14| EM NOSSAS LÁPIDES

"Nós partimos sem saber onde as memórias morrem. Nossa vida desfaz-se no espaço de um suspiro. Se temos de morrer, que se viva ao extremo. Lembre-se de tudo para sacrificar tudo. Nós encaramos, nós abraçamos a vida como uma amante. Pouco nos importa que tudo queime por uma carícia, nos reencontraremos, nos reencontraremos, lá onde o nada já não é mais nada. Nós compreenderemos de onde viemos." — Vivre à en crever (Mozart L'Opera Rock)


Starfish, 2025.

Os corredores entraram no carro e permaneceram estáticos.

— Você está vivo mesmo? — Billie perguntou.

— Sinceramente, eu não sei.

Eles se encararam, ainda incrédulos. Billie tocou a face de Dandy e a sentiu morna, assim como sentiu as leves pinicadas da barba rala e a respiração dele no dorso da mão. Ela o estava percebendo diferente, como não pôde notar? A corredora tinha herdado do pai o "gene do cagaço", como gostava de se referir ao medo exorbitante de coisas do além-mundo. Acontece, que ela sempre esteve cercada de fantasmas, mas era tão medrosa que não sabia diferenciar uma pessoa morta de uma viva. Se tivesse parado para ouvir os conselhos da avó, com certeza teria sacado que o corredor no seu carro naquela noite estava morto.

Quando o viu no Sol, logo mais cedo, percebeu uma luz translúcida ao redor dele, do tipo que beirava entre o dourado espectral e o branco gelo, a aura que as almas mais puras e boas emanavam. A garota recordou que a avó havia lhe falado uma vez, enquanto costuravam peças de roupas para fazer fantasias de halloween para as crianças do orfanato, sobre as auras que os espíritos costumavam emanar. Sempre muito durona, ela passou a vida erguendo muros para passar uma personalidade forte aos outros, mas Billie tinha o coração bom e a sensibilidade de Amélia em seu âmago. Dandy era a sua graça salvadora, disso ela não tinha dúvidas.

— Nós enganamos a morte? — ele perguntou.

— Acho que não, seria sinistro demais.

— Mais sinistro do que eu estar aqui? Impossível.

— Se eu estiver apenas alucinando, acho que vou enlouquecer.

— Calma, Billie Jean — ele aproximou seus rostos e encostou a testa na dela. — Em nossas lápides, eu quero gravar, que nossos risos enganaram a morte e o tempo.

— Credo, eu amei.

Dandy a olhava com apreensão. O queixo estava cerrado e a expressão se tornou sombria. Sem precisar de mais uma palavra, ambos sabiam que a resposta definitiva os aguardava nos limites da pista. O momento se aproximava, e se conseguissem ultrapassar a pista sem que o corredor ficasse preso nela, as dúvidas estariam sanadas. Eles ainda permaneciam incrédulos, Dandy ter voltado do nada parecia fazer parte de um delírio coletivo, nascido do desejo ardente de ambos na ânsia de encontrarem um jeito de ficarem juntos. 

Seus lábios se encontraram em mais um beijo sedento e cheio de expectativas. Estavam ansiosos, encarando aquele último gesto como uma despedida que não puderam ter. Dandy segurava o rosto de Billie e não queria largá-lo, mas precisavam encarar a verdade. Ela então agarrou o volante e respirou fundo. Ao se aproximar dos limites da pista, Billie estendeu uma mão, segurou a dele com força e apertou os olhos.

— Ah, meu Deus... — ela murmurou, ao ver que ele ainda estava ao seu lado.

Dandy apertava a mão dela com tanta força que a corredora contorceu o rosto em cólera. Seu olhar esverdeado encontrou com o dela e logo sua visão anuviou. Billie pulou para o colo dele e o envolveu em seus braços, desejando não largá-lo até que todos daquela cidade confirmassem que ele era real. O carro estava estacionado um pouco mais adiante da barraca de pranchas, onde alguns hippies estavam começando a se reunir. Alguém bateu no vidro, fazendo a corredora voltar para o banco do motorista. Dandy desceu o vidro e uma jovem loira sorriu para eles.

— Será que o casal pode dar uma carona para esses hipongos? Estamos indo para o centro da cidade. Vamos encenar O fantasma da ópera, se quiserem ficar, garanto que vai valer a pena.

— É claro, entrem — Dandy disse.

A trupe teatral de cinco hippies entrou abarrotada no carro. Billie ficou com ciúme quando a mulher loira se ajustou no banco da frente e quase ficou sentada no colo de Dandy, mas não disse nada. Eles seguiram para o centro, e ao chegarem, todos saíram do carro. A trupe fez um excelente show, afastando um pouco a monotonia que se instalava na praça da catedral. A corredora o levou para comer algo nas diversas barracas espalhadas por ali. Dandy sentiu a barriga roncar ao ver um carrinho de cachorro-quente, era o seu lanche favorito. Billie assistiu horrorizada enquanto ele comeu cinco, e ainda tomou duas latas de refrigerante como se fosse água.

— Desculpa — ele riu. — Eu senti muita falta de comer.

— Eu nem percebi.

— Dá um desconto, eu senti falta.

— Cupom de desconto aplicado.

— Engraçadinha, vem aqui — Dandy a puxou pela mão e encostou a testa na dela. — Você acredita em mim? Que eu estou aqui?

— Ainda não acredito que você está aqui.

— Posso te fazer acreditar.

Ela não precisou saber ao que ele se referia. Dandy a lançava um sorriso ladino, daqueles que não escondiam as terceiras intenções.

— Ah, é? E como você vai fazer isso?

— Vamos para a sua casa e eu te mostro.

— Você é muito indecente — Billie devolveu o sorriso..

— E você nunca reclamou.

— Dandy, eu preciso ir a um lugar antes.

— E eu posso ir com você?

— Deve.

Eles já estavam na estrada novamente quando o frio na barriga voltou a fazê-la suar frio. As altas lápides do cemitério já podiam ser vistas no final do quarteirão. Daquela vez, ela entrou pela entrada principal, já que Alice não estava entre eles, o coveiro não colocou nenhuma banca. Ainda não estava totalmente escuro, pois como o equinócio se aproximava, os dias que o antecediam costumavam ter uma duração maior. O crepúsculo no cemitério era sempre assustador.

A médium sentia todos os pêlos do corpo ficarem em pé, sem falar nos calafrios que a dominavam ao escutar murmúrios vindos de todos os lugares. Dandy não precisava perguntar o que estavam fazendo ali. Billie seguiu direto para onde a lápide que desejava não ver nunca mais estava. Algumas folhagens cobriam o que seus olhos não queriam ver, e quando ele segurou sua mão e a apertou, ela teve coragem para enfrentar. Billie afastou os galhos e respirou aliviada ao ver a lápide lisa. Não havia nenhuma escritura ali, como se estivesse vazia. Eles se abraçaram com força, e quando sentiu um bafo frio na nuca, ela o pegou pela mão e saiu correndo dali.

— Obrigada por nos deixar entrar, Alberto — Billie agradeceu.

Alberto franziu o cenho e observou o jovem à sua frente. Ele se recordava muito bem da comoção da época, e do rosto inconfundível daquele rapaz.

— Bem-vindo de volta — ele disse para Dandy.

Os jovens saíram apressados e esbaforidos. Billie não conseguia entender como o coveiro ainda se lembrava de Dandy, mas Alberto trabalhava ali desde muito novo, então conhecia boa parte das pessoas que entravam ali para o descanso eterno.

— Minha nossa, Alberto parece que é velho desde a minha época — Dandy riu. — Não me impressiona nada que ele tenha me reconhecido, já fui marcado neste cemitério. Falke, eu e Amélia inventamos de comemorar nosso aniversário de vinte e dois anos entre as lápides, e bom, não deu muito certo. Alberto nos perseguiu com uma pá nas mãos, pronto para nos acertar. Então ele jurou que só entraríamos ali novamente se fosse dentro de um caixão. Eu entrei, então acho que ele me perdoou pela bagunça que fizemos.

— Cala a boca — Billie resmungou. — Não quero ouvir mais nada relacionado a sua morte, certo? Você está aqui comigo, e é o que importa.

O carro estacionou em frente a casa dos Jean. Dandy olhava pela janela do carro, se recordando de que ainda era a mesma, só parecia maior. Billie saiu do carro, mas percebeu a hesitação dele. Dandy ainda não se sentia preparado para encarar Amélia, e resguardava o fútil medo de ainda ser um fantasma e ela o guiar para "a luz".

— Vem — Billie disse, abrindo a porta do passageiro. — Vovó está fora da cidade.

Ele conseguiu respirar aliviado, e a passos lentos, acompanhou Billie. A casa estava escura e silenciosa, exceto pela porta do porão, que sempre conseguia uma forma de se abrir sozinha e ficar rangendo sem vento. Billie acendeu a luz da cozinha e caminhou zangada até a porta maldita, onde desferiu um chute forte para fechá-la. Ela ouviu cochichos reclamões e sacudiu a cabeça para mandá-los para longe. A mediunidade aflorou de forma absurda desde Dandy, e por ele, deixaria de ser tão medrosa. 

Eles riram ao notar que deixaram uma enorme trilha de areia que fizeram ao passar pela sala e que estavam fazendo ao subirem a escada. Não tinha ninguém em casa além deles, mas Billie trancou a porta atrás de si, e de repente, sentiu-se pequena e frágil diante daqueles olhos verdes que sugavam tudo dela e pareciam não devolver nada. Dandy conseguia destravar todas as suas amarras e quebrar as barreiras sem sequer tocá-la.

— Tá com medo de que, Billie Jean?

— Desse poder todo que você tem sobre mim. — Billie nunca se sentiu tão vulnerável, mas lá estava ela, completamente entregue. — Estou com vergonha!

Dandy apenas se aproximou até que ela precisasse erguer o pescoço para olhá-lo. Ele ainda não acreditava que estava tendo a chance de se perder, mais uma vez, naquele olhar salpicado de estrelas, era como se o seu destino estivesse misturado nos fios de luminosidade daquelas íris. Billie tremeu quando sua jaqueta escorregou para o chão e as mãos dele afagaram seus ombros lisos, depois subiram para seu rosto, onde suas mãos envolveram seu rosto e a puxaram para afogar-se em mais beijos sedentos. A proximidade foi como um gatilho para Billie, que não demorou a levar as mãos ansiosas para desafivelar o cinto. Seus dedos o puxaram para mais perto ao se enroscarem no cós da calça, que logo foi ao chão.

— Que cueca bonitinha — ela riu, ao ver o sungão branco dele. — Muito sexy.

— Shh... — ele tampou sua boca e a comprimiu contra a porta. — Agora você só vai abrir a boca para gritar meu nome.

Billie deixou que ele retirasse a sua roupa. Era quase como uma dança de tango, cada peça retirada era um passo que levava ao ápice da dança. Ela apoiou suas mãos no busto másculo e foi o afastando devagar até se aproximar da cama, onde o empurrou e se deleitou com a visão daquele corpo que era todo seu. Arrepios a percorreram quando sentou em seu colo e Dandy acariciou suas costas, pressionando seus quadris, a fazendo soltar um arquejo. Ele inverteu as posições, colocou seu peso contra o dela e voltou a colocar a mão sobre sua boca.

— Eu ainda nem comecei e você já está sendo escandalosa.

— Não dá, eu tenho vontade de gritar a cada toque seu.

— Ah, é?

Ela voltou a gemer ao sentir a respiração quente e os lábios mornos dele varrerem o seu busto e pescoço. As mãos firmes exploravam cada centímetro de pele daquele corpo feminino, agindo como pólvora a cada lugar que passava, deixando breves focos de incêndio que se alastraram enquanto ambos cobriam-se na malha de suor que seus corpos exalavam enquanto queimavam como os incêndios naturais da Flórida. Dandy prendeu os braços de Billie acima de sua cabeça quando ela arranhou suas costas com toda a força que podia ao sentir o corpo inteiro tremer.

— Assim eu vou sair fatiado — murmurou.

— Você vai ter muito trabalho, cowboy, eu não costumo me dar por vencida de primeira.

— Ótimo, então vamos ver até onde você aguenta.

Dandy estava matando toda a saudade que sentia, e Billie, toda a saudade que nem imaginava que existia. Ela não imaginava que alguém pudesse despertar tantas sensações em seu corpo ao fazer amor, que a fizesse desejar cada vez mais daquilo. Ambos estavam imersos um no outro, e só pararam quando seus corpos imploraram por um descanso. A corredora se surpreendeu com a facilidade que Dandy teve ao dormir. Ela só havia esquecido de um detalhe, que os mortos não dormiam, por isso ele despencou em um sono profundo, cobrado pelas décadas que permaneceu acordado. Ela apoiou a cabeça na mão e passou a observá-lo. 

Um sorriso bobo brotou em seus lábios ou vê-lo tão tranquilo e quando ele começou a roncar baixinho. Seus dedos desalinharam ainda mais as madeixas negras pela testa, depois passearam pelas sobrancelhas grossas, os cílios grandes e espessos, e por fim, o queixo quadrado. A corredora pegou o celular e tirou uma foto dele, a mandando para Alice. "Ela vai ter um treco", riu consigo mesma.

—Eu te amo tanto — murmurou, enquanto acariciava o rosto dele. — Bem muito.

— Eu também te amo.

— Estava acordado esse tempo todo, é?

— Você estava me secando, não tinha como não acordar.

Tão rápido quanto acordou, ele voltou a dormir. Billie o cobriu melhor com o cobertor e se aninhou em seu peito. Uma leve chuva começou a se chocar contra a janela, depois ganhou força até esfriar a madrugada. Dandy acordou de súbito algumas vezes, temendo que aquilo fosse um pesadelo, mas ver Billie ao seu lado o tranquilizava. A corredora dormiu o agarrando com muita força, com medo de que em algum momento, ele não passasse de uma ilusão.

***

Amélia Jean desembarcou no aeroporto de Starfish. Um temporal abateu a região, por isso as últimas horas de voo não foram agradáveis. A médium se arrependia profundamente de ter aceitado o convite para aquele congresso de médiuns. Ela pôde contar nos dedos quem realmente tinha o dom, a maioria eram charlatões em busca de se aperfeiçoar na malandragem. Ela entrou em um táxi e ficou impressionada com o tamanho do aguaceiro que devastava a cidade. "O último temporal desse tamanho foi dois dias antes do acidente", ela lembrou. Amélia colocou a mão no peito ao sentir um leve aperto, e se preocupou com a neta. "Espero que não tenha colocado fogo na casa".

O taxista a ajudou a colocar as coisas para dentro de casa. Mesmo encharcada, ela estava feliz por estar de volta. Seus olhos de águia logo caíram na trilha de areia na entrada, que se estendia no carpete da sala e ia até a cozinha. Ela balançou a cabeça em negação ao ver dois copos sujos na mesa, e pegadas maiores e menores na escada.

— Bom, esse episódio de CSI eu assisti, e o laudo pericial só leva a um caminho — resmungou. — Macho na minha casa.

Amélia subiu pisando duro e se preparou para bater na porta da neta, mas o temporal lá fora a fez pensar duas vezes e desistir. Não gostaria de mandar o rapaz ir embora em plena madrugada e ainda mais debaixo de um aguaceiro. "Amanhã bem cedo converso com essa folgada, é bom que passo uma vergonha nela na frente do menino", ela pensou, ao se dirigir ao seu aposento. Enquanto relaxava debaixo da água morna do chuveiro elétrico, ela esfregou o nariz para afastar o cheiro forte que a fazia se recordar de Dandy Spring.

— Minha nossa, até parece que ele andou por aqui!

Ela se enfiou na camisola e foi direto até o closet, onde retirou a caixa vermelha. Era sempre assim, faltando poucos dias para o seu aniversário, a saudade apertava, não somente daqueles que partiram, mas dos que simplesmente sumiram. Quando seu noivo desapareceu, a médium decidiu enterrar tudo com a Pluma, e seguir uma vida distante de toda aquela confusão. Ela e Carl só desejavam um futuro promissor e seguro para Phil, e conseguiram. Ela ainda esperou Falke por muito tempo, mas ao perceber que ele não voltaria, seguiu adiante. Ela se acomodou entre os travesseiros e desejou ter uma lareira no quarto, pois o aquecedor estava quebrado e Billie esqueceu de chamar o técnico.

Ela colocou a caixa em seu colo e retirou a tampa, pronta para mergulhar, mais uma vez, nas lembranças que a fizeram feliz por um tempo. Suas mãos enrugadas alcançaram a aliança que Falke colocou em seu dedo no dia em que fez o pedido. Era fina e prateada, onde continha um pequeno diamante no centro. Amélia a colocou no indicador e sorriu "Por onde você anda, meu amor?", se perguntou.

Amélia sempre evitou se aprofundar nas coisas que Zuri disse quando estava moribunda, assim como nas escrituras de Falke. Ela queimou tudo aquilo e tentou apagar da memória, era doloroso demais. Por algum motivo, ela resolveu permanecer com a aliança. Seus olhos pousaram no porta-retrato, e ela o pegou. Quase com um sobressalto, Amélia pulou da cama e esfregou os olhos, pensando estar apenas cansada. Ela olhou novamente para a foto e constatou que Dandy não estava mais nela.

— O que está acontecendo? — ela apertou os olhos com força e os abriu, mas o espaço de Dandy ainda continuava vazio. — Meu Deus, estou enlouquecendo?

— Meu amor, tudo bem? — Carl perguntou, a assustando.

— Por favor, me diga que eu não estou ficando louca! — ela caminhou até ele e lhe mostrou a foto. — Dandy sumiu!

Carl viu que ela estava certa, o corredor desapareceu como se nunca houvesse existido. Pensando que Amélia retornaria mais cedo, Carl resolveu aparecer e acabou vendo Billie e Dandy entrarem na casa. Ele não imaginou que pudesse ficar branco, mas ficou. Ele conseguiu se esconder a tempo, destrancando a porta do porão e descendo a escada. Ele sabia que a mediunidade da neta estava aflorando, e o risco de ser visto era grande. Carl ainda não conseguia acreditar que Dandy Spring estava ali, achou que pudesse apenas ser um rapaz parecido, mas ao escutar um pouco da conversa entre eles, teve a certeza ao escutá-la o chamando pelo nome.

Ele sabia que algo estava errado, mas queria poupá-la por hora. Carl a segurou pela mão e a acomodou na cama. Relutante, Amélia queria discutir sobre a foto, mas ele sabia que ela teria algo bem maior para lidar logo pela manhã — um Dandy Spring vivo.

— Amélia, não vê o quanto você está cansada da viagem? É claro que o Dandy ainda está na foto — ele blefou e guardou o porta-retrato antes que ela o pegasse novamente. — Tente descansar, está bem?

— Eu, eu... — ela se calou ao ver o olhar duro dele. — Tudo bem, acho que é o cansaço.

Carl se deitou ao seu lado e a fez dormir. Ele sabia que ela teria que enfrentar algo muito difícil de se lidar. De todas as pessoas que sumiram da vida de Amélia, Dandy Spring era a mais improvável de retornar, mas lá estava ele, ainda mais com Billie no quarto. Ele sentiu vontade de bater naquela porta e brigar com o rapaz por se engraçar com a sua neta, mas aquilo podia esperar.

***

Dandy acordou junto com os primeiros pássaros que cortaram o céu naquela manhã cinzenta. Ele teve a confirmação de que aquilo não era um delírio ao acordar ao lado da mulher que amava. Algumas lágrimas rolaram por seu rosto ao finalmente ter a certeza de que estava vivo, que dormiu e conseguiu acordar. Uma leve garoa ainda caia e tornava tudo mais frio, mas não impediu o ex-corredor de saltar da cama e se enfiar no banheiro. 

Nada daquilo parecia muito distante da sua época, nem mesmo o chuveiro elétrico. Ele se deliciou enquanto a água morna corria por seu corpo e afastava um pouco daquele frio. Ele lavou os cabelos com o xampu de Billie, assim como se esfregou com o sabonete e utilizou sua escova de dentes.

"Meu Deus, como eu senti falta de um banho!". Ele se enxugou com a primeira toalha que viu e voltou a se jogar na cama. Billie resmungou algo e se virou para ele, que entrou debaixo do cobertor e enterrou o rosto no pescoço dela. Ela amou ser estimulada e de sentir aquele homem cheiroso em plena manhã.

— Ah, Dandy — ela gemeu enquanto abria as pernas para deixá-lo entrar. — Você é o melhor despertador que existe.

Billie agarrava os cobertores com força e mordia os lábios para não gritar enquanto ele investia para dentro dela. Os dois resolveram terminar no banheiro, e ela se sentiu explodir enquanto o corpo suspenso tremia enroscado na cintura dele e comprimido contra a parede.

— Eu me sinto tão grato por ter me apaixonado por você, mais uma vez.

— Somos dois, cowboy.

Billie observava Dandy enquanto ele vestia o sungão, nunca se cansaria de observá-lo. Ela estava se sentindo a mulher mais sortuda do mundo por tê-lo todo seu, a hora que quisesse e da forma que bem entendesse. A corredora o abraçou por trás, encostou o rosto nas costas másculas e alisou o peito. Ela sorriu ao escutar aquele coração batendo, e ficaria ali por mais tempo, mas resolveu lhe aplicar uma mordida. Dandy se virou rápido, a ergueu pela cintura e a sentou na cômoda.

— Você é muito atrevida.

— Eu não resisti, você fica muito sexy com esse sungão — ela riu quando ele revirou os olhos. — Os homens dos anos oitenta são bem mais bonitos e estilosos do que os de hoje.

— Ah, é?

— Sim, agora se veste — ela saltou da cômoda e jogou a camiseta para ele. — Eu quero muito te apresentar a minha melhor amiga. Depois vamos comprar umas roupas novas.

Billie se enfiou em um vestido florido e abriu a porta. Seu corpo gelou ao escutar o velho tintilar de talheres vindo da cozinha logo cedo. Ela rapidamente deu um passo para trás e esbarrou em Dandy, que a olhava confuso.

— A vovó chegou — ela cochichou, voltando a fechar a porta atrás de si. — Deve ter voltado pela madrugada. Eu já disse que não quero ela saindo por aí embaixo desses temporais, são perigosos!

— A sua avó nunca foi muito de obedecer.

— Dandy, para de falar assim da vovó — resmungou. — Eu fico com ciúmes e soa super estranho!

Ele apenas deu de ombros e soltou uma risada abafada. Billie revirou os olhos e respirou fundo.

— Preciso que fique aqui por enquanto, está bem? Vou conversar com ela primeiro.

Dandy assentiu e se deitou na cama de forma muito sugestiva.

— Convencido, não vou cair no seu truque.

Ela saiu antes que caísse no truque e sentiu as pernas tremerem a cada degrau que descia. Amélia ouviu o ranger da madeira e já sabia que a neta a observava, mas preferiu ignorá-la. Billie reparou que a escada estava limpa, assim como o carpete da sala e os copos que estavam sujos. Ela engoliu em seco e pigarrou com a garganta, mas a avó continuou ignorando-a.

— Bom dia, vovó — murmurou.

— Só se for para você — Amélia resmungou enquanto colocava três pratos na mesa. — E pelo visto a sua noite deve ter sido muito boa!

— Bem, isso eu não posso negar — ela se encolheu ao notar o olhar duro da outra. — Desculpa...

Amélia bufou e começou a colocar torradas, tiras de bacon e ovos fritos nos três pratos, depois depositou uma garrafa de café e outra de leite na mesa.

— Vamos receber visita? — Billie tentou contornar a situação com conversa fiada.

— Você já recebeu ontem, basta pedir para ele descer.

— Vovó, desde quando você se tornou tão calculista?

— Desde quando você começou a morar comigo! Está sob a minha responsabilidade, mas pelo visto não posso me ausentar por um segundo que você apronta. Anda, vai chamar o seu rapagão antes que o café dele esfrie.

— Rapagão, ai vovó... — a corredora tampou a boca para não rir.

— Billie Jean, não me faça lhe aplicar uma coça! Vá chamar o rapaz, quero conhecê-lo.

— Vovó — ela engoliu em seco. — Podemos conversar antes?

— Não — Amélia retirou o chinelo e ameaçou jogar na neta. — Se você não subir agora eu mesma vou lá e o faço descer pelos cabelos.

— Mas...

Billie desviou por pouco do chinelo que passou de raspão na sua orelha. Ela subiu apressada e segurou a mão de Dandy. Ele estava tão nervoso quanto ela, nem mesmo o cheiro delicioso do café da manhã foi capaz de fazê-lo sentir apetite. Eles apertaram as mãos e seguiram em frente. Nesse meio tempo, Carl apareceu, emanando sua aura dourada e translúcida. Ele sabia que Amélia precisaria de apoio. Ela não entendeu quando o marido apareceu e apertou sua mão, ele não costumava aparecer durante o dia.

Carl nada falou, e apenas olhou para frente quando o casal apareceu de mãos dadas no sopé da escada. Amélia acompanhou o olhar dele e precisou de alguns segundos para assimilar o que estava vendo. O mesmo para Billie, que agora estava enxergando o avô. A corredora quis abrir o berro, mas estava tão petrificada de medo que achou que iria molhar as calças. Amélia piscou os olhos com força para afastar a ilusão, mas o amigo continuava ali, e não tinha nenhuma aura emanando dele. "Ele está vivo?", ela perguntou.

— Dandy?

— Vovô?

As duas médiuns reviraram os olhos e desmaiaram. Dandy segurou Billie e a colocou no sofá, depois correu para Amélia e fez o mesmo. Ele queria muito abraçá-la e dizer-lhe o quanto sentiu a sua falta, mas nada podia fazer além de esperar. O rapaz arrastou uma poltrona e ficou de frente para as duas, aguardando, ansioso, que despertassem logo. Carl olhava a cena, que parecia bizarra até para um fantasma. Ele se sentou no ombro do sofá ao lado da esposa e também tratou de esperar. "Se Dandy, que é um ex-fantasma não pode fazer nada, quem dirá eu", ele pensou, enquanto observava o rapaz olhar com ternura para avó e neta. "Algumas coisas nunca mudam."

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