23. Amor ao mar
Leiam o capítulo de agradecimentos, por favor. ♥
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Sentado sobre uma rocha com os joelhos abraçados ao peito, Louis observava o movimento das ondas através de uma das fendas da gruta, e o brilho dourado que a luz do sol dava para a água era uma das poucas coisas que aqueciam seu coração. Mesmo estando na Ilha de Ogígia por nove anos, com aquela mesma vista durante quase todos os dias, ele pensava que não poderia se enjoar de contemplar o encontro do sol e do mar.
— Amo. — Uma ninfa chamou, apoiando-se ao pé da rocha para olhá-lo de baixo. — Quer comer algo? Há frutas frescas que buscamos de manhã.
— Obrigado. — Louis sorriu pequenamente. Tinha levado alguns dias desde sua chegada para que as ninfas o chamassem como um homem, e por mais que o tritão preferisse ser chamado pelo nome, aquilo já estava de bom tamanho. — Eu não estou com fome.
— Senhor…
— Por favor, deixe-me aqui e chame Nausínoo.
A ninfa suspirou, mas concordou com a cabeça antes de se afastar. Louis apreciava que elas se preocupassem tanto consigo, uma vez que ele era a reencarnação da deusa que costumavam servir, mas seus dias pareciam mórbidos e sem espaço para qualquer outra coisa além do vazio e algum alívio, quando as memórias infelizes do dia em que deixara seu verdadeiro amor ir embora desapareciam por poucos momentos.
Logo, um garotinho veio correndo em sua direção, escalando a rocha com entusiasmo. Louis apertou suas pálpebras fechadas por poucos segundos, reprimindo o aperto ardente que sempre brotava em seu peito ao vê-lo, antes de encarar a criança com um sorriso dolorido.
Se eles não fossem tão parecidos…
— Queria me ver, pai?
— Sim. — Louis puxou o filho para o colo, ajeitando-o sobre suas pernas. — Terminou de ajudar as ninfas com as almas recém-chegadas?
— Terminei, elas disseram que eu estou melhorando. — Nausínoo respondeu ao aconchegar-se contra o pai, suspirando em adoração. — Eu ainda acho que o senhor poderia me ensinar mais coisas.
— Quem sabe, quando você estiver mais velho. — Louis sorriu, beijando o topo da cabeleira cacheada do menino antes de apoiar seu rosto ali.
Nausínoo havia sido um presente. Quando Afrodite conversara com Calipso através do corpo de Louis, nove anos antes, o tritão jamais pensaria que as deusas estivessem planejando dá-lo algo que o deixasse conectado a Harry e ao mundo humano. Em Ogígia, nunca chovia de dia, apenas durante as noites, e tudo sempre tinha aquela aparência divina, como o próprio paraíso deveria ser. Ainda assim, Louis sentia-se incompleto, e seria muito pior se Nausínoo não tivesse sido concebido pelas ondas de Calipso. Eles tinham uma rotina, uma vivência que só eles poderiam entender, e a criação do menino fora baseada no que o tritão vira durante sua estadia com a tripulação do Octavius Medan.
Era doloroso, porém, acordar e ver que os mesmos olhos verdes e cabelos cacheados daquele que partira havia tanto tempo estavam lá, em uma forma mais inocente e inalcançável. A bem da verdade, em alguns dias, Louis desejava poder mudar a aparência do filho para que seu coração não se apertasse ao olhá-lo.
— Ah, e pai… — Nausínoo remexeu dentro de seu quíton, tirando de lá um objeto colorido. — Eu achei isso na praia. Sei que o senhor sempre vai até o outro lado da ilha todos os dias e fica falando com esse negócio, então acho que é importante.
Louis suspirou, com seus olhos arregalados e cheios de lágrimas. Quando foi que eu… De supetão, ele arrancou a Corda do Destino das mãos de Nausínoo e apertou o objeto contra o peito, segurando as lágrimas. Não queria chorar em frente ao seu filho de novo e ter de inventar algo que não era verdade apenas para que aquela ferida ardesse mais. Portanto, puxou um longo fôlego antes de olhar para o menino, com um sorriso nos lábios.
— Obrigado por me devolver, querido.
— Tudo bem… — Nausínoo respondeu, parecendo receoso.
Antes que Louis pudesse falar ou fazer mais alguma coisa, uma das ninfas apareceu em seu campo de visão, eufórica enquanto corria. Ao chegar perto da rocha onde pai e filho estavam, ela exclamou:
— Amo! Amo! Preciso que venha comigo.
— O que está acontecendo? — Louis perguntou ao levantar-se, gentilmente tirando Nausínoo de seu colo.
— Por favor. — A ninfa arfou, estendendo a mão. — Preciso que venha.
Mesmo que não entendesse aquele alvoroço, Louis concordou em acompanhá-la. Com rapidez, a ninfa puxou o tritão até a fenda mais alta da gruta, onde ele costumava dormir, e apontou pela abertura grande na rocha.
— Veja lá, senhor! Olhe!
O ar pareceu ser insuficiente para os pulmões de Louis ao que as velas brancas daquele enorme navio ficaram mais aparentes no horizonte. Em um primeiro momento, ele pensou que devia ser qualquer outra coisa; contudo, nem em um milhão de anos ele seria capaz de esquecer do lugar onde conhecera o amor da sua vida. Por isso, sem esperar, Louis saiu pela fenda e apoiou-se com o máximo de cuidado que conseguiu ao descer a encosta da gruta rapidamente, e quando seus pés tocaram a areia fina da praia, nada o impediu de começar a correr.
Suas pernas ardiam, e seus pulmões com certeza o fariam pagar mais tarde por tê-los forçado de maneira tão abrupta, entretanto nada disso realmente importava conforme a probabilidade de aquilo ser apenas uma ilusão se desfazia, provando que o Octavius Medan era tão real quanto os arranhões e queimaduras pela areia quente nas solas de seus pés.
Ao chegar do outro lado da ilha, Louis arfou ao vê-lo descer pela prancha, e quase caiu em sua corrida. Eram os mesmos cabelos cacheados, agora um pouco mais curtos, e as mesmas florestas verdes cheias de vida que, anos atrás, haviam sido seu único porto seguro. Com um último ímpeto de esforço, Louis acelerou seus pés até poder se atirar contra o corpo do humano.
O riso alto de Harry foi o bastante para contagiar Louis e, também, fazê-lo chorar. A sensação do corpo quente do pirata tocando o seu parecia irreal, mas preenchia cada canto daquele vazio formado durante os nove anos em que procurara por seu amado voltando ao horizonte. Finalmente, as florestas tinham se inundado mais uma vez com aqueles oceanos.
Nenhum deles se afastou até que aquela posição ficou desconfortável e, uma vez de pé, seus lábios se reencontraram num beijo que só eles conheciam. Louis e Harry estavam em puro êxtase, compartilhando daquelas emoções que transbordavam em forma de choro, risos e soluços. Se pedissem para que o tritão fosse completamente honesto, ele diria que parte de sua crença sobre o retorno do pirata havia se perdido. Agora, tudo tinha se encaixado nos lugares certos.
— Obrigado por esperar por mim. — Harry murmurou contra a pele do pescoço de Louis.
— Eu estava prestes a ir atrás de você, como eu prometi. — Ele brincou em resposta.
Capitão Styles sorriu tão grande, como a arabela nunca tinha visto, e foi a cena mais linda que já viu em toda sua vida. O tritão fez menção de beijá-lo novamente, porém a voz infantil de Nausínoo soou atrás de si.
— Quem é?
Quando os olhos verdes de Harry se encontraram com os do menino, Louis sentiu-se nervoso. Ainda mais quando o humano arfou em surpresa, apertando-o mais em seus braços. Eles se separaram, o tritão estendendo a mão para que o filho fosse até ele; com passos relutantes, Nausínoo obedeceu, sem tirar os olhos desconfiados daquele homem desconhecido.
— Louis… Ele… — O pirata riu numa lufada de ar, incrédulo. — Como?
— Quando tivemos nossa última noite juntos, Calipso pediu para que eu a levasse até a beira do mar para conversar com alguém. — Louis começou a explicar, pegando o filho no colo. — Era Afrodite, e as duas presentearam-me com ele para que eu não ficasse tão solitário aqui e, também, para que eu pudesse ter uma parte sua comigo.
— Eu não acredito que não me casei com você antes de termos um filho. — Harry riu, não disfarçando seu choro.
Louis entrelaçou seus dedos nos do humano, beijando suas mãos juntas. Por fim, apoiou sua bochecha na cabeça de Nausínoo, sorrindo.
— Vamos, quero apresentá-los do modo certo e saber o que aconteceu durante todo esse tempo. Eu reparei em algumas cicatrizes novas, capitão. Mande que os homens montem o acampamento, temos comida aqui o bastante para todos.
— É melhor ser verdade, Niall tem a fome de um leão.
Enquanto os três andavam em direção ao Octavius Medan, de algum modo inexplicável, Harry e Louis apenas souberam que, dali em diante, poderiam viver juntos e compartilhariam seu amor até o dia em que seus corpos seriam mandados para o fundo do oceano juntos, carregando memórias que afundariam para a eternidade.
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Oi, oi! Não vou falar muito aqui (leiam o capítulo de agradecimentos), mas espero que tenham gostado da história tanto quanto eu. ♥
Votem e comentem pra eu saber, e eu amo vocês demais da conta!
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