2o| FALKE, FALKE, FLAKES... SNOW FLAKES

"Restam vinte anos, uma época preciosa, eu sei. Mas tudo passará, terminará rápido demais, você sabe. Restam vinte anos, e muitos amigos eu espero. E isso é o fim e isso é o começo. Isso é o todo e isso é a parte. Isso é o ápice e isso é o coração. Isso é o longo e isso é o resumo." — Twenty years (Placebo)


Starfish, 1984

Quatro anos se passaram desde que os quatro jovens desaparecidos por cinco anos, conhecidos como "O Quarteto de Starfish", retornaram misteriosamente. O viajante teve a confirmação de que não estava no comando de nada quando os três não esqueceram de imediato as lembranças da outra vida, mas se ajustaram com facilidade às mudanças. Dandy passou alguns dias na ala psiquiátrica ao entrar em choque com a nova realidade. Ele não acreditava em seus olhos, não concebia a verdade. 

     Sua irmã estava viva, agora adolescente, e seu tio se lembrava dele, era casado com a sra. Goose, e Clint, seu meio-irmão. Billie estranhou a ausência dos avós, naquela dimensão, Amélia e Carl já haviam falecido por causas naturais. Ela morava sozinha e gerenciava a funerária. Quando a saudade batia, ela viajava para o Texas para visitar os pais, pois Phil ainda continuava o mesmo medroso e não conseguia ficar mais do que um dia na casa da filha. Falke era um surfista de renome, não tinha parentes na Flórida e seguia a vida sozinho. Alice retornou para a casa dos pais, a única diferença era a juventude do casal Wallace, que diferente da outra dimensão, resolveram ter a filha na casa dos trinta anos.

     Os quatro permaneceram amigos inseparáveis, e o tempo parecia não querer apagar as memórias da outra vida. Alice nutria uma raiva muito grande por Falke, mas não conseguia encontrar a razão, até que um dia, ele resolveu falar a verdade. A loira não se recordava dele a ter empurrado, e apesar de ficar imensamente chateada, no fundo, agradeceu a sinceridade. As memórias sobre a outra vida foram se dispersando de forma muito sutil. 

     Pequenos novos detalhes se encaixaram gradualmente sobre as antigas recordações, e logo a nova dimensão passou de estranha para normal e confortável. O único detalhe que o tempo não lhes ousou apagar foi a certeza de serem viajantes do tempo. Era setembro de 1984 quando o quarteto resolveu ir para a casa de praia do norueguês para comemorar o aniversário dos três. Houve resistência por parte de Alice, que sempre fazia cu doce quando alguma programação envolvia o surfista. Billie usou o argumento de levar mais pessoas, como Simon, Zuri, Ana e Dênis, assim ela teria como evitar Falke.

     Ela cedeu somente quando Dandy a puxou para o canto e confessou que pretendia pedir a mão de Billie. Ambos estavam completando vinte e nove anos, e ele não precisava de mais tempo para ter certeza de que a queria como esposa. Nunca houve dúvidas, ele só era inseguro o suficiente para acreditar que ela recusaria. Alice lhe aplicou uma bronca das grandes por bolar um pedido de casamento às suas costas, e confiar mais no surfista do que na melhor amiga da namorada.

     — Você estava impossível, Alice — Dandy resmungou. — Basta mencionar o nome do Falke que você começa a dar chilique.

     — Eu não faço chilique! — ela se esganiçou, fazendo chilique. — Tenta se colocar no meu lugar, está bem?

     Ambos estavam no supermercado, ficaram encarregados de fazer as compras para a viagem. O mecânico queria que tudo soasse mágico, tal qual um sonho que tivera sobre um jantar muito agradável, onde houve um pedido de casamento. Ele encarou aquilo como um sinal, e resolveu parar de hesitar. Os olhos de Alice caíram em uma caixa de cereal integral e ela riu consigo mesma ao recordar de quando começou a fazer um trocadilho idiota com o nome de Falke. Snow Flakes era o nome do seu cereal favorito, e assim ela passou a chamar o platinado.

     — Falke, Falke, Flakes... Snow Flakes — cantarolou a canção idiota que criou para irritá-lo. — Com um pouco de leite cai bem, mas cuidado, se azedar pode estragar o seu dia. Falke, Falke, Flakes... Snow Flakes... Ooooooh, que dor de dente eu tive, tinha um pedaço pontudo demais e acabei me magoando. Falke, Falke, Flakes... Snow Flakes...

     Dandy começou a rir, era impossível ficar sério diante daquela canção tão boba. Falke sempre se irritava, não conseguia acreditar no poder criativo de Alice para tirar sarro. O público sabia que a música se referia ao surfista, mas não conseguiam encontrar as motivações para a piada. Os tablóides gostavam de explanar teorias sobre um romance mal resolvido, mas não passavam disso.

     — Viu só? Você gosta quando eu canto a música. 

     — Já se passaram quatro anos, será que você pode tentar esquecer e seguir em frente? Aliás, você nem lembrava, ele que teve a decência de contar.

     — Não fez mais do que a obrigação dele.

     — Deixa de ser difícil.

     — E para de defender o seu amiguinho.

     — Não estou defendendo ninguém — resmungou, adicionando alguns condimentos ao carrinho. — É que todo mundo meio que já está de saco cheio.

     — O quê? Todo mundo quem?

     — Ué, nossa turma.

     — Pois acho que vocês estão se incomodando demais.

     — Não é isso. É que está na cara que ele te ama, mas você insiste em negar. Toda vez que vocês brigam, parece que um furacão sai arrastando todo mundo.

     Eles dobraram no setor de congelados. Alice ficou calada por alguns instantes, absorvendo a bronca. A última briga que teve com o surfista, o pobre Dênis levou a pior. Ela arremessou um enfeite de porcelana para acertar Falke, mas ele conseguiu desviar e o objeto atingiu a testa do policial. A loira sentia culpa toda vez que colocava seus olhos nos pontos na testa dele, que a tranquilizava ao dizer que não foi nada. Toda vez que Falke chegava perto, as borboletas se agitavam em sua barriga, mas ela se lembrava do motivo de ele a ter empurrado. "Se realmente gostasse de mim e me quisesse por perto, não teria me empurrado", costumava resmungar ao dar seu veredito.

     — Certo, vou tentar melhorar.

     — Não é isso, você é ótima. Só acho que deve dar uma chance a vocês.

     — Não sei...

     — Alice — Dandy parou o carrinho e a encarou. — Ninguém vai viver para sempre, a nossa linha final é nessa dimensão, até mesmo a dele. Você sabe, estava lá quando ele finalmente se abriu conosco ao lembrar. Não acho que seja uma decisão muito inteligente esperar por outra chance, vocês podem não ter. Vai mesmo virar uma velha solteirona e rabugenta?

     — Posso ter o homem que eu quiser aos meus pés, sou uma estrela do rock.

     — E pode mesmo, mas o pódio é do Falke.

     — Bobo — ela riu. — Vamos logo para o caixa.

***

     Billie estava meditando quando um pardal irrompeu pelo quarto e pousou no beiral da janela, instantes depois, mais cinco aterrissaram para comer os miolos de pão dispersados no comedouro. Ela gostava da companhia dos pássaros, que faziam ninho nas calhas pelo conforto e segurança que a casa da médium oferecia. Mais alguns movimentos de yoga aqueceram seu corpo, a água dos pardais foi trocada e o colchonete recolhido. 

     O pai da melhor amiga a havia ensinado algumas técnicas de meditação, e ela estava colocando em prática. Era uma excelente válvula de escape quando os mortos não davam trégua e sua cabeça ficava cheia de vozes ao ponto de ela cogitar sair correndo pelas ruas com os cabelos em pé. As mechas verdes um tanto desbotadas a fez cogitar ir ao salão para retocar, ou então cortar, e assim deixá-lo completamente castanho.

     Era sábado e sua agenda estava vazia. Tudo se encaminhava bem para o dia do aniversário na praia, embora caísse em uma segunda-feira, todos ali eram donos de seus narizes e não precisavam pedir permissão para alguma empresa, exceto Dênis, mas como fora promovido a chefe do departamento de homicídios, passou a ter algumas regalias. Enquanto separava suas roupas e as do namorado para colocar na mala, a campainha tocou. Pela janela, ela viu que era o carro de Falke e gritou para que entrasse. O surfista a encontrou ajeitando as duas malas e sentiu uma pontada de inveja daquilo, o companheirismo dos amigos era algo que ele desejava com a cantora.

     — Ei — Billie o cumprimentou quando ele se jogou na cama. — Como está a dor de cotovelo hoje?

     — Péssima.

     — Não sei mais como falar com a Alice — resmungou. — Está na cara que ela não gosta do Ronnie e fica só cozinhando esse relacionamento.

     A cantora havia iniciado um relacionamento repentino com o guitarrista da banda de Love, que pela primeira vez, não concordava com a decisão da filha. Ronnie era um bom rapaz, mas todos viam que o casal não combinava. A loira queria apenas infernizar a vida do surfista, e estava tendo êxito. Billie não gostou nada de ver a expressão triste no rosto de Falke, que não sabia mais quais métodos usar para conseguir o perdão dela. 

     O universo o castigou com todas aquelas atribulações nas linhas temporais, mas não o deu o benefício do esquecimento. Ele se recordou de suas raízes, das escolhas que fez ao se encontrar apaixonado por uma mulher humana e das consequências que desencadeou nas linhas temporais apenas para encontrá-la. "Talvez o meu castigo seja esse, a rejeição por quem abdiquei a minha imortalidade", era o que ele costumava pensar ultimamente, se acostumando com a ideia de não poder tê-la.

     — Isso já passou dos limites — Billie resmungou. — Eu não aguento mais sentir a sua aura assim, Falke. É desesperador!

     — Desculpa.

     — A única culpada é a Alice, não se faz isso com ninguém. Às vezes não reconheço minha melhor amiga. Ela não se conforma em apenas deixar claro que não quer um relacionamento entre vocês, faz questão de pisar em você o tempo todo e isso eu não admito.

     — Estou cansado, acho que vou tentar seguir em frente, sei lá.

     — Era para ter feito isso há tempos!

     — Mas eu amo ela — murmurou, com princípio de lágrimas brotando nos olhos.

     Em todas as dimensões possíveis, Falke sempre seria o mais chorão de todas elas.

     — Oh... — Billie se jogou no colchão e o envolveu com os braços e as pernas. — Não fique triste, vou encher você de carinho!

     Dandy estacionou o Mercury Monterey vermelho na garagem, agarrou a sacola com os pães quentinhos e entrou. Ele foi até a cozinha e estranhou ao escutar risadinhas vindo do quarto da namorada. Intrigado, ele caminhou até o corredor e não hesitou ao abrir a porta.

     — Estou atrapalhando?

     O amigo e a namorada ergueram o rosto e explodiram em gargalhadas ao se depararem com a expressão encucada de Dandy.

     — Muito ajuda quem não atrapalha — disse Billie.

     — Engraçadinha — o mecânico se aproximou da cama e percebeu que o amigo chorou. — Deixa eu adivinhar, é a Alice de novo?

     — E quem mais seria?

     — É, eu soube do término.

     — Término? — Falke se animou.

     — Sim, o Ronnie deu um pé na bunda dela — ambos riram.

     — Quando foi isso? — Billie indagou.

     — Final de semana passado, mas ela está escondendo. O Ronnie que me contou, disse que não estava dando certo, que eram melhores como amigos.

     — E ela com certeza não falou nada para continuar me infernizando.

     — Amor, vamos animar o Falke .

     Ainda deitada, Billie estendeu a mão para Dandy, que a pegou e se deitou ao lado do surfista. Falke ficou desconfortável ao sentir a respiração quente do melhor amigo no seu pescoço, e mais ainda, quando o mecânico passou a mão em seu peito e foi descendo até os países baixos.

     — Oh, porra! — se esganiçou.

     Os namorados começaram rir e não o deixaram sair da rede de abraços quando ele se contorceu entre os dois.

     — Você já experimentou a três? — Dandy indagou, entre risos. — Vai mandar sua tristeza para longe.

     — Vocês são nojentos, me larguem!

     — Relaxa, a experiência é inesquecível — Dandy murmurou em seu ouvido.

     — Me larguem!! — Falke gritou, mas os amigos não o largaram. — Vocês estão falando sério??

     — Eu sempre quis provar o seu corpinho de semi-deus —disse Billie.

     — Nem fodendo! — o surfista grunhiu.

     — Vai ser fodendo mesmo.

***

     — Isso — Falke gemeu, ao sentir as pernas tremerem. — Mais um pouco...

     Billie estava por cima dos dois, enquanto cada um segurava suas pernas suadas. Dandy sentiu que não poderia segurar por mais tempo, mas por disputa de ego machista, queria provar que aguentava mais do que o melhor amigo. Enquanto isso, Alice estacionava o carro lá fora, e sem avisar, foi entrando na casa. A porta do quarto estava encostada, ela a empurrou com o pé e se deparou com a cena inusitada entre os três amigos.

     — O que vocês estão fazendo? — se esganiçou. — Não tem escada nessa casa não?

     Billie conseguiu encaixar a lâmpada e pulou para o chão, dando alívio para as pernas e ombros dos rapazes, que já estavam quase pedindo arrego.

     — Ufa! — Falke espreguiçou as costas. — Você é pesada hein?

     — A nossa escada quebrou semana passada — disse Dandy.

     — Ah — Alice engoliu o orgulho e olhou para o platinado. — Oi, Falke.

     — Oi...

     Toda vez que os quatro estavam juntos, ela se empenhava ao máximo para ignorá-lo. Após a conversa com Dandy, a loira resolveu deixar sua mágoa de lado. Billie tentava não se irritar com o comportamento infantil da amiga, afinal, era a mais nova do grupo, mas ultimamente estava ficando insuportável para todos. Ela tinha sugerido que Falke pagasse na mesma moeda, ignorando-a, mas bastava Alice abrir a boca que ele agia como um cachorrinho, tal qual seu yorkshire. A médium revirou os olhos por ele ter cedido tão rápido, mas não falou nada. Se a amiga estava dando abertura, então todos ficaram na esperança de que o evento na praia fosse tranquilo, sem estardalhaço e climão entre os dois.

     — Você vai para a praia? — Alice perguntou, se arrependendo no mesmo instante ao perceber a gafe. — É claro que vai.

     — É, a casa é minha — murmurou, um tanto sem graça.

     — Vem, amor — Billie segurou a mão do namorado e o arrastou para fora do quarto. — Acho que alguém precisa resolver a vida.

     Alice ainda pensou em protestar, mas Billie a lançou um olhar duro antes de se retirar. Ela olhou para os lados e não soube o que dizer, apenas cruzou os braços e transferiu o peso de uma perna para a outra. Falke torceu a boca e pensou em algo para falar, mas nada saiu. Ele temia dizer qualquer coisa para ela, pois tudo que saia da sua boca parecia ser uma ofensa. Ele se sentou na beira da cama e deu algumas batidinhas ao seu lado. Ela se sentou, e ambos ficaram em silêncio. Alice nunca imaginou que um dia seria tão orgulhosa, mas simplesmente não conseguia perdoá-lo. Porém, ao sentar ao seu lado, ela já sabia que daria o seu perdão. 

     Quatro anos se passaram desde a queda na outra dimensão, quatro anos se passaram desde o primeiro beijo, e ela se lembrava como se fosse na noite anterior. Nunca mais tiveram contato semelhante, sequer o olhava nos olhos. Falke estendeu uma mão em sua direção e ela não pensou duas vezes, enterrando seus dedos nos espaços entre os dele. Enfim, se olharam verdadeiramente após longos anos, enxergando um no outro, a vontade pulsante de seus corações.

     — Você me perdoa? — ele perguntou.

     — Eu que pergunto, você me perdoa?

     Alice não imaginava que ansiava em ser perdoada, mas ao pedir, o peso em suas costas foi desvanecendo. Ela tinha ciência dos males que causou na vida de ambos, que por suas mágoas, estavam impedidos de compartilhar o amor que sentiam. Seu corpo estremeceu ao senti-lo beijar-lhe o dorso da mão e quando seus olhos a invadiram por completo. Falke parecia enxergar através dela, como se procurasse a Alice por quem outrora se apaixonou.

     — Alice, eu amo você.

     Em momento algum, ele ousou usar o argumento de que abriu mão de sua imortalidade e de que pulou todas aquelas cordas para encontrá-la. Alice sabia disso porque ele resolveu abrir o jogo quando se recordou. Falou sobre a deusa e de sua escolha de não se recordar de nada, tudo no anseio de viver uma vida normal ao lado da mulher por quem estava apaixonado.

     — Por que não me falou isso antes?

     — Você nunca me deu a oportunidade.

     — Fui tão estúpida...

     — Não, esqueça isso. Eu só preciso saber de uma coisa.

     — O quê?

     — Você ainda tem vontade de me ver pelado desde o dia da jacuzzi?

     Alice arregalou os olhos e o rosto esquentou.

     — Meu Deus, como você ainda se lembra? Estávamos bêbados!

     — Eu me lembro de cada detalhe, inclusive — Falke se aproximou e beijou seu ombro nu. — Senti muita falta de tocar você.

     — Só vou responder a sua pergunta quando você se desculpar pelo vômito.

     — Disso eu não lembro — ele riu.

     — Lembra sim.

     — Okay, me desculpe por ter vomitado na sua cara.

     Ela revirou os olhos e riu. Ambos estavam com as maçãs do rosto coradas e sorrisos frouxos, como se fossem dois adolescentes descobrindo o primeiro amor.

     — Sim, eu ainda tenho vontade de ver você pelado desde o dia da jacuzzi, e... eu amo você.

     Quando a tensão se esvaiu, eles findaram o espaço existente entre ambos. Ela amou os lábios salgados de Falke em contraste com o seu brilho labial, tal qual a sensação agridoce de seus encontros e desencontros. O norueguês enterrou sua mão nos cabelos dela e a trouxe para mais perto, a fazendo deitar na cama. Alice o puxou para cima dela e os dois se tocaram como se aquele fosse seu último dia juntos. 

     Atrás da porta, Billie e Dandy se entreolharam indignados ao escutarem arquejos e beijos estalados. A médium bateu na porta com força, assustando o casal lá dentro.

     — Na minha cama não hein! — gritou.

     Os dois pularam do colchão e Alice foi pisando duro até a porta, a abrindo de uma vez e encontrando os amigos fazendo cara de paisagem.

     — Vocês estavam escutando tudo? — berrou.

     — Sim, todo mundo queria saber o final dessa novela mexicana! — Billie rebateu.

     — Idiota!

     Aproveitaram que estavam todos ali e foram preparar algo para comer. O clima de descontração estava gostoso, fazia tempo que não tinham uma convivência agradável quando aqueles dois estavam juntos. A campainha tocou mais uma vez. Billie suspirou, às vezes os vivos perturbavam muito mais do que os mortos.

     — Acho que aqui virou a casa da mãe Joana! — resmungou, indo atender. — Dênis!

     O mais recente chefe do departamento de homicídios entrou todo pomposo e se juntou ao café da manhã animado. Ele ficou feliz ao saber que Falke e Alice finalmente se resolveram, pois assim não teria que desviar de objetos arremessados aleatoriamente. Minutos depois, quando todos já estavam na mesa envolvidos em conversas agradáveis, o som da campainha voltou a ecoar pela casa. Salsa não esperou que alguém fosse atender e entrou carregando um bolo recém-feito. Ela se surpreendeu ao encontrar todos ali e se juntou ao grupo. 

     Passaram a discutir os detalhes da viagem e logo depois pararam para escutar algumas queixas de Dênis sobre a crise no sistema judicial que estavam vivendo. A década de 1980 estava sendo exaustiva para os policiais, o boom de pessoas loucas não estava dando trégua.

***

     Salsa Spring não conseguia tirar os olhos verdes de Dênis Cash.

     Quando todos organizaram a viagem, ela foi junto com o policial em seu Ford Mustang preto. As histórias dele a cativaram, ela se perguntava como alguém conseguia fazer tantas coisas em um período tão curto de tempo. Entre crimes e viagens no tempo, Salsa jamais imaginou que se interessaria por um homem mais velho. Dandy estava para ter um ataque de nervos, boa parte por causa do pedido de casamento, e outra, por ter notado o interesse da irmã no oficial. 

     Dênis tinha trinta e um anos, enquanto Salsa acabava de completar vinte e dois. Para os irmãos mais velhos, ela sempre seria um bebê, e estavam completamente contra. Porém, Salsa era mais esperta do que os dois juntos, e já tinha pedido ajuda para Alice e Billie, pois sabia que os irmãos tentariam impedir suas investidas. Dênis era jovem, bonito e solteiro, elas não viram problema em ajudar.

     A casa de Falke ficava próxima ao mar, rodeada por altas enseadas firmes e de coloração alaranjada. Quando a maré subia, a vista pelas janelas criavam a ilusão de que o mar fazia a casa flutuar. O surfista estava exultante, e trabalhou arduamente para que cada centímetro daquele espaço fosse limpo, principalmente depois que Alice confirmou sua presença. Ele queria se encarregar de receber uma equipe para dar alguns últimos ajustes no local, como abastecer os quartos com lençóis e toalhas limpos, reposição de produtos de higiene nos banheiros e acessórios e mantimentos na cozinha, mas Billie o mandou parar quando o viu preparando um lanche para as pessoas que estavam trabalhando.

     — Negativo! — resmungou, o encarando do outro lado do balcão. — Falke, como assim?

     — Como assim o quê?

     — Não quero ver você trabalhando.

     Billie se colocou ao lado dele e tomou a faca de sua mão, assumindo a função de passar patê de frango nos pães de forma.

     — Não é nada — ele riu. — Só quero receber bem a equipe.

     — Eu sei, isso é maravilhoso, mas deixe essa parte conosco. Você está sempre cuidando de todo mundo, merece uma folga.

     Billie o lançou um sorriso terno e colocou a mão sobre a dele. Apesar de saber que a melhor amiga ficaria muito chateada por não receber a notícia de primeira mão, ela sentia que deveria contar para Falke primeiro. Ao longo dos quatro anos, eles cultivaram uma amizade verdadeira. Os dois se tinham como confidentes, e, no fundo, a médium sentia que suas confissões estavam mais resguardadas com ele. O surfista era mais compreensivo, sabia ponderar as coisas de forma mais racional. Billie sentiu a apreensão vinda dele através do toque, e o encarou apenas para fazer suspense. Para ela, nada era mais justo do que falar para ele primeiro.

     — Estou grávida.

     O coração de Falke retumbou com muita força. Ele piscou devagar para absorver a informação, deu a volta até ela e a abraçou. A médium estava certa em escolhê-lo para receber a notícia primeiro, sentia que o devia aquilo. Ele sempre se preocupava em cuidar dos três, como se ainda se sentisse na responsabilidade de colocar a vida deles nos eixos. O platinado logo começou a chorar enquanto apertava a amiga nos seus braços.

     — Você é o padrinho, e a Alice, a madrinha, se ela colaborar.

     — Ela vai ser sim — ele murmurou. — Nem que seja na força do ódio.

     Passos se aproximando os fizeram se separar e limpar as lágrimas para disfarçar. Dandy irrompeu pela cozinha, com o rosto corado e uma expressão de indignação.

     — Amor, você precisa me ajudar! — berrou, apontando para a janela. — É a Salsa!

     Billie quis revirar os olhos, mas se conteve.

    — Por que você não deixa a sua irmã em paz?

     — O quê? Eu não acredito que você vai ficar do lado dela!

     — Não acha que ela já tem idade?

     — É uma criança ainda!

     — Meu bem, a sua irmã já é bem grandinha.

     Billie voltou a ajeitar os sanduíches para não ter que olhar para o namorado. Ela e Alice estavam ajudando Salsa, e ele ficaria zangado se soubesse.

     — Dentre os Spring, a Salsa é a mais adulta — Falke disse. — Você não está afim de ter o Dênis como cunhado?

     — Vou fingir que não ouvi isso. Já vi que vocês não vão me ajudar.

     Ele saiu pisando duro e procurou por Clint. Os dois começaram uma briga com a irmã, que os colocou no lugar com argumentos sensatos. Os irmãos eram ciumentos, mas ela deixou bem claro quem era a líder entre os três. Os meninos saíram derrotados da briga, e não tiveram outra escolha a não ser a aceitação. Sozinhos novamente, os dois voltaram a se abraçar. Billie vibrou ao sentir a vibração positiva e tranquila do amigo. Fazia algum tempo que ele não andava muito bem, e senti-lo tão tranquilo e em paz consigo mesmo, a deixou feliz.

     — Você sabe que eu sou grata, todos os dias, por você ter aparecido na minha vida, não é? Em todas elas — ela murmurou, alisando suas costas. — E eu te amo por isso.

     — Eu sei — Falke se afastou e colocou a mão na barriga dela. — Está com quantos dias?

     — Duas semanas.

     — Algum palpite sobre o sexo?

     — Humm, acho que serão dois meninos.

     — Dois Dandys? Ninguém merece.

***

     Era meia-noite de segunda-feira, e os vinte e nove anos chegaram. Dandy passou a aliança pelo dedo da médium, e segundos depois do sim, ela anunciou a gravidez. A madrugada foi avançando, repleta de momentos prazerosos de descontração. Tudo parecia mágico, os jovens sentiam que estavam no auge de suas vidas e se divertiam nas rodas de conversa na praia. A fogueira alimentava o combustível para o falatório. 

     Apesar de ser o único a saber da verdade sobre os amigos, Dênis sempre se aproveitava do estado alcoólico de Falke para arrancar informações sobre as viagens no tempo, e sempre funcionava, pois o surfista nunca conseguia se lembrar de quando havia contado aquelas informações para o policial. Alice já dormia no peito do platinado, que acariciava seus cabelos enquanto tentava acompanhar a metralhadora de perguntas do amigo.

     Salsa aproveitou que os irmãos já tinham se recolhido e se sentiu obstinada a fisgar o curioso Dênis Cash. Porém, ele estava interessado somente na sua amada ficção científica. A moça se juntou a eles na roda da fogueira, carregando um pratinho com cachorros-quentes. Os rapazes se serviram, mas logo voltaram a conversar, deixando-a de lado.

     — Vai uma salsinha no seu cachorro-quente, Dênis? — Salsa indagou.

     Ela conseguiu chamar a atenção dele para si, que parecia enxergá-la pela primeira vez naquela madrugada. Dênis ficou um pouco sem graça, pois não levava jeito com as mulheres, e Salsa parecia ser areia demais para o seu caminhãozinho. Vendo que estava sobrando, Falke pegou Alice no colo e se afastou, deixando o policial nas garras de Salsa. Ela queria colocar em prática as dicas que Biilie usou para conquistar o seu irmão. "Não custa nada ser um pouco atirada", concluiu.

     — Os seus irmãos vão me dar uma surra — Dênis se adiantou, sabendo o que a menina queria. — Já fui avisado.

     — E você sabe que é mentira — ela riu. — Mas tudo bem, eu me contento em só ouvir as suas histórias.

     — Mesmo?

     — Sim.

     Dênis não conseguia acreditar que uma mulher bonita e inteligente estava disposta a ouvir suas histórias mirabolantes. O oficial se virou completamente para ela e começou a confabular sobre viagem no tempo e teorias da conspiração. Salsa afrouxou o sorriso, e se deleitou em cada palavra dita por ele. Os dois foram até o Sol começar a nascer, e o assistiram surgir no horizonte do mar. Ao final de toda a falação, eles se beijaram. Dênis teve certeza de que a surra prometida valeria a pena, e não hesitou ao provar os lábios da moça.

     — Isso foi tão bom — ela murmurou, ainda com o rosto próximo. — Vem aqui.

     Ela o puxou para se deitar ao seu lado. Eles assistiram o céu praiano ser preenchido com as cores amareladas do amanhecer. Ambos apreciaram o silêncio ser preenchido com o quebrar das ondas. Dênis tentava imaginar como as linhas da fenda que se abriu na outra dimensão ficavam no céu. Falke confiava tanto no oficial, que ao longo dos anos, o contou sobre os detalhes da sua jornada.

     — Então, sr. Cash, você conhece algum viajante do tempo?

     Dênis enxergou o divertimento refletido nos olhos verdes de Salsa, ele se aproximou e voltou a beijá-la. Ele mergulhou naquele mar esverdeado, e agradeceu silenciosamente por estar vivo naquela dimensão, pois a jovem Spring estava viva nela e ele teve a oportunidade de conhecê-la.

     — Sim, eu conheço muitos viajantes do tempo, mas não são eles que me interessam agora. 

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