15| UMA CURVA FORA DO TEMPO
"Você se lembra do dia, quando a minha viagem começou? Irá se lembrar do fim do tempo? Você será meu ombro, quando eu estiver grisalho e velho? Me prometa que o amanhã começará com você. Correndo rápido entre as estrelas lá em cima. Ás vezes... É difícil de acreditar, que você lembra de mim." — High (James Blunt)
Starfish, 2o25
— Love, Future & Nostalgia — Alice murmurou ao acordar. — É um nome do caralho.
A loira se revirou na cama e pensou na melhor amiga. A chuva demonstrava não dar sinais de trégua, o que para ela era ótimo, pois Starfish merecia uma bela folga do eterno verão. Ela tateou o colchão em busca do celular e o pegou na esperança de ter notícias de Billie. Seu coração bateu acelerado ao ver a bendita notificação do whatsapp. Seus dedos foram rápidos ao desbloquear a tela, e quando clicou na conversa com a amiga, um grito escapou da sua boca. Seus olhos castanhos quase não acreditaram ao ver a foto de um homem de cabelos negros adormecido. "Meu gostoso é mais real do que nunca, já tirei meu atraso!", dizia a mensagem abaixo da foto.
— Sua vadia, como é que você me manda isso e não diz mais nada!? — resmungou, logo tratando de iniciar uma ligação. — Deve ter passado a noite trepando, por isso não me atende!
Alice ligou mais cinco vezes, mas todas caíram na caixa de mensagens. Leves batidas soaram atrás da porta, e logo a cabeleira loira de Love surgiu. O hippie entrou de mansinho, encontrando a filha completamente descabelada e ainda de pijama. Ele vasculhou o quarto e viu que não havia nada de estranho o suficiente para fazer a menina gritar em plena sete da manhã.
— Bom dia, alecrim do campo — Alice riu ao ver o semblante confuso do pai. — Atrapalhei a meditação matinal do casal?
— Atrapalhou, a sua mãe ficou uma fera.
— Mentiroso, ninguém consegue deixar Carrie Wallace brava.
— Você consegue.
— E o meu bom dia?
— Bom dia, minha hippie — ele riu da careta dela. — Não entre em negação, as suas músicas estão mais inclinadas para o folk, que nem as minhas.
— Não estão nada.
— Filha de hippie, hiponga é — ele se sentou na cama ao lado dela. — Por que você gritou?
— Algo muito louco aconteceu, sabe? E têm a ver com a carta que eu deixei na mandala.
— Quer me contar?
— Sim, mas primeiro quero compartilhar uma coisa — a loira se virou para o pai e exibiu um semblante convencido. — Ultimamente eu andei tendo uns sonhos, acho que é por causa de toda essa loucura dos Jean. Faz um tempinho que quero mudar o nome da banda, então eu sonhei que ela se chamava Love, Future & Nostalgia. Estou pensando em adotar, o que acha?
Os olhos de Love brilharam e um sorriso brotou em seus lábios. O hippie sentia um misto de sensações que beiravam entre a tristeza e a alegria, pois ali estava a confirmação de que a filha iria para longe em breve. Ele se recordava muito bem do festival de solstício de verão de 1989, onde a conheceu mais velha, já com a carreira consolidada no ramo da música. O festival foi animado o tempo todo ao som da banda Love, Future & Nostalgia, que claramente era do gênero folk e indie.
— Eu amei, meu bem — ele segurou a mão da filha. — O seu som vai ser incrível, jamais irei me esquecer da oportunidade que eu tive de te ver cantar no festival de solstício de verão de mil novecentos e oitenta e nove.
— Não entendi nada.
— Meu bem, vamos tomar café da manhã? Tenho algo para lhe mostrar — ele se encaminhou para a porta. — É assunto do seu interesse, tem a ver com a sua carta e Falke Truelsen.
Alice logo tratou de ficar pronta e não demorou a descer. Carrie estava com cara de poucos amigos, pois a filha havia atrapalhado a sua meditação, mas a outra a ignorou, sabendo que a mãe não costumava ficar assim por mais do que cinco minutos. A loira despejou mel no seu café e beliscou alguns pedaços de bolo, mas nada a apetecia de verdade por causa da ansiedade. Alice admirava a paciência dos pais, pois não conseguia ser como eles. Ela respirou aliviada quando Love pegou uma almofada e se sentou ao lado dela.
A mesa era estilo japonesa, então não possuía um conjunto de cadeiras. O hippie colocou a foto na frente da filha e aguardou a sua reação. Ela demorou um pouco para assimilar quem estava na foto, mas reconheceu Billie de primeira por causa dos cabelos, assim como Falke. Dandy estava mais velho também, assim como ela mesma.
— Meu Deus, como você nunca me mostrou isso antes?
— Eu sempre achei a mulher da foto muito parecida com você, mas eram apenas suposições. Só comecei a cogitar seriamente quando você escreveu aquela carta.
— Você está mais novo... meu Deus! — Alice não conseguia acreditar, mas a foto desmascarava tudo. — Não quero ir para longe de vocês!
— Mas você já foi, meu bem — Carrie colocou sua mão sobre a dela. — Não vamos deixar de te amar, mas se já aconteceu, não somos nós que vamos ousar ir contra o universo.
— Não, eu posso tentar mudar, eu quero ficar!
— Querida — Carrie foi se sentar ao lado da filha. — Não acha que a fato já fala por si mesma? Veja, você está tão feliz nela. Creio que tenha ido por vontade própria.
— Impossível! Eu não vou — Alice voltou a olhar indignada para a foto. — E por quê o Falke está me abraçando por trás hein?
— Acho que é meio óbvio — disse a ruiva. — Vocês estavam namorando.
— Mamãe!
— Sua mãe têm razão — Love riu. — E pareciam se gostar bastante.
— Mas ele está velho — Alice resmungou, se lembrando do encontro na sorveteria. — Não estou afim de um sugar daddy.
— E como você têm tanta certeza de que é o mesmo Falke?
— Pai, como assim?
— Talvez o Falke da foto seja de outra dimensão, assim como o Dandy, nunca se sabe.
— Isso explicaria a volta de Dandy dos mortos...
— Aí já é demais, meu bem — Carrie olhou preocupada para a filha. — Eu vou fazer uma infusão de ervas para você, seus neurônios estão confusos.
Ela acompanhou a mãe se afastar deles e pensou se deveria mostrar a foto que Billie lhe confidenciou mais cedo. Não queria expor a intimidade da amiga, mas naquele caso, era necessário.
— É ele sim — disse Love, nada chocado com a foto. — Está explicado, minha hippie. Vocês vão partir para longe, não sei como e quando, mas vão.
— E como você sabe dessas coisas?
— São apenas suposições — ele deu de ombros. — Costumo divagar sobre coisas do tipo com um velho amigo.
— E por acaso esse amigo se chama Dênis Cash?
— Você sabe que sim.
— Pai, eu não quero namorar o Falke!
— Mas você vai.
— Ele está velho! Nem levanta mais...
Love deitou a cabeça no colo da filha e explodiu em uma gargalhada estrondosa, a fazendo rir também. Ela começou a trançar o cabelo ondulado do pai e não notou quando algumas lágrimas despencaram dos seus olhos e se juntaram às dele. Alice não queria ir para longe da família, os hippies eram os melhores pais do mundo e ela poderia provar, mas no fundo, sabia que seguiria a sua melhor amiga para onde ela fosse. Billie era como uma irmã, e embora mais nova, Alice sempre agia como a mais velha, segurando a mão da corredora nas curvas difíceis da vida.
— Promete que nós vamos nos reencontrar? — ela pediu, segurando o rosto do pai entre as mãos. — Por favor, promete?
— Nós já nos reencontramos — ele apontou para a foto. — Estamos no presente, que já é passado. A foto é o futuro, e nós estamos juntos nele.
— Ah, eu te amo tanto — ela riu ao apertar as bochechas dele. — Meu alecrim do campo!
— Eu te amo mais, minha hippie.
— Não sou hippie coisa nenhuma.
— Quem está dizendo não sou eu, é o seu futuro.
— Love, vamos cantar um pouco de Janis Joplin? Vamos deixar o futuro para depois — disse Carrie, colocando a bandeja com o conjunto de chá na mesa. — Hoje me sinto nostálgica!
***
Falke acordou com o ruído forte de um trovão que fez as paredes tremerem. Ele sabia que a tempestade atípica era por causa da fenda. O viajante se sentia exultante, pois tudo aquilo estava prestes a acabar. A única coisa que o deixava um tanto triste, era saber que seu reencontro com Amélia estava próximo. Nenhuma expectativa de perdão foi criada, ele já esperava que ela o odiasse. A chaleira apitou enquanto seus dedos hábeis projetavam plantas para casas que jamais iria construir. Falke vinha pensando seriamente em ir visitar a médium antes de tudo, mas temia a rejeição. Como uma bomba energizante, o café foi despertando seus sentidos, e um deles foi a coragem.
Desde quando aparatou para 2o24, ele vinha se escondendo nas arestas da vida dos Jean, permanecendo no esquecimento. A cada mês que passava e 2o25 se aproximava, a saudade parecia apertar o seu coração com chaves de fenda. Após o desjejum, Falke tomou um banho, fez a barba, penteou seu cabelo recém-aparado e vestiu sua melhor roupa. Antes de sair, se enfiou em um casaco e colocou um gorro preto para afastar o frio.
Enquanto dirigia, notou algumas nuances peculiares no céu. Entre uma pesada nuvem e outra, finas linhas em tons que alternavam do dourado ao vermelho, despencavam do céu, como um arco-íris, em direção à fatídica pista de corrida. Ela terminava onde o carro havia capotado, onde duas almas foram separadas, e uma delas, fragmentada.
"O grande erro na linha do tempo. Só de pensar que tudo já aconteceu e eu estou no presente-passado... que coisa", divagou. Se ajustar ao corpo velho não foi fácil, principalmente por achar que ainda tinha o espírito jovem, mas acabou se acostumando após perceber que não era mais possível fazer algumas coisas sem ficar todo entrevado. "Bom, pelo menos sou um coroa bonitão", confortou-se.
O norueguês escolheu a região mais afastada de Sarfish para morar, assim ficou todo esse tempo fora de vista dos Jean. O caminho até lá era longo, então ele resolveu escutar um pouco de música e tentou relaxar ao som dos pingos de chuva batendo no vidro do carro. A rádio sintonizou em uma estação de 1986, onde a banda hippie Love, Future & Nostalgia cantava o seu maior sucesso: Uma Curva Fora do Tempo.
***
Dandy não havia resistido ao cheiro delicioso da comida, e após se certificar de que as mulheres não acordariam naquele instante, ele atacou a mesa e comeu tudo que estava nela. Carl ficou horrorizado ao assistir a cena animalesca, mas não julgou, pois se voltasse a vida faria do mesmo jeito, e talvez pior. Amélia recobrava os sentidos aos poucos, piscando os olhos bem devagar. Por alguns instantes, ela desejou que a película que tornava sua visão anuviada não se dissipasse. Porém, por trás dela, se descortinava aqueles olhos verdes de que tanto sentiu falta.
Ela não perdeu tempo fazendo perguntas ou tentando assimilar a realidade, por isso saltou do sofá para os braços de Dandy, quase os fazendo virar para trás. Seus braços delicados o agarravam com a força que desejou ter para não deixá-lo ir embora, com a força que estava tendo para mantê-lo no presente. Toda a força do abraço de ambos demonstrava a saudade e a dor da despedida que não puderam ter e da surpresa do reencontro repentino. Dandy chorava como uma criança, enquanto Amélia deixava escapar todos os gritos e soluços que teve que engolir para seguir em frente.
A médium se afastou e apreciou o rosto do amigo, que ainda estava do mesmo jeito, no auge dos seus vinte e cinco anos. Ela apertou os braços e depois os ombros dele, se certificando de que era mesmo real. Quando teve a certeza, o impulso da raiva a invadiu. Amélia agarrou a orelha do rapaz e a contorceu, o erguendo da cadeira pelo puxão e depois o fazendo cair de joelhos.
— Argh, Améliaaaa — Dandy grunhiu, contorcendo a feição em cólera.
— Você andou se engraçando com a minha neta? Seu sem-vergonha! Ainda mais sem pedir a minha permissão ou conversar com os pais dela antes!
— Mas...
— Silêncio! Ainda não terminei — ela aumentou o aperto quando ele segurou sua mão na tentativa de amenizar a dor. — Vocês dois estão de castigo, ouviu?
— E tem como não ouvir? Arhg!
Amélia agarrou a outra orelha e a contorceu com mais força.
— Dandy Spring, aprenda a respeitar os mais velhos!
— Desculpa... — ele gemeu, agora chorando de dor.
Amélia largou as orelhas do rapaz e se virou furiosa para a neta, que ainda estava desacordada no sofá. Billie acordou assustada, com as coxas queimando. Ao perceber que estava levando uma coça da avó, ela tentou recolher as pernas, mas só fez Amélia aumentar a intensidade das chineladas. Billie engoliu o choro por duas coisas. Primeiro: seu avô a estava observando do canto da sala, com satisfação estampada no rosto ao ver a esposa aplicando uma lição nos delinquentes. Segundo: ela chorava por tudo. A corredora queria abrir o berro por causa de Carl, mas foi se acostumando com a presença dele, afinal, conheceu Dandy sendo um fantasma.
— Eu não admito sem-vergonhice na minha casa, ouviram? É um ambiente sagrado, pelo amor de Deus, eu cuido de pessoas que já partiram aqui!
Os jovens se entreolharam e baixaram a cabeça, sentindo um pouco de culpa. Amélia suspirou e massageou as têmporas "Sou muito boba, já perdoei", resmungou internamente. Ela se ajoelhou e segurou as mãos de Dandy, o fazendo erguer o rosto para encará-la. As orelhas vermelhas do rapaz a fizeram rir, afastando a nuvem cinzenta que a deixara ranzinza minutos atrás.
— Eu não consigo acreditar que você está aqui — ela disse, com a voz embargada. — Desde quando tudo começou a desandar que não acredito em coincidências, então... como?
— Vovó, preciso lhe contar uma coisa — Billie engoliu em seco. — Conheci Falke Truelsen...
— O quê!? — Amélia se exasperou.
— S-sim. Olha lá, hein! Se me bater de novo...
— Billie Jean, desembuche logo!
Batidas soaram atrás da porta principal, fazendo Billie se interromper. Ainda chovia, e a única pessoa que poderia ir até ali mesmo debaixo de um aguaceiro era Alice. As batidas voltaram, um pouco mais insistentes após um estrondoso trovão reverberar pelo céu. Amélia se apoiou nos joelhos e foi até a porta. A cabeça doía, era como se estivesse dentro de um pesadelo da qual não importasse para onde tentasse correr, os caminhos sempre a levariam de volta para ele. Nem mesmo o frio da maçaneta metálica foi tão agudo quanto as batidas eletrizantes de seu coração naquele momento.
O vento frio bateu em seu rosto, mas a médium sequer piscou. Ela franziu o cenho ao ver o homem à sua frente, mas segundos foram o suficiente para reconhecê-lo. "Sim, não importa para onde eu tente correr, o destino sempre me faz voltar a você", Amélia pensou, enquanto processava o fato de Falke estar de volta. Ela deu espaço para ele entrar, e tentou controlar a respiração quando fechou a porta atrás de si. Alheio ao fato de outras pessoas na casa, o viajante só tinha olhos para a mulher que amava. Ao conseguir ajustar seus sentidos, Amélia ficou muito próxima e o encarou.
Ela esfregou as mãos para afastar o frio e as levou para o rosto dele em seguida. Seus polegares afagaram as maçãs daquele rosto castigado pelo tempo, e sentiu vibrações mistas de saudade, alívio e culpa. A barba grisalha e aparada tinha o mesmo toque agridoce dos encontros entres os dois ao longo da vida, eram doces nos momentos em que conseguiam se reencontrar, e salgados e amargos nas despedidas turbulentas e misteriosas.
Ainda sentados no sofá, os jovens observavam a cena com cautela. Billie segurou a mão de Dandy para mantê-lo ali, mesmo que o rapaz quisesse apenas matar a saudade do amigo que também não teve a oportunidade de se despedir, que tinha como última lembrança uma discussão feia, que através de décadas, foi ganhando sentido. "Você tentou impedir, nunca tentou me fazer mal", ele pensou, fitando as costas do norueguês.
— Você ainda se culpa, meu amor? — Amélia perguntou.
— Sempre, eu... me perdoe, eu...
— Shh — ela o abraçou e deitou a cabeça no peito dele. — Você terá muito tempo para me explicar tudo, agora eu só quero que me abrace e não me solte nunca mais, por favor.
Falke envolveu aquele pequeno corpo em seus braços e apoiou o queixo na cabeça dela, deixando que as lágrimas que corriam por seu rosto afrouxassem as amarras amargas em seu coração. Carl observava tudo com o sentimento de missão cumprida. O corretor de imóveis nunca entendeu a razão de ainda permanecer naquele plano, mesmo a esposa tentando mediá-lo para o famoso caminho da luz. Em seu âmago, ele sabia que estava ali por alguma razão, e diante dos seus olhos, ela se descortinava.
Carl sorriu ao ver que havia se tornado o anjo da guarda de Amélia, que havia ficado ao seu lado para que pudesse aguentar os baques que a vida lhe causaria. "E não é que vemos um túnel branco mesmo?", ele pensou, quando viu uma espiral translúcida surgir à sua frente, tomando cores idênticas a sua aura.
— Carl? — Amélia indagou, confusa, quando o sentiu segurar sua mão.
— Amélia, a nossa jornada se encerra aqui.
Bastou olhar para a tão conhecida espiral atrás de Carl para saber do que se tratava.
— Você está pronto para ir, como?
— A razão para eu ficar foi para te manter firme até o Falke chegar — ele segurou as mãos dela e beijou-lhe a testa. — Foi um martírio, mas eu consegui.
— Meu Deus, Carl! Você é péssimo — Amélia o abraçou com toda a força que podia, exprimindo toda a gratidão pelos anos que passaram juntos. — Eu sempre vou te amar, onde quer que esteja. Você, mais do que ninguém, me segurou quando eu pensei que não iria aguentar. E se está partindo, é sinal de que essas coisas mirabolantes chegaram ao fim.
— Nós fechamos o nosso ciclo, Amélia.
— Vovô! — eles foram interrompidos por Billie, que se aproximava devagarzinho, ainda tremendo de medo. — E-eu quero me despedir.
Billie chorou mais do que falou, arrependida por não ter despertado a mediunidade antes para ter mais tempo com ele, por ter sido tão teimosa e lhe dado muito trabalho.
— Você e Phil foram as melhores coisas que puderam aparecer no meu caminho — ele disse, enquanto afagava os ombros da neta no abraço. — E só de ter ficado neste plano até poder falar com você mais uma vez, sei que tudo valeu a pena.
Ambas seguraram as mãos dele, que o levaram até a sua tão desejada luz. Elas assistiram enquanto aquele véu translúcido se dissipava até não restar mais nada. Billie sentia o coração leve por ter enfrentado o medo e se despedido do seu avô, pela segunda vez, porém, menos dolorosa.
— Falke? —Dandy finalmente se aproximou do amigo.
Falke o olhava como se fosse uma miragem, algo irreal que o arrebatava em lembranças agridoces. Ele queria gritar aos quatro cantos do universo que havia conseguido, queria gritar para a deusa que consertou as coisas, ou quase, mas ela já sabia. Os dois se abraçaram com tanta força que se sentiram sufocados no mar de saudade que estavam afogados.
— Eu senti tanto a sua falta — Falke murmurou. — Me perdoe.
— Estamos aqui, agora, é o que importa.
— Precisamos conversar — Falke se afastou do amigo e olhou para as médiuns. — Eu não esperava esse reencontro, de verdade. Já que estamos todos aqui, é o momento certo para colocarmos as cartas na mesa.
A porta se abriu de repente, revelando Phil e Estela Jean, que entraram de supetão por causa das fortes rajadas de vento. Ambos estavam molhados e confusos diante de uma cena nada convencional. Olhando para o pai, Billie se perguntou como nunca desconfiou de algo. Era inegável que ele fosse filho de Falke, as semelhanças dispensavam qualquer exame de DNA. Phil parecia não reparar em mais nada, somente no homem mais velho à sua frente.
Seus olhos negros não conseguiam acreditar que seu pai desaparecido estava ali, como se nada tivesse acontecido. Seu lado medroso tentava convencê-lo de que estava vendo um fantasma, mas ele parecia real demais. Phil sentiu raiva por causa dos efeitos devastadores que a ausência dele causou nos Jean, mas também estava repleto de confusão e muitas perguntas. Ele ousou se aproximar do homem, que também o encarava como se fosse uma alma penada.
— Pai?
***
Alice segurava a foto e não cansava de observá-la. Ela estava deitada confortavelmente na sua cama, Billie ainda não havia mandado notícias. A loira deslizou a cabeça para fora do colchão e viu o ambiente de cabeça para baixo, assim como a foto que voltou a segurar diante dos olhos. Ela girava aquele porta-retrato de todos os jeitos e ângulos, mas nenhum a agradava. Não era nada agradável saber sobre o seu futuro, e aquela foto jogava tudo em sua cara.
— Pelo menos vou ser podre de rica — resmungou.
O celular da loira vibrou, a fazendo rolar pelo colchão até achar o aparelho. Seus olhos quase saltaram ao desbloquear a tela e visualizar a notificação do whatsapp.
"Corre pra cá agora! O Falke voltou e vai nos explicar tudo. Tô te esperando, vem logo!", dizia a mensagem.
No momento em que pulou para o chão, um tremor sacudiu as paredes e o assoalho, a fazendo cambalear de volta para o colchão. Ainda sem entender o que se passava, ela presenciou pequenas fagulhas douradas cortarem a realidade como um véu, ganhando intensidade até um buraco negro se abrir e uma pessoa despencar de cara no chão. O grito ficou preso na garganta, e como não era tão medrosa quanto a amiga, conseguiu controlar o berro. A loira observou, assustada, Falke Truelsen erguer o rosto e encará-la.
"O Falke tá aqui!", ela digitou muito rápido.
"O quê? Não, sua doida, ele tá aqui na casa da vovó, vem logo!"
As bochechas logo entraram em combustão ao vê-lo bem mais jovem, e rapidamente escondeu o porta-retrato debaixo do travesseiro. O Falke "original" estava ali para tentar impedi-la de causar mais desajustes, para impedir que ela pulasse na fenda quando a hora chegasse, nem que isso custasse levá-la para outro tempo e só trouxesse de volta quando tudo acabasse. Ele não esperava que a loira estivesse acordada naquele horário, porém, mais uma vez, o universo ia contra suas ações. Ainda com o celular em mãos, ela tentou ser discreta ao tirar uma foto dele com a câmera do whatsapp aberta na conversa com Billie, mas o flash estava ligado. Alice percebeu a feição nada amistosa do rapaz e correu para a porta, mas ele foi mais rápido e alcançou suas pernas, a fazendo cair.
— Meu Deus, sequestro! — berrou, quando o sentiu arrastá-la de volta para o quarto. — Me larga, seu almofadinha!
Falke a ergueu pelos pulsos e a jogou na cama. O impacto que fez ao afundar no colchão serviu de impulso para ela investir contra ele, lhe empurrando com toda a força que podia. O viajante se encolheu quando Alice lhe aplicou uma sova no saco, dando abertura para ela correr. Porém, a loira acabou deslizando no tapete colorido, e logo acabou nos braços de seu captor. Ela conseguiu se arrastar enquanto se debatia até o celular largado no chão, mas Falke já havia colocado o seu peso sobre ela, imobilizando-a.
Ele imobilizou as pernas dela com as suas e prendeu seus pulsos acima de sua cabeça, enquanto o peso de seu corpo era o suficiente para deixá-la quieta. A respiração de ambos estava ofegante, os corpos tensos e os olhares incrédulos. Alice encarou aquele rosto próximo ao seu agora, tentando enxergar através daquelas íris cansadas.
— Me solta — ela grunhiu, entredentes.
Falke resolveu não interagir e se limitou a observar o celular muito próximo às mãos dela. O aparelho ainda estava com a tela acesa, e denunciava sua foto no chão pronta para ser enviada para Billie. Aquilo poderia ser um grande desajuste se acontecesse, pois talvez pudesse desconfigurar a mente de qualquer pessoa naquela realidade ao saber da existência de dois Falkes na mesma dimensão. Alice parecia determinada a estragar tudo, por isso ele resolveu ter cautela. Ainda segurando seus pulsos, ele tentou mantê-los presos com uma só mão, mas passos apressados na escada o fizeram erguer o olhar para um par de chinelos amarelos, uma saia floral e um peito descoberto, apenas com um kimono amarelo adornando os ombros.
— Olha só, que surpresa — disse Love, fitando o viajante através de seus óculos de sol extravagantes. — Estávamos falando de você mais cedo.
— Pai! Você vai ficar parado aí? — Alice berrou, tentando se libertar do aperto.
— Falke, meu amigo — Love bebericou seu chimarrão e se agachou, ficando a altura do platinado. — Você sabe que o Love aqui sempre foi muito pacífico, mas se você não soltar a minha filha agora, eu vou virar o Hate.
Alice aproveitou a distração de Falke, agarrou o celular e enviou a foto. Ela se encolheu diante da careta que o viajante fez, nada amistosa.
— Sai de cima de mim! — grunhiu, o empurrando para o lado. — Nunca mais chegue perto de mim, ouviu?
Ele apenas a encarou, com raiva estampada na feição suja de fuligem. Love revirou os olhos e se levantou, bebericou seu chimarrão e fez um gesto com a cabeça em direção a escada.
— Vamos descer, Falke. Conversamos e você aproveita para comer algo e depois tomar um banho, está precisando.
— Pai! Ele tentou me sequestrar!
— Não tenho tempo para isso — Falke disse, arredio.
— E agora você fala? — ela pigarreou. — Eu não admito que um cara com a peruca da Britney Spears entre no meu quarto e tente me levar. Eu sei quem você é, okay? E digo uma coisa, nós não vamos namorar, nunca!
Ele continuou ignorando a existência dela, temendo acontecer o que já sabia que aconteceria, mesmo tentando impedir. Alice sentia o mesmo, e constrangida, logo se limitou a descer e evitar encarar o viajante. Falke se perguntou até quando o universo tiraria sarro da sua cara. Quando imaginava que estava perto, algo acontecia e mais uma bagunça era gerada para ele consertar. O viajante encarava aquilo como uma punição, mas até quando iria esse castigo?
Alice era uma curva fora do tempo, algo que ele realmente não estava esperando e que não estava sob seu controle. Ele respirou fundo para se acalmar, já estava feito e o máximo que poderia fazer seria tentar evitar que ela pulasse na fenda. O viajante desejou que ela continuasse com o pensamento obstinado de negação sobre o suposto relacionamento de ambos, pois a única coisa que ele sentia pela loira no momento, era a vontade de arremessá-la pela janela.
— Vamos, tempo é o que não lhe falta — disse Love. — Não vai fazer essa desfeita com o sogro, vai?
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