o1| STARFISH: 2025

"Eu não sei o que devo fazer, assombrado pelo seu fantasma. Me leve de volta para a noite em que nos conhecemos." — Lord Huron (The Night We Met)


Starfish, 2025.

Amélia Jean estava cansada de esperar. A sessão já se arrastava por horas a fio e tudo indicava que o amigo daquela viúva já havia feito a travessia para o além-mundo. Após a pobre mulher implorar com fervor durante uma semana inteira, ela procurou uma vaga em sua agenda. Seus dias estavam lotados, mas a médium conseguiu encaixar a desesperada sra. Molly na tarde de uma sexta-feira.

— Audrey, já temos a nossa resposta — murmurou, com pesar na voz. — Tom já fez a travessia...

— Não, por favor, Amélia! — a viúva implorou. — Vamos tentar outra vez, eu pago o dobro.

A médium sabia que não iria cobrar nada, mesmo que aquela sessão fosse fora de sua agenda e estivesse consumindo seu tempo mais do que o necessário. Ela se compadecia com a dor da outra, pois sabia como ninguém o impacto de perder alguém querido. Respirando fundo, ela fechou os olhos e se concentrou o máximo que pôde. A pequena sala em formato circular estava escura, exceto pela única luz acesa em cima da mesa redonda onde as duas mulheres tentavam entrar em contato com Tom Wexler. Uma gota de suor brotou na testa enrugada da médium seguida de outras, que escorreram por suas feições repleta de marcas que denunciavam a idade avançada.

Apenas cinco dias se passaram desde a partida do rapaz, então não seria difícil se conectar com o espírito dele. Amélia já tinha a confirmação de que Tom não estava mais naquele plano, mas resolveu tentar mais uma vez em consideração a amiga. A desolação de Audrey Molly era quase palpável ao final da sessão. A médium conseguiu amenizar aquela tristeza ao contar sobre a sorte que o rapaz teve ao fazer a travessia tão rápido, pois somente os espíritos de alma mais pura conseguiam aquele feito. Satisfeita, a sra. Molly insistiu em pagar, mas Amélia recusou, só aceitava o dinheiro quando o contato com o ente querido era realizado. Já era final de tarde, ambas saíram exaustas da funerária e se despediram com um abraço reconfortante e a promessa de encontrarem novamente.

Amélia pretendia ficar para organizar o faturamento da semana, mas seus dois sócios estavam fora da cidade e aquela sessão atípica a sobrecarregou. Ela reconhecia que não tinha o mesmo pique, e cuidar sozinha da funerária não era nada fácil, ainda mais tendo que dar conta de suas sessões espíritas. Embora tenha tentado se aposentar do ramo mediúnico, seus clientes não a deixavam em paz, tampouco os espíritos que a procuravam em busca de mediação. O ritmo na funerária era intenso sem os sócios, e o filho apesar de ter herdado os dons da mãe, era incapaz de não fazer um escândalo ao ver um espírito.

Era 02 de julho de 2025, o aniversário da morte do seu marido. Ela decidiu ir caminhando até a floricultura para apreciar os derradeiros filetes de sol do entardecer, onde as nuvens alaranjadas entravam em contraste com o horizonte rosado. Não estava nos seus planos visitar a lápide de Carl naquele horário, pois sabia que o cemitério ficava apinhado de espíritos para lhe importunar, e a médium era um farol aceso no meio deles, mas não podia deixar de ajudar a pobre sra. Molly. Amélia dobrou a esquina e suspirou aliviada ao se aproximar da floricultura repleta de arranjos e vasos prostrados na calçada. Seus olhos castanhos logo bateram nos girassóis, eram os favoritos dele. Ao lado, um arranjo de lírios brancos fez o seu coração apertar. As flores a faziam se recordar do pequeno buquê preparado para o dia de seu segundo casamento.

Se passaram 36 anos desde o dia da cerimônia que não aconteceu, onde uma sequência de eventos permaneceu nebulosa e sem respostas. Ela também comprou o arranjo de lírios e foi andando até o cemitério, sentindo a brisa salgada do mar assanhar seus cabelos grisalhos e ondulados. Amélia tentou ignorar os inúmeros sussurros e lamúrias que atingiram seus ouvidos enquanto caminhava com pressa até as lápides dos seus amados. A luz tênue de um poste a ajudou a encontrá-las. Prostadas um ao lado do outro, estavam seus dois falecidos maridos.

— Não posso dizer que sinto a sua falta, Carl — ela riu, depositando os girassóis. — Você está sempre comigo.

Ela fitou o túmulo de Carl por alguns instantes, tentando adiar a visão que estava logo ao lado. Os dias de visita eram raros ao ano, mas sempre muito dolorosos. Seus olhos marejaram antes mesmo de caírem na lápide simbólica. A médium apertou os lírios contra o peito e não conseguiu segurar as lágrimas repletas de dor. Soluços desenfreados ameaçaram escapar de seus lábios trêmulos, mas ela acalmou a respiração para não se deixar levar pela tristeza devastadora. Amélia ainda era inconformada com o desaparecimento do seu noivo no dia do casamento. Apesar dos boatos de que ele a havia abandonado, a médium se recusou a acreditar.

Ela sabia que o noivo era um homem atípico, e o dia do seu desaparecimento permaneceu repleto de mistério e indagações, assim como os encontros e desencontros agridoces que tiveram. Os anos foram se passando, e após a insistência de seu filho em dar um ponto final aquela história, ela providenciou a lápide contra sua vontade. Visitá-la era sempre doloroso, em seu íntimo, o noivo ainda estava vivo por aí em algum lugar do universo, como ele costumava divagar enquanto observavam as estrelas.

"Por onde você anda, meu amor?" ela indagou em silêncio. Enxugando as lágrimas, a médium depositou os lírios na lápide e seguiu para fora do cemitério. O frio do anoitecer a fez apertar o casaco rosé contra o corpo franzino, e, ao passar em frente uma pizzaria, lembrou que não havia nada feito para jantar. Ela encomendou uma pizza grande o suficiente para satisfazer o apetite da neta, que já deveria estar escalando as paredes de tanta fome. Amélia torceu para seu rosto não estar inchado por causa do choro, pois não gostava de tocar no assunto, a fazia se afundar ainda mais em tristeza e saudade.

Ela achou estranho as luzes da varanda estarem apagadas, mas ao entrar, entendeu muito bem o motivo. Billie Jean olhava receosa para a avó, ela não esperava que Amélia chegasse tão cedo em casa. Geralmente, as reuniões da funerária iam até mais tarde nas sextas, onde os sócios apuravam os faturamentos e organizavam assiduamente a agenda que teriam ao longo da semana. Se aproveitando da ausência dela, a jovem viu a oportunidade perfeita para escapar de casa sem dar satisfações. Ela sabia que para onde estava indo era perigoso, por isso não se deu ao trabalho de ligar para os pais e perguntar se poderia ir, muito provavelmente eles perguntariam se ela estava se sentindo bem, ou se havia deixado o juízo no Texas.

O flagra foi iminente. Amélia girou as chaves e entrou, encontrando a neta parada no meio da escada. Billie lhe lançou um sorriso amarelo e tentou esconder o capacete, mas era tarde demais, os olhos de águia da avó já tinham entendido tudo.

— Chegou cedo, vovó — ela tentou contornar a situação com conversa fiada. — Eu estava indo esquentar o jantar, você deve estar com fome.

— Isso explica muita coisa — Amélia disse, tirando seu casaco rosé e o pendurando no cabide adjacente à porta.

— Pois é, né! — exclamou Billie, pensando ter se livrado.

— O capacete era para evitar um desastre na cozinha? Venha, eu trouxe pizza.

Billie já estava subindo a escada de fininho e parou ao ouvir a alfinetada. Ninguém disse que seria fácil passar de Amélia Jean, ainda mais quando tudo estava tão na cara. Respirando fundo, ela decidiu descer e se servir de uma fatia de pizza. Seus planos foram pelo ralo, então não teria problema comer e se preocupar em ficar com medo de colocar tudo para fora. Amélia observou o semblante chateado da neta e não conseguiu evitar a risada que escapou de seus lábios melados de maionese.

— Vovó! ­— Billie repreendeu, resmungando de boca cheia. — Não sei porque escolhi morar em um lugar que eu não possa me divertir, já estou me arrependendo.

— Eu não disse que você não podia ­— ela se divertiu ao ver os olhos cor de âmbar da neta brilharem. — Só não gosto quando esconde as coisas de mim, não somos mais melhores amigas?

Billie se sentiu culpada por querer esconder algo tão bobo, mas a sua vontade de ir era tão grande que o medo de ser barrada se sobrepôs à confiança que ela tinha na avó. As duas possuíam uma conexão que somente ambas entendiam. As mulheres da família Jean vinham de uma geração de médiuns, que fundaram uma funerária na virada do século dezessete para o dezoito, se tornando a tradição da família. Billie acreditava no além-mundo, mas agradecia a Deus todos os dias por nunca ter visto algo. Ela colocou sua mão sobre a da avó e se desculpou por sua atitude, prometendo que jamais se repetiria.

Desculpe, vovó, eu só estou entediada. O último ano na faculdade quase me deixou sem cabelos, achei que um pouco de diversão seria bem-vinda.

— Não precisa haver segredos entre nós — Amélia lhe lançou um sorriso afável. Após alguns segundos em silêncio, um sorriso arteiro brotou em seus lábios. — As apostas iniciais estão de quanto?

— Duzentos dólares! — Billie pigarreou sem rodeios, se empertigando para frente na mesa. — As pistas são seguras e a polícia estará concentrada nos protestos!

— No meu tempo as apostas não eram tão altas assim.

— Outros tempos, minha cara, outros tempos!

— Eu nunca imaginei que teria uma neta vândala — Amélia riu.

— O seu sangue corre em minhas veias.

— Venha! — ela agarrou a mão da neta e ambas subiram a escada com pressa. — E por favor, que Estela e Phil não fiquem sabendo que eu ando deixando a senhorita participar de apostas de racha por aqui.

Billie aguardava ansiosa enquanto a avó remexia o baú dentro do closet. Ela retirou o celular do bolso e consultou as horas, faltava pouco menos do que quinze minutos para as corridas começarem. Ela queria entrar como estreia e mostrar para os sabichões de Starfish como se pilotava de verdade.

— Aqui — Amélia exclamou, retirando um conjunto do closet.. — Era o meu uniforme de corredora.

Billie o segurou como se fosse algo sagrado. O conjunto monocromático tinha cheiro de gasolina, em especial a jaqueta de couro vermelha, onde um pardal bordado nas costas dava um ar mais selvagem à peça. A calça e as botas também eram vermelhas, e se encaixaram muito bem ao corpo jovem da corredora. Amélia se sentia orgulhosa em dá-lo a neta, era como estar diante da sua juventude novamente. Ela e Billie eram quase idênticas, tanto na aparência quanto nas escolhas da vida. A corredora ficou perfeita no uniforme da Pluma, e mal via a hora de desfilar com ele pelas estradas de Starfish.

— Algo muito bom vai acontecer com você essa noite, eu sinto — ela disse, ao segurar o rosto da neta entre as mãos. — Por favor, me prometa que sempre usará o capacete e que nunca ultrapassará os seus limites.

Billie assentiu, e com um último olhar agradecido, saiu em disparada em mais uma noite comumente quente na agitada Starfish. Amélia respirou aliviada após a neta sair. A energia de Billie Jean às vezes a sobrecarregava, e sendo sensitiva demais, acabava absorvendo muita carga agitada que emanava da garota. Seu corpo não era mais jovem, por isso sempre acabava meio cansada quando sentia vibrações muito fortes ao seu redor. Ao reorganizar as coisas dentro do closet, seus olhos cansados caíram na caixa vermelha escondida entre alguns outros objetos velhos. Ela sabia do que se tratava, e logo suas mãos enrugadas a alcançaram.

Era sua caixa de recordações, de quando era uma jovem de vinte e cinco, no auge de sua juventude. Amélia retirou a tampa e visualizou sua foto favorita. Estavam todos ali, os integrantes da Pluma, era como se chamavam: Os pardais selvagens. Os seis jovens estavam prostrados na frente de um Mercury Monterey 1962 vermelho, todos vestiam o uniforme monocromático que resolveram adotar. Pareciam verdadeiros pilotos de competições automobilísticas, trajando calças folgadas em conjunto com a jaqueta. Exceto a de Amélia, todas tinham o símbolo do pardal de asas abertas costurado no peito. Amélia acariciou a foto, fazendo os dedos deixarem marcas na leve camada de poeira.

Seu coração apertou em sua saudade quando algumas lágrimas ameaçaram descer, mas decidiu não chorar. O marido costumava aparecer sempre naquele horário, e ela não queria que Carl a importunasse com um milhão de perguntas. Depois do acidente, a Pluma se desfez e cada um seguiu seu caminho. A única do grupo que manteve contato durante um tempo foi Zuri Ayana, que voltou para a Nigéria quando as coisas começaram a esfriar após o julgamento. Os Jean também afastaram a filha da cidade, até que coincidentemente Amélia recebeu uma carta de uma universidade na Flórida e teve que dizer adeus ao amado Texas. Ela se formou com honras em Teologia, onde aprofundou bastante sua mediunidade.

Após lecionar alguns anos nas universidades e conseguir dinheiro o suficiente para expandir a antiga casa, ela largou a docência e abriu uma filial da funerária em Starfish, onde resolveu morar desde então. Ao se casar com o corretor de imóveis, Carl Ardor, tiveram um garotinho, que acabou herdando os dons da mãe. Phil ainda não entendia o dom da mediunidade, e quando atingiu a maioridade, resolveu se mudar para o Texas, onde conheceu pelo Facebook uma garota chamada Estela. 

Os dois acabaram se casando anos depois, e quando Billie nasceu, Phil criou coragem para visitar Starfish. Ele não gostava da casa da mãe, era carregada demais. A funerária ficava nos fundos, e no porão, ela maquiava os cadáveres. Quando pequeno, Phil escutava os fantasmas falando com ele, alguns até conseguiam tocá-lo. As explicações de Amélia sobre o dom não foram o suficiente, o filho partiu assim que teve a oportunidade. Ele só esqueceu que os fantasmas estão em todo lugar, e que não existe geografia para assombração. Às vezes ligava no meio da madrugada para Amélia, completamente histérico e escandaloso.

A mãe ria, o que o deixava zangado, mas sempre conseguia explicar para o filho o que deveria fazer, e assim Phil foi lidando com a sua condição, até enfim aceitá-la e não se importar tanto depois. Ele notou que a filha era muito parecida com a avó em muitas coisas, mas Billie nunca se queixou de ter visto algo, ela apenas sentia energias fortes perto dela. As duas se tornaram inseparáveis ao longo dos anos, e sempre quando tirava férias da faculdade, a menina viajava para Starfish para ficar com os avós. 

Através das histórias da avó, Billie se interessou pelas corridas. No começo, Amélia não achou uma boa ideia que a neta começasse a apostar, pois sabia como ninguém o que era estar dentro de um carro capotado. Porém, no fundo ela conseguia sentir a energia de Billie, e era sem sombra de dúvida, muito resiliente e insistente. A menina tinha a mesma aura aventureira da avó, a adrenalina corria em suas veias.

Suspirando, Amélia guardou a foto e trancafiou o baú, assim como ele deveria permanecer. Ele estava repleto de boas lembranças, mas também de muitas ruins, das quais ela não gostaria de ter vivenciado. Carl já estava sentado na mesa quando viu a esposa se aproximar. Amélia riu da careta de reprovação que ele fez ao ver a pizza.

— É a segunda vez essa semana — reclamou, ajeitando os óculos quadrados. — Quando eu estava vivo você não comia essas porcarias.

— Parece ter esquecido que a nossa neta está aqui, jovens não gostam de comida saudável — ele bufou diante da desculpa esfarrapada. — O que houve? Você me parece mais irritado do que o normal hoje.

— Eu vi Billie sair apressada, vestida com o uniforme da Pluma. Você a está empurrando para aquelas malditas corridas novamente. Até parece que esqueceu o que aconteceu com você naquele acidente!

— Carl, você mais do que ninguém a conhece. Billie é como eu, nasceu para as corridas. Infelizmente me aposentei por causa do acidente, minhas pernas não são mais as mesmas. Se não fosse por isso eu ainda estaria nas pistas.

— Você sabe que é perigoso, Amélia!

— Amor, sou sensitiva — o semblante do marido relaxou ao lembrar que a esposa sentia vibrações ruins, quase como uma premonição. — Quando toquei na mão de Billie, não senti nada alarmante, muito pelo contrário. Senti que algo muito bom vai acontecer a ela. Você sabe que eu a convenço todas as vezes em que não sinto vibrações boas.

Era verdade, Amélia sempre convencia a neta a não ir quando sentia que algo ruim poderia acontecer. Ela colocou a mão sobre a de Carl e o olhou com ternura. Ele se foi durante um surto de gripe que assolou a cidade em um dos invernos mais rigorosos que tiveram, e já com a saúde bastante debilitada, não resistiu. Os dois continuaram conversando até o sono bater e ela foi se deitar. Carl segurou sua mão até a esposa adormecer, e quando percebeu sua respiração ficar pesada, ele partiu para o outro plano. Amélia havia deixado a chave na luminária suspensa da varanda e não se preocupou em esperar Billie retornar, ela sabia que a neta chegaria em casa junto com os primeiros raios de sol da manhã. 

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