27. Luz artificial
Tentando fugir da dor, deixou de ser quem era. Aceitou injustiças que jamais teria aceitado. Cometeu erros que nunca teria cometido. Tornou-se artificial, como as luzes de uma cidade à noite, que escondem as estrelas.
Eles nunca encontraram o hospital tão cheio quanto naquele dia. Na sala de espera, três casais de idosos estavam sentados, conversando com a atendente que abandonara sua mesa para se juntar a eles.
— Uma única dose é suficiente — disse ela. — Depois, precisaremos que permaneçam no recinto por algumas horas, apenas por precaução. Poderão ficar aqui ou, se preferirem, temos quartos disponíveis. Se estiverem com fome...
Ela parou de falar por um momento ao avistar Low e Mori adentrando o local. Acenou para eles, exibindo um sorriso que, na percepção de Mori, era propositalmente provocante, e devolveu sua atenção para as outras pessoas.
— Foi com ela que você conseguiu os equipamentos. — Mori deduziu enquanto passavam pelo corredor. — Mas agora terá que aturá-la.
— Não por muito tempo.
A jovem se preparou para atormentá-lo com seu olhar de julgamento — ou pelo menos tentar —, quando percebeu um detalhe que deveria ter reparado antes.
— Você não cobriu o pescoço! — Manteve a voz baixa apesar do tom de urgência.
— Está calor, seria muito suspeito — ele respondeu sem a menor preocupação.
— Será ainda pior se virem o corte!
Low olhou de relance para os lados e, após se certificar de que estavam sozinhos, sorriu com ironia e virou a cabeça para deixar sua nuca visível a Mori.
— Que corte?
— Você cobriu com maquiagem ou algo assim? — Ela perguntou ao constatar que o único sinal do ferimento era uma linha discreta.
— Ou algo assim. — O sorriso dele se apagou.
Ambos pararam diante da porta do quarto de Elias Crow.
— Ele deve estar muito emotivo — disse Low. — Hoje será o último dia em que poderá falar com ele; aproveite.
Abriu a porta e entrou, seguido por uma Mori incrédula.
— Espera! Low! O que você quer dizer...? — A pergunta morreu quando ela avistou Dr. Crow em pé, ao lado da janela, ainda no ato de virar-se para descobrir quem acabara de aparecer.
— Até que enfim chegaram — disse o doutor Crow, vestindo um semblante tranquilo, mesmo que a voz demonstrasse um ligeiro nervosismo. — Fiquei contando as horas o dia inteiro.
Ao ver o doutor ali, ostentando um sorriso frágil enquanto sabia o que estava por vir, Mori sentiu um forte ímpeto de chorar, entretanto segurou as lágrimas temendo piorar a situação.
— Poderia estar fazendo coisas mais produtivas do que contar as horas. — Low se acomodou na poltrona, ciente de que passaria o resto do dia ali.
— Tudo o que eu podia fazer já foi feito. Não me resta mais nada... a não ser esperar — disse o biólogo, conformado. — Quer que eu peça outra cadeira, Mori?
Antes de considerar a opção, o modo automático de Mori de não querer incomodar ninguém se precipitou em se manifestar.
— Não precisa. — Negou movimentando a cabeça também.
— Sente-se aqui, então. — O doutor se curvou para encostar a palma da mão na ponta da cama arrumada e depois retomou sua posição. — Hoje estou inquieto demais para sentar — continuou, olhando através da janela.
A jovem aceitou a oferta e se sentou. Havia uma tensão no quarto, como se cada um estivesse esperando o outro dizer alguma coisa, contudo, como ninguém se dispôs a começar, o silêncio logo dominou o ambiente. Dr. Crow apreciava a vista, enquanto Low apoiara o cotovelo no braço da poltrona e a cabeça na mão e, aparentemente, admirava entediado uma das paredes. Mori não entendia como eles podiam perder tempo assim, quando este parecia ser um luxo que não tinham; decidiu que não participaria daquela inutilidade.
— Doutor Crow — esperou o biólogo encará-la antes de continuar —, o Low disse algo sobre hoje ser o último dia que poderíamos conversar...
Não transformou a frase em uma pergunta; deixou-a pairar incompleta, porém compreendida.
Elias Crow encheu os pulmões de ar e expirou devagar, como em preparação para uma tarefa desagradável.
— É verdade. — Ele tentou evitar que a voz tremulasse. — Este é o meu último dia.
— Desculpe, mas não entendo. — Ou Mori não queria entender, pois o ímpeto de tristeza retornara, e como teria retornado se não compreendesse?
Deixando o ar escapar de novo enquanto mirava uma última vez para fora, Dr. Crow se sentou em frente à garota. Afinal, ela tinha razão. Para ele, aquele seria o último dia e, apesar de sentir o desespero apertar a boca do estômago, de nada adiantaria se desesperar.
Uma característica clássica do doutor que, felizmente — ou infelizmente — passou ao sobrinho, era a de se adaptar com facilidade às situações, ou em outras palavras, assimilar as mudanças — quase de forma tão rápida quanto aconteciam — para enfrentá-las ou se submeter a elas; naquele caso, submeter-se era a única opção porque afrontá-la seria, ironicamente, perda de tempo. Observou o lençol que cobria a cama e, em seguida, elevou as pupilas até Mori.
— Em alguns dias meus órgãos irão falhar... Não. Eles começarão a se destruir. Tudo o que foi curado pelo estimulante será revertido. — Seu olhar adotou maior seriedade. — Esse é um defeito do code que está se espalhando através das gerações. O estimulante ajuda o code a acelerar a cura e, ao mesmo tempo, o próprio code o considera um ataque ao organismo e desfaz todos os reparos... até retornar ao estado anterior a eles. Mesmo procedimentos antigos são considerados como ameaças se reposições forem utilizadas. Não há como me salvar, a não ser que eu tivesse removido meu code há meses para apagar os vestígios dele.
Esse tal defeito do code era uma informação que se desencontrava com outras informações que Mori sabia. Relembrou a conversa que ela e Low tiveram com a médica. O code é perfeito — foi o que a médica disse e também era a verdade que Mori conhecia; inclusive, Low concordou com ela. Então... ele foi sarcástico, enquanto ela imaginara que a sugestão de um defeito no code tivesse somente o intento de provocar a médica.
Se o problema era o code e a solução era removê-lo, significava que...
— Não devia contar isso a ela — Low comentou, interrompendo a formulação de perguntas que ocorria na mente da jovem.
Ele endireitara a postura relaxada na poltrona e parecia mais irritado do que o normal.
— O quão longe acha que ela irá para ajudá-lo sem saber de nada? — Crow questionou.
— O quão longe acha que ela irá, se souber de tudo? — Low devolveu.
— Maurício morreu por causa disso... — ambos se voltaram para a jovem; o ímpeto a derrubara, deixando escapar uma lágrima que ela se apressou a secar — ...por saber disso. Ele suspeitava que o problema de regeneração estava ligado ao code. Foi o que a Sílvia me contou. O governo não quer que descubram isso.
Tio e sobrinho trocaram olhares surpresos.
— Viu? Ela já sabia disso — disse Crow ao sobrinho. — Mais, ou menos, informação agora não fará diferença.
— Amanhã você pode ir embora e fingir que nada disso aconteceu — disse Low, encarando Mori.
— Ou posso ficar e te ajudar com o Elliot — ela sugeriu com determinação, em seguida se voltou para o doutor: — Dr. Crow, eu quero ajudar e entendo que existem coisas que não querem que eu saiba, mas... — de repente, sentiu-se corajosa; pensar em Maurício e Sílvia, por algum motivo, despertou nela a vontade de fazer alguma coisa — qualquer coisa — por eles e, quem sabe, assim Maurício não teria deixado a esposa e a filha em vão — ...pode apenas me responder algumas coisas? Se não quiser que eu saiba, é só dizer.
— Não tem medo de que aconteça a você o mesmo que aconteceu ao Maurício? — Low perguntou com severidade, tomando de volta a atenção dela.
— Maurício foi buscar respostas porque ele queria te ajudar — ela rebateu, sem nenhuma delicadeza, pois a pergunta a irritou. — Se confiasse mais nele, talvez ele ainda estivesse por aqui. — Observou Low virar o rosto, furioso, desconectando seus olhares, no entanto isso não a impediu de prosseguir: — E quanto a mim? Tem medo de que eu também sofra um acidente como o dele, ou nem se importa?
Ele suspirou com impaciência.
— Faça o que quiser. Não é como se eu pudesse te controlar.
Após alguns segundos carregados de tensão silenciosa, Mori se voltou para o doutor Crow com tanta ferocidade e indignação em seu movimento, que o doutor inclinou o corpo ligeiramente para trás, receando tornar-se um alvo.
— Os uncodeds... o motivo de eles existirem foi um boato sobre o code, não foi? — ela indagou com calma, relaxando aos poucos sua expressão.
— Isso é o que dizem agora. — Passado o susto, Dr. Crow também relaxou. — Os primeiros cientistas que descobriram sobre o defeito divulgaram suas pesquisas e, quando as pessoas começarem a retirar seus codes, o governo os silenciou e transformou tudo em um boato.
— É o que eu estava pensando — disse Mori. — Então, se é um problema que estão escondendo... a pesquisa do Dr. Ray...
— A experiência do Ray funciona. Tanto os órgãos quanto o sangue criados por ele se adaptam tão perfeitamente ao corpo, que o code não consegue diferenciá-los dos originais.
— Ele é seu amigo... e mesmo assim não vai ajudá-lo.
— Parece que ele ainda guarda algum ressentimento. — Dr. Crow suspirou. — Acho que eu mais atrapalhei as pesquisas dele do que ajudei.
— Mas ele quer algo do Low em troca.
O doutor não respondeu de imediato. Ao ver o sobrinho fazer um sinal de negação com a cabeça, repensou sua resposta.
— Pode-se dizer que essa pesquisa começou por causa do Low.
Ainda assim, a resposta não foi bem aceita pelo sobrinho.
— As paredes têm ouvidos. — Low conteve a ferocidade de seu tom ao falar entre dentes. Em seguida, levantou-se e abriu a porta do quarto somente para espiar os lados do corredor e voltar a fechá-la.
— Por isso que ele é paranoico assim — Dr. Crow justificou a ação desconfiada.
Low voltou a se sentar na poltrona sem se importar com o comentário. Mori, por sua vez, mesmo depois de se enfurecer com ele, sentiu uma pontada de injustiça ao escutar as palavras do doutor e, acompanhando sua intuição, teve certeza de que Low ignorara o tio porque isso já tinha acontecido vezes demais; ele esperava não ser levado a sério.
— Mas ele tem uma razão para ser assim. — A jovem visualizou Low apenas de relance. — Aliás, acho que eu também ficaria assim se descobrisse que alguém colocou um localizador em mim.
— Um localizador? — o biólogo questionou, surpreso.
— Ao que tudo indica, um presente do seu amigo — disse Low. — Agora sabemos como ele nos encontrou.
Doutor Crow observou o lençol branco da cama por um instante, digerindo a informação, até ser capaz de forçá-la em seu sistema.
— Então... o code já foi removido? — ele perguntou, olhando para os dois, um de cada vez.
— Sim — Low respondeu.
— Já — disse Mori, ao mesmo tempo que ele. — Por que isso é necessário? E por que ele tinha um localizador junto? — Inquiriu, gesticulando com as mãos; pela sua expressão, era possível discernir a falta de nexo que via naquele plano mirabolante.
— É necessário porque... — Crow suspirou e, depois de considerar quais palavras usar e descartá-las em seguida, levantou-se para mais uma vez se postar ao lado da janela. — Essa é uma questão complicada que trará ainda mais questões. Se possível, não quero que meu último dia seja tomado por elas. Mas quando souber... quando me julgar... peço que entenda que sempre fiz tudo pensando no bem da humanidade, embora isso tenha se revelado um erro. Quanto à outra pergunta... — Respirou fundo e esfregou as têmporas como se aliviasse a dor de uma enxaqueca. — O Low fez parte da pesquisa inicial do Ray, que era minha pesquisa também.
— Por que, assim como o doutor, o code dele também rejeitava o estimulante...? — Mori ligou os pontos entre a conversa deles com a médica e a reação de Low ao estimulante, considerando também o que Sílvia dissera. Então, de fato, ele serviu de cobaia para o experimento.
— Não, o motivo está relacionado à sua primeira pergunta.
E, portanto, não seria respondida, pois violava a solicitação que o doutor acabara de fazer a ela. Respeitando o pedido, a jovem não insistiu naquela pergunta e seguiu com o interrogatório.
— Mas, se a pesquisa do doutor Ray funciona, o que mais o Low poderia oferecer...
— O que resultou da pesquisa inicial — Low respondeu, o desinteresse estampado em seu semblante. — Lembra do dia em que saí do hospital? A overdose causada pelo estimulante? Eu não preciso dele para me recuperar... e a minha recuperação é muito mais rápida do que o normal...
— Por isso o corte está tão apagado! — Mori deu um tapinha na própria nuca.
— Sim.
— E é por isso que ele implantou o localizador — ela concluiu. — Se não precisa do estimulante para se curar...
Ele balançou de leve a cabeça, medindo as palavras dela.
— Não é exatamente por esse motivo, mas por hora vamos dizer que sim. — Low fechou os olhos ao respirar fundo. — É informação suficiente para você? — Os orbes cinza revelaram desânimo quando voltaram a mirar a jovem.
Ainda com a mão na nuca, ela mordeu o lábio inferior e, após alguns segundos, soprou o ar que mantinha preso por sua respiração e se tranquilizou.
— É muito mais do que eu imaginava — disse ela. — Eu... nem sei o que pensar. — Pausou por um instante antes de continuar: — Não entendi por que isso está relacionado ao Elliot. Por que o Dr. Ray o levou? Só para te chantagear?
— Porque ele esperava que o Elliot tivesse resultados idênticos aos meus — Low respondeu, e acrescentou rapidamente ao ver Mori abrindo a boca para uma nova pergunta: — Mais explicações ficam para depois. Posso falar a sós com o meu tio agora? Você pode usar esse tempo para decidir se realmente quer nos ajudar.
— Não se sinta obrigada a fazer o que pedimos — disse o doutor Crow —, mas aconselhamos a não contar a ninguém o que ouviu aqui, para sua própria segurança.
— Tudo bem. Eu... preciso mesmo pensar. — Dizendo isso, Mori saiu da sala pressionando a testa com os dedos.

Não estava prestando atenção aonde ia. Foi necessário chamarem seu nome para notar uma sala aberta a alguns passos.
— Mori! — Era a médica, saindo da sala ao vê-la.
— Ah! Olá, doutora — Mori respondeu, forçando um sorriso.
A médica, que exibia um sorriso tão frágil quanto o da jovem, encurvou as sobrancelhas.
— Sente dor de cabeça?
Ao entender o questionamento, Mori abaixou, de imediato, a mão que apertava sua testa.
— Não, só estou cansada e... frustrada. É horrível não poder fazer nada para ajudar.
A mulher assentiu com a cabeça.
— Como médica, é devastador ver um paciente morrer quando temos a tecnologia do code para nos auxiliar. Mas não perca a esperança — os olhos brilharam com determinação —, Elias Crow entrará para o programa de testes, nem que para isso tenhamos que conseguir apoio popular.
— Apoio popular?
— Como antigamente; ou quando os uncodeds se revoltaram. Tornarei o caso de Elias Crow público e o governo com certeza pressionará o doutor Owlen a aceitá-lo no programa.
Mori ficou sem reação por um instante, mas tão logo se lembrou de que a médica esperava uma resposta animadora, sorriu com mais convicção, ainda que parecesse forçada.
— Que bom. — A voz dela emitiu alívio, entretanto seus olhos arregalados denunciavam sua preocupação, embora esta também pudesse ser confundida com surpresa. — Eu vou... preciso fazer algumas coisas.
E com essa desculpa, afastou-se da médica sem reparar na reação dela, aliás, sem reparar no caminho que percorreu até sair do hospital, tão absorta estava em seus pensamentos.
A ideia da médica era maravilhosa. Um dia atrás, Mori estaria pulando de felicidade ao descobrir uma possibilidade de dar ao doutor Crow uma chance de viver, contudo agora... Não era como se essa possibilidade não a alegrasse, o problema estava no envolvimento do governo. Estava receosa. Iriam mexer com o governo e, ao mesmo tempo, com o doutor Ray — que tinha Elliot em sua posse. Depois da conversa com Sílvia — e agora levando em consideração a conversa com doutor Crow e Low —, envolver o governo parecia ser perigoso; seria perigoso. Talvez fosse melhor alertar Low, mas... e se, fazendo isso, acabasse com a única chance que o doutor Crow teria?
Pisou em falso no primeiro degrau da entrada do hospital e a sensação de quase queda bastou para que percebesse onde viera parar.
Com a impressão de que seu cérebro estava anestesiado, quase agradeceu em voz alta ao ouvir o toque do celular, que indicava o recebimento de uma nova mensagem. Qualquer coisa que ocupasse sua mente com outro assunto seria mais do que bem-vinda — foi o que pensou até ler a mensagem.
Era Daniel. E a reação que o texto lhe causou foi a de apertar o aparelho com força.
"Não queria me intrometer, mas pode me dizer o que aconteceu? Não quis perguntar pra Sara, ela parece abalada".
Gritaria de frustração se não fosse tão acostumada a preservar o silêncio. Daniel não queria se intrometer; e ela também não queria que ele se intrometesse. O que deveria dizer? Se contasse que o doutor Crow corria risco de vida, teria uma chance de Daniel aparecer por ali... e com certeza Sara retornaria com ele. De repente, o assunto se tornara muito delicado. Ela não podia mais apenas dizer o que aconteceu e pronto; agora precisava calcular cada palavra e cada passo, como se, de uma hora para outra, tivessem-na obrigado a participar de um jogo — sabia o nome do culpado e o local do crime, no entanto não podia contar a ninguém.
Sentou-se no degrau. Perguntaria ao Low e ao doutor o que poderia falar. Se fossem mentir, precisariam combinar o que diriam — quem sabe, Daniel já não teria enviado a mesma pergunta para o Low? Talvez fosse mais fácil mentir por mensagem do que por uma conversa direta... Esperava conseguir fazer ao menos isso.

— Quer ir a outro lugar? — Low ofereceu. — Aproveitar suas últimas horas? Alguma vista nostálgica que queira rever? Ou talvez tenha alguma lista de coisas a fazer antes de morrer?
Dr. Crow estava acostumado àquele tipo de provocação que vinha entoado na voz do sobrinho, e hoje, mais do que nos outros dias, encontrava-se disposto a ignorá-lo.
— Aqui está bom — respondeu, voltado para a janela de onde podia observar o céu azul mesclando-se com o vermelho do sol poente. Admirou a paisagem por um minuto antes de acrescentar: — A única vista de que sinto falta é uma que você nunca teve a chance de conhecer.
Low não questionou, a indiferença estampada na face, mesmo assim, Dr. Crow prosseguiu:
— A vista do laboratório na Amazônia. Você devia ir até lá depois que tudo isso acabar.
— Seria um bom lugar para esconder o Elliot?
— Não. Continue com o seu plano. — O doutor sacudiu a cabeça em um movimento lento. — Os biomas são monitorados e, se você aparecer lá com uma criança depois de tudo o que aconteceu na convenção, os biólogos desconfiarão que se trata de um harmínion. — Encarou Low de lado. — Mas você estará mais seguro lá do que aqui. Ray não poderá se aproximar sem levantar suspeitas. E, após cumprir seu objetivo, creio que não será mais necessário se esconder; talvez possa até pedir uma nova identidade.
— Isso seria conveniente.
— Principalmente se quiser começar uma nova vida... hum... normal... conhecer alguém... talvez se casar...
Dr. Crow parou de falar ao ver a reação de Low, que riu com desdém, expondo uma euforia discrepante de sua personalidade.
— Não esperava por essa — disse Low, os dentes revelados por um sorriso cínico. — Seu último dia... e você vai me aconselhar a ter a vida que você queria ter? Ou é a vida que queria para o seu irmão?
— Low... — Dr. Crow girou o corpo, ficando de frente para o sobrinho, e tentou interrompê-lo ao detectar a onda de raiva chegando. Aquele não era um dia para brigar.
— Eu não sou ele — Low o relembrou, com impiedosa clareza e a expressão rígida. — E você, como cientista, não deveria confundir um fato irrefutável. Eu não sou o seu "Arlow".
Parecia que Elias Crow iria dizer algo, apenas para pensar melhor em seguida e fechar a boca, apenas para mais uma vez decidir falar outra coisa.
— Eu só quero que seja feliz. Não desperdice sua vida como eu fiz. Tome cuidado, aquilo que dizem sobre poder cometer erros quando se é jovem... lembre-se de que alguns erros podem custar uma vida inteira, ou até custar outras vidas...
— É. Essa é a sua especialidade. — Ostentou um sorriso mínimo em só um canto dos lábios. Todavia, Dr. Crow não se deixou interromper.
— Por outro lado, alguns erros podem se tornar acertos. Não me arrependo de tê-lo criado.
— Mas eu me arrependo de existir. Se eu pudesse voltar no tempo, não estaria aqui hoje. Infelizmente, agora tenho pendências de mais para resolver antes de partir.
Dr. Crow sentiu uma âncora se prender ao seu coração, pesando e puxando-o para baixo. Não pôde deixar de pensar com amargura que, se tivesse fugido com Low anos atrás, não estaria confrontando aquelas palavras; ele mesmo era o culpado por aquela frase lamentável.
— Muitas vezes, é impossível discernir uma escolha entre erro ou acerto — o doutor continuou —, mas se escolher tendo em vista a felicidade, então dificilmente se arrependerá de uma decisão. Porém, antes precisa aprender a reconhecê-la. Por exemplo, a vingança, Low, não traz felicidade.
— Como eu poderia saber? — Low debochou, encenando como se a pergunta fosse séria. — Nunca provei felicidade, pode me dizer qual é o sabor?
— Eu duvido disso. — Crow sorriu como quem tem a vantagem de um segredo, prestes a soltar a sentença que acreditava ser capaz de desequilibrar o sobrinho. — Eu poderia argumentar sobre certo professor, mas em vez disso, pensei na garota que ligou para mim há alguns anos. O nome dela... acho que era... Ivy?
— O que tem ela? — Low cruzou os braços, evidenciando seu desinteresse, no entanto, para o Dr. Crow, poderia ser outra encenação.
— Enquanto esteve longe de casa, pôde experimentar uma vida diferente, não é? Até encontrou alguém com quem compartilhá-la.
— Ivy? — Ele não pareceu afetado como o biólogo esperava. — Já que é seu último dia, contarei sobre ela.
O doutor arregalou os olhos, pasmo. Low nunca permitiu que falassem sobre aquele assunto; inclusive, quase nunca mencionava sobre a época em que esteve na faculdade. Aparentemente, era uma verdade a ser contada apenas no leito de morte; esperava que essa péssima piada mórbida não brotasse na mente do sobrinho também.
— Eu queria ter acesso livre ao laboratório e, Ivy, por acaso, é filha do professor responsável por ele. Isso é tudo.
Crow estava certo de que Low distorcera a verdade somente para provar que ele estava errado. Convivera com o sobrinho durante toda a vida dele, portanto estava acostumado com as mentiras e provocações.
— Parabéns, você conseguiu fazê-la acreditar que estava apaixonado por ela. — Resolveu utilizar a mesma artimanha que o sobrinho para enfrentá-lo. — E, pelo que conversamos, ela também parecia apaixonada por você. Aliás, ela me contou como você estava tendo pesadelos e chegou até a descrevê-los para mim. Você os inventou para deixar a relação mais plausível?
De súbito, Low não pôde sustentar o olhar do doutor, abaixando a cabeça para interromper o contato visual; era possível que sua intenção fosse esconder um leve rubor, muito mais rara do que um sorriso verdadeiro.
— Ela entrou em contato com você, mesmo quando alertei que não queria que se intrometesse na minha vida ou fizesse algo sem que eu soubesse — disse Low, o tom de voz calmo, sem alterações.
— Ela só estava preocupada com você.
— Ivy... Maurício... — Voltou a encarar o tio. — Nick... Nenhum deles teve a capacidade de manter uma simples promessa... e isso inclui você também.
— Não pode controlar as pessoas, principalmente quando se importam com você. A sensação de impotência ao não saber como ajudar alguém que ama... faz com que as pessoas cruzem alguns limites para protegê-lo.
O sorriso irônico retornou à face de Low.
— Exceto você — disse ele.
Dr. Crow suspirou perante a acusação, não se isentaria da culpa.
— Sei que não tivemos muitos momentos bons... — Iniciou com cautela, planejando, uma vez mais, como pediria perdão.
— Como assim, não tivemos muitos momentos bons? — Low indagou, ironizando como se, de fato, não acreditasse na afirmação do tio. — Se lembra daquele dia? Quando precisei da sua ajuda para carregar um dos meus...
Dr. Crow mostrou a palma da mão para ele, sinalizando para que parasse, seu rosto foi desprovendo de cor aos poucos.
— Já pedi perdão... e darei minha vida por você. Não há mais nada que eu possa fazer, então, por favor... Reconheço o mal que fiz e me arrependo de tudo, mas, apenas por hoje... poderia não descontar seu ódio em mim?
Low segurou o queixo entre os dedos, pensativo, sem permitir a desconexão entre os orbes cinzentos.
— Posso considerar — respondeu, simulando a seriedade.
Doutor Crow respirou fundo e retornou para a janela. Infelizmente ele não percebera a luz do sol esvaindo-se para restar somente a iluminação artificial do quarto; nunca percebia até ser tarde demais.
— Perdeu sua última vista? — Low expôs seu discreto sorriso de canto para as costas do tio. — É uma pena.
— Não é uma pena. — Dr. Crow se virou sorrindo para ele, antes de se permitir cair na cama com os olhos fechados, deixando uma perna pendendo para fora. O sorriso foi diluindo até desaparecer e a voz ficou pesada ao continuar: — Eu costumava visitar lugares longínquos e de acesso restrito, vendo um mundo que a maioria das pessoas não pode ver... Depois daquele dia, ainda vi alguns lugares, mas... nenhuma vista conseguiu me confortar, pelo contrário, elas só serviam para me lembrar daqueles que não estavam mais comigo para apreciá-las. Então me tranquei em laboratórios, defini um objetivo e fechei os olhos para todo o resto. Assim eu bloqueei a dor. Ela se tornou... invisível. — Ergueu as pálpebras, encarou o sobrinho por um segundo e moveu as pupilas para baixo, de onde era impossível avistar o rosto dele. — Queria que você fizesse um caminho diferente.
Low não tinha uma resposta pronta para o comentário. Não queria seguir a sugestão do tio, entretanto admitir significaria confirmar um fato que lhe era detestável, um fato que sempre negou.
— Não está preocupado com a Mori? — O doutor mudou de assunto, decidido a impedir que o silêncio se instaurasse. — A partir de amanhã, ela poderá se tornar uma ameaça para você.
— Eu duvido. Se ela está disposta a esconder informações para proteger estranhos, por que me delataria? Ainda não tentei suborná-la pela informação, mas não acredito ser possível quebrar os ideais dela tão facilmente.
— E ela também pode se recusar a seguir seu plano... quando descobrir o que pretende.
O sorriso de Low se expandiu até o outro canto.
— É por isso que estou evitando contar a ela. Quanto menor o tempo para pensar, maior a chance de agir por impulso. Ela não se recusará, porque estará em pânico.
— Pobre garota. — Dr. Crow fez um aceno negativo com a cabeça, olhando para o teto. — Eu ia sugerir que, pela forma que você parece confiar nela, talvez vocês pudessem... ahn... fazer companhia um ao outro, mas depois de ouvir isso...
— Sei o que quer dizer, e é melhor nem tentar voltar a esse assunto, ou começarei a citar outros "momentos bons" que tivemos.
— Esse assunto morreu para mim. Vejo que não está apto a conviver em harmonia com outras pessoas sem supervisão. Precisa melhor nisso antes.
Low apenas rolou os olhos para cima ao detectar a tentativa de humor do tio.
Alguns segundos se passaram em silêncio, onde o tempo se arrastou devagar e, contudo, pareceu correr além do normal. A noite encobriu a vista da janela, mostrando, em meio à escuridão, luzes da cidade pontilhando um desenho geométrico, pontos alinhados com perfeição pela arquitetura dos prédios.
— Se encontrar o Nick, o que pretende fazer? — O biólogo inquiriu enquanto suas pupilas desenhavam nas órbitas ao inspecionar as luzes.
— Acha que ele está vivo? — Low não respondeu com ironia, nem se desvencilhou da pergunta, e Dr. Crow agradeceu em silêncio por ele não fugir do assunto.
— É uma possibilidade.
Movendo-se na poltrona, Low projetou o corpo para frente, chamando a atenção do tio que, por fim, encarou-o de volta.
— Cumprirei a promessa que fiz a ele. — Seus olhos, desprovidos de calor, ou melhor, congelados, não deixaram margem para nenhuma outra pergunta.

O quarto estava escuro. A única fonte de luz, que vinha de um poste na rua, era incapaz de ocupar o ambiente interno, emprestando meros resquícios de claridade através das frestas da veneziana.
Havia duas formas adormecidas no quarto. Uma estava deitada na cama com a face voltada para cima, parecendo esperar pacientemente pelo raiar do dia. A outra pusera os pés em cima da poltrona em que estava sentada, abraçara as pernas e escondera o rosto entre os joelhos; seus membros não estavam tensos como estiveram antes de dormir, ainda assim, era provável que acordaria com dores pelo corpo.
Uma terceira forma presente ali, acordada e sentada em uma segunda poltrona, observava o vulto da forma na cama. Sabia que uma mudança surgiria naquela figura, imperceptível aos olhos, entretanto óbvia para o aparelho conectado a ela. Então, pessoas entrariam apressadas pela porta, sem entender como algo acontecera tão antes do previsto. E ele — a forma acordada na poltrona — deveria fingir surpresa e infelicidade, pois isso é o que aquelas pessoas esperariam dele. Impaciente, remexeu o objeto que descansava em seu colo: óculos parecidos com os que estava usando, e que logo também seriam seus.

Um clarão afastou todos os medos e incertezas que inundavam seus pensamentos. Tivera a impressão de que estava em um hospital, mas parecia que tudo não passara de um sonho. Afinal, não deixara o laboratório nos últimos dias; e por que deveria? Aquele era seu lar.
Uma enorme janela em semicírculo — que acompanhava toda a extensão da parede — indicava a localização do laboratório na ponta de uma serra, com a visão de uma vasta floresta logo abaixo. O vidro da janela refletiu a imagem de um jovem que acabara de completar dezoito anos e tinha um futuro promissor. Todavia, não era o reflexo que o interessava, e sim o nascimento do sol no fim do horizonte, onde o verde encontrava o azul-claro.
— Você chegou!
Uma voz fina interrompeu sua rotina matinal de admirar o espetáculo do grande astro, acompanhada de um garoto que corria na direção dele.
Sorriu e, com um movimento automatizado pela repetição, ergueu o garoto no ar e despontou a rir.
Ao colocar o garoto no chão, viu um homem se aproximar, sorrindo também. Estava tudo bem. Apenas estranhara, por um momento, o que seu irmãozinho dissera. Como ele poderia chegar se já estava ali? E eram eles quem estavam vindo. Outro pensamento estranho lhe ocorreu, dizendo-lhe — não com palavras, porém com uma sensação — que aquele dia não aconteceu assim, mas era assim que deveria ter acontecido...
Foi deixando de lado aquelas ideias sem sentido conforme Arlow o puxava em direção ao pai. Era de se esperar que Arlow estivesse impaciente para que lhe fossem mostrados os animais que nasceram na semana anterior, quando estivera ausente, contudo parecia que era o irmãozinho quem queria lhe mostrar algo. Então ele cedeu e deixou que o pequenino o levasse de vez.
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