5. Cachecol amarelo
Entrando na lavanderia, ouviu o zunido da máquina de lavar trabalhando. Acendeu a luz sem receio. Os orbes cinza focaram nas roupas espalhadas no chão e, entre elas, o cachecol amarelo do harmínion se destacou.
Elliot acordou assustado, movimentando os braços de forma brusca — cotovelos para cima e mãos prontas para empurrar o chão — caso precisasse fugir. Escondido do lado da máquina de lavar, não conseguiria ver ninguém passar pela porta, contudo sabia que havia alguém ali; a luz não se acenderia sozinha.
Então ouviu passos. Seus instintos reconheceram as passadas de Low, mesmo que nunca tivesse reparado nesse detalhe antes.
O coração bateu desordenado. Precisava fugir! Fizera algo errado e com certeza seria castigado. Moveu uma das pernas devagar, preparando para pegar impulso. Não queria que Low o visse, mas não teria escolha, precisaria contornar a máquina e ir para o corredor. Tinha de alcançar a sala de Daniel.
— Elliot? — Low perguntou, parando a meio caminho de encontrar o esconderijo do harmínion. Apesar de toda sua segurança, ele entendia como a criatura poderia ser perigosa e estava disposto a se arriscar, todavia um mínimo de precaução não faria mal, chamando Elliot ao invés de surpreendendo-o.
Elliot estremeceu. As batidas do coração aumentaram. O que aconteceria quando conseguissem pegá-lo? Ele fizera algo muito errado. Merecia a punição. Devia se entregar, porém seus instintos o impulsionavam a fugir.
E sem pensar mais, ele saltou de seu esconderijo, disparou para o corredor e entrou na sala de Daniel.
— Elliot, espere! — Low se sobressaltou com a ação abrupta do harmínion e correu atrás dele.
Avançou pela porta escancarada do laboratório de Daniel enquanto processava o barulho que vinha de lá — algo chocando-se com violência contra a parede, seguido de sons metálicos.
Bem à frente da porta, uma grade branca jogada no chão atrapalhava a entrada, o material estava retorcido em diversos pontos.
Identificando aquela como a grade para os dutos de ar, Low virou a cabeça para a esquerda, mirando o canto da sala, onde na parte superior havia um buraco grande o suficiente para uma criança entrar. Não poderia ser mais conveniente.
Precisava de Sara com urgência. Fazia anos desde que Elliot parou de se esconder nos dutos de ar, e era apenas Sara quem conseguia tirá-lo de lá. Decidiu partir de imediato para o hotel onde a garota e os outros estavam hospedados. Antes de sair, olhou de relance para os armários de vidro que guardavam frascos em suas prateleiras. Frascos que, agora, atiçavam suas suspeitas.
Caminhou rápido para fora enquanto calculava cada passo do que pretendia fazer. Quanto tempo teria até que seu tio retornasse?

Daniel mirava com atenção o ponto verde no localizador. Seus olhos arregalados eram consequências dos energéticos que tomou para se manter acordado. Precisava estar alerta para o caso de o harmínion sair da casa; se isso acontecesse, ele tomaria providências urgentes, mesmo que fossem contra a ordem de Low. Era a segurança das pessoas que estava em jogo! Low seria obrigado a concordar... Na verdade, ocultar o fato de que o harmínion estava na mansão já poderia ser considerado um crime... A situação era inesperada, quem imaginaria que Elliot ficaria daquele jeito?
Levantou a cabeça ao ouvir vozes do lado de fora do quarto. Algo incomum a essa hora da madrugada.
Estava sozinho em um quarto do hotel, enquanto Teris e Sara dormiam no quarto ao lado. Mori seguira a ordem de Low de retornar à convenção. Isso significava que existia a possibilidade de Low já estar de volta à cidade. Desconfiado, ele andou até a porta e abriu-a de supetão ao reconhecer justamente a voz do sobrinho do Dr. Crow.
Encontrou Low parado em frente à porta do quarto vizinho, que estava aberta enquanto Teris se apoiava de braços cruzados no batente. A expressão da jovem era de desdém, e Daniel nem precisava adivinhar o motivo.
— O que aconteceu? — Daniel indagou, esperando por más notícias sobre a convenção.
Low o encarou sem intenção alguma de responder, contudo também não demonstrou animosidade.
— Ele veio buscar a Sara. — O tom usado por Teris deixou evidente seu desagrado pela ideia.
Daniel ficou abismado com a insistência de Low. Se ele continuasse assim, era mais que certo que alguém acabaria se machucando.
— Já falamos sobre isso. Ela é só uma criança. Você não tem o direito de arriscar a vida dela! — Daniel não ergueu a voz, mas falou com aspereza.
A paciência de Low tentava se recuperar depois de passar por tantos testes em um curto período de tempo. Resolveu que não valeria a pena continuar uma discussão coerente com Daniel.
— Tem razão, isso cabe a ela mesma decidir — Ele respondeu com uma tranquilidade controlada, como se apontasse um fato óbvio a uma criança inconveniente.
— Tô pronta! — Sara surgiu pela porta. O rosto ainda continha resquícios de rubor, indicando que não fazia muito tempo desde que parou de chorar.
— Calminha aí. — Teris estendeu um braço, impedindo que a garota saísse. — Também não concordo nada com isso. Tá pensando em usar a Sara como isca, ou o quê? Nem sabemos o que tem de errado com o Elliot. — Falou com uma seriedade que não era nada natural para sua personalidade.
Daniel ficou aliviado tanto pelo apoio da namorada quanto por vê-la reagir após horas em transe — mesmo acreditando que seria temporário, preocupou-se com o silêncio e a expressão vidrada que ela exibira.
— Ele se escondeu nos dutos de ventilação de novo — Low informou, direcionando sua atenção especificamente a Sara. — Era sempre você quem o tirava de lá. Ele está familiarizado com esse processo, portanto irá deixá-la se aproximar.
Ele estendeu a mão para a garota. Após reafirmar sua decisão de ajudar Elliot em sua consciência, Sara afastou o braço de Teris com gentileza para liberar a passagem, no entanto não pôde alcançar Low porque Daniel empurrou o braço dele para baixo.
— Não! — Daniel exaltou. — Você não vai levá-la.
Ignorando-o, Low acenou para Sara, que correu para o seu lado. Daniel sabia que seria impossível convencer a garota, sendo assim, quem ele deveria parar era Low.
— Daniel — Teris sussurrou, temerosa.
Quando Low fez menção de virar-se com Sara, o químico chegou ao limite do quanto podia suportar esse egoísmo.
— Se você levar ela, eu vou chamar as autoridades. Eles resolverão isso, e se você não cooperar, será preso. — Daniel tentou argumentar usando a lógica, afinal essa aparentava ser a única língua que o sobrinho do doutor entendia.
Low se voltou para ele, ostentando um inconfundível sorriso em um canto dos lábios.
— Isso foi uma ameaça? Só se for uma piada. Tem que tentar mais do que isso se quiser me impressionar. — Abandonando o sorriso, ele retomou a seriedade. — E as autoridades vão resolver? Você quer dizer: vão matar o Elliot assim que o virem e problema resolvido. Quatro anos de pesquisa jogados fora porque um cientista patético tem medo de perguntar antes de agir. A culpa é muito mais nossa do que dele. — Suspirou. — O mundo inteiro vai ficar do lado da vítima, mas quem vai ficar do lado do Elliot? — Abaixou sutilmente a cabeça e mirou Daniel por cima dos óculos. — Você, eu sei que não vai; então se não for ajudar, fique fora do meu caminho, ou tiro você da frente. E isso sim é uma ameaça.
Low suavizou a expressão em um segundo, como se nada tivesse acontecido, e caminhou pelo corredor seguido por Sara. A garota olhou de relance para trás e viu um Daniel enfurecido, porém imobilizado.
Depois que os dois sumiram na esquina do corredor, Teris mordeu o lábio inferior e observou Daniel de cima a baixo; ele cerrara os olhos e agora esfregava as têmporas.
— É melhor irmos atrás deles. Vai saber o que pode acontecer com a Sara... — sugeriu Teris.
Entretanto Daniel não se moveu, respondendo somente após forçar uma engolida em seco:
— Deixa eles tentarem. — A voz saiu raspando na garganta, quase grunhida. — Eu não quero que aconteça outra tragédia, mas também não quero desistir do Elliot. Quero fazer o que é certo, mas está difícil... muito difícil. Se isso der errado, vai ficar na minha consciência pelo resto da vida. — Abriu os olhos sem pressa e encarou o carpete cinza-claro a seus pés.
No caminho até a mansão, Sara e Low cultivaram o silêncio no interior do carro. Sara não chorou mais, a determinação em sua face mostrava uma maturidade acima da inocência — resolveria o problema como uma adulta. Low, satisfeito pela atitude da garota, decidiu falar após muito pensar e repensar se realmente deveria fazê-lo.
— Quero te pedir algo. — Pausou por dois segundos. — Porque sei que você vai entender... Se quer tanto ajudar o Elliot.
Quieta, Sara firmou seu olhar no dele. Se era algo que ajudaria Elliot, ela colaboraria sem questionar.
— Mas não pode contar a ninguém, principalmente ao meu tio. — Low acrescentou em tom severo, franzindo a testa. — Apenas coopere que eu prometo que tudo ficará bem.

Low saiu do carro focado no que precisava fazer. Seu nível de preocupação aumentara após compartilhar detalhes do plano com Sara. Embora acreditasse que a garota seguiria o que ele dissesse — pelo bem de Elliot —, confiar em alguém não era exatamente confortável.
Sara, sendo sempre a boa menina, em um dia qualquer estaria péssima ao cogitar em mentir, entretanto, como Elliot dependia das mentiras, ela poderia fazer vista grossa em sua consciência da mesma forma de quando se conheceram, quando o protegeu das pessoas que passavam perto da floresta onde ele estivera preso na armadilha.
O sol ainda demoraria a nascer naquela madrugada. As únicas fontes de iluminação disponíveis eram os postes, que clareavam a rua de maneira parcial, e algumas estrelas que brilhavam no céu.
— Ele está no primeiro andar. — A voz de Low veio acompanhada por uma fumaça branca condensando na frente da boca. — Converse com ele enquanto preparo o resto. Quando puder, leve-o ao laboratório do meu tio. — Finalizou guardando o localizador.
Assim combinado, os dois subiram juntos as escadas da biblioteca, separando-se quando Sara tomou o caminho do corredor à esquerda.
Low entrou em seu quarto e, depois de pegar uma mala de viagens marrom de tom escurecido, seguiu para o quarto do harmínion, onde puxou as gavetas do guarda-roupa, coletando o tanto de vestimentas que caberiam na mala. Daquela posição, era possível ouvir Sara empenhando-se na tarefa dada a ela. Antes de sair do quarto, encarou serenamente a câmera que o observava do alto.
Desceu as escadas. A próxima parada seria na sala de Daniel, todavia fez uma pequena pausa na lavanderia ao vislumbrar de novo o cachecol amarelo no chão. Pensou por dois segundos antes de guardá-lo na mala.
No laboratório de Daniel, dirigiu-se a uma prateleira e procurou por um conhecido frasco de líquido transparente com a mesma tranquilidade com que procuraria um produto no mercado. Exercitava o autocontrole; era preciso manter a compostura e se concentrar no que estava prestes a fazer, respirar com calma e demonstrar o máximo de confiança possível, afinal lidaria com uma criança.
Levou o frasco até o laboratório do tio, onde juntou também uma seringa, algodão, esparadrapos, um bisturi e as luvas cirúrgicas brancas. Reuniu tudo em uma mesinha ao lado da maca e sentou-se na cadeira de rodinhas, trazendo-a também para perto da maca. Ali, aguardou seu paciente.

Sara continuou até chegar ao fim do corredor. Perto do chão havia uma grade branca, assim como no laboratório de Daniel. Talvez Elliot não estivesse tão perto daquele ponto, no entanto tinha ciência de que a audição incrível do amigo captaria seu chamado.
Relembrou as vezes em que isso aconteceu — e quão raras elas se tornaram com o passar dos anos. Quando Elliot se sentia envergonhado ou não sabia como reagir, tinha o costume de se esconder nos dutos de ar, contudo, conforme aprendia a conviver com as pessoas, o hábito foi trocado pelas birras infantis. Se o amigo estava nos dutos agora, significava um retrocesso, embora compreensível depois do desastre na convenção.
— Elliot! — Sara se sentou no chão e começou a chamá-lo alto, sem chegar a gritar. — Elliot! Ellizinho! — Usar a provocação de Teris poderia funcionar.
Recolheu as pernas para perto do corpo e envolveu-as com os braços. Sabia que Elliot estava próximo — ouviu-o engatinhando nos dutos —, porém, mesmo sendo chamado, ele manteve certa distância sem nada dizer; não tinha a mínima intenção de sair.
— Não foi culpa sua. Precisa sair daí ou não vamos poder te ajudar. — Tentar convencê-lo era a única opção, então ela precisaria insistir. — Elliot, por favor, se você demorar não vai dar tempo! — Lágrimas saíram, acompanhando a última apelação. — Não vamos te machucar! Se for tarde demais, não vamos poder te proteger!
Mas a nenhuma das frases ele reagiu. Tinha medo até para mover-se. Elliot confiava em Sara, estava certo de que ela não o machucaria, entretanto a vergonha o impedia de se aproximar. Além disso, a imagem de Daniel continuava amedrontando-o. Era mais do que óbvio que seria castigado, contudo, como uma criança medrosa, esperaria tirarem-no do esconderijo à força.
Sara olhou pela janela e observou a escuridão taciturna por alguns instantes. Low estabelecera o tempo: se o dia raiasse, as chances deles seriam nulas.
Soltou um soluço de desespero, de quem não sabe mais o que fazer e acha que tudo está perdido. Considerou chamar Low para ajudá-la, mas, antes de levantar, lembrou-se de como também se sentira desesperada ao conhecer Elliot — quando o encontrara em estado tão deplorável que acreditou que ele morreria.
— Quando encontrei... — Ponderou sobre contar o que sentira, para mostrar ao harmínion que mesmo aqueles dias sem esperança haviam passado, no entanto logo imaginou o que poderia atrair o amigo. — Era uma vez um harmínion que se perdeu em uma floresta escura...
Ao ouvir "era uma vez", os ouvidos de Elliot se aguçaram, rememorando a sensação jubilosa de ouvir uma história.
— Ele foi preso em uma armadilha e pensou que morreria sozinho, até ser encontrado por uma garotinha que também conhecia a solidão. A princípio, ele teve medo da estranha e rosnou, assustando ela com seus olhos vermelhos, mas isso não foi suficiente para afastá-la. Todos os dias a menina ia visitá-lo, sempre levando algo que ele pudesse comer. Ela fez o que podia, mas não conseguiu soltá-lo da armadilha. Não era a primeira vez que ela se sentia tão aflita e incapaz! Não iria conseguir sozinha. Mas ela não desistiu. Ela sabia que, se queria salvá-lo, precisaria de ajuda. Então pediu ao harmínion que confiasse na única pessoa que ela encontrou que poderia libertá-lo.
O coração de Elliot ardeu ouvindo o choro da amiga. Acabou chorando também. Os dias citados pareciam enevoados em sua memória, porém ouvir Sara despertou algumas cenas já esquecidas.
— Anos se passaram... — Sara continuou, as lágrimas escorrendo abundantes e interferindo na fala — ...e ela sofre de novo com a incapacidade, mas ela vai fazer de tudo para ajudar o harmínion. Porque ele é seu amigo. — Fechou os olhos e voltou o rosto para cima. — Elliot, por favor, vá para a sala do Daniel... e saía daí... Nós só queremos te ajudar!
O harmínion arregalou os olhos e engoliu em seco. Respirou de forma curta e rápida durante poucos segundos e depois prendeu a respiração. Sara se importava com ele; o mínimo que devia fazer era atender ao pedido dela. Disparou pelos dutos, impaciente por poder reconfortar a amiga.
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