07. Port Royal
Curiosidade: não eram as bandeiras pretas que assustavam os piratas, e sim as vermelhas. As famosas bandeiras pretas eram um acessório corriqueiro nos navios e serviam de aviso para corsários ou navios reais, porém as bandeiras vermelhas simbolizavam que uma tripulação estava pronta para atacar, e era um aviso de morte certa.
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Com um farfalhar constante e uma luminosidade um pouco forte atingindo seu rosto, Harry despertou lentamente. A princípio, enquanto esfregava os olhos para tirar as remelas secas, o pirata pensou que a porta devia ter ficado apenas encostada após a noite anterior, com a saída irritada de Louis, porém o barulho era muito mais sutil e áspero que um simples ranger de dobradiças.
Decidindo abrir as pálpebras, ele esperou até que sua visão estivesse acostumada à claridade e vasculhou o quarto com seus orbes cansados até parar na figura de Louis sendo iluminada pelo sol da manhã, como se ele fosse um anjo caído na Terra. O tritão tinha voltado à cabine de Harry durante a madrugada, depois de conversar com Gina e chorar pela primeira vez desde que assumira sua forma humana.
Ele achara que seus olhos estavam quebrados e pedira para Gina tentar consertá-los, da mesma forma que ela fizera com seu corpo, quando fora resgatado, mas a Styles caçula explicara-lhe que o choro era uma reação comum do corpo humano ao sentir fortes emoções, assim como o riso. Louis se acalmara o bastante para poder contar sobre o que havia acontecido e, depois de tudo, decidira que o melhor seria não contar nada a Harry, portanto fizera a médica manter aquele assunto em segredo, apenas entre os dois.
Ao contrário de toda noite, Louis não sentira-se cansado — muito pelo contrário — o que o fez perambular pelo grande cômodo por horas a fio. Harry o ouvira entrar, mas estava tão sonolento para ter qualquer espécie de diálogo que apenas virara-se e para voltar a dormir. Aquela fora uma boa oportunidade para Louis poder mexer nas coisas mundanas que o pirata tinha sob seu domínio, como o relógio — uma invenção muito útil para os homens, o humano tinha explicado, mas era um tema muito complexo para explicar para um ser de uma espécie que tinha a cronologia baseada nas fases da lua e das marés —, ou, ainda, os livros.
Aqueles objetos, sim, haviam despertado real curiosidade sobre o tritão. Nunca tinha visto um, não sabia para o que serviam e, tampouco, como ou de que eram feitos, porém Harry lhe explicara que serviam de arquivos, meios de guardar histórias reais ou não feitas por humanos, para humanos. A maioria que o capitão pirata tinha era de poesia, segundo o próprio, e apesar de ele ter tentado explicar de uma maneira simples a Louis o que poesia queria dizer, o tritão só entendera que aquele tipo de história fazia sentimentos fortes aflorarem no peito dos homens.
Durante a madrugada, Louis folheara quase todo livro que Harry tinha em sua cabine, e ficara ligeiramente triste por não entender boa parte das palavras registradas naqueles livros, mas decidiu que pediria para Gina ou para o próprio Harry ensiná-lo a ler. Agora, quando o sol começava a aparecer no horizonte, Louis notou algo sobre a mesa da cabine que despertou sua curiosidade.
— O que está fazendo? — O pirata indagou, observando o tritão mexer em alguns papéis que estavam espalhados sobre a sua mesa.
Não esperando uma resposta, realmente, Harry espreguiçou-se e levantou, começando a procurar suas roupas pelo chão. Encontrando-as sobre a prateleira da lareira, vestiu-se sem ligar para o mau cheiro de sua camisa. Se nada atrapalhasse o percurso da tripulação do Octavius Medan, ainda naquele dia aportariam em Port Royal e, a bem da verdade, ninguém em Port Royal se importava com o odor do suor de um pirata, a menos que pertencesse à família do governador.
— Isto é a forma com que vocês se comunicam? — O Louis perguntou, surpreendendo o pirata com seu tom curioso, quase que simpático de novo.
Harry foi até ele para ver melhor. Eram cartas que ele recebera e outras que precisava enviar.
— Aye. Como supôs?
— Têm o mesmo formato daquele texto que você leu, quando quis me dar um nome. — A arabela deu de ombros, passando seus olhos rápidos pelos papéis. — Como chamam?
— Cartas.
— Estão mortos?
Harry subiu o olhar para Louis, franzindo o cenho. O tritão não o encarou de volta, porém.
— O quê?
— São animais mortos? Não fazem nada quando os toco.
Ao passo que Harry começou a rir pela pergunta, Louis enfim o olhou, com confusão. Não entendia o que tinha dito para fazer o pirata ter aquela reação. De uma forma inesperada e a contragosto, Louis sentiu um sorriso querer surgir em seus lábios conforme o som do riso humano o contagiava, mas se controlou ao máximo.
— Cartas são feitas de papel, Louis. — Harry explicou, após alguns segundos. — Não são animais, são coisas feitas de... Bom, papel. É inanimado. Não tem vida.
— Tudo tem vida. — Louis torceu o nariz.
— Que seja. — O pirata revirou os olhos. — Só supôs que é uma forma de comunicação por ser parecido com aquilo que eu li?
— Não só isso. Minha espécie também se comunica a longas distâncias com algo parecido, mas transformamos a mensagem que queremos mandar em forma de magia e a grudamos em peixes. Eles levam o recado até o destino e só a arabela destinatária pode abri-la.
— É interessante. — Harry suspendeu as sobrancelhas, e então voltou para o quarto da cabine enquanto colocava o cinto com a arma, espada e outras coisas. — Sabe, você ainda não me contou o que aconteceu para ter sido sequestrado pelos espanhóis.
Capitão Styles precisava ser esperto. Louis parecia estar bem mais aberto do que na noite passada, então perguntaria mais algumas coisas para conhecer melhor sua história. Tomou para si, também, que aquilo não era movido por nenhuma curiosidade pessoal, apenas necessidade de conhecer bem o terreno onde estava pisando. No fundo, alguma parte sua sabia que era só uma desculpa qualquer criada por seu orgulho.
— Foi… — Ele ouviu Louis falar. — Azar, eu acho. É assim que vocês falam quando algo só dá errado, sem nenhum motivo?
— Aye.
— Bom, é. Foi isso que aconteceu.
Harry esperou, mas nada mais veio.
— E como, exatamente, aconteceu? — Perguntou cautelosamente, observando de soslaio o tritão suspirar de forma silenciosa, como se decidisse se era boa ideia contar.
— Em comparação com as outras sereias, minha espécie é meio tímida. — Louis começou. — É difícil ficarmos próximos à superfície, mas uma vez ao mês os grupos de caça mais propínquos vão caçar juntos numa baía perto do Vale Branco.
— Por que lá? — Harry perguntou, sua voz saindo baixa enquanto ele se aproximava de Louis. O Vale Branco não era exatamente o melhor lugar do mundo para nenhuma criatura viva.
— Uma vez ao mês, um cardume especial migra para lá, e aqueles peixes só são comidos pela minha espécie. Eles revitalizam nossos poderes. — O tritão explicou. — De toda forma, eu participo sempre dessa caçada. Só que, da última vez, eu notei que havia uma arabela diferente conosco, que disse ser novata em seu bando e não ter muitos amigos. Ela era estranha, não tinha muito da nossa aparência, mas era simpática.
— Entendi. — O pirata disse, sugestivamente. — Bom, ninguém notou isso além de você?
— Ela não especificou de onde tinha vindo, então ninguém perguntou. Se não é parte do nosso bando, não ligamos tanto. Enfim, nós acabamos conversando quando um tempo surgiu e ela me disse que poderia fazer com que eu conhecesse humanos.
— Conhecer humanos?
— Sempre me intriguei sobre sua espécie. — Louis largou os papéis e olhou diretamente para Harry. — Ela me atraiu para um rochedo, me mostrou um navio como este que estava longe, mas perto o bastante para enxergarmos alguns homens lá em cima. Acabei aceitando a proposta dela, e foi a maior estupidez da minha vida. Ela era Naectro.
Harry precisou resistir ao impulso de arquear as sobrancelhas, acabando por inclinar um pouco seu corpo para frente. Eles estavam chegando a algum lugar desconhecido, mas muito interessante.
— E o que isso significa? — Indagou.
Mesmo que fosse uma pergunta sutil, foi o bastante para que Louis despertasse de algum tipo de transe. O tritão balançou a cabeça, voltando seus orbes azuis para as cartas espalhadas pela mesa. Harry poderia amaldiçoar-se em pensamento por ter sido indelicado e não saber medir suas palavras para conseguir mais informações, talvez até pudesse forçar Louis a sair daquela concha de reclusão, mas algo o fez deixar aquele assunto para lá.
O clima desconfortável que pairava ali fez um silêncio incômodo abraçar o momento. Nada mais sairia daquela conversa, então capitão Styles apenas estralou o pescoço antes de andar até a porta e pegar o seu chapéu tricórnio sobre a estante ali perto. Virando-se uma última vez para Louis, o ele colocou o chapéu e disse:
— Nós estamos próximos de Port Royal. Vai ser sua primeira vez em terra, então eu quero garantir que se lembra de tudo que eu te ensinei sobre luta mano a mano. Esteja no convés em meia hora.
Num intervalo entre as lutas para limparem o sangue de seus rostos, as coisas estavam relativamente calmas no navio. Aqueles que cuidavam da limpeza estavam finalizando suas tarefas, Niall estava preparando o almoço e Tyson tinha arranjado algum afazer qualquer para distrair-se enquanto nada novo surgia. Louis e Harry treinaram por algumas boas horas, e ambos tinham se acertado em cheio.
Enquanto Gina cuidava do nariz sangrento de Louis, Zayn limpava o corte na bochecha de Harry. A Styles mais nova havia brigado com o irmão por ter feito aquilo com o tritão, porém, após Harry e Zayn terem rido dela junto com outros marujos que escutaram a bronca, Gina parou de falar.
— Se você for bancar a mãe de todos aqui, é melhor estar preparada para ser ignorada e gongada. — Harry a alertou.
— Eu só acho estupidez machucar outra pessoa num treino.
— É besteira você ter aberto cadáveres estudando medicina? Corrido o risco de fazer outras pessoas morrerem misturando chás e tudo mais? — O irmão retrucou. — Se quer ficar bom em algo, você treina. Às vezes dá certo, e às vezes, não.
Gina sabia que o pirata tinha razão. Medicina funcionava não só na teoria, mas na prática — senão, qualquer um poderia ser um médico, certo? A questão era que ela realmente gostava de Louis e prezava pelo tritão, assim como por seu irmão. Era... estranho o quão naturalizada a violência era entre os piratas. A única coisa violenta que Gina precisava lidar era quando algum desentendimento acontecia entre os vagabundos bêbados que frequentavam o seu pub.
— Como você se sente? — A médica perguntou a Louis ao acabar de passar a pomada caseira de ervas em suas narinas.
— Tudo bem, não está mais doendo, mas o cheiro é bem forte. — O tritão torceu o nariz, sentindo apenas um leve incômodo. — E arde um pouco.
— É normal. — A mulher riu baixinho. O tritão ainda tinha alguns trejeitos bem estranhos com o novo corpo.
Harry abriu a boca para fazer alguma piada besteirenta que não seria entendida por Louis, mas o grito do vigia o alertou antes:
— TERRA À VISTA! PORT ROYAL, CAPITÃO, BANDEIRAS POR TODO LUGAR NO PORTO.
— E lá vamos nós. — Harry resmungou ao afastar Zayn e levantar.
— Eu ainda não terminei com o seu rosto feio. — O árabe disse.
— Resolvemos isso mais tarde, na cama, se você não estiver ocupado com outro homem dentro de você. — Harry zombou, piscando para o amigo. — VAMOS AO TRABALHO, MACACOS PULGUENTOS DE MERDA! VAMOS ATRACAR NO PORTO.
A movimentação dos marujos foi quase automática. Não era a primeira vez em Port Royal, provavelmente nem seria a última, então todos já sabiam o que fazer. Velas preparadas, âncora pronta e tudo mais. Os únicos desconectados com aquilo eram Gina e Louis, por isso Zayn puxou a médica para um lado e Harry agarrou o braço de Louis para ir até a cabine.
— Você não é delicado nem fora de uma luta? — Louis indagou. — Você é tão bruto.
— Tem outras coisas em que sou muito mais bruto, pode apostar. — Harry zombou, afobado, e então guiou Louis até o armário que havia no quarto. — Aqui, pegue isto e escute bem o que eu vou dizer.
O tritão agarrou a pistola que o pirata entregou junto com uma espada e um cinto, não sabendo muito bem o que fazer. Como se entendesse isso, o capitão Styles pegou o cinto de volta para começar a arrumar Louis. Suas mãos ásperas eram fortes e firmes o bastante para que cada apertão para aprontar o cinto fizesse a arabela arfar, mas a criatura não reclamou.
— Você não conhece praticamente nada do mundo humano fora deste navio, então se não quiser que eu te chame de idiota impulsivo, não seja um idiota impulsivo. — Harry falava. — Apesar de você ser curioso para caralho, é preciso cuidado com quem mora nesta ilha; o governador é um drogado de merda que leva mais putas para dentro da própria casa do que os vagabundos que vivem nos bares e bordéis, então você já pode imaginar a baderna que é este lugar.
O pirata olhou para Louis, que tinha uma expressão de concordância mais falsa que a promessa de um alcoólatra sobre parar de beber. É claro que ele não entendia aquela comparação entre um governador e um bando de vagabundos. Harry suspirou antes de voltar a agarrar o braço de Louis para levá-lo de volta ao convés.
— Apenas fique ao lado de Gina, Zayn ou ao meu. Nós três estamos constantemente juntos, mas é importante você não nos perder de vista. Nem pense em ficar com Niall, ele é a pior companhia para você em terra, por enquanto. Mas, se você se perder e só encontrar aquele irlandês, então dê-lhe um tapa na cara e diga que é uma ordem direta minha para que ele cuide de você.
— Por que eu bateria nele? — Louis indagou, indignado.
— Porque ele sempre está bêbado dentro do navio, e fora daqui é pior.
— Oh. — O tritão assentiu.
— Bom, lembre-se do que lhe ensinei sobre luta, esteja atento e não dê ouvidos a ninguém que você não conheça. — Harry parou, vários marujos correndo ao redor deles, e quando Louis ia perguntar o que havia de errado, o pirata deu de ombros e continuou andando e falando. — Pensando melhor, não aceite e nem dê ouvidos a ninguém além de mim, Gina ou Zayn.
— E os outros homens do navio?
— Esqueça-os. Confio o suficiente neles enquanto posso vigiá-los, mas fora deste barco, não sei de tudo que fazem, então prefiro prevenir do que remediar.
— O quê...
— Não temos tempo de brincar de escolinha para eu te ensinar mais essa expressão. — Harry o cortou. O tritão ficou estranhamente quieto, e ele bufou. — Mais tarde, tudo bem? Mais tarde eu explico.
— Tudo bem. — Louis respondeu, seu tom parecendo animado. — O que vamos fazer lá?
— Eu vou cuidar de algumas pendências sobre o navio e a tripulação, e depois vou comprar a maior remessa de rum que esses desgraçados já viram. — Harry respondeu, esperando para que Matteo e Oliver descessem a prancha. Não deixou de segurar o braço de Louis em nenhum momento. — Já você irá se cuidar ao máximo para que eu não precise matar ninguém.
Por algum motivo, após de a prancha já ter sido abaixada e presa forte o bastante, capitão Styles pediu para que esperassem até todos os homens saírem primeiro. A única coisa que Louis entendeu daquilo foi que aquela saída era, geralmente, uma bagunça total — e realmente foi, tendo em vista que cinco homens caíram no mar ao lado do porto após serem empurrados em forma de brincadeira.
Tendo descido pela prancha, os dois encarregados da vigia do navio puxaram o objeto de volta. Não demorou até que o padre responsável por cuidar do porto se aproximasse; instintivamente, Harry se colocou à frente de Louis antes de virar o rosto para ele:
— Zayn e Gina estão por ali. — Apontou com o queixo, mostrando os dois humanos aguardando por eles no final do cais. — Vá para lá.
O tritão assentiu, encarando o velho senhor desconhecido uma última vez antes de dar uma corridinha desengonçada até os outros humanos para perguntar quem era ele homem vestido de maneira engraçada.
— Marujo novo, senhor Swan? — Padre Fernsby indagou, desinteressado, enquanto confirmava que a bandeira pirata do Octavius Medan não estava hasteada e então anotou as informações básicas que já sabia do navio.
Padre Joshua Fernsby conhecia Harry havia muitos anos, praticamente desde que ele começara a trabalhar com Heath. Todas as vezes que o jovem Styles atracava em Port Royal, Joshua era quem marcava o navio no registro, e desde a primeira vez, o codinome “Ryan Swan” havia sido criado para Harry passar despercebido pelos oficiais que, na realidade, achavam que ele era um rico primo distante do padre.
— É, sim. Precisa anotar isso? — Harry indagou.
— Não, não preciso. Seria bom ter um nome, porém, só por precaução.
— Alexander. — O pirata disse, após pensar por alguns segundos.
— Ele é grego? — Padre Fernsby procurou por Louis, achando-o encarando de volta. — Ele parece grego. De um jeito particularmente bonito, entende? Parece…
— Ele não é mais um brinquedinho para você, padre. — Harry cortou, sabendo do rumo nojento daquela conversa. — Se não vai seguir o seu voto de celibato, espero que fique ciente que não é com Alexander que o quebrará.
Joshua enrugou o nariz, em desgosto, mas assentiu. Harry não é mais meu garotinho, pensou, lembrando-se das noites em que ele e um Harry de catorze anos passaram juntos no celeiro de seu terreno.
— Desculpe, senhor Swan. — Disse após fechar o livro de registros e estender a mão enrugada para o pirata. — Quinze moedas de prata.
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Em dado momento do dia, Niall havia se juntado a Gina, Louis, Zayn e Harry enquanto eles iam resolver as coisas para o navio. O capitão inglês e o navegador árabe iam mais à frente, enquanto o cozinheiro, o tritão e a médica andavam mais devagar atrás, carregando uma parte das coisas que eles tinham comprado. A mercadoria mais pesada seria levada ao Octavius Medan ao final do dia, por Tyson e Todrick.
— Ele parece conhecer todo mundo aqui, mesmo passando a maior parte do tempo dentro do navio. — Louis comentou, observando tudo ao seu redor enquanto subiam uma escada improvisada de madeira podre que levava para o topo de um pequeno morro. De onde estavam, já dava para ver alguns bangalôs parecidos com os da parte baixa da ilha.
— Harry vem para cá desde criança, praticamente. — Niall explicou. Gina também prestava atenção, uma vez que não sabia muito sobre o irmão. — Com o passar dos anos, ele conquistou o respeito das pessoas daqui pelos próprios meios. Lutando, ajudando, esse tipo de coisa.
— Ele já dormiu com alguém daqui? — Gina indagou.
— Dormir? — Louis repetiu, confuso. — Como dormir com alguém poderia fazê-lo respeitado? Não tem nada de mais nisso, certo?
Niall comprimiu os lábios em uma linha fina, ficando entre achar graça da situação e considerá-la desconfortável. A Styles mais nova também parecia estar dividida entre essas duas coisas.
— Dormir também pode significar ter relações sexuais. Reprodução. — Gina explicou.
— Harry tem um filhote, então? — O tritão surpreendeu-se.
— Não. — Niall gargalhou. — Harry gosta de ter relações com outros homens. Você sabe a diferença, certo?
— Aye. — Louis confirmou. — Mas como ele pode se reproduzir, então? Ele me disse que vocês não são como a minha espécie, disse que só se reproduzem quando um homem põe um bebê na barriga da mulher.
— Caralho, ele soa como uma criança. — Niall suspirou. — Bom, humanos fazem sexo não só para reprodução. Gostamos de fazer isso, entende? É prazeroso para nós.
— Oh. — O tritão sentiu seu rosto queimar um pouco e seu estômago revirar. — Acho que estou com febre.
Niall e Gina se viraram para olhá-lo, e entendendo o que estava acontecendo, o cozinheiro começou a rir mais ainda e a médica colocou a mão na testa de Louis, fingindo medir sua temperatura, e então sorriu ao cruzar seus braços.
— Não é febre, querido. Fique tranquilo.
— Eu adoro você, Louis. É uma figura! — Niall exclamou.
A arabela macho não entendeu, mas sorriu mesmo assim, feliz por causar algo bom para o humano irlandês.
Eles continuaram andando, a subida parecendo nunca acabar, até que, alguns degraus depois, o grupo chegou em uma trilha em meio a várias árvores, plana e sem muitas curvas. Os pássaros e cigarras cantando formavam uma música única, que Louis nunca tinha ouvido em toda sua vida, então aquilo era um novo mundo para ele.
— Niall. — Gina chamou. — Você ainda não me contou se meu irmão dormiu com alguém daqui.
Eles ainda ficaram em silêncio por algum tempo. Harry e Zayn estavam afastados o bastante e entretidos na própria conversa para não ouvir, porém o irlandês ainda assim diminuiu seus passos e manteve seus olhos no chão.
— O padre.
Gina assentiu, mesmo que o cozinheiro não a visse. Louis notou que o ar ficou estranhamente mais difícil de respirar, entretanto deixou para lá. Não era um assunto que ele poderia falar sobre, já que as coisas entre os irmãos Styles diziam respeito apenas a eles. Portanto, quando chegaram à pequena vila do topo do morro, depois de uma caminhada quieta e acabrunhada, o tritão apontou para um estabelecimento que se diferenciava dos demais que tinha visto.
— O que é aquilo?
Gina e Niall olharam para a direção que Louis mostrava, parecendo ansiosos por alguma forma de sair daquele marasmo de estranheza. A médica disse que não sabia, mas no meio da frase foi cortada pelo cozinheiro:
— É a taberna de Mbappé! — Exclamou, se virando para assobiar bem alto com os dedos na direção de Harry e Zayn, então.
Os dois viraram-se, olhando para eles.
— Vamos encher a cara! — Apontou para a taberna enquanto gritava. — Não nos esperem acordados. Prometo não perder a mercadoria.
Harry e Zayn apenas afirmaram com a cabeça, virando as costas para seguirem em frente. Niall saltitou para perto de Gina e Louis e os empurrou para dentro do estabelecimento, explicando que Mazi Mbappé era um bucaneiro africano vindo da Cidade do Cabo e, nos primeiros anos em que Harry assumira o comando dentro do Octavius Medan, ele tinha ajudado o novo capitão com alguns serviços pequenos.
O lugar não era nada chique, mas pelo menos era mais limpo do que os outros lugares de Port Royal e não havia tanta gritaria.
— Os vagabundos caem bêbados ao pé do morro, não conseguem chegar. — Niall explicou ao que os três sentaram-se próximos ao bar. — Muito que bem, o que vamos pedir?
— Harry disse que eu não posso beber álcool. — Louis disse logo de cara.
— Eu não seria tão irresponsável. — O cozinheiro loiro bufou. — Você já parece uma criancinha falando sobre sexo, se eu te deixasse bêbado Harry penduraria minha cabeça no mastro principal como aviso.
Gina gargalhou.
— Você não está sendo responsável, então. Só não quer apanhar até esquecer seu próprio nome.
Niall dispensou aquilo com um gesto desleixado, como se afastasse um mosquito. Louis observava aqueles dois com um sorriso pequeno no rosto, ainda que não soubesse o porquê.
— Para mim soa como ter responsabilidade, com o meu próprio pescoço.
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A tarde que Louis passou com aquela dupla foi realmente divertida e o distraiu dos maus sentimentos que a discussão que ele e Harry tiveram na outra noite. O tritão e Gina não ficaram bêbados, mas Niall não se importou em beber por eles, também. No final do dia, o irlandês não conseguia manter-se acordado e seu cheiro de suor e álcool não era o melhor. Ainda assim, eles tinham conversado bastante sobre suas histórias, e pela primeira vez desde que embarcara na tripulação, Louis sentiu-se parte de algo.
Depois, quando já era tempo de voltar para o navio, eles precisaram pedir a ajuda de Mazi Mbappé para carregar Niall até o navio, e ele surpreendeu o tritão e a médica ao que, apesar de ser extremamente alto e musculoso, se mostrou ser alguém muito doce e simpático. Junto com eles, outros marujos chegavam trazendo enormes vigas de madeira, cordas e várias outras coisas. Harry estava no tombadilho observando tudo e, quando viu Mbappé subindo com Niall em seus ombros, não pôde deixar de suspirar pesadamente.
Devia saber que o melhor era ter pegado Louis assim que aquele irlandês disse que iriam para a taberna. Ao menos, não tinham se machucado.
De toda forma, Harry desceu para ajudá-los a colocar Niall na própria cama e, aproveitando que Mazi estava ali, ambos conversaram um pouco antes dele ir embora. Gina e Louis tinham ido para a cabine da médica guardar as bugigangas que ela comprara numa das lojinhas de artigos médicos e de bruxaria da cidade. Não era muito comum achar aquelas coisas fora daqueles estabelecimentos, ainda mais para mulheres comprarem.
Quando saíram, capitão Styles foi até Louis a fim de conversarem um pouco enquanto bebiam no tombadilho. O convite surpreendeu o tritão, mas uma vez que era Harry quem estava lhe oferecendo bebida, aceitou. A maioria dos marujos estava na cidade, passando um tempo em móteis, prostíbulos ou bares — além daqueles que tinham família em Port Royal e, por isso, voltaram para estadiar durante aquela parada —, sendo assim, o navio estava parcialmente vazio.
Harry pegou três garrafas de rum das várias que ele comprara durante o dia, e para a sua surpresa, depois do primeiro gole de Louis quase tê-lo feito vomitar, o tritão acostumou-se bem após o quinto. Inusitadamente, foi muito mais fácil para os dois conversarem sem nenhum clima tenso ser imposto entre ambos, o que ajudou Louis a rever suas primeiras impressões de Harry.
O pirata continuava sendo um brutamontes bronco e vil, porém seu lado sensível sempre esteve lá, ainda que encoberto por uma grossa camada de xingamentos, ofensas em forma de piadas e uma inacreditável falta de modéstia. Capitão Styles se preocupava com todos que faziam parte de sua tripulação, mais ainda com Niall, Zayn e Gina, que eram as pessoas que mais tinham contato com sua verdadeira essência, além de ser solícito e empático o bastante para não tratar Louis como qualquer carga que transportava em seu navio.
Aquela conversa também foi uma chance de tirar uma prova real do quanto Harry o deixaria entrar em sua vida, além de disso; para si, Louis acreditava ter se aberto o bastante para o pirata para que ele soubesse o quão frágil o tritão era. Portanto, parecia-lhe mais do que justo que Harry também compartilhasse um pouco de sua vida com ele, assim como fazia com os outros.
Pensando nisso, ele se lembrou da conversa que Niall e Gina tiveram sobre Harry fazer sexo com aquele padre. Soou estranho para si, na hora, que a própria irmã não soubesse daquilo, uma vez que eles pareciam tão próximos.
— Como era seu relacionamento com Gina antes de se encontrarem de novo? — Louis indagou, virando a garrafa de rum mais uma vez.
— Confuso.
— Confuso como?
Harry deu um sorriso ladino, mais parecendo um cão que mostra os dentes. O capitão engoliu em seco, recostando-se na cadeira de madeira e encarou o mar, que estava tranquilamente sendo iluminado pela luz desanuviada da luz.
Suas roupas estavam malcheirosas com o suor, mas aparentavam estar limpas, e os botões abertos da camisa branca permitiam Louis ver as tatuagens de seu torso queimado pelo sol. Os cabelos longos também estavam claramente ensebados pela maresia e transpiração, formando cachos mais grossos e definidos, como se Harry tivesse mergulhado. Era lindo, com certeza, mas algo o dava um aspecto de quem havia perdido certo viço.
Não era bem uma tensão pairando sobre eles naquele momento, parecia mais como algo prestes a eclodir de forma sensível.
— Meu pai nunca deu muita atenção para o casamento com minha mãe, mas sempre esteve lá por mim e minha irmã, Gemma. É nossa irmã mais velha. — O pirata olhou para o convés, em direção a Gina, que estava com Niall e Tyson, jogando cartas. — Gina veio depois, quando meu pai admitiu que estava traindo minha mãe com outra mulher.
— Então… — Louis o cortou, para tentar entender. — Seu pai teve você e Gem... Gemma? — Repetiu, em dúvida se tinha pronunciado certo. Harry assentiu. — E enquanto estava com sua mãe, ele também mantinha uma outra mulher e filha — Gina — em segredo?
— Isso. — O pirata suspirou pesadamente. — A princípio, eu não gostava dela. Achava que Gina era o motivo de minha família ter sucumbido, mas após algum tempo, notei que nosso círculo familiar já tinha sido desfeito muito antes. Minha mãe também não era a melhor pessoa do mundo, tampouco era uma boa madrasta para Gina; sempre a destratou, humilhou e era horrível.
— Por que disse que sua mãe não era a melhor pessoa do mundo, além disso?
Harry sorriu. Louis era curioso como uma criança e, como tal, fazia perguntas sem parar. O pirata não sabia se era por causa da bebida, mas não estava mais achando aquilo irritante — era até fofo, supôs.
— Minha mãe não ligava para os próprios filhos. Para ninguém, a bem da verdade, que não fosse ela mesma. Era uma vadia egoísta e, sinceramente, não tenho o mínimo interesse em saber sobre como ela está agora. Faz anos que não vejo Gemma ou Anne.
— Era o nome dela? — O tritão tinha encostado confortavelmente na quina da parede externa e da balaustrada.
— Sim. — Harry olhou para Louis, agora. — Voltando ao assunto, foi por puro ciúme de meu pai e a relação que ele tinha com Gina. Com a mãe dela, ele sempre era mais feliz e, por Deus, a mulher era uma santa. Óbvio, se relacionar com um homem casado não fez bem à imagem dela, mas nunca fui maltratado quando ia até a casa deles.
“Tiffany — era o nome da mãe de Gina — era uma linda moça. Gina é praticamente uma cópia, com cabelos loiros e tudo, mas Tiffany era muito tímida e doce, sempre falando baixo. Minha irmã é totalmente o contrário e, quando criança, desafiava todo mundo que pisava em seu calo. Se dissessem ‘você não pode fazer isso, porque é mulher, ou porque é nova demais’, ela faria de tudo para provar que sim, ela conseguia e podia.”
Harry soltou um risinho nostálgico, voltando a olhar para o mar e tomou um longo gole de rum. Louis fez o mesmo, curtindo o falatório sentimental do capitão. Era bom acessá-lo daquele jeito.
— Uma vez, Gina ouviu de um dos garotos da vizinhança que ela não conseguia escalar a árvore mais alta do bosque. Um enorme abeto, de uns quarenta metros de altura, e era bem escorregadio na época de troca de casca. Gina saiu sem falar nada e, uma semana depois, quando todas as árvores estavam trocando de casca, ela chamou todos para a assistirmos subir naquela árvore só com uma corda amarrada na cintura.
— Nossa. — Louis riu. — Me lembre de nunca desafiá-la.
Harry riu junto, sentindo os olhos arderem pelas finas lágrimas que tinham aparecido. Ele não as deixou cair, entretanto.
— Gemma era muito séria, sempre focada em cuidar de suas aulas de etiqueta e esse tipo de coisa. — O pirata deu de ombros. — Acabou que uma coisa levou à outra, e Gina e eu ficamos muito próximos. Só que, quando eu completei treze anos, decidi sair de casa depois da primeira tentativa de fazer parte da tripulação de meu pai. Ele resistiu em me aceitar, contudo, desde então, eu estive neste navio. Em compensação, nunca me despedi de Gina, nem de ninguém.
Louis escutou tudo em silêncio, enquanto que em seu interior, um misto de emoções fazia-o barulhento. Harry não era tão diferente dele, no fim das contas, mesmo que fossem de mundos extremos um do outro. De certa forma, o tritão entendia o que a história do pirata significava para o próprio e, assim, podia relacionar aquilo ao que acontecera consigo.
Pensando em como Harry se abriu sobre o processo de se separar da própria família, Louis não hesitou em começar a falar:
— Eu acho muito bonito a forma como vocês, como humanos, se relacionam. Não são todos, é claro, mas pelo menos aqui dentro do navio dá para notar o quão unidos vocês são dentro das particularidades de cada um. No meu bando, no meu mundo, não tem muito disso.
Harry estava prestando atenção, ainda não sabendo muito bem de onde tudo aquilo havia surgido. Não para coisas úteis a si, mas sim para conhecer melhor a história de Louis.
— A maior diferença que você pode encontrar por lá são as coisas que definem nossas espécies. Ninfas vivem em terra ou pequenas porções de água, necroínfas são mortais, etecetera. Eu acredito que eu só tenha essa consciência sobre humanidade por ter me tornado “um tipo de humano”.
— Como assim? — Harry indagou.
— Acredito que antes de eu ser posto em uma concepção completamente diferente da minha, eu via as coisas de uma só maneira. Não tínhamos muitos problemas por viver na maior profundidade possível, além das brigas por território e esse tipo de coisa, mas tudo era... superficial? A primeira vez que eu ri foi depois de ser transformado. Foi estranho, mas aqui em cima tudo é mais intenso e reflexivo para mim.
— Acho que entendo. — Harry disse, então, e passou para a terceira garrafa que havia pegado. Ofereceu o primeiro gole a Louis, mas o tritão mostrou que em sua garrafa com algum rum ainda. — Ei, você pode me contar um pouco sobre aquela bruxa?
O tritão o encarou por um tempo, sem uma expressão certa no rosto. Harry abriu a boca para falar, mas Louis foi mais rápido:
— Eu respondo, e depois você me diz o porquê quis saber. — Ele disse, sério, e capitão Styles assentiu. — Quando ela me enganou, ela era literalmente igual aos outros da minha espécie, mas dizem que quando você encontra com Naectro, você sabe que é ela. Demorou um pouco até eu notar, mas eu soube. Tarde demais, ainda assim.
— Ela te prometeu algo?
— Ter a melhor experiência com humanos. E, bom, já sabemos onde isso deu. — Louis riu.
— Aye. — Harry concordou, risonho.
O momento entre eles foi banhado por uma sensação de calmaria e calor. Todos já tinham se recolhido e, apesar da regra de só poder ficar fora dos cômodos de dormir com as luzes apagadas, Harry e Louis não se importaram com o fato de a única iluminação estar vindo da cidade e da lua refletindo no mar.
— Mas eu estou feliz sobre como as coisas aconteceram, depois. — Louis completou, após alguns segundos.
Harry o fitou como se quisesse desvendá-lo. Podia ser a bebida falando, também, mas talvez ele quisesse mesmo.
— Por que diz isso?
— Depois de ser recebido neste navio, minha perspectiva mudou. Não só isso, mas minha vida. Não é ruim estar aqui, vocês me tratam bem dentro daquilo que são as suas regras. — Louis explicou. — É como mudar de um bando para o outro, ter que aprender como o líder faz tudo funcionar, todas essas coisas.
Harry sorriu, balançando a cabeça como se fosse algo irônico. De certa forma, era mesmo uma boa analogia. E isso o fez rir.
— O quê? — Louis indagou, rindo um pouco também.
— Eu não sou o homem mais sentimental que você vai encontrar, provavelmente, mas o que eu vou te dizer é... Bom, eu tive bastante tempo para pensar sobre as minhas atitudes depois daquela conversa de ontem. — O pirata deu de ombros, como se não fosse nada, e o tritão entendeu que era um jeito de ele disfarçar suas emoções como se elas ainda não o afetassem. — Não conte isso para ninguém, ou eu corto a sua garganta.
Louis soltou uma gargalhada alta, o que fez Matteo gritar algum xingamento realmente longo em italiano, que ecoou por todo navio, do cômodo de dormir,e o tritão colocou as mãos sobre a boca para conter as risadas. Harry começou a rir baixinho também, apreciando aquele momento. Era muito melhor do que as brigas e alfinetadas infantis.
— É justo o bastante, considere minha garganta como sua se eu não cumprir com a minha palavra. — Louis puxou uma lufada de ar para controlar-se, e suspirou em seguida para tomar um grande gole de rum. — Por que quis saber sobre Naectro? — Indagou com a voz rouca.
Harry deu de ombros de novo, aparentando estar encabulado. Aquela era uma reação nova para Louis, mas era interessante, também.
— Há uma conhecida minha em Tortuga, ela é uma feiticeira muito boa e que tem me ajudado com o passar desses anos. — Capitão Styles explicou, encarando seus polegares deslizarem sobre a borda do gargalo da garrafa pela metade. — Talvez, ela consiga tirar esse feitiço de você, ou... Eu não sei, pelo menos nos orientar sobre o que fazer.
Louis encarou-o por alguns longos segundos. Depois das experiências não muito boas com Harry, ainda era um pouco complicado crer que o pirata realmente queria ajudá-lo. Contudo, fosse pelo efeito do álcool em seu organismo virgem ou pelo simples fato de ter ficado encantado com o quão emotivo capitão Styles poderia ser, Louis concordou com a cabeça.
— Acho que, se é alguém de sua confiança, vale a pena tentar. — O tritão ajeitou sua postura na cadeira, o que atraiu os olhos de Harry para si. — Mas quero uma prova de que posso confiar em você, ou será a sua garganta a ser cortada.
Harry engoliu em seco, tomou o resto do rum em sua garrafa num só gole e, então, levantou-se e foi até a balaustrada. Com um movimento inesperado, ergueu a garrafa sobre sua cabeça, rapidamente trazendo o objeto para baixo e o quebrando na quina de madeira. Louis recuou, assustado, achando que havia chateado o pirata de alguma forma.
Entretanto, quando Harry agachou para pegar um dos cacos maiores, a única coisa que o cacheado fez foi deslizar o pedaço de vidro pela palma de sua mão aberta, de ponta a ponta. O sangue escorreu em uma quantidade significativa, erguendo um cheiro metálico e férrico que não foi muito bom às narinas de Louis.
— Dê-me sua mão.
Aquela era uma das poucas coisas que o tritão entendia. Havia algo parecido em seu mundo, mas o nome era o mesmo: pacto de sangue. Um meio de demonstrar confiança mútua entre dois indivíduos de qualquer espécie, os ligando até o término de suas promessas. Caso fosse quebrado por infidelidade, o culpado tinha todo o seu sangue roubado.
Aquilo não era brincadeira. Não para Harry.
Por isso, Louis estendeu sua palma aberta sem hesitar, observando os movimentos de Harry para cortar a pele pouco mais grossa que uma pele humana. O sangue também era estranho, mais escuro, porém não dava para saber a cor exata pela pouca luz que estava com eles. Então, estando ambos sangrando, fecharam os dedos ao redor de seus pulsos.
— Isto serve? — Harry disse, sério. Era bastante peculiar a sensação do sangue do tritão se misturando ao seu, dentro de si.
— É justo o bastante. — Louis sorriu, compreendendo a estranheza sentida pelo outro.
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