o9| EI, PARDAL

"Você não sabe quão adorável você é. Eu tinha que te encontrar, dizer que preciso de você e dizer que te escolhi. Me conte seus segredos e me faça suas perguntas. Oh, vamos voltar para o começo, correndo em círculos, perseguindo caudas. Me diga que me ama, volte e me assombre. Oh, e eu corro para o começo." — The scientist (Coldplay)


Starfish, 1975.

As costas de Amélia já começavam a ganhar um leve bronzeado. Ela estava deitada de bruços em sua prancha, enquanto a maresia leve a embalava. A praia estava um pouco nublada naquele dia, mas não a impediu de sair com seu maiô novo. Alguns respingos de água voaram como agulhas em sua direção quando Falke submergiu de repente ao seu lado, sacudindo seus cabelos platinados para afastar o excesso de água. Ela esticou o braço para dentro d'água e provocou alguns jatos no rosto dele, que ameaçou girar a prancha para que ela caísse.

— Falke... não! — ela gritou, quando ele virou a prancha.

A água não estava fria, mas levou seu ânimo para o bronze. Os dois começaram uma guerra de água, que findou quando o rapaz a agarrou pela cintura e a trouxe para mais perto. Amélia amava quando a água do mar deixava os lábios de Falke agridoces, era como uma sobremesa na qual somente ela podia desfrutar. Ambos nadaram para a margem quando o beijo se intensificou, e correram até um casebre abandonado.

Já era quase noite quando começaram a extravasar todo o desejo que sentiam em seus corações. Amélia sentia as pernas bambas enquanto Falke estava em cima dela, comprimindo seus corpos como se fossem um só. Seus gemidos foram abafados pela ventania forte da praia, e ela quase gritou quando vibrações prazerosas percorreram seu corpo. Amélia levou as mãos até as costas de Falke e vagueou cada centímetro daquele espaço, sentindo os grãos de areia entre os dedos. O rapaz suspirou e enterrou o rosto no pescoço dela, satisfeito com o cheiro inebriante que ela tinha.

Quando se conheceram no primeiro campeonato de surfe de Falke em Starfish, a amizade começou a ganhar tons mais coloridos, mas ambos decidiram não firmar namoro. Eram muito jovens, no auge dos vinte anos, não queriam compromisso a não ser com suas carreiras. Amélia tinha muito medo das surpresas que o destino estava reservando para ela, pois as linhas na mão do norueguês pareciam traçar vários caminhos em direção a ela. Sendo muito sensitiva, a menina conseguia sentir um pouco do que a aguardava no futuro.

— Será que vamos ficar juntos para sempre? — Falke perguntou, certo dia, apenas para fazer graça. — Está com medo de saber que eu sou o amor da sua vida?

Ele riu quando ela revirou os olhos.

— O destino não seria tão sacana comigo.

— Ah, é? Você bem que gosta quando estamos nos casebres.

— Cala a boca, me dá aqui a sua mão.

Amélia agarrou aquelas mãos que tanto gostava quando passeavam sobre seu corpo, respirou fundo e fechou os olhos. Seu coração retumbou, e para sua surpresa, ela sentiu Falke ao seu lado, em uma vida bem distante, já velhinhos.

— Viu alguma coisa? — ele perguntou.

— Não sou nenhuma vidente, sou médium.

— É tudo a mesma coisa...

— Vai continuar me insultando ou quer saber o que eu senti?

— E o que você sentiu, Amélia Jean?

— Eu senti você.

***

Dandy Spring acordou muito cedo naquele dia. Ele prometeu ao tio que cuidaria do seu Ford Maverick azul. O motor e algumas peças do carro já estavam ficando nas últimas, mas nada do que ele não pudesse resolver. A lataria estava intacta, só precisava de alguns reparos internos. Ele estava deitado na esteira de mecânico, sentindo algumas farpas lhe pinicarem as costas. O rapaz fazia alguns ajustes no chassi, apertando um ou outro parafuso com a sua chave catraca.

Só mais alguns reparos e o carro ficaria pronto para seu tio dirigir até a praça para paquerar viúvas. Ele riu ao lembrar que o velhote estava apaixonado pela sra. Goose, uma viúva que costumava alimentar os pombos no final da tarde. Dandy se limitou a reparar o carro, e não quis saber mais detalhes dos planos do velho apaixonado. Enquanto firmava o último parafuso, ele escutou um papoco que o reconheceria de longe. O motor de algum carro estava exausto e parou.

Ele ouviu xingamentos, a porta do carro abrindo e fechando com força, depois mais xingamentos. Amélia estava atrasada para a aula, e agora com certeza não chegaria na universidade. Ela ergueu o capô e fechou no mesmo instante quando o vapor quente bateu em seu rosto. Dandy riu baixinho enquanto terminava os ajustes finais, e pensou em sair, mas ficou onde estava quando a menina exclamou aliviada ao ver a placa do estabelecimento à sua frente "Oficina Spring."

— Que criativo — Amélia resmungou, se escorando no capô do Ford Maverick. — Quem é que coloca o nome de uma oficina de Spring?

"Que folgada" Dandy pensou. "Vou deixar que espere mais um pouco."

Amélia passou em torno de quinze minutos resmungando sozinha enquanto ninguém aparecia. Ela cruzou os braços e começou a bater o pé, impaciente.

— Meu Deus, isso só pode ser uma oficina fantasma!

Dandy agarrou um dos ferros do chassi e se impulsionou para a frente de uma vez. Seu rosto surgiu de repente, sem dar chance para Amélia entender que uma cabeça surgiu de repente debaixo do carro. O sol lhe dava uma bela visão dos cabelos amarronzados e negros dela, tal qual a plumagem de um pardal.

— Ei, pardal — ele disse.

A menina piscou duas vezes antes de gritar e proferir alguns xingamentos. O mecânico a fitava com divertimento nos olhos, satisfeito por tê-la feito pagar pelas ofensas à oficina do seu tio.

— Caralho, que susto! — berrou, colocando a mão no peito. — Você sempre faz isso?

— Isso o quê? — perguntou, convencido.

— Assustar as pessoas, é assim que conquista a sua clientela, aparecendo que nem um fantasma? — Amélia se calou ao perceber que não adiantava discutir. — Ah, esquece. Hum, bom dia?

— Bom dia.

Amélia corou ao perceber o olhar persistente de Dandy sobre ela.

— Perdeu alguma coisa? — ela indagou.

— Quase.

— O quê?

— A minha dignidade.

Desde que veio do Texas, Amélia não conseguia encontrar homens muito bonitos na Flórida, em especial em Starfish. Porém, ao reparar muito bem aquele rosto sujo de graxa, ela se perguntou como um homem poderia ser tão bonito. Os dois ficaram alguns segundos se encarando em silêncio, até que Dandy resolveu sair debaixo do carro. Quando ele se virou para empurrar a esteira de volta, os olhos de Amélia logo se voltaram para o traseiro dele, muito bem acomodado naquele jeans azul. Ela se amaldiçoou por ser tão homerenga, mas continuou secando até ele se virar.

— Então, o que houve com o seu carro? — ele perguntou, limpando as mãos sujas de graxa em uma flanela. — É um belo Opala.

— Então o fantasminha entende de carros, é?

— Pode-se dizer que sim — ele riu, apontando para a placa da oficina. — Seria meio estranho se eu não entendesse.

— É, o que eu disse foi bem estúpido.

— Relaxa.

Amélia quis se encolher diante do olhar esverdeado dele, que a fazia se sentir nua. Dandy percebeu que ficou encarando e se sentiu constrangido, não queria passar a impressão de que era um tarado. Ele caminhou até o Opala e abriu o capô sem esperar que ela dissesse algo. Não era preciso, a fumaça escapando pelas laterais do veículo já revelava o problema.

— O motor está exausto, faz quanto tempo que você não o leva em uma oficina? — perguntou, indignado. — Isso aqui é uma bagunça.

— Nem me lembro mais — resmungou.

Ela não deixou de observar como os músculos do braço dele estavam rígidos enquanto seguravam o capô. Pela visão periférica, ele percebeu a encarada nada discreta.

— Se você continuar me secando, não vou conseguir reparar o seu carro — ele riu, abaixando o capô. — É melhor cancelar todos os compromissos que tiver pela manhã.

— Já era, o sr. Hyde não iria me deixar entrar na aula mesmo.

— Faculdade?

— Sim, Teologia. E a sua?

— A vida.

— Ah...

Pela primeira vez, Dandy se sentiu constrangido por não estar em uma universidade. A realidade do rapaz era muito diferente dos "bem-nascidos" de Starfish. Seu pai era um fazendeiro, que o retirou da escola aos nove anos para que ajudasse nas plantações. O garoto não retornou depois disso, e foi moldado a base de muito trabalho braçal. 

Jebb Spring nunca foi de encostar um dedo nos filhos, mas não tinha dinheiro para contratar outra pessoa para ajudar na fazenda da família. Se não pegasse o filho como ajudante, as safras de milho não seriam tão boas e eles não teriam um bom dinheiro para as despesas médicas de Joana, que definhava a cada dia, vítima do lúpus. Quando a matriarca se foi, as coisas não se tornaram mais fáceis.

Jebb também ficou muito doente por causa dos longos anos de trabalho duro, o coração já não funcionava bem, e por isso teve que se aposentar dos campos. Dandy trabalhou mais do que nunca na fazenda, conseguindo uma vida financeira estável e dando uma vida confortável ao pai e à irmã até os seus últimos dias. Salsa, sua irmã mais nova, morreu por complicações de uma tuberculose. Ele preferiu dizer ao pai que ela estava em um internato, para não piorar as condições de saúde dele, que já estava muito boa.

No leito de morte, Jebb Spring escreveu uma carta para seu irmão mais novo, pedindo abrigo para os filhos. Ele entregou a carta de resposta nas mãos do filho e chorou por perdão, por ter lhe roubado a infância. Dandy segurou as mãos trêmulas do pai e as beijou.

— Não há nada para perdoar, pai — ele olhou bem fundo nos olhos verdes de Jebb. — Você me fez um homem, estou preparado para a vida.

Jebb partiu aos quarenta e cinco anos, quando não se recuperou de uma tuberculose. Ele se foi com o coração leve, sabendo que o filho não o odiava e que estaria seguro com o seu irmão. Após o enterro do pai, Dandy conseguiu vender a fazenda e pegou uma balsa rumo a Starfish. O rapaz jamais imaginou que sairia de Campbellton, sua pequena cidade natal no condado de Jackson, mas lá estava ele, seguindo para horizontes desconhecidos. Quando chegou no condado de Palm Beach, o mundo parecia outro. Dandy não tinha muita noção sobre a vida em lugares mais populosos e movimentados, onde os dias e as noites pareciam os mesmos.

Ele passou por algumas desventuras até finalmente chegar em Starfish, e ainda passou por maus momentos enquanto tentava pegar um transporte público. Quando enfim conseguiu, pegou o errado, que o levou até uma área residencial abastada. Ele teve que descer, e seu único abrigo era a pequena estação de ônibus. Cansado e faminto, ele se sentou e decidiu esperar até o dia seguinte. Falke Truelsen estava voltando tarde da noite de um luau, quando viu a situação inusitada. Ele estacionou ao lado do rapaz exausto agarrado a sua mala, que dormia sentado no banco da pequena estação de rua e buzinou algumas vezes até o outro acordar atordoado.

— Ei, você está bem? — Falke perguntou, vendo o semblante abatido do outro. — Quer ajuda?

— Estou perdido.

— De onde você é? — perguntou, ao perceber o sotaque carregado do desconhecido.

— Campbellton, no condado de Jackson.

— Você está muito longe de casa. Vem, entra aqui — Falke destravou a porta do passageiro para ele entrar. — Somente um forasteiro mesmo para dormir aqui, é perigoso.

— Essa cidade inteira parece ser perigosa.

— Onde te levo?

— Aqui — Dandy o mostrou o endereço.

— Que coincidência, vamos morar perto um do outro.

Ambos conversaram o caminho inteiro, se apresentaram e marcaram de se ver novamente. O norueguês queria mostrar a cidade para o caipira, que aceitou de muito bom grado. Ao chegar na casa do seu tio, foi recebido com muita preocupação. O viúvo já estava preparado para reportar o desaparecimento do sobrinho para a polícia, pois ficaria certo que ele chegasse, no mais tardar, ao final da tarde. Ele abraçou o sobrinho com muita força e disse que estava muito feliz de ter alguém como companhia, apesar dos infortúnios. 

Harold Spring era um solteirão de quarenta anos e proprietário de uma pequena oficina na garagem da sua casa. Dandy logo pegou gosto por carros e passou a trabalhar com o tio na oficina. Ele usou boa parte do dinheiro da venda da fazenda para expandir o negócio, e juntos conseguiram uma estabilidade financeira muito boa, pois os novos equipamentos da oficina permitiram que eles recebessem demandas e veículos maiores.

No turno da noite, Dandy ia para a escola, onde sua turma era formada por jovens e pessoas da terceira idade em busca do diploma do ensino médio. Ele estava bem mais atrasado do que imaginava, faltava algumas séries da primária e secundária, mas ele conseguiu. Olhando para Dandy, não dava para imaginar as mazelas que já havia passado, pois o rapaz parecia jovem demais para ter vivido tanta coisa. "Ficamos presos ao dever porque não temos escolha", ele costumava dizer a si mesmo, se referindo às responsabilidades que teve que assumir ainda na infância.

Ele não costumava ter vergonha de não estar em uma universidade e de ter concluído o ensino médio recentemente, mas naquele momento o constrangimento bateu, talvez porque quisesse impressionar a garota à sua frente.

— É melhor você se sentar, pode ser que eu demore um pouco — ele disse, apontando para um banco na entrada da oficina. — Fique à vontade.

— O meu nome é Amélia Jean.

O rapaz ficou levemente surpreso, pois não costumava ter expectativas com meninas como ela, mas ela estava lhe dando abertura para uma conversa.

— Dandy Sping — ele disse.

— Ah, que surpresa o seu sobrenome!

Ambos riram, e ele jogou o seu constrangimento para longe. Amélia se sentou e se deliciou ao vê-lo trabalhando no seu carro. Suas encaradas não eram nada discretas, e não passaram despercebidas. Quando ele começou a suar e a camiseta branca suja pregou em seu corpo e exibiu as marcas do abdome, Amélia assobiou baixinho.

— Se você fosse um ônibus eu nem reclamaria de te pegar todo dia — ela murmurou.

— Eu ouvi isso.

— Eu não disse nada!

Dandy riu e balançou a cabeça. O sorriso bobo não saía do rosto dele, e suas olhadas de esgelha para a menina ficaram constantes. O mecânico terminou os reparos, mas não queria que aquele momento acabasse. Amélia sentiu um leve formigamento na ponta dos dedos quando entregou o dinheiro, e apesar das vibrações estranhas, desejou muito mais daquilo.

— Acho que esse carro ainda vai dar muito defeito — ela disse, se preparando para dar partida. — Obrigada, Dandy Spring.

"Nome gostoso de se pronunciar, que nem o dono", pensou.

— Espera — ele pediu.

Amélia não entendeu, mas decidiu esperar. Minutos depois, ele bateu no vidro do passageiro. Curiosa, ela baixou o vidro e aguardou.

— Posso entrar?

—Assim, do nada?

— Sim, posso?

— Não.

Ele entrou mesmo assim, pois a porta já estava destravada. Dandy sabia que ela queria que ele ficasse, caso contrário, não aguardaria tantos minutos para nada. Ele tomou um banho rápido, trocou de roupa e passou seu perfume caro que nunca imaginou que usaria. O Opala ficou empestado com o cheiro amadeirado dele, fazendo Amélia respirar bem devagar. Ela riu discretamente ao vê-lo se olhar pelo retrovisor e esfregar o rosto com as mãos para retirar algumas manchas de graxa que não saíram no banho apressado. Dandy estava envergonhado por ainda estar meio sujo, mas Amélia o achou cativante mesmo assim.

— Você sabe correr? — ele perguntou.

— Hum, sei? Não entendi.

— Correr, no carro.

— Tipo uma corrida?

— Exato.

— Nunca tentei.

— Está afim de um passeio? — ele lançou um sorriso ladino. — Prometo que não vai se arrepender.

— Não sei — resmungou, insegura.

— Vamos, pardal. Vai ser divertido.

Ela o encarou e soube que Dandy tinha todos os trejeitos para formar o verdadeiro arquétipo de garoto problema, mas as energias emanando dele diziam o contrário. Amélia ponderou a situação, e acabou aceitando, já que a única aula que tinha no dia ela não conseguiu ir, então tinha o restante da tarde livre.

—Maravilha, mas eu dirijo — ele disse.

— E por que?

— Você vai ver.

***

— Aaaaaaaaaaaaaaaaah!!! — Amélia gritava com toda a força da sua garganta enquanto se agarrava ridiculamente ao banco do passageiro. — Você é louco! Para esse carro agoraaaaaaaaa!

Dandy gargalhava enquanto corria a toda velocidade na rodovia solitária. O vento quente batia em seus rostos e os elevava a níveis altos de insanidade. Fazia mais de trinta e oito graus naquele dia, mas nada parecia se comparar à selvageria daquelas rodas furiosas. O Opala começou a dar zigue-zagues seguidos de um cavalo-de-pau. Amélia olhou para cima e captou aquele céu estrelado enquanto o veículo girava. Ela ficou maravilhada, e quando o carro parou, sentiu falta da adrenalina que fazia seu coração querer sair pela boca.

— Que droga foi essa!? Você é louco? — ela berrou, saindo do carro.

— Você gostou.

— Não, eu não gostei! — mentiu. — Podia ter nos matado!

Dandy retirou sua jaqueta vermelha e a estendeu sobre o capô ainda quente do Opala, deitando nele em seguida. Ele apoiou a cabeça nas mãos e fitou o céu que começava a dar espaço ao entardecer. As estrelas eram maiores quando observadas daquele deserto mais além da rodovia abandonada, e Amélia percebeu, quando se deitou ao lado dele. Ambos ficaram em silêncio, embalados pelo ruído do vento que corria desenfreado naquele vasto mar de areia. As rodovias isoladas sempre costumavam ficar muito frias durante o cair da noite, por isso a universitária começou a tremer. Dandy se sentou e estendeu sua jaqueta vermelha para ela, que aceitou sem pestanejar.

— Eu amei a sua jaqueta, posso ficar com ela?

Dandy abriu a boca para rebater, mas acabou soltando uma risada abafada.

— Você é muito atrevida. Não posso te dar a minha jaqueta, foi caro e sou pobre.

— Fica mais bonita em mim — ela riu.

— Disso eu tenho certeza.

Ela sentiu o rosto corar e engoliu em seco.

— Você é dos bons — ela disse.

— Dos bons o quê?

— Galanteador.

— Não sou nada.

—Ah, qual é? Um monte de mulher deve ficar de joelhos por você.

"Que nem eu queria estar agora", ela pensou.

— Nunca me deitei com uma — admitiu.

Amélia o encarou, um tanto surpresa. Ela não conseguia imaginar que um homem como Dandy pudesse ser virgem, afinal, ele era lindo, forte e inteligente. Os longos anos tendo que assumir responsabilidades tão pesadas o fizeram refém de suas obrigações, e a parte da vida em que outras pessoas entram nela, acabou ficando de lado. 

Quando chegou em Starfish, o rapaz só tinha como companhia o tio e alguns colegas de turma, que não se falavam fora da escola. Dandy sempre teve pessoas para cuidar: sua irmãzinha, Salsa; a sua mãe doente e logo depois o pai. Todos estavam mortos, e ele não teve ninguém que cuidasse dele. Parte disso o fez amadurecer mais rápido e criar caráter, mas a falta de convivência e experiência o arremessaram em bolhas de insegurança.

Sua vida se resumia ao trabalho e a correr pelas rodovias solitárias para relaxar ao final do dia. Apesar dos apelos do tio para que o rapaz saísse um pouco para curtir a juventude, ele se recusava. A socialização o assustava, aquelas pessoas tinham uma realidade muito diferente da sua, e ele tinha medo de não ser o suficiente. Dandy nunca havia saído com alguém, até conhecer Amélia Jean. 

Estar com ela lhe deu liberdade para desabafar. Ele não sabia que ser virgem era motivo de chacota em cidades maiores. O mecânico não sabia de onde tinha tirado forças para interagir com ela naquela manhã. Em seu íntimo, ainda pensou em ficar debaixo do carro e deixar que ela fosse embora, mas o impulso falou mais alto, e quando viu, já estavam trocando risadas. Aquilo era algo completamente novo para ele.

— E daí? — ela rebateu. — Isso não quer dizer nada.

— Vamos mudar de assunto — ele a agradeceu silenciosamente por não o olhar como um alienígena após a confissão. — Que dia é o seu aniversário?

— Que tipo de pergunta é essa? — ela riu, fazendo nuvens de vapor escaparem de sua boca.

— Dá um desconto, estou aprendendo agora.

Amélia não conseguia desgrudar os olhos dos sorrisos pueris e sinceros dele. Dandy parecia ser de outro mundo, de onde os verdadeiros homens vinham.

— Cupom de desconto aplicado!

— Engraçadinha.

— Então, o meu aniversário é hoje.

— Não brinca! — exclamou, surpreso.

— É sim.

— Então nascemos no mesmo dia, pardal, no equinócio.

Ambos se encararam, surpresos. Logo depois olharam para cima, onde o céu realmente parecia diferente. O dia e a noite teriam a mesma duração, assim como certos ciclos que seriam abertos e fechados futuramente.

— Pode ficar com a jaqueta — ele cedeu.

— Sério? Obrigada! Vou pedir para a minha mãe personalizar.

— Um pardal bordado, vai combinar com você.

— Por que você me chamou de pardal? — ela vestiu a jaqueta, sendo embalada pelo cheiro amadeirado dele.

— O seu cabelo, meio marrom e preto, me lembra a pluma de um pardal.

— Nossa, você é muito fofo.

— Eu corro aqui toda noite, Amélia Jean. Pode chegar lá na oficina, se quiser.

— Tive uma ideia melhor — Amélia sabia que o que estava prestes a dizer era uma loucura, mas decidiu arriscar. — Vai acontecer uma corrida clandestina, topa? 

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