16| CANTE PARA MIM, ALICE
"Há um homem das estrelas esperando no céu. Ele gostaria de vir e nos conhecer, mas ele acha que nos assustaria. Há um homem das estrelas esperando no céu, ele disse para não estragarmos tudo, porque ele sabe que tudo vale a pena." — Starman (David Bowen)
Starfish, 2o25
— Ele pensa que é o original, e deveria continuar assim, se a sua filha não tivesse enviado aquela foto — Falke suspirou pesado e lançou um olhar fulminante para Alice. — E é com ele que você vai ficar!
Se não estivesse tão irritado, o viajante soltaria boas risadas da careta de desespero da loira. Love não resistiu e soltou boas gargalhadas, deixando a filha irritada. Ele só queria pegar o seu violão e tocar um pouco com a esposa sem a preocupação de possíveis agressões. Parecia impossível que aqueles dois ficassem no mesmo ambiente sem tentar se matar. O viajante estava visivelmente irritado, e o hippie conhecia a filha o suficiente para saber que ela usaria aquilo para irritá-lo ainda mais, como gasolina em princípio de incêndio.
Os três foram se sentar nas almofadas, com a visão privilegiada de uma mesa farta, agora com um convidado. Carrie acabou pegando no sono por causa da alta dose de chá de camomila, e Love achou melhor que a esposa não estivesse ali. Falke não quis tomar um banho antes, pois estava morto de fome e não fazia questão de fazer cerimônia. As travessias pelo tempo sempre deixavam o viajante faminto, exausto e sujo, como se tivesse saindo de um longo e enfadonho expediente de trabalho. Naquele momento, a existência de Alice era irrelevante, sua única atenção estava voltada para a comida.
Ele retirou as luvas, lavou as mãos e sentou na almofada ao lado da loira, que o olhava de esgelha sem entender nada. Falke começou a atacar a mesa, serviu-se das frutas, bolos, torradas, ovos fritos e o café com leite. Quando finalmente terminou, a única coisa que desejava era uma cama, mas precisava tomar banho.
— Estou imundo, preciso tomar banho.
— Vou preparar um banho para você — Love disse, se levantando. — Nós podemos conversar depois?
— Depois que eu dormir? Estou exausto.
— É claro, não quer aproveitar e passar uma noite?
— Nem pensar — Alice protestou.
— Sim — Falke disse, seguindo Love.
— Ótimo, você pode se sentir à vontade para conhecer a casa, afinal, você quem a projetou.
O viajante quis corrigi-lo, dizendo que quem havia projetado a casa era o Falke que estava na casa de Amélia, mas resolveu não confundir mais as coisas. Ele gostava de Love, pois o hippie não o julgava em nada, apesar de já ter vivenciado momentos mirabolantes com o norueguês, ele só aceitava o fluxo das coisas, reconhecendo que era impossível ir contra as leis do universo. Eles foram para uma sala de banho, onde o que parecia ser uma enorme banheira de hidromassagem estava prostrada no centro.
Love deixou tudo preparado para o viajante se sentir o mais confortável possível, e se retirou da sala para ir pegar toalhas limpas. Finalmente sozinho, Falke colocou sua bolsa transversal na prateleira e começou a retirar as roupas sujas. A água morna o fez gemer baixinho, e ao se acomodar na lateral da jacuzzi, sentiu que poderia ficar ali para sempre. A água acariciava seu corpo enquanto não parava de jorrar das laterais, e a espuma com cheiro de limão deixava tudo mais agradável. Falke espreguiçou os braços na lateral da jacuzzi e fechou os olhos, deixando que o banho levasse toda aquela fuligem embora. No andar de baixo, os hippies discutiam. A loira não queria deixar as toalhas e os óleos, enquanto Love insistia que ela fosse.
— Pai, eu não quero! — resmungou, pela quinta vez.
— Então por que você está aqui, no meu encalço? — perguntou, enquanto separava as toalhas. — Se quisesse distância, estaria bem longe daqui, ensaiando com a sua banda.
Alice ficou sem argumentos, pois sabia que o pai tinha razão. Ela queria distância, mas não podia negar que estava terrivelmente curiosa a respeito do viajante. A ideia de odiá-lo e renegá-lo à distância era uma ideia muito mais agradável e aceitável, mas a presença dele instigava a sua curiosidade em níveis alarmantes. Love colocou as toalhas nos braços da filha e riu quando ela revirou os olhos e não protestou.
— Ei, vamos pensar por outro ângulo, certo? Olha quantas possibilidades você tem de conseguir arrancar informações dele, de saber sobre viagem no tempo e deuses. O viajante está disposto a passar uma noite conosco, por que não aproveita?
— Certo, me passa a bolsa com os óleos.
Ela subiu para o terceiro andar, um pouco mais confiante depois da conversa com o pai. "E se ele estiver pelado?", se perguntou. "Não estou nem aí. Vou passar uma vergonha nele aparecendo de repente, que nem cena de filme". Alice segurou a aba da porta, e sem bater, a arrastou para o lado. Para sua decepção, o som arrastado foi abafado pela turbulência da água. Falke sabia que ela estava ali por causa de seu reflexo nas placas de vidro que formavam uma espécie de vestuário. Ele apenas virou a cabeça e a encarou por cima do ombro. A loira se encolheu diante daquele olhar frio, que não demonstrava nada além de indiferença transbordando daqueles olhos negros.
Ela engoliu em seco e adentrou no recinto sem se importar em pedir licença, e começou a empilhar as toalhas nas prateleiras. O platinado já havia voltado a posição de antes, como se ela não estivesse ali. Alice ficou indignada, pois não teria tanto sangue frio para ignorar uma pessoa que estivesse invadindo seu espaço em um momento de intimidade. Ela agitou a bolsa com os sabonetes e os óleos aromáticos e caminhou até a borda da jacuzzi, se sentando nela. Falke abriu os olhos e não se importou ao vê-la ali, mais próxima, desde que não falasse nada para interromper seu descanso.
— Meu pai pediu para trazer alguns óleos aromáticos, você quer algum?
Falke se limitou a encará-la em silêncio. Ela suspirou e colocou a bolsa no colo, passando os dedos entre os potinhos de vidro para disfarçar o nervosismo. Ao dar uma rápida olhada no rapaz, que já relaxava de olhos fechados, ela imaginou que cheiro combinava com ele. "Bem, o cabelo dele me lembra baunilha". Ela vasculhou a bolsa e retirou o vidrinho redondo.
— Acho que eu posso escolher, já que você não falou nada.
Ela despejou o líquido viscoso e dourado na água, e logo a espuma ficou mais densa. Falke inspirou aquele cheiro adocicado, e o ar empestado de baunilha entrou como bálsamo em seus pulmões, que pareciam estar sempre cheios de fumaça quando andava pelo tempo. A única coisa que ele mais desejava para seu momento de descanso ficar perfeito, era que Alice se retirasse. Porém, a menina o analisava sem vergonha de omitir sua evidente curiosidade. Quando ela retirou os chinelos e mergulhou as pernas na água até os joelhos, ele soube que ela não partiria tão cedo.
A hippie não estava acostumada com tanta indiferença, aquilo era algo novo de se lidar. Sempre muito comunicativa e adepta ao diálogo para resolver tensões, ela encarou as atitudes do viajante como um desafio. Alice não gostava do rumo que as coisas estavam tomando, principalmente pelo modo conturbado do primeiro encontro. Não era fácil digerir o fato de saber sobre algumas coisas sobre o seu futuro, mas não era por isso que ela iria dificultar mais ainda.
— Olha, me desculpa por ter enviado a foto — ela disse, sendo sincera. — Eu estava muito assustada, e na hora me pareceu a coisa certa a se fazer.
Falke ainda se limitava a encará-la, mas deu um breve aceno com a cabeça. "Bom, pelo menos é alguma coisa", ela pensou.
— Não vai me dizer que você não tomou um susto — ela riu, tentando descontrair.
O rapaz franziu o cenho em confusão.
— Tipo, eu entrei de uma vez, né? Podia ter te visto pelado.
— Eu gosto de mulher, Alice — ele disse, sem desgrudar os olhos dos dela.
— Ah...
Alice não conseguiu sustentar o olhar, e desviou para suas pernas, que se agitavam entre a água morna na tentativa de abrandar o nervosismo. "Bom, pelo menos eu tenho um ponto, fiz ele interagir", frisou. O viajante aproveitou o seu momento de distração para observá-la melhor. A garota não parecia ter mais do que vinte anos, e ele se recordou em seu passado longínquo, que os Wallace resolveram ter filhos um pouco tarde. Seus olhares voltaram a se encontrar quando ela ergueu o rosto e o flagrou a fitando.
Falke não desviou o olhar, já fazia bastante tempo que ele não sabia o que era se sentir constrangido ou evasivo, na verdade, fazia tempo que ele não sentia nada. Alice desviou o olhar para qualquer lugar que não fosse aqueles olhos frios, que davam arrepios estranhos em sua pele. Uma eternidade parece ter se passado, e ao voltar a fitá-lo, tremeu ao encontrar o olhar dele ainda fixo nela.
— Você vai ficar aí encarando? — indagou, fazendo uma careta.
— Sim, até você sair.
— Eu não vou sair. Só vim conversar, tá bom?
— Você está me incomodando.
— O Falke da sorveteria era mais simpático — resmungou.
— Ótimo, é com ele que você vai ficar mesmo.
— Olha, eu... isso... n-não...
Falke não conseguiu evitar e soltou uma leve risada abafada, que se foi tão rápido quanto veio. Ele não ria ou sentia qualquer outro tipo de emoção mundana, então ajustar-se estava sendo estranho. Alice estava começando a acreditar nas palavras do viajante, e as possibilidades eram assustadoras. Ela passou os cabelos para trás da orelha e depois cruzou os braços.
— Não acredito em você — disse, enfática. — Não mesmo.
— Certo.
O silêncio incômodo voltou a pairar sobre ambos, e assim permaneceu durante alguns minutos. Seus olhos castanhos também o analisaram, captando algumas runas gravadas em sua pele, que vinham das costas e se estendiam até os ombros. Alice não desistia fácil, por isso resolveu não se render às provocações dele. Ela soltou um suspiro alto e pigarreou com a garganta, o fazendo abrir os olhos. Falke permaneceu estéril de emoções por um longo período, mas bastou a hippie cair de paraquedas em seu caminho que ele voltou a sentí-las todas de uma vez, e naquele momento, estava com muita raiva. Alice seria mais um castigo do universo?
— Essas runas, o quê significam? — Falke suspirou e massageou as têmporas. — Qual é, você não pode ser tão durão assim. Sei que tem um coração humano batendo aí dentro.
Ele soltou outra risada abafada, que soou mais como uma bufada.
— O quê? Você não é humano então?
— Talvez eu não seja, não mais.
— E o significado das runas?
— Pesquisa no google.
— E qual a numeração da água oxigenada que você usa?
— O quê?
— O seu cabelo, qual a numeração da água que você usa para platinar ele?
Falke contorceu o rosto em uma careta na tentativa de não rir, mas era impossível. Alice conseguia ser a pessoa mais aleatória daquela dimensão, e nem mesmo a rudeza do viajante foi o suficiente para evitar uma risada. "Agora eu tenho dois pontos, ele riu", ela fez uma nota mental. O platinado juntou as mãos em concha e levou água ao rosto para retirar a fuligem. A espuma o deixava com a sensação dormente de estar flutuando nas nuvens, enquanto o cheiro do óleo o inebriava ao ponto dele desejar dormir ali mesmo. Falke apagou durante alguns instantes, deixando Alice preocupada ao vê-lo escorrer para debaixo d'água.
— Ei — ela chamou.
Ele já estava em sono profundo quando acordou de repente com Alice o puxando para a superfície e sacudindo seus ombros. Falke passou a mão pelo rosto para afastar o excesso de água e tossiu um pouco. A menina se levantou rápido e saiu da jacuzzi com as roupas encharcadas.
— Você dormiu forte agora, ia se afogar — enfatizou.
— Não iria, não — ele disse.
— De nada, por ter salvado a sua vida.
— Eu não iria morrer, Alice. Infelizmente não tenho o privilégio do suicídio.
— Garoto, do quê você tá falando?
Falke abriu a boca para dizer, mas era demais para a cabeça mundana de Alice processar.
— Não é nada.
***
O viajante passou a entender porque Love sempre usou aquelas roupas largas e esvoaçantes, tudo ficava mais refrescante nelas. As temperaturas altas da Flórida às vezes se tornavam insuportáveis, e não era nada agradável ficar cozinhando no calor dentro de roupas sufocantes. Após a longa conversa com Love, ele seguiu para um dos inúmeros quartos de hóspedes e desabou na cama macia. Ainda era cedo, mas ele só queria dormir. Falke despertou com o leve som de um despertador em cima da cabeceira.
"Quem é que coloca um despertador nesse horário?" resmungou, enquanto desligava o aparelho. No mesmo instante, o som arrastado da porta ecoou pelo quarto, e atrás dela, estava Alice. O viajante pensou em protestar, mas estava tão cansado que apenas aceitou que ela entrasse, carregando um violão nas costas e trazendo uma bandeja munida de donuts quentinhos, salgadinhos e um refrigerante. Ela foi até o terraço e depositou a bandeja na mesa, e muito acanhada, sentou ao lado dele no colchão.
Eles ficaram em silêncio, apenas observando o luar invadir o quarto. "Se ele não me expulsou, então isso já é alguma coisa", pensou. O fim da última conversa que tiveram não saiu de seus pensamentos. Além de ter ficado preocupada, Alice se sentiu muito incomodada com a extrema apatia dele ao dizer aquilo. A hippie foi criada em um ambiente onde todos os conflitos eram resolvidos na base do diálogo, além de ter sido ensinada pelos pais os bons valores que as amizades poderiam trazer.
Ela não costumava ignorar indícios de que algo não ia bem com alguém de seu convívio, e embora o conhecesse menos de vinte e quatro horas, ele não deixava de ser menos importante. Falke voltou a desabar no colchão e logo começou a dormir, sem se importar com a presença dela. Alice se surpreendeu com a facilidade dele em dormir, e se permitiu o observar melhor. O peito do viajante subia e descia, lentamente, como a pluma de um pardal que despenca para o chão. A curiosidade da loira era tamanha, que, se pudesse, o viraria de bruços e traçaria todas aquelas runas em suas costas até descobrir o significado delas. Ainda com receio, ela cutucou seu ombro e pôde sentir a pele morna através da túnica de linho. Falke despertou sonolento, e ajustou a visão embaçada até lembrar que Alice estava ali.
— Ei, quero te mostrar uma coisa — ela disse.
— É pedir demais me deixar dormir?
— Coloquei o despertador no seu quarto, desculpa — ela riu. — Bem, funcionou, te encontrei acordado. O cometa Oki vai passar daqui a pouco, achei que você gostaria de vê-lo comigo. Também trouxe uns lanches bem gordurosos, acho que você está precisando.
Falke a encarou, tentando entender a motivação da menina. Alice desviou o olhar para as próprias mãos e começou a apertar os dedos para disfarçar a ansiedade. Ela não gostava de ver seus amigos tristes, e fazia de tudo para animá-los. O viajante parecia sempre com aquele olhar imensamente triste, como se não houvesse mais esperança para a sua felicidade.
— Como adivinhou que eu gosto de cometas?
Alice ergueu o rosto para encará-lo, surpresa com a repentina interação.
— Dã, você é um viajante do tempo.
Empolgada com a abertura, ela se levantou, segurou as duas mãos do viajante e o puxou para fora da cama. Eles foram até o terraço, onde se serviram dos lanches gordurosos. "Meu Deus, para onde vai isso tudo?", ela se perguntou, enquanto assistia horrorizada, Falke comer tudo praticamente sozinho. Faltavam poucos instantes para a passagem do cometa Oki, e foi Falke quem deu o primeiro passo até o telescópio, que estava posicionado de forma errada. Alice abriu a case do violão e retirou o mapa da rota do cometa.
— Toma — ela disse, estendendo o papel — É a rota do nosso cometa.
— Você planejou tudo mesmo.
— Pois é, espero que você esteja se sentindo melhor.
— Estou — ele deu um meio sorriso. — Obrigado.
"Agora tenho quatro pontos, ele já se sente melhor", comemorou.
Falke se voltou para o telescópio e ajustou a lente. Alice ficou o observando fazer alguns ajustes no aparelho e testá-lo. Love comprou o telescópio há bastante tempo para observarem os eventos astronômicos e construírem mapas astrais. A loira nunca imaginou que o usaria para observar a passagem de um cometa com um viajante do tempo. Falke posicionou o olho na lente e conseguiu visualizar as finas linhas vermelhas e douradas que anunciavam a abertura da fenda. Era algo lindo e terrivelmente assustador, saber que em breve uma fenda se abriria e os levaria para outra dimensão.
— Quer ver uma coisa legal? — ele perguntou, sem desgrudar o olho da lente.
— Sim — Alice se animou.
— Certo, vem aqui.
Alice segurou a mão dele na sua ao pensar que ele queria segurá-la ao fazer o gesto para que viesse. "Nossa, que gafe", resmungou. Falke pareceu não ter notado, então ela colocou o constrangimento de lado e deixou que ele posicionasse seu rosto contra a lente. Falke direcionou o cilindro rumo ao Cruzeiro do Sul, seguindo para horizontal até chegar na Alpha Centauri. Os olhos de Alice fisgaram a linha da fenda, formada pelo emaranhado de linhas vermelhas e amareladas.
O coração da loira bateu mais rápido quando ergueu o rosto de repente e seu olhar encontrou o do viajante. Ambos não sabiam o que dizer quando a refutação de todas as teorias e negações estava diante de seus olhos. As palavras lhe fugiram completamente, e constrangida, voltou a observar a fenda para ganhar tempo para pensar em algo útil para dizer, mas... nada.
Falke suspirou ao tentar recordar em qual momento da sua vida já havia vivido aquele momento. Muitas coisas se perderam em suas incontáveis viagens no tempo, inclusive a sua humanidade. A deusa deixou claro o preço para consertar tudo, e ele aceitou. Antes que ele se desintegrasse, Ostara reivindicou sua alma. "Se não sou mais humano, porque estou sentindo essas coisas? Porque ainda estou no meio disso tudo?", se perguntou. Ele não sabia dos planos da deusa, e sequer do universo, que o ensinava uma lição sobre não alterar a ordem natural das coisas.
— Essa é a fenda que você vai pular — ele disse, a fazendo olhá-lo.
— Eu não vou, já disse.
— E você não quer ir?
— Você quer que eu vá?
— Não.
— Digo o mesmo para a sua pergunta.
— Podemos fazer um acordo, já que está claro que não queremos que nada disso aconteça.
— Você que não quer.
— Você acabou de dizer que não queria.
— Não sei porque estamos tendo essa conversa, já que ficou bem claro quem é que está no comando de toda essa confusão.
— Alice, não estou no comando de absolutamente nada. Acredite, se eu estivesse, nunca iria chegar perto de você — ele se arrependeu no mesmo instante ao ver tristeza estampar o rosto dela. — Eu não quis...
— É claro que quis — ela suspirou. — E tudo bem, eu nem conheço você mesmo, não sei porque fiquei triste. Enfim, eu tentei. Obrigada por ter sido sincero.
Alice deu as costas e apressou o passo até a porta. Falke sabia que poderia se arrepender da sua decisão, mas correu até a menina e se colocou à sua frente. O viajante se odiou por ver princípios de lágrimas naqueles olhos castanhos, mais uma pessoa chorando por sua causa.
— Você me desculpa?
— Não adianta muita coisa, eu acho — ela engoliu em seco para não chorar.
— É claro que adianta. Nós sabemos o que vai acontecer, então podemos tentar começar pelo caminho certo.
— Ah, não me diga! O que acha que eu estou tentando fazer desde o começo?
— Você tentou me ferrar.
— E já pedi desculpas!
— Eu também, então estamos quites.
Alice engoliu em seco e apenas assentiu.
— Você não ia me mostrar o cometa Oki? — ele perguntou.
A loira arregalou os olhos e correu de volta para o terraço. Falke estudou o mapa e ajustou o telescópio na posição correta. O corpo celeste dourado já cruzava o céu quando Alice colocou o olho na lente. Ela se deleitou ao presenciar aquele momento intenso, onde a longa cauda do cometa parecia não ter fim, e a ilusão de ótica o fazia se misturar com as linhas da fenda.
O viajante ainda tentava se recordar de onde já tinha vivido aquele momento, mas desistiu de decifrar o déjà vu ao se concentrar no seu momento, pois sabia que o que tentava se recordar, provavelmente eram recordações do outro Falke. Alice deu espaço para ele observar o cometa, e aquela cena surgiu como uma melodia em seus pensamentos. Ela logo passou a alça do violão sobre o ombro e ajustou o instrumento nas mãos. Suas inspirações musicais costumavam brotar de momentos marcantes, todos inspirados na vida.
A loira aqueceu a garganta e passou o dedo nas cordas.
— Eu liguei o meu rádio, oh, oh. Tocava um country fora-da-lei legal, mas aquela estação estranha entrou no ar. Eu tentei sintonizar, mas nada o fazia mudar. Continuou tocando aquela balada cósmica, e eu fui lançada ao espaço... — ela percebeu Falke a contemplando e se sentiu constrangida. — Assim não dá, né?
— O quê?
— Você me olhando desse jeito, assim a inspiração não vem.
Porém, ela estava repleta de ideias que nunca imaginou para suas composições. A loira logo agarrou o caderninho e começou a anotar o pequeno trecho de sua inspiração repentina.
— Mas você é cantora — ele riu do constrangimento dela. — Deveria estar acostumada com o público, não acha?
— Não quando o público é um viajante do tempo!
Falke deu uma última olhada no cometa Oki, depois se sentou em uma das cadeiras retráteis e cruzou as pernas, observando a hippie.
— O quê? — ela indagou.
— Estou esperando.
— Não, eu...
— Cante para mim, Alice.
— Ah, quando alguém pede assim eu não resisto — ela riu e aqueceu a garganta. — O que prefere ouvir?
— Você.
"Assim fica difícil não se apaixonar", resmungou, consigo mesma.
— Certo, vamos lá — ela tocou algumas notas para aquecer o violão e encarou o viajante — Cabelo platinado, colete vermelho, era assim o homem que caiu no tempo, oh, oh...
Falke não conseguiu esconder o contentamento ao entreabrir a boca para falar, mas nada saiu, além de um sorriso torto.
— Preciso de mais informações para compor, estou só aquecendo — ela disse.
— Esperta.
O viajante fitou aqueles olhos castanhos e astutos por alguns instantes e cedeu ao apontar para a cadeira ao seu lado. Animada, Alice se sentou e procurou organizar os pensamentos. Para a sua sorte, ele estava disposto a desabafar com alguém, após longos anos de solidão no vasto espaço-tempo. O cometa Oki passava mais próximo da Terra, se tornando uma fagulha dourada vista a olho nu. Ambos o assistiram se distanciar, e quando mais nada além das finas linhas da fenda cortava o céu sob suas cabeças, Alice teve a certeza das respostas que ansiava receber.
— Falke, qual foi o motivo disso tudo?
— Uma oferenda mal feita, pela a minha avó — ele suspirou. — Mas a culpa foi toda minha, eu falei algo que jamais deveria ter pronunciado.
— Tipo?
— O nome de Dandy. Eu estava magoado, e fiz a besteira de pronunciar o nome dele. Não adiantou falar para a minha avó que tudo não passava de um mal-entendido, ela estava irredutível. Ofereceu Dandy e Amélia em meu nome, e a oferenda foi recusada.
Alice não conseguia acreditar que estava bebendo direto da fonte, e muito mais do que isso, que havia algo muito maior do que viagem no tempo.
— Então, deuses existem mesmo?
— Há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe sua vã filosofia.
— Eu amo Shakespeare.
— Eu sei.
— Sabe?
— Podemos pular essa parte? — ele coçou a sobrancelha, visivelmente desconfortável. — O nome dela é Ostara, minha deusa, meu patrono.
— Então suas oferendas eram para ela?
— Sim, eu me oferecia. Minha conexão com ela sempre foi muito grande, por isso ela me deu a chance de consertar as coisas. Minha avó ainda acreditava na ordem dos deuses antigos, achava que Ostara se deleitava com sacrifícios humanos e toda aquela carnificina.
A loira absorvia tudo enquanto Falke contava, sem omitir nada, sobre todos os detalhes.
— Hum — Alice fitou o céu e pensou um pouco. — Você não acha que sua avó, sei lá... não escondia algo?
— Como assim?
— Espero que não se ofenda com o que eu vou dizer, mas você não me parece... humano.
— Talvez eu não seja, não mais.
— Ou talvez você nunca tenha sido.
Ambos apenas se encararam, um tentando entender o raciocínio do outro.
— Veja bem, tenta acompanhar o que eu digo. A sua avó veio praticamente do outro lado do mundo para monitorar as suas oferendas, isso é, no mínimo, bizarro. Quais as probabilidades em um milhão de um deus dar a chance a um simples mortal de consertar algo que parecia irreparável? Dar a chance pelo simples fato do mortal fazer as oferendas todas certinhas, me poupe! Nem eu que pago minhas faturas do cartão de crédito certinhas ganho um bônus por isso!
Falke estava consternado, mas riu ainda assim.
— Outra coisa, cara, você manipula o tempo, algo sério. Não acha estranho que Ostara tenha o deixado manipular algo tão importante? O mais estranho de tudo é você saber essas coisas com facilidade. É como se as informações já estivessem dentro de você e fossem brotando de forma muito natural no impulso de descobrir brechas.
O viajante não conseguia falar nada, apenas a encarava, absorvendo o impacto das possibilidades. Alice parecia uma máquina de fabricar respostas que, assustadoramente, faziam sentido.
— Tem mais outra coisa, mas agora vai ser uma pergunta.
Ele assentiu. A essa altura, Falke responderia o quê a loira quisesse.
— Por que a sua avó queria tanto que você oferecesse algo novo?
— Eu... eu não sei.
— Bom, eu tenho um palpite — ele apenas aguardou. — Talvez ela pensasse que se o neto fizesse um sacrifício humano, poderia transcender como um deus.
— Não viaje, Alice — ele disse.
— O viajante aqui é você — ambos riram. — Enfim, pode não parecer, mas sou excelente em matemática. Nunca errei em questões de probabilidade.
— Eu não duvido — Falke se viu cogitando a possibilidade. — E se... essa oportunidade de Ostara foi para despertar algo?
— A manipulação do tempo. Ela pode ter usado a confusão como uma oportunidade de fazer você despertar o seu desígnio.
— Isso explicaria muita coisa.
— Tipo?
— Eu não sei o que acontece a partir de agora.
— Tirando a foto, né?
— Só sabemos desse detalhe por causa da foto.
— Mas...
— Alice, eu não me lembro porque ainda vai acontecer.
— Entendi, então tudo não passa de um capricho dos deuses?
— Talvez. Ostara nunca falou nada que me fizesse pensar que posso ter o sangue dela.
— Aposto que você tem.
— O que a faz ter tanta certeza?
— Você tem a maior cara de criatura mágica — Falke riu e balançou a cabeça. — É sério, tipo aqueles deuses nórdicos
— Um deus? Não, aí já é demais.
— Tem razão, está mais para um alien?
— Um alien?
— Sim, pois a sua chatice é de outro mundo.
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