Quando estou com ele, meu corpo inteiro pega fogo, o desejo se transforma em algo quase palpável e meu coração atinge uma velocidade insana só de pensar no que ele pode fazer comigo e em como seus dedos são capazes de me levar até o céu em segundos.

Cavalgo em cima dele até o cansaço, minha boca fica seca rapidamente e procuro seus lábios em busca do seu sabor.

O aperto na minha perna se intensifica conforme ele vai chegando ao seu limite e sinto meu interior se contorcer de prazer.

— Estou quase lá, amor... -Engasgo com a minha própria saliva.

A resposta vem em forma de um sorrisinho safado e de repente o garoto se levanta sem sair de dentro de mim e me deita sobre a cômoda vazia me encarando com nada mais do que fogo no olhar.

Meu corpo oscila para frente e para trás com a força das suas estocadas e mordo o lábio inferior para tentar conter os gemidos que teimam em sair pela minha garganta.

Ao perceber isso, Jhonatan leva uma mão até o meu peito, seus dedos pressionando de leve o meu pescoço e me fazendo fervilhar de prazer.

— Vamos, linda, grite para mim... -Ele sussurra no meu ouvido.

E como em um passe de mágica, minha voz ecoa por todo o apartamento, palavras que nem mesmo eu compreendo, promessas carregadas de significados e lamúrias de uma garota cujo único desejo é chegar a mais um orgasmo arrebatador.

Clamo pelo seu nome, pelos seus beijos, seu toque e principalmente pelo seu coração.

Quando estou com Jhonatan, é como se um milhão de faíscas fossem detonadas dentro do meu ser, e não tenho nenhum medo de me queimar.

Quero que o seu fogo me consuma, que ele marque a minha pele e que me tome para si de uma vez por todas.

— Eu sou toda sua, Cross. -Arfo acariciando sua bochecha suada. — Eu sou sua... -Reitero sentindo os primeiros sinais do que está por vir.

E eu sou seu, Ava, desde o momento em que te vi pela primeira vez. -Ele encosta a testa na minha e nesse instante, ambos nos deixamos levar pela explosão iminente.

— Respira fundo, querida, estamos aqui com você. -Balanço a cabeça devagar para Kenny que aperta a minha mão livre enquanto Jhonny segura a outra.

Angel já está na delegacia nos esperando há alguns minutos.

Por alguma razão, ele disse que viria sozinho primeiro e não quero ficar paranoica quanto a isso. Sei que sua intenção é me ajudar, que acreditam em mim e principalmente que vão me apoiar independentemente do que aconteça, no entanto, aquele medo de ser julgada voltou com tudo, mesmo depois de eu tê-lo enterrado profundamente na minha mente.

Conforme nos aproximamos da porta, meus batimentos cardíacos aceleram e sinto um vazio na boca do estômago, ao mesmo tempo em que ele se embrulha e me contenho para não vomitar na frente de todo mundo.

Minhas pernas tremem tanto que não sei como ainda estou conseguindo andar e o desejo de fugir cresce cada vez mais.

Ao passar pela porta, Angel nos recebe com o semblante sério, o que aumenta ainda mais a minha ansiedade.

Será que não vão me receber hoje?

Deus, como gostaria que as horas passassem rápido para voltarmos para casa, para os braços do garoto que amo.

Uma loira estonteante vem ao nosso encontro e engulo em seco.

— Olá, Ava, sou a delegada Ferraz e estou encarregada de tomar a sua declaração. -Aceno sem parar de olhar para suas pernas tonificadas cobertas por uma calça rosa clarinho, combinando com uma blusa branca de mangas compridas.

Ela me recebe com um sorrisinho ameno e aponta para um corredor que nem tinha notado.

— É por ali. -Explica suavemente e caminhamos silenciosamente até parar ao lado de uma porta fechada. — Querida, geralmente nós falamos apenas com a vítima, no entanto, Angel já me explicou algo sobre a sua situação, então a escolha é sua.

Agora tudo faz sentido.

O pai de Jhonatan realmente pensou em tudo.

— Será que eles podem entrar comigo? -Peço baixinho e ela confirma com um movimento de cabeça.

Pode até parecer infantil, mas não quero me separar deles.

Os três são basicamente a razão de eu estar aqui nesse exato momento e sinto que se ficar sozinha, vou acabar desabando e não conseguirei dizer nada relevante.

Eles são meu alicerce em um dos piores momentos da minha vida.

A delegada coloca a mão na maçaneta e ao girá-la, revela uma pequena salinha com uma mesa, algumas cadeiras e uma câmera posicionada estrategicamente em cima de um tripé.

Encaro o aparato com os olhos arregalados imaginando vários cenários e em todos eles, o meu rosto estampado em alguma capa de jornal.

"Filha de magnatas acusa ex-namorado de abuso e é desestimada por falta de provas."

— Só vamos gravar a sua voz, querida, não precisa se preocupar. -A mulher afirma chamando a minha atenção e solto um suspiro aliviado.

— O-ok.

— Muito bem. -Ela retira um pequeno gravador de mão e o coloca em cima da mesa depois de apertar o botão para iniciar a gravação. — Delegada Ferraz tomando depoimento de Ava Rice contra Roberto Ferri... -ela recita um texto de maneira robótica enquanto todos esperamos em um silêncio ensurdecedor.

Jhonny que ocupou a cadeira ao meu lado, segura minha mão sem me soltar e agradeço-o por alguns segundos com o olhar.

— Quando estiver confortável, pode iniciar. -Sinto um aperto de leve nos dedos e puxo uma longa respiração para reunir toda a coragem que me resta antes de falar.

— Você consegue, Ava. -Jhonny sussurra no meu ouvido.

Eu consigo.

— Roberto e eu éramos namorados. -Começo com a voz trêmula. — Nos conhecemos da vida toda, nossos pais são amigos. Eu e ele sempre estivemos juntos, brincávamos quase todos os dias e ele me tratava bem. Na adolescência começamos a namorar e com o passar dos meses, sua atitude mudou completamente.

Qualquer coisa era motivo de discussões, ele me diminuía, e-ele me obrigava a fazer coisas quando eu não estava afim. -Jhonatan aperta a mandíbula com tanta força que consigo até escutar seus dentes rangendo.

— Que tipo de coisas ele te obrigava a fazer, Ava? -A delegada pergunta em um tom neutro.

— Hã... ele... ele me coagia a transar sem camisinha mesmo depois de eu lhe dizer que não queria. Segundo suas próprias palavras, eu lhe devia esse favor. -Sussurro completamente envergonhada.

— Ele chegou a te bater alguma vez? -Balanço a cabeça para cima e para baixo sentindo minhas bochechas queimarem.

— Preciso que verbalize sua resposta para que conste nos registros, querida.

— Sim, Roberto me batia sempre que ficava nervoso, mas ele fazia questão de me machucar em lugares que não podiam ser descobertos facilmente... -Confesso com a voz trêmula.

Filho da puta. -Jhonny rosna ao meu lado provavelmente lembrando de como ele me encontrou no outro dia e é censurado com um olhar sério da mulher na minha frente.

— Eu tenho algumas fotos para provar como ele me tratava e também algumas da última vez que ele me agrediu. -Continuo ofegante. — Não vim antes porque estava com medo... -Afirmo quase em seguida.

— Tudo bem, vamos precisar delas para a denúncia. Você tem alguma prova de que realmente foi ele? -Nego com a cabeça.

— Infelizmente não. Mas tenho várias ligações e ameaças no aplicativo de mensagens...

— Isso é o suficiente para vincular ele com as agressões. Agora, preciso que continue me dizendo todos os detalhes, por favor, e o que te levou a fugir.

Respiro fundo pela décima vez.

É isso, chegou a hora.

— Tudo começou no momento em que eu não queria mais fazer caso ao que ele me submetia, quando percebeu que eu não poderia mais ser manipulada.

Roberto foi ficando cada vez mais violento, me segurava com força sempre que queria conversar ou gritava comigo ao notar que não estava escutando-o por qualquer razão. Ele me chamava de puta, vadia, inútil e mais um monte de palavras que não faço nem questão de lembrar. -O sabor amargo permeia minha boca.

— Eu aguentei tudo calada por medo de provocá-lo, de levá-lo a um extremo onde provavelmente sairia muito machucada ou até mesmo... Um dia fomos convidados a uma festa e mais uma vez, ele me obrigou a ir para mostrar a todos os seus amigos que estava com a filha dos caras mais ricos da cidade.

Passamos a noite toda andando para lá e para cá, ele conversava com seus amigos enquanto sua mão apertava a minha com tanta força que eu quase não conseguia disfarçar a dor. Mesmo assim eu sorri o tempo todo, fingi que estava tudo bem, que ele não era aquele monstro que era comigo quando estávamos sozinhos.

Sempre lhe ofereciam alguma bebida e ele tomou todas. Então quando já era tarde, eu pedi para ser levada para casa porque já não aguentava mais o cansaço físico e mental, só que Beto fez de conta que eu nem estava ali.

E quando insisti, ele gritou para quem quisesse ouvir que ainda tinha planos para mim e me arrastou para um quarto vazio onde tentou tirar a minha roupa e mais uma vez, transar comigo sem o meu consentimento. -As lágrimas escorrem pelas minhas bochechas ao lembrar de cada detalhe dessa noite e sem ligar para o que a delegada possa achar, Jhonatan segura meu rosto e limpa cada uma delas com um olhar lacrimoso.

Ele beija a minha testa com delicadeza e solto um suspiro pesado.

— E como você conseguiu se livrar do seu ataque?

— Aproveitei que ele estava bêbado e dei um chute no meio das suas pernas... para ser sincera, não faço ideia de como fui capaz de fazer isso, acho que o medo e a descarga de adrenalina me ajudaram.

— Entendo... então você fugiu para cá depois desse episódio.

— Sim. Contei tudo para a minha avó e com a ajuda da minha prima, comprei uma passagem sem que eles soubessem. -Torço a barra da blusa até que meus dedos ficam quase transparentes. — Eu pensei que ele não me encontraria, que poderia finalmente viver em paz, mas infelizmente, não foi assim. -Digo baixinho mais para mim mesma do que para ela.

— E os seus pais, como reagiram ao saber de tudo isso, ou você não contou nada para eles? -Abaixo a cabeça para não ser obrigada a ver a sua expressão.

— Eles... eles não fizeram nada para me ajudar. -Solto uma longa e entrecortada respiração. — Na verdade, eles praticamente me obrigaram a não contar para ninguém o que estava acontecendo. Achei que me protegeria, sabe? Que eles lutariam por mim... mas pelo visto, ser filha de um dos candidatos mais influentes não significa nada quando é a sua candidatura que está em jogo. -Ofego lembrando de como eles me humilharam, até mesmo me fizeram acreditar que tudo o que eu estava sofrendo era frescura.

Respondo outras perguntas de praxe e a mulher escreve algumas coisas em um caderno antes de finalizar a entrevista e desligar o gravador.

— Escuta, Ava, você fez a coisa certa ao denunciar esse cara. -Concordo temerosa. — Mas precisa saber que a partir de agora pode ser que tudo fique mais... intenso. Quando ele descobrir que está sendo buscado, vai tentar entrar em contato com você para que retire a denúncia, no entanto, preciso que seja forte, está bem? Vou dar entrada em um uma ordem de restrição, mas mesmo assim não permita que ele chegue perto e se por alguma razão ele conseguir te agredir, me ligue imediatamente. -Ela aconselha e aceno sem parar, perdida nos meus próprios pensamentos.

Se ele fizer isso outra vez, é um homem morto. -Jhonatan afirma com convicção e arregalo os olhos ao mesmo tempo em que Angel dá um tapa na sua nuca.

— Não seja idiota, filho. Lembre-se que está em uma delegacia. -Ele adverte, mas mesmo assim Jhonny parece não se abalar.

A delegada apenas sorri provavelmente entendendo que ele disse tudo isso no calor do momento.

Ou pelo menos é o que espero.

— Tudo bem, Angel. Por sorte eu já tinha parado de gravar. -Suspiro aliviada lançando um olhar censurador para o garoto ao meu lado. — Vou precisar que me envie todas as provas que tem para esse número. -Ela me entrega um cartão com os seus dados e guardo-o na minha carteira com as mãos ainda tremendo.

Terminamos com o procedimento padrão e quando sou liberada, praticamente corro para fora da sala até o estacionamento sem esperar por ninguém.

De repente é como se todo o ar fosse sugado dos meus pulmões, tudo ao meu redor começa a girar e encosto em uma das paredes, deslizando devagar até chegar no chão.

O peso nos meus ombros é tanto, que simplesmente não consegui ficar de pé.

Apoio a cabeça nas minhas pernas e meu corpo se sacode com os soluços descontrolados.

Eu consegui.

Denunciei Beto.

Eu fiz o que deveria ter feito há muito tempo.

Devo chorar por pelo menos uns cinco minutos, até que dois braços me puxam para cima e sou embalada para frente e para trás enquanto ele me abraça apertado.

— Está tudo bem, acabou... -Jhonatan sussurra no meu ouvido. — Estou tão orgulhoso de você. -seus dedos emolduram meu rosto e aperto os lábios ao ver que suas bochechas também estão cobertas de lágrimas.

— M-me desculpe, sei que não deveria estar chorando, que provavelmente já está de saco cheio disso, m-mas dessa vez eu juro que é de alívio... -Limpo suas lágrimas assim como ele fez comigo minutos atrás.

Seu olhar se endurece, no entanto, sei que essa raiva não é dirigida para mim.

— Ei, olhe para mim. -Meu queixo é levantado com delicadeza. — Chore o quanto quiser, amor, mas por favor, não peça desculpas. Você tem o direito de derramar essas lágrimas. -Ele afirma rapidamente. — E não se preocupe comigo, só estou sofrendo por dentro e furioso por ter escutado tudo aquilo. -Puxo uma longa respiração tentando controlar as batidas desenfreadas do meu coração. — Lamento tanto que tenha passado por toda essa merda... -Jhonny confessa deixando cair mais algumas lágrimas. — Não fazia a menor ideia de que ele te obrigava a... que ele... porra! -Abraço seu corpo outra vez ao notar o seu desespero. — Você não mereceu nada disso, caramba... -Meu peito se aperta ao notar o quão quebrado ele está, desde a voz embargada até o olhar perdido.

E mesmo assim, ele continua aqui me consolando, me fazendo entender que eu valho muito mais do que me fizeram acreditar.

— Obrigada por ficar do meu lado e por não desistir de mim, Jhonatan. -Agradeço sinceramente e ele balança a cabeça para os lados com veemência.

— Eu sou louco por você Ava, e cada dia que passa me apaixono ainda mais... eu penso em você a cada segundo, porra, e-eu respiro por você... -Seu olhar recai para o lugar onde nossas mãos se unem na altura dos corações acelerados. — E saber que mesmo depois de tudo o que aconteceu, você ainda está aqui disposta a lutar em busca de justiça, só me deixa mais honrado por ter sido escolhido para te amar. 

NOTA DO AUTOR

E como começamos a semana? 
Isso mesmo, com babado dos fortes hahahha
Espero que tenham gostado,
Não se esqueçam de votar e comentar!
Uma ótima semana a todos!

Amo vcs🥰
Bjinhossss BF🖤🖤🖤

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