17| TIO HAROLD, SOU EU, DANDY SPRING

"Tudo isto parece estranho e irreal. E eu não vou desperdiçar um minuto sem você. Meus ossos doem, minha pele sente frio, e eu estou ficando tão cansado e tão velho. Cada minuto a partir deste agora, podemos fazer o que gostamos em qualquer lugar. Eu quero tanto abrir seus olhos."— Open your eyes (Snow Patrol)


Antes da bagunça temporal.

— Falke! — Ymir o chamou, preocupada. — Não faça isso!

— Eu estou farto, quero viver de verdade.

— Mas nós já vivemos de verdade, somos eternos.

— Eu não quero ser eterno — o rapaz a encarou. — Eu quero nascer, viver e morrer.

— Você é filho de Frey, pode fazer o que bem entende com o seu tempo. Por favor, não desperdice a sua eternidade por causa de sentimentos tão mundanos.

— A minha mãe é humana, ela se chama Bergit Truelsen, sabia?

A deusa da primavera se aproximou do amigo e tocou-lhe o ombro.

— Isso não o faz menos digno de estar entre nós.

— Ymir, eu sempre irei me oferecer a você, não importa o que aconteça.

— Falke, por acaso você já pensou nas consequências desastrosas que isso pode causar na vida dos mortais que estiverem ao seu redor?

— Não, eu não pensei.

— Sabemos que pode haver algo muito maior do que nós, não ache que o castigo por suas ações será brando. .

— Talvez eu queira o castigo, Ymir.

A deusa o lançou um olhar questionador.

— E qual castigo?

— Esquecimento. Eu quero esquecer desta vida infinita. Quero nascer, viver, me apaixonar, sofrer, ter filhos... ter uma vida de verdade, onde a morte possa ser o fim.

— Certo, me fala o nome da humana. Você é igual ao seu pai, sei que se apaixonou por uma.

— Alice Wallace, ela é meio louca.

Ymir engoliu em seco e segurou as lágrimas.

— Vou esquecer de você também?

— Sim, não vai se recordar de nada.

— Por favor, não — a deusa o segurou pelo braço e implorou. — Não faça isso.

— Mas eu já fiz.

Os olhos amarelados da deusa caíram na roda do tempo nas mãos dele. A pequena alavanca estava antes do início.

— Quando eu precisar da minha roda do tempo, você forja de volta?

Antes que ela pudesse responder, Falke foi arremessado no espaço-tempo. Ele sentiu muita dor quando o corpo foi se desintegrando. Por um breve momento, temeu deixar de existir para sempre. O frio congelante o fez gritar, e depois veio o silêncio absoluto. Aos poucos, um calor reconfortante o invadiu, afastando os resquícios do frio solitário do universo. Ele já não lembrava mais de quem era ou quem foi um dia. O bebê gritou com toda a força de seus pulmões quando foi expulso da barriga da mãe. O calor reconfortante do útero deu espaço ao frio da vida real e mundana, mas logo foi afastado por uma manta grossa. Emília Truelsen olhava para o neto como se fosse a coisa mais preciosa do universo. Ela o enrolou e o entregou aos braços da jovem Bergit.

— Falke — Bergit murmurou em lágrimas. — Esse é o seu nome, meu amor.

— Onde está Frey? — Emília perguntou.

— Não sei, mamãe. Frey é um mistério inconstante — a mulher colocou o bebê para amamentar e sorriu quando as mãozinhas lhe afagaram o peito. — Ele disse para oferecermos o bebê a Ymir, podemos fazer isso agora?

— Sim, sim — Emília se apressou em pegar os incensos e acendê-los. — Frey é um deus, eu posso sentir.

— Ah, mamãe — Bergit riu. — Não, ele é só um cafajeste que eu amo.

— Hum, vamos lá, Falke Truelsen, oferecer você a Ymir.

As duas mulheres deram as mãos e começaram a entoar os cânticos na língua antiga. O bebê as escutava, tranquilo, enquanto olhava para a mãe como uma criatura sagrada. A mãe o olhou de volta e sorriu. Para ela, o filho era um milagre, pois a gravidez foi difícil, e tudo indicava que ele seria prematuro, ou então, que não resistisse.

— Falke — Bergit murmurou. — Falke Truelsen, você conseguiu, nasceu no tempo certo.

Starfish, 2025

Acomodados no quarto, Dandy e Billie já haviam processado todas as informações jorradas pelo velho Falke. Eles não ousaram fazer mais nada além de ficarem abraçados na cama enquanto observavam o Sol invadir o quarto. A corredora já havia chorado algumas vezes abraçada a Dandy, pois era o máximo que poderia fazer. Os ânimos já haviam se acalmado, mas uma breve tensão pairava no ar. Por um lado, Billie não queria soltar Dandy, por outro, não queria esquecer da avó, dos pais... de sua família. Porém, o preço de uma chance para recomeçar era o esquecimento de ambas as partes. O viajante deixou claro para todos que, assim que as "anomalias" pulassem na fenda, as dimensões fundidas iriam se separando aos poucos, e o preço da separação seria o mergulho no mar do esquecimento eterno.

— Será que o vovô viu a gente fazendo amor?

— Pelos céus, Billie Jean!

— Ele era um fantasma, vai que estava olhando tudo — ela se lamentou, ainda aos prantos. — Ele viu o meu traseiro, o nosso...

— Billie! — Dandy segurou seu queixo e a fez fitá-lo. — Pelo amor de Deus, não!

Ele não conseguiu segurar a risada ao ver como ela estava patética. Billie era a rainha do drama, e conseguia ficar muito feia quando chorava copiosamente. O rosto inchado, o nariz dilatado que não parava de escorrer e a tremedeira no queixo foi o alívio do rapaz em meio a tensão. Ele limpou aquelas lágrimas com os polegares e beijou-lhe a testa.

— Quem está aqui, para você? — ele perguntou.

— Você.

— E quem não vai a lugar nenhum, por você?

— Você.

— Muito bem, Billie Jean. Disso a sua cabeça não vai esquecer, nunca.

— Eu nem respondi a Alice, ela também não falou mais nada o restante do dia — ela se sentou e procurou o celular. — Estou preocupada, ela sempre faz estardalhaço.

Quando Falke reuniu todos na sala e explicou minuciosamente os detalhes da sua jornada entre o passado, futuro e presente, a corredora não tocou mais no aparelho. Ela queria que a amiga estivesse presente, mas Alice não deu notícias até o restante do dia. Billie quase saltou da cama ao abrir a conversa e clicar na foto. Era Falke Truelsen bem mais jovem, jogado no chão e com a feição nada amistosa. Ela se perguntou se deveria mostrar a Amélia, mas a avó provavelmente estava dormindo com o namorado que voltou do tempo.

— É o Falke — disse Dandy ao ver a tela do celular. — Acha que é o mesmo?

— Não, esse me parece diferente, não sei explicar.

— O que ele está fazendo na casa da sua amiga?

— A essa altura, eu não sei mais de nada.

Billie estava preocupada com Alice, e quando pensou em ligar, uma solicitação de chamada de vídeo foi iniciada.

Pensei que você estava morta — a loira disse, do outro lado da tela.

— Eu também, por que não veio?

Acho que a foto já diz muita coisa, e... uau! — Alice abriu um largo sorriso ao ver Dandy se aconchegar ao lado da amiga e olhar acanhado para a tela. — Já entendi tudo, então você estava escondendo o tesouro, né?

— Alice! Para! Você sabe que eu sou ciumenta!

Ai, cala a boca. Oi, Dandy! — a loira acenou para o rapaz. — Acabei de acordar, na verdade, eu nem dormi, mas juro que não sou feia assim.

— Oi — ele disse, ainda estranhando a tecnologia bizarra.

Billie, se ajeita e me espera em frente a sua casa.

— O quê?

Nós vamos sair, dar uma volta.

— Não sei...

— Vamos, Billie Jean, estamos precisando — Dandy implorou.

Já vi que o Dandy é dos meus — Alice se animou. — Amiga, estamos no final dessa bagunça toda, de que adianta ficar trancada no quarto se remoendo?

— Não sei se é uma boa ideia expôr o Dandy.

Escuta, todas as pessoas da geração dele, ou estão muito velhas ou morreram, ninguém vai reconhecer ele. E outra, o Falke que deu a ideia.

— Mas...

Estamos passando aí em vinte minutos, vê se leva dinheiro e cartão.

Alice encerrou a chamada antes que Billie pudesse protestar, deixando a corredora sem opções. Ela soltou uma risada abafada ao ver a expressão animada de Dandy. Os olhos esverdeados dele brilhavam na expectativa de conhecer a nova Starfish, de respirar novos ares que não fossem aquela pista. Ela o abraçou com força e beijou-lhe a testa, Billie ainda tinha muito medo de que ele fosse para longe, mas também não queria abandonar a família. Para ela, tudo seria perfeito se as coisas continuassem como estavam. Dandy e Falke voltaram, o que mais poderia dar errado? A corredora não sabia que não tinha opções.

O universo não dava escolhas.

***

O viajante se sentiu um autêntico hippie ao colocar as roupas praianas que lhe foram oferecidas. Alice perturbou o pai muito cedo, antes da meditação matinal. Love e Falke eram quase da mesma altura, então as roupas caíram bem.

— Vocês ao menos dormiram? — Carrie indagou, enquanto estavam todos à mesa.

— Não — Falke respondeu. — A sua filha não deixou.

— De nada, por fazer você ter uma noite agradável — Alice resmungou.

— Sem brigas na mesa, por favor — Love se sentou ao lado de Falke e o encarou.

— O quê?

— Quer fazer trancinha? No seu cabelo fica bonito.

— Não.

— Os suecos usam — a loira disse, entre risos. — Me passa o pão.

— Eu não sou sueco.

— É o que então?

— Norueguês.

— Nórdicos, é tudo a mesma coisa.

—Alice têm razão, você parece sueco — disse Carrie, bebericando o café. — Os noruegueses são ruivos, que nem eu.

— Já disse que não sou sueco.

— Não quer mesmo as trancinhas? Posso colocar uns tererês — Love riu quando o platinado massageou as têmporas. — Faço no capricho, a Alice adora.

— Pai!

— Querido, por favor. Não estresse as crianças logo pela manhã — Carrie resmungou. — Vocês dois não iam sair? Por favor, vão logo, só preciso tomar meu café da manhã em paz.

— O café da manhã de vocês é sempre assim? — Falke indagou, indignado.

— Quase sempre, e você gostou — Love riu. — São momentos assim que fazem a nossa vida ficar ainda mais preciosa, não acha?

O viajante enfiou algumas tiras de bacon na boca e não soube responder, pois não se recordava de ter vivido momentos assim. Na verdade, ele não estava conseguindo recordar de muita coisa desde quando despencou no quarto da hippie. Ele tinha alguns lapsos nebulosos sobre a vida do outro Falke, mas não conseguia encará-los como seus.

— Falke, você sabe surfar? — a voz da loira o tirou dos devaneios.

— Eu... não sei... — murmurou, franzindo o cenho para tentar lembrar. — Acho que sei.

Alice e Love se entreolharam, notando o semblante confuso do viajante, que já se levantava.

— Preciso ir ao banheiro.

— Vá — Love disse, percebendo a preocupação da filha.

Alice se levantou no encalço do platinado. Ele abriu a porta e foi empurrado por ela, que os trancou no banheiro. Ela suspirou, encostada na porta, e flagrou o princípio de lágrimas naqueles olhos perdidos.

— Você ficou estranho, o que houve?

— Eu não consigo me lembrar de nada.

— Falke, você está tentando se lembrar de uma vida que não é sua.

Ele suspirou e deixou uma lágrima escorrer.

— Mas... se eu tenho o controle de tudo, por que não consigo lembrar?

— E quem disse que você tem o controle de tudo? Foque no agora, o futuro não o pertence mais — Alice abriu a porta e o puxou para fora. — Siga o fluxo.

Ele assentiu, e ambos rumaram de volta para a mesa. O casal Wallace resolveu não perguntar nada, os jovens pareciam ter se resolvido.

— Vamos passar o dia fora, se vocês me ligarem não vou atender — ela comunicou aos pais.

— Só se cuidem — disse a ruiva, nenhum pouco preocupada. — O Precioso chegará em breve, leve ele com você, o pobrezinho sentiu a sua falta.

Os jovens terminaram o café e seguiram para o jipe amarelo de Alice. O Precioso estava no encalço, pois já havia retornado da clínica veterinária. Falke ajustou os óculos de sol preto no rosto e passou o bloqueador solar. Ele não queria passar nas costas da loira, mas foi o preço pago para que ela o deixasse dirigir o veículo. Alice vestia uma canga verde que descia até os tornozelos repletos de tornozeleiras, e um maiô preto com as costas nuas. Ela amou ver o norueguês vestido com as roupas do pai, o dava um estilo new wave, como se estivesse pronto para voltar no tempo. Após muita insistência, ele cedeu seu colete da Pluma para ela, que nem estava limpo, mas a hippie queria usar mesmo assim. A sensação de desprendimento do mundo que o colete passava era algo libertador, como se sentir infinito. Era assim que os integrantes da Pluma se sentiam, infinitos.

— Rasga — Alice disse, quando colocou o cinto e acomodou o cachorro em seu colo.

O platinado deu partida, fazendo o coração de ambos bater mais rápido. Os dois estavam ansiosos para o encontro nada planejado. Para Alice, esses passeios eram os melhores, porque não se planejava nada e tudo dava certo no final. As ruas de Starfish não mudaram em nada, dando a Falke a liberdade para pegar os caminhos que conhecia.

— Aperta o cinto — ele pediu. — E segura o cachorro com força.

— Por quê?

— Você colocou o colete da Pluma, então está disposta a correr.

— O quê!? Não... — Alice começou a se desesperar quando ele começou a acelerar. — Falke, para com isso, caralho!

— Vamos, aperta o cinto — ele riu.

— Esse jipe não foi feito para correr! — ela se desesperou enquanto apertava o cinto.

— Nas mãos da Pluma todo carro foi feito para correr.

O cachorro latiu animado quando a dona o apertou com força contra o peito e a alta velocidade do veículo agitava seus pêlos sedosos. Alice soltava gritos agudos a cada curva perigosa que Falke fazia, levantando poeira e fumaça. Ele escolheu a rota das estradas mais livres, onde sabia que teria liberdade para acelerar. Dentre os integrantes da Pluma, o platinado era o mais agressivo nas corridas, diferente de Dandy, que costumava ser mais cuidadoso. Ao se aproximarem do centro, ele começou a dirigir como uma pessoa normal. Àquela altura, os cabelos de Alice estavam tão emaranhados quanto uma rede de pescador recheada de algas e camarões.

— Nossa, que vontade de te...

Ela só reparou que estavam muito próximos a casa de Amélia quando dobraram a esquina."Gritei tanto que não notei que ele já sabia o caminho", resmungou. Dandy e Billie avistaram o jipe se aproximando e se sentiram apreensivos. O Precioso latiu animado ao ver a corredora, e logo pulou para seus braços. Alice ainda tentou dar um jeito no cabelo quando Dandy se aproximou, mas o rapaz pareceu não ter notado. Falke os observava através das lentes escuras, muito calmo, com um braço relaxado na porta e uma mão no volante. Ele os cumprimentou apenas com um leve aceno com a cabeça e permaneceu impassível até que todos entrassem e se acomodassem no jipe. "Parece um integrante dos Beach Boys", Billie pensou consigo mesma. Ela se perguntou se deveria avisar aos pais e avós, que estavam saindo, mas os casais ainda estavam trancados em seus quartos. "Bom, o máximo que eu posso fazer é levar mais uma coça da vovó".

A corredora se encolheu ao notar o platinado a observando pelo retrovisor. Ela sentia algo estranho vindo dele, não parecia ser o seu avô. O rapaz permaneceu encarando, analisando os movimentos e trejeitos da anomalia.

— Hum, você é o meu avô? — ela não segurou a língua e perguntou.

— Não, eu não sou nada seu — rebateu, seco.

— Falke... — Alice o olhou feio, sem entender por que estava sendo grosso. —Amiga, não liga. Ele é ranzinza, mas é bonzinho.

— Podemos ir? — Dandy cortou a conversa, antes que o clima ficasse tenso.

Alice agarrou o seu violão e foi cantando durante o percurso até o shopping. O clima tenso foi se dissipando a cada esquina dobrada, e já não existia mais quando chegaram. As meninas se divertiam enquanto pulavam de loja em loja procurando roupas para os rapazes, que não conseguiam entender como as roupas masculinas haviam mudado tanto para pior. Os homens pareciam ter diminuído de tamanho, e apesar de Dandy não ser alto como Falke, as calças jeans encontradas não passavam por suas coxas grossas. Eles entraram na Forever 21, e encontraram roupas que se sentiram à vontade. Falke as encontrou com mais facilidade, pois era alto e esbelto, então praticamente qualquer roupa para homens altos servia. Dandy procurou por mais um tempo, até encontrar uma calça jeans que o deixasse confortável.

— Não faz sentido perder tanto tempo com isso, vamos embora mesmo — Falke disse, impaciente com a demora.

— Apenas siga o fluxo — Alice riu.

— Certo, Love.

Saindo da loja, os olhos de Billie caíram na amiga e no viajante sentados no banco, sorrindo um para o outro enquanto conversavam. "Meu Deus, o que está acontecendo? Eu juro que não estou entendendo mais nada". Seu coração se aqueceu ao ver a dinâmica gostosa que emanava entre eles, como se já se conhecessem. 

O rapaz parecia outra pessoa perto da loira, como se retirasse aquela máscara de seriedade que achava que precisava vestir toda vez que alguém se aproximava. Dandy também os observava, se perguntando se aquele era realmente o seu melhor amigo. O Precioso pulou do colo de Falke e correu animado até Dandy, fazendo os olhos de Alice caírem no rapaz. 

Ela franziu o cenho e pensou na possibilidade de o cachorro já conhecer Dandy e Falke, pois o canino sempre fazia muito estardalhaço, latia e ficava um pouco agressivo na presença de estranhos. Quando chegou do veterinário após a cirurgia de castração, ele ficou tão eufórico com a presença do viajante, que fez xixi enquanto balançava o rabo freneticamente e latia animado. "A mesma coisa com Dandy. O Precioso só age assim com alguém familiar, alguém que não vê faz tempo". Ela guardou as suposições para si, e como já se aproximava do meio-dia, ela deu a ideia de almoçarem na praia. Passaram no restaurante, compraram pratos prontos e rumaram para o litoral.

— Você vai me ensinar a surfar? — Alice perguntou.

— Sim.

Eles pularam para fora, animados com a praia ensolarada. As meninas logo ficaram apenas de maiô e correram para o mar, que estava ótimo para pegar ondas. Falke não se importou em mostrar as runas quando retirou a camiseta, mas as marcas não estavam mais gravadas em sua pele. Ele não havia notado, pegou uma das pranchas no jipe e esperou uma onda quebrar para o nível da água subir na margem e entrar com tudo em cima da prancha.

— Falke — Dandy o chamou, se aproximando. — Nós nos conhecemos?

O platinado achou aquela pergunta pertinente.

— É claro, mas... — ele hesitou, tentando se recordar de algo. — Eu não consigo lembrar de muita coisa, é estranho.

— Você ainda é o meu melhor amigo.

— Eu nunca deixei de ser.

— O Falke mais velho disse que vamos para outro lugar, é verdade?

— Sim.

— Tudo bem, não precisa me dizer mais nada — o moreno sorriu. — Chega de explicações, vamos viver o momento com as nossas namoradas.

Dandy saiu correndo com a sua prancha vermelha antes que o platinado protestasse. Eles caíram no mar e se divertiam tentando pegar ondas. Billie já havia colado em Alice para fazer perguntas sobre o platinado. Para a corredora, a amiga era tão aleatória quanto o pai, sempre surgindo em momentos completamente sem sentido. Porém, a loira só relatou os acontecimentos desde quando Falke caiu em seu quarto. Ela odiava esconder as coisas da melhor amiga, mas foi o trato feito com o platinado para que ele a deixasse pular na fenda. Ele achava que seria melhor que as suposições sobre ele ter a linhagem dos antigos, ficasse somente entre eles.

— Então quer dizer que vocês vão namorar? — Billie indagou.

— Não, isso é apenas uma possibilidade.

— Mas a foto...

— Amiga, aquela foto não quer dizer nada.

— Como o Love nunca contou sobre essa foto?

— Você sabe como é o meu pai. Enfim, eu vou com você.

— Alice...

— Eu não quero ouvir objeções.

— Mas, e a sua vida?

— Está em mil novecentos e oitenta e seis.

A praia rendeu ótimos momentos de descontração. Alice acabou se frustrando ao não conseguir pegar nenhuma onda. A loira não conseguia se equilibrar na prancha, e acabou ficando cansada após as inúmeras tentativas. Billie resolveu nem tentar, apenas se contentou ao observar Dandy surfar, de modo desajeitado, mas conseguia. Enquanto a hippie pegava um bronze de bruços na prancha, Falke teve mais déjà vu. "Pare de ficar tentando lembrar, essas memórias não são suas", se repreendeu.

— As runas sumiram — Alice disse, quando o viu submergir ao seu lado. — E você nem me disse o significado.

— O quê? — indagou, incrédulo.

— Você não viu?

— Eu não tenho olho nas costas.

— Ah, é — ela riu. — Elas sumiram, e agora, o que acontece?

— Nós vamos sumir também — ele agarrou a borda da prancha e ameaçou virar.

— Não faça isso, quero ficar bronzeada!

Porém, Dandy surgiu ao lado deles e virou a prancha, levando o bronze de Alice para longe. Eles se divertiram até a exaustão bater, e quando o Sol começou a abrandar, foram embora.

***

Eles resolveram ir todos para a casa dos Wallace. Falke não queria encontrar o outro Falke, e todos já estavam fartos de possíveis teorias, mais explicações e toda a bagagem pesada da confusão. Eles já sabiam o que aconteceria no dia seguinte, e queriam apenas curtir um pouco. Alice cantarolava baixinho, fazendo um carinho no cachorro. Billie quase cochilava com a cabeça encostada no ombro de Dandy, e o platinado, permanecia dirigindo em silêncio. O jipe rumou para o centro, onde parou em um sinal. As ruas estavam animadas, algumas pessoas atravessaram a faixa de pedestres, cada uma seguindo a sua vida, alheios ao fato de que suas realidades podiam ser moldadas. Os olhos esverdeados de Dandy caíram em um senhor que passava na faixa. O rapaz se empertigou para frente para enxergar melhor e ter certeza, mas não havia dúvidas, era ele.

— Tio Harold... — murmurou. — Tio Harold!

Antes que Falke pudesse impedir, o amigo saltou para fora do veículo e saiu esbarrando na multidão de pessoas até chegar ao senhor, que estava na companhia do filho. Dandy estava tão esbaforido que quase esbarrou na dupla, que o olhava sem entender nada. Ambos os olhares esverdeados se encontraram. Um brilhava em expectativa e saudade, mas o outro refletia apenas o vazio do esquecimento. Harold ainda franziu o cenho na tentativa de recordar de onde conhecia aquele rapaz, mas absolutamente nada veio.

— Tio Harold! Meu Deus, que saudade! — ele exclamou, exultante. — Vem aqui, meu velhote!

Os braços do rapaz o envolveram com tanta força que o mecânico achou que suas costelas quebrariam uma por uma. Dandy suspendeu o corpo do homem no ato e só o largou quando Clint tocou o seu ombro e pediu que parasse. Harold respirou fundo e massageou as costelas, ele não conseguia entender as motivações daquele rapaz, e se sentiu constrangido por não se lembrar dele.

— Ora, ora, que rapaz forte é você, sim? — Harold disse, um pouco sem jeito. — Me desculpe, meu jovem, mas eu conheço você de algum lugar?

— Tio? — Dandy soltou uma risada sem graça. — Como assim?

— Bem, eu... eu não sei quem você é.

— Tio, sou eu — o sorriso do rapaz foi morrendo, dando lugar ao aperto no peito. — Dandy Spring, seu sobrinho.

— Sobrinho? Ora, temos o mesmo sobrenome, mas meu irmão teve apenas uma garotinha. Sim, Salsa Spring... pobrezinha, perdeu para a tuberculose.

— Pai, você não tem que ficar se explicando para estranhos — disse Clint, passando um braço na frente do padrasto. — Vamos embora.

— O quê? Não... — o nó na garganta de Dandy o fez respirar pausadamente para controlar o choro. — Tio Harold, sou eu, Dandy Spring.

— Ele não sabe quem é você é, okay?

— Mas... — ele olhou assustado para o mecânico. — Por favor, você não pode esquecer de mim...

— Vamos, pai.

Clint passou a mão pelo ombro de Harold e retomaram o caminho, mas Dandy foi no encalço e agarrou o braço do mecânico, que já o olhava assustado.

— Saia! — Clint bradou, irritado. — Se tocar no meu pai novamente, eu juro que arrebento a sua cara. Seu lunático!

— Por favor, não! — Dandy entrou em desespero, pois não sabia conceber que não existia mais naquela realidade. — Tio, e a nossa oficina? O Mercury Monterey vermelho...

— O quê? Como você sabe dessas coisas?

— Jebb Sping é o nome do meu pai — Dandy soluçou. — Joana, minha mãe. Você era apaixonado pela sra. Goose, a viúva dos pombos, lembra?

— Você anda nos espionando? — Clint grunhiu. — Vamos chamar a polícia.

— Espere, filho — Harold pediu. — Rapaz, como você sabe dessas coisas?

— Eu sou o seu sobrinho. E-eu estou de volta...

Clint abriu a boca para xingá-lo, mas desistiu ao notar o semblante transtornado do rapaz, e não sentiu nada além de pena. Ele se recordou que estava com um cartão da clínica psiquiátrica da sua esposa, vasculhou a carteira e o puxou, entregando para Dandy.

— Escuta, cara. Eu não sei o que aconteceu com você, mas é óbvio que precisa de ajuda. Essa é a clínica da minha esposa. Dê uma passada por lá, diga que é amigo do Clint, ela vai te dar um desconto. O nome dela é Silvia Goose.

Dandy segurou o cartão, e quando ergueu os olhos, os dois homens já se afastavam na multidão. Desesperado, ele andou rápido até alcançá-los novamente e voltou a agarrar o braço de Harold. Clint ficou assustado com a reação desnorteada do rapaz e tentou afastá-lo com um empurrão, mas Dandy se mostrou persistente, até receber um soco de Clint, que o levou ao chão.

— Meu Deus! — Billie arfou, ao enfim alcançá-lo. — O que...

— Você é amiga desse cara? — Clint indagou, ela apenas assentiu. — Então vê se leva ele daqui.

— Meus jovens, vamos nos acalmar — o velho Harold pediu, nervoso. — Meu sobrinho... não... o rapaz precisa ir ao médico.

Harold acompanhou Billie erguer Dandy e sentiu o peito apertar. A velha sensação de que estava esquecendo algo importante voltou, junto com a visão dobrada que o fez se apoiar no enteado. Clint ficou ainda mais furioso ao ver que o padrasto não estava se sentindo bem, e pensou em partir para cima de Dandy, mas foi impedido por um rapaz mais alto, que não estava com a feição nada amistosa. Falke afastou Clint com um empurrão em seu peito, o fazendo cambalear para trás."Velhote", o chamado que o perseguiu durante anos havia voltado, como se tentasse reivindicar o seu espaço de direito na memória de Harold, mas... nada.

— Você — o platinado grunhiu. — Pega o seu pai e saia, agora.

— É o que eu estava tentando fazer, seus lunáticos.

Billie teve que segurar Dandy com muita força para que ele não voltasse a perseguir o mecânico. Harold olhou por cima do ombro uma última vez, mas mesmo que a mais forte sensação de estar esquecendo algo o abatesse, ele jamais iria lembrar de alguém que não existia. Falke se virou furioso para Dandy, o agarrou pela camiseta e o arrastou praticamente aos tropeções de volta para o jipe. Billie ficou tensa ao ver o platinado empurrar seu namorado para dentro do veículo como se fosse um animal a ser enjaulado. Alice tinha ficado de guarda, e não entendeu nada quando todos chegaram com os nervos à flor da pele. A feição nada amistosa de Falke e o lábio cortado de Dandy foram suficientes para ela saber que algo sério tinha acontecido.

A loira resolveu não perguntar nada por hora, e o caminho até a casa dos Wallace foi carregado de um silêncio mórbido. Quando o jipe estacionou na entrada, Dandy se desprendeu dos braços de Billie e correu para o gramado, caiu de joelhos e provocou. As entranhas do rapaz se reviravam, mas nada se comparava com o olhar perdido do tio, que não demonstrou nenhuma fagulha viva que incendiasse sua memória. Ainda no jipe, Alice observava a amiga abraçar o namorado no gramado. Ela colocou a mão no ombro de Falke e o fez encará-la.

— O que houve?

— Ele reconheceu o tio, não era para acontecer.

— Então o tio não lembra mais dele?

— Isso.

— Por que não nos contou desse risco? Teríamos sido mais cuidadosos.

— Cuidadosos como, Alice?

— Evitar o centro da cidade, essas coisas...

— Vocês não entendem nada.

— Você que não nos explica nada, caralho — Alice segurou o queixo de Falke e fixou os olhos nos dele. — Diferente do meu pai, a minha paciência tem limite, e ela costuma acabar quando eu vejo a minha irmã chorar. Eu sei que você não é o mesmo Falke que está na casa de Amélia, eu estou me lixando para isso. Agora, mais do que nunca, eu vou pular naquela fenda, porque eu não vou deixar a Billie ir sozinha para uma dimensão com um cara que eu não confio.

Falke sacudiu a cabeça para que ela largasse seu queixo.

— Você não confia em mim?

— Não.

— Por quê?

— Você sabe.

Alice pulou para o gramado e ajudou a amiga a erguer Dandy. O rapaz chorava muito, e parecia fora da realidade. O Precioso gania baixinho, indo no encalço da dona.

— Billie — Falke chamou.

— Vai lá, eu ajudo o Dandy — a hippie disse.

A corredora ficou para trás, e não conseguia fazer nada a não ser observá-lo. Ele parecia alguém muito distante, muito diferente do homem que estava na casa de sua avó. O platinado se aproximou e tentou enxergar a mulher como se não fosse uma anomalia.

— Cuida do Dandy, certo? Ele costuma ser muito sensível.

— E como sabe? Você não me parece ser o melhor amigo dele.

— Mas eu sou...

— Ah, é? Não me parece — Billie grunhiu e cruzou os braços.

— O nosso aniversário é amanhã, a fenda se abrirá amanhã, completando o ciclo dos vinte e cinco anos do equinócio de mil novecentos e oitenta. Dandy está de volta porque não existe mais aqui. Se o acidente não aconteceu, então ninguém morreu. É por isso que vocês serão mandados para outra dimensão, onde deverão existir.

— O outro Falke já me explicou tudo isso.

— Então por quê vocês estão complicando as coisas? Fiquem quietos até a hora da abertura da fenda, okay? Estou tentando fazer as coisas darem certo, mas vocês só complicam tudo.

— Quer saber, a única coisa que você fez foi ferrar a vida de todo mundo.

Falke ficou em silêncio e a observou entrar na casa. O viajante sabia que Billie tinha razão, só não conseguia lembrar onde tudo começou a dar errado. Mesmo querendo fazer as coisas darem certo, o universo parecia o estar punindo por algo. "Por algo que eu não consigo lembrar. Talvez o meu castigo seja esse, o esquecimento", pensou. Ele se sentiu mal pelo jeito que tratou Dandy, pelo jeito que falou com Billie e pelas coisas que disse para a hippie. A luz da varanda acendeu, e logo Alice caminhava em sua direção. Ela notou o semblante angustiado do viajante e lhe deu um abraço reconfortante.

E então, ele chorou, sentiu remorso e arrependimento, como um humano.

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