14. Rumo ao desastre
Curiosidade: o famoso pirata Edward Teach, popularmente conhecido como Barba Negra, adquiriu essa fama porque, quando saqueava navios, ele tecia cânhamo à sua barba e, então, ateava fogo, pois assim possuía um aspecto demoníaco e assustador, dando medo aos inimigos.
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Dois dias depois, as coisas estavam claramente diferentes. Harry e Gina haviam conversado, mas o clima entre os dois irmãos permanecia tenso — Louis não se importava, a bem da verdade, porque pelo menos o pirata não tinha quisto uma luta física contra a médica; resolver no diálogo e com certa distância parecia mais saudável, na concepção humana, então ele apenas resolveu não se intrometer.
Entre o tritão e o humano, por outro lado, tudo tinha se intensificado. As 48 horas desde que haviam se beijado revelaram que o tempo era uma questão relativa o bastante para permitir que, naquele curto período, os dois se aproximassem de uma maneira mais romântica; Louis tinha ficado atrevido, na visão de Harry, porque era comum que ele fosse até o capitão para puxá-lo para um canto e trocar alguns beijos, escondidos dos outros marujos.
Era isso, inclusive, que estavam fazendo naquele momento, dentro da biblioteca do Octavius Medan. Harry tinha empurrado todas as coisas de cima da escrivaninha para o chão, assim pôde colocar Louis sobre a superfície de madeira e acomodar-se entre as pernas do tritão, apoiando as mãos na mesa para beijá-lo. Eles não tinham ido mais longe do que aquilo, ainda era um pouco cedo — a bem da verdade, Harry apenas estava segurando seus desejos mais fortes porque sabia que, caso decidisse subir alguns degraus com Louis, seria necessário que estivessem completamente a sós e com alguma folga, pois a arabela ficaria perguntando como as coisas aconteceriam.
Alguém chamou Harry do lado de fora, soando distante, mas foi o bastante para despertá-los minimamente do momento íntimo. O pirata fez menção de se afastar, porém as mãos ágeis do tritão foram rápidas para agarrar a gola de sua camisa.
— Ignore. — Louis murmurou, pondo uma mínima distância entre suas bocas antes de voltar a beijar o humano.
Bom, ele não precisava pedir duas vezes. Harry segurou sua nuca com firmeza, e controlou-se para não fazer nada além daquilo. Não houve reclamações, então devia estar tudo bem; do lado de fora, a pessoa continuou chamando por Harry, até que a porta se abriu e a claridade do dia irrompeu o cômodo mal-iluminado. Liam parou ali, surpreso ao ver seu capitão sobre o corpo de Louis e percebeu que claramente estava interrompendo algo.
— O que é? — Capitão Styles suspirou, impaciente, se levantando. Ainda assim, ele permaneceu com as mãos repousadas nas coxas do tritão, seu quadril descansando entre elas.
— Oh, bem… Sobre isso, Zayn quer vê-lo. Disse que é urgente. — O bruxo explicou, sentindo-se desconfortável. Ele iria socar o navegador, com certeza, porque algo lhe dizia que o árabe sabia que Harry e Louis estavam juntos.
— Certo. — O cacheado disse, passando as mãos pelo rosto. Por fim, olhou para Louis e sorriu pequeno antes de abaixar-se e selar seus lábios. — Volto depois, tudo bem? Encontre algo para fazer.
O tritão assentiu, e logo os dois humanos tinham saído da biblioteca. Harry estava um pouco puto por precisar deixá-lo, mas quando chegou até Zayn, sua mente foi ocupada por outra preocupação. O navegador estava com os mapas abertos em sua mesa, esfregando os olhos como se algo estivesse muito errado.
— O que aconteceu? — O capitão perguntou, parando ao lado do amigo.
Zayn virou um pouco os mapas para que Harry pudesse vê-los melhor, e apontou para um ponto específico. O capitão engoliu em seco.
— É aqui onde estamos. — Seu dedo deslizou numa linha diagonal para baixo. — Não dá para continuar sem passar por aqui. Demorei muito para notar isso, eu sinto muito, capitão.
Capitão Harry Styles olhou o mapa como se aquele pedaço de papel fosse um fantasma, a pior assombração que tinha visto em toda sua vida. De certo modo, era. O calafrio que percorreu sua espinha fez os pelos de seus braços e pernas se arrepiarem, e Harry se remexeu por sentir o incômodo de alguns pontos pinicando. O suor ardeu em sua pele.
— Não dá tempo de mudar a rota para a borda dos rochedos? — Ele indagou, forçando sua voz para que saísse o mais centrada possível.
Zayn, com um lápis, desenhou uma reta entre a ilustração do navio e a entrada do Vale. Depois, traçou uma curva até a encosta externa do enorme conjunto de rochas.
— De onde estamos, as duas distâncias têm durações diferentes. Se manobrarmos o barco agora para tentar escapar disso, demoraria muito mais, além do esforço extra que precisaríamos fazer para desviar das pedras. Isso também não é certeza, poderia dar tudo errado e você sabe como elas manipulam a água para afundar os navios que tentam escapar.
— E por baixo?
— Seríamos tirados totalmente de rota. — O navegador disse.
Harry mordeu o lábio inferior, endireitando sua postura e cruzando os braços. Ele inclinou a cabeça, tentando pensar. Não dava mais tempo de manobrar até a terra firme, muito menos ancorar. Estavam em águas muito fundas e seria sorte se achassem algum lugar para a âncora agarrar.
Capitão Styles fechou os olhos por um momento, apertando suas pálpebras. Pense, pense, pense… Um par de oceanos invadiu sua mente, ao invés disso.
— Quanto tempo? — Ele indagou, por fim.
— Até o anoitecer.
O pirata esticou o pescoço para cima, e abriu os olhos. A luz foi intensa, o sol do meio-dia ardeu em sua visão. Ainda assim, ele assentiu e encarou uma das pontas da vela principal sacolejar ao vento.
— Vamos nos preparar.
O céu estava com uma linda coloração de lilás, laranja e vermelho, sendo ainda mais contrastante por causa das paredes rochosas escuras emoldurando tudo; entretanto, mesmo que Louis quisesse admirar as nuvens brancas se misturando suavemente àquelas cores, a tensão presente entre todos no navio não poderia simplesmente ser ignorada. Estando ao lado de Harry, sobretudo, pois o capitão encarava o cenário na frente deles como se todos ali fossem carneiros sendo jogados aos leões.
— Como é o nome desse lugar, de novo? — O tritão sussurrou.
Todos estavam em silêncio. O Octavius Medan era o único fazendo barulho, abrindo caminho na água e seus mastros estalando. De resto, não ouvia-se mais nada.
— Vale Branco.
— É onde as necroínfas vivem, não é? — Harry assentiu, e Louis umedeceu os lábios.
Necroínfas eram malvadas por natureza. Ganharam esse nome porque eram relacionadas à morte. Era, de certo, um infortúnio cruzar caminho com uma. A princípio, elas tentavam seduzir as presas a fim de levá-las a um ponto fundo o bastante para que a fuga fosse cansativa, mas os humanos eram mais difíceis de pegar por serem criaturas terrestres; portanto, atraí-los requerera adaptações mais espertas por parte das necroínfas. A fala humana foi uma delas.
Alguns minutos se passaram e a tensão em todos os marujos diminuiu. No entanto, continuavam em alerta. Em determinado momento, Louis pensou que eles conseguiriam atravessar o Vale Branco sem ter que enfrentar aqueles demônios, sentindo-se confortável o bastante para recostar-se de leve no corpo de Harry. O capitão não reclamou. Por instinto, até abraçou o tritão.
Contudo, o som de algo rápido se movendo na água fez com que todos voltassem às suas posições mais rigidamente. Louis tentou sentir algo, mas um marasmo tomou conta de todos os seus sensores naturais. Uma voz feminina, suave e melódica, soou:
— O meu nome é Maria, sou filha de um mercador.
— Não prestem atenção, ignorem. — Harry ordenou, apertando um pouco mais a cintura de Louis.
A canção continuou.
Eu deixei os meus pais e 3.000 por ano, sim senhor. Tenho a flecha do cupido, a riqueza é ilusão, e só pode consolar-me meu marujo alegre e bom.
De supetão, um raio provocou um estrondo e o céu escureceu diabolicamente. Os homens suspiraram alto, quase em uníssono, fazendo tanto esforço para não gritar pelo susto quanto o próprio Louis. O tritão viu Zayn e Liam juntos na porta da biblioteca, observando tudo com atenção. Não tinha ideia de onde Niall e Gina estavam, mas assumiu que estariam dentro de algum cômodo, aguardando ordens.
Outro raio, e durante o relâmpago forte, várias figuras medonhas puderam ser vistas escalando os rochedos. Malditas, pensou Harry, mas não olhou muito. Observou seus homens quando o clarão passou, aliviado de vê-los de olhos fechados. Tinha os instruído daquela forma. Uma chuva horrorosa começou, sem aviso.
Quando a música voltou, era um coro de tons graves até os mais agudos. Louis estremeceu violentamente com o arrepio que atingiu sua coluna.
Venham todas as belas damas, aqui deste lugar. Eu nunca vou tão longe cruzando o alto mar.
Mais um clarão, mas não houve um estrondo. Na luz espalhada pelas gotas de chuva, o rosto feminino da morte apareceu às frente no caminho, flutuante, e abriu a enorme e sangrenta boca, mostrando seus dentes pontiagudos como espinhos. Harry acolheu Louis em seu peito na mesma hora, forçando a cabeça dele em suas costelas, sabendo que não poderia deixá-lo ver, assim como sabia que era tarde demais para fechar os próprios olhos.
A Morte sorriu, então, percebendo que as coisas estavam a seu favor, e as cavidades oculares vazias mostraram-se felizes. Os últimos versos da canção vieram não somente do coro das necroínfas penduradas no rochedo mas, também, da boca mortal daquela imagem horrível, alta como um trovão.
Eu tenho a flecha do cupido, a riqueza é ilusão. Só pode consolar-me meu marujo alegre e bom.
Harry poderia se desesperar por várias coisas naquele momento, e mesmo que estivesse rezando para que todos permanecessem estáveis, não pôde deixar de amaldiçoar em um sussurro quando notou Matteo na borda do Octavius Medan, segurando na balaustrada enquanto seu corpo inclinava-se na direção das necroínfas. Não, por Deus, não faça isso, caralho, desejou, apertando ainda mais a cintura de Louis. Ouviu o tritão arfar em reclamação, mas decidiu que seria egoísta naquele momento para usá-lo como um meio físico de expressar sua aflição.
— E-eu… Eu tenho a flecha… — Cantarolou o italiano, sôfrego, enquanto seus olhos ficavam leitosos.
O rosto gigante da Morte havia sumido. Ainda assim, aquilo não impediu que uma estaca de gelo atravessasse o peito de Matteo. Ele sequer gritou de dor, uma vez que sua essência já tinha sido extinguida, e seu corpo amolecido caiu no chão molhado do convés como se fosse parte da chuva. Milésimos de segundos passaram até que vários daqueles bastões de gelo super afiados começassem a ser atirados, dando o sinal que capitão Styles precisava para começar a berrar os comandos para que todos lutassem.
— CANHÕES, ARMAS, ARCO E FLECHA… TUDO QUE PUDEREM, ACERTEM ESSAS PUTAS E SE ESFORCEM CASO QUEIRAM SAIR DESSA PORRA DE LUGAR VIVOS. — Harry olhou para Louis, seus olhos severos forçando o tritão a se acalmar. — Você fica comigo, e me dê cobertura enquanto faço o mesmo por você.
— Aye, pode dei… — Antes que pudesse terminar, a boca do pirata acertou a sua com um beijo duro, mas carregado. — Deixar. — Suspirou.
Logo, eles avançaram pelo navio para ajudar aqueles que precisavam. Louis estava tenso para um inferno, porém conseguiu manter a compostura tão bem quanto Harry. Eles estavam grudados um ao outro, enquanto o tritão jogava projéteis afiados de gelo e água, além de criar campos de proteção temporários para os humanos. A arabela havia tomado um pouco do antídoto que Mama Zenabu dera, por precaução.
Cada marujo estava amarrado a diferentes partes do navio para não pularem inconscientemente ao mar, e aquilo estava funcionando. Harry conseguiu puxar Liam para trás de si e cortar um chicote de algas, lançado por uma das necroínfas, enquanto fazia uma dupla com Zayn como Louis e Harry.
— Obrigado, capitão. — O bruxo gritou antes de voltar ao seu posto para continuar projetando seus jatos de fogo. Não podiam perder tempo.
A chuva dificultava tudo, mas era pior para aquelas bestas do inferno. A visão delas era tão sensível à luz que, conforme os tiros de canhão e armas explodiam em flashes amarelos e brancos, os guinchos de dor das necroínfas soavam. Aquilo, sim, era música para os ouvidos do capitão Styles.
De maneira sorrateira, e fora da vista de qualquer um dos piratas, uma das necroínfas esgueirou-se pelas rochas mais altas, achando um esconderijo. Pela linguagem corporal do humano que gritava, ele devia ser o líder daquele bando infeliz, mas havia uma coisa curiosa: outro humano, mais baixo, estava junto do líder o protegendo. Não tinha, nunca, visto dois líderes em um só bando. A necroínfa chegou à conclusão que eram parceiros; estavam se protegendo, mais do que aos outros humanos, então só poderia ser aquilo.
Ela sorriu com um ar demoníaco, gritando algo em sua própria língua para outra de sua espécie, perto de si. Elas se olham com sorrisos idênticos, sumindo tenebrosamente entre as rochas.
De volta ao navio, Louis sentiu-se tonto quando uma enorme lança de gelo atingiu o chão à sua frente, o pegando de surpresa. Tinha saído ileso, mas não perdeu tempo em avançar contra as necroínfas que o tinham feito de alvo; quando, enfim, acertou a última delas, o grito de Harry soou por toda parte, como se ele tivesse sido atingido, ecoando nos rochedos e chamando a atenção de quase todos os marujos.
O capitão estava caído no meio do convés, urrando tão alto que parecia estar sendo torturado. Louis sentiu seu coração falhar, contudo forçou-se a correr até o humano e ajustá-lo numa posição que conseguisse abrir sua camisa, em seu colo. NãonãonãonãonãonãoNÃONÃONÃO, o tritão pensou em desespero, olhando o peitoral humano atingido e aquela maldição se espalhando com certa velocidade.
A fúria que tomou conta de Louis não poderia ser descrita. Quase inconscientemente, ele gritou tão alto e uma luz cegante saiu de seus olhos e boca, projetando até o céu aquela luminosidade, seu grito tornou-se um eco ensurdecedor.
Duas enormes correntes d’água ergueram-se ao redor da coluna luminosa, esticando-se em tiras que atingiram cada uma das necroínfas que não tinham percebido o perigo que corriam. Juntando-as numa enorme bolha, Louis congelou a água e estilhaçou cada partícula que conseguiu, derramando o sangue daquelas criaturas malditas por todo lugar.
Fazendo um último esforço, o tritão formou uma grande onda, que carregou o navio até a saída, onde finalmente todos puderam abaixar a guarda. A maioria dos marujos, assim que a calmaria da noite clara atingiu o Octavius Medan, correu para perto de seu capitão ferido; entretanto, Louis parecia um animal protegendo o companheiro ferido, não deixando que ninguém chegasse perto. Com sua mão pressionando a pele onde a mancha estava, ele fazia o possível para retê-la.
— Zayn. — Chamou, com a voz saindo tão animalesca que os demais humanos acharam melhor ir para longe. O navegador apareceu em sua frente, assustado como um coelho pela postura de Louis. — Ajuda. Onde tem ajuda.
O navegador olhou para o ferimento de Harry, e então olhou para os lados, tentando pensar o mais rápido que pudesse. Ele ergueu a cabeça, olhando as constelações. Dá tempo de ir até lá e encontrá-la, pensou.
— Vou traçar a rota agora mesmo. — Respondeu, engolindo em seco sob o olhar predatório de Louis. — Vamos até Dongmei.
Niall assobiou em surpresa, tremendo e olhando para Harry, que se contorcia.
— É tão grave assim? Digo, Dongmei é coisa pra valer.
— Quem é Dongmei? — Louis o ignorou, encarando o rosto de Zayn.
— É uma amiga muito antiga de Harry. Ela pode o livrar disso. — O árabe murmurou, fazendo uma careta quando Harry urrou de dor e vomitou nas pernas de Louis.
O tritão encarou os restos de comida fétidos escorrendo em sua pele, mas não se importou. O que fez foi arrumar o cacheado em uma posição mais confortável, intensificando um pouco mais a retenção da mancha.
— Nos leve até ela, então. — Louis disse, por fim, parecendo mais calmo. Ele fitou Niall, ainda não querendo tirar Harry de sua linha de visão. — Ele tem a mancha-negra. Uma maldição que pode necrosar todo o seu corpo com tanta dor quanto ser queimado vivo.
— É por isso que precisamos nos apressar. — Zayn falou, antes de começar a dar as ordens para que todos se recompusessem e preparassem o navio para zarpar.
Louis percebeu que não seria boa ideia ficar ali, no meio do convés, se quisesse proteger Harry. Assim sendo, chamou Liam para que fossem à cabine de Harry, que havia se tornado sua, também, e não deixou com que mais ninguém entrasse. Enquanto ajudava o bruxo a cuidar do pirata, e enquanto se limpava, Louis conjurou uma corrente animada para ajudar o navio a chegar mais rápido até Dongmei.
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Ahoy, marujos! Esse foi curto, eu sei, mas espero que tenham gostado.
Não se esqueça de VOTAR e COMENTAR para que eu possa saber o que você está achando da história :) Isso me ajuda muito.
Até o próximo capítulo, amo vocês. ♥
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