2. Quarto escuro

Ele acordou com um pesadelo, mas a parte assustadora era que, no sonho, o monstro era ele mesmo.

— Dormiu bem? — perguntou Dr. Crow.

As pupilas de Elliot se refugiaram no canto, desfazendo o contato com o doutor. Permaneceu assim por alguns segundos, em silêncio, antes de encará-lo com timidez e responder:

— Demorei um pouco pra dormir...

O doutor fez seu movimento no jogo. Há poucas semanas, ensinou as regras do xadrez a Elliot e Sara. Agora, estava jogando com Elliot na biblioteca, sentados em poltronas perto da janela, o que possibilitava ao harmínion admirar a neve lá fora.

— Por quê? — Dr. Crow indagou.

— Tava pensando na história que a Sara contou.

Dr. Crow segurou o queixo, pensativo, mais atento à conversa com o harmínion do que ao jogo.

— Qual história?

— João e Maria.

— Hum — o doutor resmungou, curioso. — E o que esses dois fizeram para te perturbar?

— Não eles. A bruxa...

— Ficou com medo da bruxa?

— Não. — Elliot balançou a cabeça. Encarou o doutor com tanto afinco que suas pupilas quase se arregalaram; Dr. Crow devolveu um olhar de intensidade idêntica. — Por que ela queria comer as crianças? Ela tinha uma casa de doce!

O doutor conteve o riso em um sorrisinho mínimo, entretanto deixou escapar um som abafado pelo nariz.

— Doces são mais gostosos? — ele perguntou.

— Sei lá. Cada um tem o seu gosto. Mas ela era sozinha.

— Como assim? — Dr. Crow procurou entender qual era a ligação entre doces e solidão que Elliot estava fazendo.

— Pra não ser sozinha, ela precisa de pessoas, mas ela come todo mundo! Se comesse os doces, não taria sozinha.

Esse ponto interessou ao doutor. A reflexão de Elliot poderia se referir a si mesmo, afinal, harmínions comiam qualquer tipo de ser vivo, inclusive humanos.

— Talvez ela não se importe de ficar sozinha. — Com esse comentário, esperava incitar Elliot a mergulhar mais fundo.

— Quê?! Ficar sozinho é horrível! — Elliot deixou transparecer o desespero e a tristeza em seu olhar antes de abaixar acabeça. — ...Eu sei como é.

— Ou ela pode ter outras amigas bruxas.

— Não pensei nisso... — o harmínion sussurrou.

O silêncio predominou e não seria Elliot a desfazê-lo.

— Sua vez. — O doutor o chamou para o jogo.

Elliot observou o vidro da janela, focando em seu reflexo. O que o diferenciava tanto dos humanos? Os olhos. Era a diferença mais evidente, embora, para ele, a diferença estivesse apenas no formato da pupila, pois todos tinham olhos de cor parecida. As orelhas também podiam ser um problema, porque eram puxadas para trás e terminavam pontudas, mas só um pouquinho. Podia esconder os dentes se mantivesse a boca fechada. Pelo menos as feições do rosto e os cabelos eram tão humanos quanto podiam ser.

Sem a menor pressa, Elliot mirou o tabuleiro. Jogara sem prestar a atenção necessária ao jogo e agora via que não existia nenhuma chance de se recuperar; a derrota era óbvia em todos os movimentos que imaginou. Ele aproximou o dedo indicador do rei e o cutucou na coroa, derrubando a peça.

Elliot era sempre escoltado pela casa por Teris, afinal, esse era o trabalho dela como babá de monstro. Então, após a partida com Dr. Crow, Teris o levou até a sala, onde esperaram por Daniel junto de Sara.

Nos últimos três dias, Elliot foi levado para fora de casa e, pela primeira vez, conheceu o bairro em que morava. Para ele, a vida seria perfeita se todos os dias fossem assim. Era o momento pelo qual tanto ansiou desde que concordou em aprender a viver como um humano.

Apesar da recente descoberta de que o harmínion podia suportar o frio, foram compradas as tais roupas-de-frio-tão-desnecessárias-pra-sair, contudo conseguiram convencê-lo a vesti-las somente com o argumento de que uma criança chamaria muita atenção andando no meio da neve vestindo uma camisa fina.

Sara, com sua mão enluvada, pegou a mão de Elliot e sorriu para ele. O amigo merecia este momento de rara liberdade.

— Estou chegando, estou chegando! — Ouviram Daniel atravessando a biblioteca para se juntar a eles.

— Tá demorando, tá demorando! — Elliot reclamou.

— Calma, Ellizinho, seja paciente — disse Teris, mal-humorada.

— Não é...! — Elliot ia discutir, mas Teris o interrompeu.

— Se rosnar pra mim de novo, vou te chamar de Ellizinho pelo resto da vida.

Ele resmungou entre dentes antes de estourar:

— Foi pesadelo! Eu não ia assustar hoje! Dessa vez...

— Prontos? — Daniel chegou, enfim.

Sara sorriu agradecida por Daniel salvá-la de uma guerra iminente.

— Por que demorou tanto? — Elliot transferiu sua indignação de Teris para Daniel.

— Alguém precisava tirar a neve antes que acumulasse nas portas.

— Posso ajudar?! — À menção da palavra neve, Elliot mudou de temperamento e abriu um sorriso esperançoso.

— Na próxima vez — Daniel respondeu, depois analisou a face do harmínion e sorriu. — Essas lentes deixam você tão... diferente. — Normal poderia ser a palavra que ele evitou utilizar.

Eram irritantes e desconfortáveis, isso sim; porém, se Elliot quisesse sair, teria de usá-las para disfarçar a cor dos olhos. De acordo com Dr. Crow, suas íris, agora, deviam estar azuis, no entanto, para o garoto, a única diferença era o tom de vermelho mais claro, além da dificuldade na visão. As coisas ficavam borradas nos cantos e, mesmo que a diferença fosse mínima, era muito irritante.

O pobre harmínion aceitaria a condição que fosse só pela chance de sair de casa. Até mesmo um cachecol ele colocou para cobrir a coleira metálica, além de um gorro para esconder as orelhas pontiagudas.

Daniel abriu a porta da sala e segurou-a para que os outros passassem. Elliot saiu de mãos dadas com Sara — era uma criança aprendendo a andar na rua — e com um sorriso que revelaria suas presas se o cachecol não ocultasse a boca.

Seguindo os menores e observando com atenção os movimentos do harmínion, Teris e Daniel também seguravam as mãos.

Enquanto os outros saíam, Low e Mori estavam no laboratório da mansão. Low mexia em uma tela holográfica cinza, acima da mesa, transferindo os arquivos que seriam transmitidos em uma tela maior que quase ocupava a extensão da parede. Essa tela maior não era holográfica, mas sim feita de vidro e, quando não utilizada, camuflava-se ao tomar a cor da parede. Mori organizava os papéis com anotações do Dr. Crow; após finalizar sua tarefa, passou a observar Low.

— Ainda acha que é uma boa ideia? — ela questionou, depois de vários minutos de incerteza sobre se deveria ou não trazer o tópico à superfície.

Low a encarou assim que ouviu a pergunta, contudo estava tão imerso em pensamentos que não se atentara ao que fora dito; levou certo tempo até que piscasse e sacudisse a cabeça para afastá-los.

— O que disse?

— Perguntei se ainda acha que isso é uma boa ideia. — Ela repetiu, vocalizando uma leve impaciência.

— Você confia no Elliot?

A jovem estranhou a pergunta. Low sempre explicava suas razões utilizando a lógica. E se ela sabia disso, por que insistiu no assunto? A verdade é que estava com medo — era pessimista e sentia que algo errado aconteceria — e, talvez, Low pudesse convencê-la. Não queria acreditar em premonição enquanto a lógica fosse palpável.

— Não é questão de confiança. Ele é um harmínion, tem instintos, é como um animal...

As sobrancelhas de Low tremeram quando ele a interrompeu:

— Seres humanos também têm instintos. Não significa que não podemos aprender a controlá-los. Esse seu argumento não é válido.

— Entendo que estamos treinando ele, mas isso também depende dele! Essa é a parte que pode dar errado! — Mori elevou um pouco a voz. Eram comuns suas discussões com Low.

— Então essa será uma ótima oportunidade para você rever os vídeos. Quem sabe não muda de ideia? — disse ele, de forma arrogante.

A campainha tocou, capturando a atenção de ambos.

— Os vídeos já estão ordenados. — Low desligou a tela da mesa e fez menção de sair do laboratório.

— Não vai ficar para a apresentação? — Mori perguntou, deixando a discussão de lado ao estranhar a situação.

Ele parou por um instante, sem olhar para ela.

— Não estou me sentindo bem. — E saiu em seguida.

O laboratório estava pronto para a visita que acabara de chegar. Foi Dr. Crow quem abriu a porta na ausência de Sara.

— Crow! Quanto tempo, hein?

Dr. Raymond Owlen tinha os olhos escondidos atrás de seus óculos escuros, o cabelo curto e alinhado com perfeição era de um loiro tão claro que parecia branco. A aparência jovem disfarçava sua idade, porém aparentava ser magro e frágil demais.

— Tempo é algo que não entendo mais! — Dr. Crow respondeu com uma diversão jovial.

— Entendo... Já chegou ao estágio em que fica difícil reter informações? E ainda nem tem a minha idade... — Raymond brincou.

— Ah, não, espero estar longe disso. — Crow esboçou um mistério no olhar. — Falo da minha pesquisa.

Os olhos turquesa do Dr. Ray faiscaram quando os óculos foram removidos. Esse não era somente um assunto de seu interesse, como também o motivo de estar ali.

— Como vai o harmínion? Você se distanciou da comunidade e não divulgou nada até agora... Nem acreditei que aceitou nosso convite — disse Dr. Ray com entusiasmo.

— Também foi uma surpresa para nós, mas podemos dar conta. Já fiz mais progresso com o harmínion do que qualquer um.

Dr. Ray adentrou a sala e guardou o casaco e os óculos no armário. Sentindo-se em casa, guiou o amigo até o laboratório enquanto ainda conversavam.

— Pretende passar a noite? — perguntou Dr. Crow.

— Não. Só vim mesmo saber sobre a pesquisa. Precisamos ter certeza de que a apresentação será segura. Esse é um caso peculiar, e obviamente você sabe, sendo o único autorizado a estudar um harmínion.

— Tive sorte em encontrar um filhote.

— E ficou egoísta também; não quis mostrá-lo nem a um velho amigo, mesmo depois de ele ter ajudado com uma tal "autorização" — disse Dr. Ray, usando um falso tom de sarcasmo.

— Surgiram algumas complicações... — Crow desviou as pupilas para o lado enquanto apertava os lábios.

— Acho que sei o nome delas.

Dr. Crow voltou a encarar Ray com seriedade e, talvez, houvesse até um ar de desafio ali, no entanto sua expressão anterior de contentamento foi logo restabelecida.

— Ah! Quase me esqueci da hospitalidade. Quer tomar algo antes de começarmos?

— Depois. Você me enrolou por quatro anos, agora chega de me deixar ansioso!

Ao entrarem no laboratório, se depararam com Mori, que estava sentada no fundo da sala, deixando duas cadeiras livres no centro e próximas à tela principal.

— Ray, esta é a Mori, minha assistente. Mori, este é o doutor Raymond.

— Muito prazer, doutor.

— O prazer é todo meu, e pode me chamar de Ray. — Ele a cumprimentou com um aperto de mão e um beijo no rosto.

Dr. Ray se sentara no lugar que lhe ofereceram, ansioso para saber sobre a pesquisa, quando decidiu indagar sobre o que estava faltando.

— E o jovem Crow? — Olhou para os lados, como se esperasse encontrá-lo em algum canto fingindo ser invisível.

— Ele disse que não está se sentindo bem — respondeu Mori.

Dr. Crow encarou a jovem por um momento, lendo o verdadeiro significado da situação.

— Então começaremos sem ele — decidiu Crow. — Mori, os papéis, por favor.

Ela entregou os papéis que organizara e, por fim, ambos se sentaram.

— Antes de tudo, o maior motivo para eu estar aqui é para averiguar a segurança. — Dr. Ray trocou a expressão risonha por uma séria. Trataria de assuntos importantes, contudo seria inviável esconder a animação brilhando em seus olhos.

Dr. Crow procurou por um papel específico e entregou a ele.

— Sobre a segurança, não há com o que se preocupar — disse o doutor. — Um calmante é o suficiente.

Raymond exibiu um olhar inquiridor.

— Pelo que sei, calmantes não funcionam em harmínions. Mesmo um tranquilizante para animais grandes não os afetaria.

— Daniel conseguiu criar um tranquilizante. — Dr. Crow sorriu, triunfante. — Com a cobaia em mãos é mais fácil desenvolver drogas que funcionem. Os detalhes estão descritos aí.

Admirado, Dr. Ray percorreu o papel com os olhos.

— Colocamos uma coleira no harmínion que é ativada por um controle remoto — doutor Crow continuou. — Se for necessário, basta apertar um botão do controle e o calmante será injetado pela coleira. E, somente em último caso, há uma dose de injeção letal, também produzida por Daniel. Então, para não acontecer nenhum acidente com o nosso pequeno harmínion, apenas Daniel tem o controle.

— Essa injeção letal funciona?

— Não precisa duvidar, fizemos testes com o sangue dele.

Raymond riu alto, ainda mais animado.

— E você guardando esse segredo até agora enquanto as pessoas enfrentam essas criaturas de forma primitiva. Mas duvido que alguém consiga acertar uma dose, seja do que for, em um harmínion; eles são muito rápidos. — Dr. Ray gesticulou ao falar. — É raro capturar um e, quando isso acontece, de alguma forma sempre escapam. Houve casos em que derreteram correntes de metal para fugir, mas em nenhuma necropsia foi possível determinar como produzem o ácido; o corpo deles é idêntico ao humano. Seu harmínion não causou nenhum desses efeitos?

— Mais devagar! — Dr. Crow adorou ver o entusiasmo do amigo por sua pesquisa. — Elliot nunca causou esses eventos específicos, mas ainda há ocorrências inexplicáveis.

Dr. Ray estava tão absorto em cada palavra de Crow, que parecia estar à frente de seu autor preferido.

— Ainda não conseguimos descobrir a idade exata dele — continuou doutor Crow. — Quando o encontramos, ele aparentava ter 12 anos, mas de acordo com os testes, a idade era por volta dos 10. Isso foi há quatro anos, e continua sendo até hoje. Obviamente, ele não é um adulto, mas andei pensando que talvez não seja nem criança. A maneira como ele aprende rápido e a forma como pensa... Por mais incomum que pareça, acho que ele ainda é um bebê, ou próximo disso.

— Um bebê? — Os olhos do doutor Ray se arregalaram enquanto ele degustava a informação.

— A maturidade mental parece não acompanhar o desenvolvimento do corpo e nem evoluir durante os anos. Mas isso não afeta o aprendizado, pelo contrário, acredito que tem capacidade maior que os humanos. Imagine se todos os harmínions forem assim.

— É sério isso? — Dr. Ray sorriu desconfiado. — Eles costumam ser bem primitivos.

— O que me diz disso? Elliot aprendeu nossa língua em um ano. E, recentemente, ensinei as regras do xadrez a ele; depois de me vencer duas vezes, ele parou de jogar sério.

— Ensinou xadrez a um harmínion? — Para o Dr. Ray isso era o mesmo que ensinar as regras do jogo a um leão.

— Aparentemente, ele aprende rápido até perder o interesse. E apesar da inteligência, como eu disse, a maturidade é de uma criança.

— Por falar em criança, como conseguiu encontrar um espécime tão jovem? Isso nunca aconteceu antes e você não quis entrar em detalhes na última vez em que conversamos.

Dr. Crow não respondeu de imediato. Observou Mori de relance e depois apagou seu sorriso.

— Foi sorte. Eu estava começando meus estudos sobre os harmínions e viajei para o norte, em uma cidade próxima de uma tribo deles. Um dia, uma garota me procurou enquanto eu questionava os moradores sobre a convivência com os harmínions. — Fez uma pausa curta para respirar com calma. — Essa garota me contou que estava cuidando secretamente de um harmínion ferido, mas não pôde pedir ajudar a ninguém sabendo que, sem dúvida, ele seria morto. Mesmo não acreditando nas palavras dela, decidi ajudá-la, afinal, não tinha nada a perder. — Um sorriso brotou no canto da boca. — Mas era verdade. O harmínion estava em uma floresta próxima; o pé ficou preso em uma armadilha e tinha outros ferimentos leves pelo corpo.

"A garota, de nome Sara, disse que encontrou o harmínion ao ouvi-lo rosnar quando brincava por perto e, desde então, passou a alimentá-lo, porque não conseguiu libertá-lo da armadilha.

"O que me surpreendeu foi que o harmínion confiava na garota. Ele estava febril quando o encontrei, e tentou me atacar quando me aproximei, mas Sara conseguiu acalmá-lo para que eu pudesse soltá-lo.

"Aquele foi um dia de sorte para nós três. O harmínion teria morrido se eu não o tivesse tirado de lá, Sara estava morando com a tia, mas fugia de casa frequentemente, e eu precisava de uma cobaia. Pedi a permissão da família de Sara para trazê-la e, como você disse, um velho amigo me ajudou a conseguir uma autorização para realizar as pesquisas."

— E como foi o processo de adaptação? — Dr. Ray ansiava pela continuação.

Crow ligou a tela holográfica da mesa, acessou o primeiro vídeo e pausou no começo. Na parede, a tela camuflada se acendeu.

— Baseando no comportamento do harmínion perante Sara, meu sobrinho sugeriu que o tratássemos como uma criança, demonstrando afeição. — Iniciou o vídeo. — Selecionamos alguns vídeos porque eu sei que discursos não são suficientes para você. — Finalizou com um sorriso fechado e, por meio de um comando na tela, apagou as luzes.

O vídeo exibia somente breu.

De repente, uma luz invadiu a cena, acompanhando uma porta que se abria e revelando poucos detalhes do interior de um quarto. Em um canto no escuro, surgiram dois pontos vermelhos luminosos.

Ouviram um barulho gutural que parou por um instante para recuperar o fôlego.

Imerso no vídeo, Dr. Ray evitou fazer perguntas, embora sua expressão demonstrasse curiosidade.

— Isso é ele rosnando — Dr. Crow esclareceu.

No vídeo, Sara entrou no quarto, no entanto, para a câmera, ela era uma mera sombra escura contra a luz.

— Eu sei que você não gostou da coleira, mas não precisa ter medo — disse a garota.

A criatura parou de rosnar e respondeu com a voz rouca, que ainda aprendia a produzir palavras:

— Fica... longe...

Mas Sara não obedeceu. Ela avançou alguns passos dentro do quarto e se ajoelhou.

— O que acha da minha? Coloquei uma também.

Não houve resposta. Os olhos vermelhos desapareceram, escondidos pelas pálpebras.

Por longos segundos tensos, Dr. Ray continuou assistindo, atento a qualquer movimento na imagem escura, apesar de a cena parecer congelada.

O som gutural voltou de súbito, lembrando um choro:

— Loooonge! — A criatura ordenou e Sara saiu correndo do quarto. A porta se fechou em seguida.

E assim acabou o vídeo.

— O que achou? — perguntou Dr. Crow.

Raymond entrelaçou os dedos e virou a cabeça de lado, refletindo.

— Foram só duas palavras, mas considerando que nunca ouvi um harmínion falando... Digo: realmente falando. Ele sabia o que estava dizendo, não era só imitação. Mas ainda parece ser perigoso.

Dr. Crow riu enigmaticamente.

— Esse vídeo é do início do projeto, quando ainda não tínhamos a câmera noturna. Meu objetivo é mostrar o contraste com o próximo.

O doutor fez um movimento na tela da mesa e ativou outro vídeo.

A visão era da perspectiva de uma câmera no canto da biblioteca. Elliot estava sentado em uma poltrona com Sara encostada no braço do móvel. A negritude da noite encobria as janelas. Os braços do harmínion estavam cruzados e as bochechas inchadas de ar.

— Não adianta fazer cara feia! — Era uma bronca de Sara que, perante a tal cara, falhou em segurar um riso singelo. — Quando escurece, é hora de dormir.

O harmínion a ignorou.

— Já brincou o dia inteiro lá fora, não está cansado? — Ela tentou contornar a situação de forma mais branda.

Elliot soprou o ar até desfazer a careta e virou os olhos para ela.

— Não. Por que dormir de noite? Posso dormir de dia, é mesma coisa.

— Não é, não. É bem diferente.

— De dia os olhos doem. — Elliot esfregou o rosto, do queixo até os olhos.

A frase despertou a empatia de Sara, que pensou em uma compensação para o amigo.

— Tá bem... Assistir TV ou ler uma história?

A frase surtiu o efeito de abrir um sorriso com os dentes pontiagudos do harmínion. Movido pela felicidade, ele pulou da poltrona e se virou para a garota.

— Os dois! — gritou com uma voz esganiçada.

— Só um. — Sara impôs a condição com o dedo indicador em riste.

A alegria de Elliot murchou aos poucos junto do sorriso, então ele contemplou a estante de livros à esquerda e depois à frente, onde ficava a televisão. Tapou os ouvidos e olhou de um móvel para o outro por várias vezes. Após alguns segundos, voltou a olhar para Sara.

— O que vai ler? — ele perguntou.

— Uma historinha que se chama João e Maria.

O harmínion arregalou os olhos vermelhos, interessado.

— Do que é?

— É sobre duas criancinhas tentando voltar para casa... depois de serem abandonadas em uma floresta. — Respondeu com a voz baixa, atingindo um tom de suspense.

— E elas conseguem?

Sara pegou o livro na estante e observou Elliot pelo canto dos olhos, ainda tentando persuadi-lo pelo mistério.

— Quer descobrir?

E subiu as escadas para o primeiro andar, sendo seguida pelo harmínion.

A tela escureceu quando o vídeo acabou.

Dr. Ray ainda mirava a tela escurecida ao questionar:

— Quando foi isso?

— Ontem. E hoje de manhã ele conversou comigo sobre a história. O que tem a dizer sobre a diferença? — Dr. Crow perguntou já sabendo que tipo de resposta esperar.

— É... é surpreendente! O jeito que ele age... lembra uma criança. Como posso explicar? — Dr. Ray tentava expor sua surpresa em palavras. — É como ensinar um leão a falar. Com certeza os organizadores vão adorar essa apresentação.

— E tenho vários outros vídeos para mostrar... — Dr. Crow atiçou a curiosidade do amigo.

Mas antes que passasse para o próximo vídeo, batidas na porta interromperam a reunião. Em seguida, Daniel se espreitou na sala sem esperar que fosse convidado, deixando a porta semiaberta.

— Estamos aqui — informou ele, sem surpreender ninguém.

— Ótimo. — Dr. Crow virou a cabeça para Daniel antes de se voltar para Ray. — Gostaria de pular os vídeos e conhecer o harmínion pessoalmente?

— Ele está aqui? — Dr. Ray indagou animado, mexendo-se na cadeira para tentar enxergar qualquer coisa além da fresta que Daniel deixara.

Dr. Crow inquiriu a mesma questão para Daniel apenas com o olhar. Como resposta, o jovem cientista terminou de adentrar a sala e abriu espaço para os outros passarem.

Sara entrou primeiro, seguida por Elliot e Teris.

— Ray, estes são Daniel, Sara, Teris e Elliot. Garotos, este é o doutor Raymond, um velho amigo. — Dr. Crow fez as apresentações.

— Muito prazer — Dr. Ray cumprimentou. Suas pupilas grudaram no harmínion no instante em que viram os orbes vermelhos da criatura.

— O prazer com certeza é nosso. — Daniel respondeu de forma um tanto travada; não era segredo que ele tinha admiração pelo doutor Ray.

Indiferente à resposta de Daniel, Dr. Ray se dirigiu até o harmínion sem demonstrar hesitação, enquanto Elliot, apreensivo pela aproximação repentina, deu um pequeno passo para trás e apertou o braço de Sara.

— Olá, Elliot! — O doutor se apoiou em um joelho para chegar a uma altura próxima a da criatura.

Tímido, Elliot o encarou. Estava indeciso entre se esconder atrás de Sara ou não; nesse caso, Daniel, com seu corpo maior, seria uma melhor opção, porém ele não estava tão perto, e Teris seria uma péssima escolha porque, com certeza, se afastaria apenas para acabar com seus planos.

— Não vai dizer nada? — Dr. Ray o instigou com gentileza. — Está com medo de mim?

A pergunta soou para o harmínion como uma ofensa e suas pupilas dilataram, perto de tomarem uma forma circular.

— Se eu fosse você, ficaria longe. — Elliot respondeu quase como um rosnado e manteve uma abertura na boca para deixar os dentes à mostra.

— Elliot! — Dr. Crow chamou a atenção do harmínion ao detectar a ameaça.

Dr. Ray acenou para o amigo, indicando que poderia lidar com isso sozinho.

— Você é incrível, sabia? — Não era somente para bajular a criatura, este era o pensamento sincero do doutor Ray.

— Claro que sou; tá vendo outro harmínion por aqui? — Elliot respondeu sem alterar o tom de ameaça.

— Não. E é exatamente isso que faz de você especial. Eu sou Ray. Sabe o que é um aperto de mãos? — Dr. Ray ofereceu a mão ao harmínion.

Elliot se sentiu impelido a farejar a mão, contudo esse era um costume impróprio, segundo o doutor Crow. Hesitante, ele estendeu a mãozinha.

— Nem acredito que estou cumprimentando um harmínion. Você vai ser um sucesso na convenção!

Com a mão liberta, por fim, Elliot recolheu-a e fechou a boca, escondendo as presas. Agora, olhando para o estranho com curiosidade, concluiu que ele não parecia tão perigoso assim.

— E você é a Sara? — Doutor Raymond perguntou e, após receber um aceno de cabeça como confirmação, prosseguiu: — Será que podemos conversar?

Dr. Crow retomara seu estado de tranquilidade.

— Teris, poderia preparar uma bebida para o Ray?

— Então... está evitando o doutor Ray? — Teris perguntou.

Low já estava na cozinha quando ela apareceu. Enquanto Teris preparava um chá na pia, ele bebia uma xícara de café, apoiando-se na parede de azulejos brancos e ignorando a jovem com sua inexpressividade.

— Posso saber por quê? — Teris estava de costas para ele.

— Não.

— Sem graça. — Ela fechou a cara por um momento ao ouvir uma negativa tão seca. — Mas você o conhece há bastante tempo.

— Significa que o aturo há bastante tempo.

— Tá. — Ela finalizou a tarefa, virou-se para ele e apoiou as mãos e costas na pia. — Mas foi mal-educado em nem aparecer na apresentação.

Low não disse nada sobre o comentário. Terminou de beber o café e fechou os olhos. Estava ansioso pelo fim do dia. Abriu as pálpebras e se deparou com Teris encarando-o.

— Não tem que levar isso para ele? — A irritação elevou sutilmente a voz dele.

Mas não ouviu a resposta da jovem, pois outro som chamou sua atenção. Vozes se aproximavam da cozinha.

— Vai fugir de novo? — Teris ostentou um sorriso irônico; a situação era divertida. — Ser flagrado ao subir as escadas ou morrer congelado no jardim, qual risco prefere correr?

Low deixou escapar um som parecido com o rosnado do harmínion e se resignou a vestir sua característica expressão séria. Apenas quem o contemplasse de perto veria que as sobrancelhas tremiam vez ou outra.

Não estava evitando ninguém!

— ...E aquele desafio? O prazo era de meses, mas o senhor desenvolveu uma vacina em duas semanas! E também teve aquele caso... — Daniel era como um alarme indicando a localização do doutor Ray.

Para Low, seria ideal que Daniel mantivesse Raymond distraído — o que, infelizmente, não foi o que aconteceu.

— Será que poderia me dar um autógrafo? — Foi o que Daniel perguntou quando chegaram à cozinha, entretanto Dr. Ray percebeu Low parado ali.

— Há quanto tempo, jovem Crow! — ele cumprimentou, surpreso e entusiasmado.

Low endureceu o rosto por um breve momento, evitando expressar um chamativo sinal de raiva.

— Não me chame assim. — Pretendia ficar calado, contudo não segurou a frase.

— Me perdoe, mas não posso evitar; você parece demais com o seu tio quando tinha a sua idade. — A felicidade de Raymond não foi abalada pela rudeza com que fora respondido. — Olhar para você faz eu me sentir velho.

Ele continuou esbanjando um largo sorriso que Low preferia nunca mais ver na vida.

— Não precisava vir, eu ia levar para o senhor. — Teris aprontou uma xícara de chá e a ofereceu ao doutor.

— Hum... Chá verde... — disse ele depois de experimentar a bebida. — É o meu preferido. — Encarou a jovem intensamente, como se tentasse uma comunicação telepática. — Como descobriu?

— Foi por acaso. — Ela sorriu, disfarçando uma ironia, e quebrou a ligação de olhares, pegando uma xícara para si.

Low olhou para baixo ainda segurando sua xícara. Decidiu ignorar Raymond trancando-se em seus pensamentos, no entanto seu silêncio não afetou o doutor.

— Esse harmínion é incrível, Low! É como uma criança! E aqueles olhos... Eu disse ao seu tio que ele com certeza será a atração principal da convenção. O primeiro harmínion domesticado do mundo! — doutor Ray exaltou.

Franzindo o cenho, Low depositou a xícara na mesa com um movimento ligeiro e se refugiou na biblioteca, evitando qualquer contato visual com os presentes ao passar por eles.

— Low, aonde vai? — Surpreso pela atitude dele, Daniel tentou justificar: — Desculpe, doutor, acho que ele não está muito bem.

— Não se preocupe. — Dr. Ray manteve o sorriso estampado no rosto. — Eu sei como ele é. E agora... alguém me pediu um autógrafo?

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