Capítulo Dois

Theodoro Vinro:

Os fantasmas ao meu redor parecem ficar mais revoltados, suas presenças se intensificando à medida que os ataques começam. Coincidentemente, tudo começa no momento em que recebi uma encomenda de um conhecido da minha avó. Outra parte da herança que a mesma havia me deixado, era um livro de capa dura, decorado com pedras vermelhas e brancas. À primeira vista, parecia apenas um objeto bonito, mas algo nele desencadeou uma reação inexplicável nos espíritos ao meu redor e trouxe os demais para serem agressivos.

Só fiquei a parte deixando ele no meu quarto muito bem escondido, mas mesmo desse jeito não resolveu muito.

Fui até meu guarda-roupa e peguei a caixa que coloquei o livro e o abri, as memórias sobre minha avó surgiram com tudo, vendo-a folheando suas páginas. No entanto, sempre que tento recordar mais detalhes além do que poderia ver, uma dor de cabeça intensa se manifesta, como se minha mente estivesse tentando proteger-se de algo inquietante. É como se correr uma maratona de lembranças, onde cada passo é um esforço doloroso.

— Deixa essa coisa velha —  disse Simon, se jogando ao meu lado. — Até agora, não me parece ser algo útil.

Olhei para ele e, desiludido, deixei o livro no canto.

— O que quer dizer com isso? Tudo começou quando esse livro chegou; deve ter alguma coisa, e o ataque de hoje foi o de menos. — Falei e olhei para um pequeno espírito que pousou na minha perna e começou a dormir.

Os pequenos são bondosos e nem me incomodam são quase fofos, alguns até parecem animaizinhos.

— Faça o que eu já disse para você e o jogue fora, então — Simon insistiu, tentando pegar o livro. Para minha surpresa, conseguiu segurá-lo perfeitamente nas mãos.

Desde que o conheci, devo dizer que as coisas só podem ser pegas por fantasmas se eles se concentrarem ainda mais no que desejam fazer e estiverem com. Muito autocontrole, mas o livro era diferente; ele o pegava sem nem pensar duas vezes ou ter uma concentração.

Isso já aconteceu com ele querendo fazer uma pegadinha e teve que ter muito concentração na pegadinha para preparar as coisas.

Simon examinou o livro com uma expressão preocupada, como se pudesse sentir uma energia sinistra emanando dele.

— Não sei o que está acontecendo, mas este livro é realmente estranho. Talvez seja melhor nos livrarmos dele antes que algo pior ocorra. — Ele sugeriu, ainda segurando o livro com cautela.

Olhei para o livro com calma e ponderando sobre as palavras de Simon. No entanto, algo dentro de mim hesitava em simplesmente descartar o livro. No final era uma parte das lembranças que teria da minha avó.

— Não posso simplesmente jogá-lo fora. Mesmo depois de tudo isso era da minha avó e faz parte das coisas da minha família — Falei.

Simon arqueou uma sobrancelha, cético, mas decidiu não insistir. Assim como eu o mesmo era apegado a assuntos sobre a família, mesmo que ele não se lembrasse da sua de quando era vivo.

Ele estava prestes a falar, mas foi interrompido quando a porta se abriu com força, isso me fez deixar o livro escapar das minhas mãos. Levantei o olhar para ver minha amiga Manu e o namorado dela entrando apressadamente. Simon revirou os olhos com intensidade, claramente irritado pela interrupção.

— Theo, onde você estava? — Manu perguntou, passando através de Simon, que fez uma expressão de descrença. Segurei uma risada ao ver como ele ousou se fazer de impactado com a cena.

— Estou ofendido, como pode passar através de alguém e não se desculpar — Simon disse com um sorriso brincalhão nos lábios.

— Oi, para vocês também. — Falei, sorrindo com a descontração da situação, posso dizer que Simon é um verdadeiro idiota. — Do que está falando?

Às vezes, ser o único capaz de vê-lo torna as coisas divertidas e ao mesmo tempo um tanto esquisitas. No entanto, contar para minha única amiga que vejo fantasmas não parece uma boa ideia; ela possivelmente me chamaria de louco, faria piadas, e eu poderia acabar mais isolado do que já sou acostumado a ser.

O namorado de Manu, Raimoy, olhou ao redor com uma expressão curiosa, absorvendo os detalhes da minha decoração com tema sobrenatural. As cortinas escuras, salpicadas de estrelas que brilhavam no escuro, destacavam-se contra as paredes pintadas em tons misteriosos. Prateleiras exibiam livros antigos e artefatos peculiares e alguns de terror, enquanto velas espalhavam uma luz suave, criando uma atmosfera enigmática. O tapete felpudo sob seus pés tinha padrões intrincados, contribuindo para a sensação de um refúgio mágico e enfeitiçado, na verdade as coisas eram mais interessantes de ler o tempo todo ou comentar sobre qualquer coisa.

— Como pode ter esquecido da festa que eu iria fazer?  — Manu disse acusatória.

— Com o pessoal descolado e ainda com alguns do grupinho deles — Falei lentamente e ela assentiu. Simon me lançou um olhar divertido.

Sei que deveria desejar fazer parte do grupo dos populares, assim como minha amiga, mas nunca foi algo que realmente quis. Parece que seria muito cansativo ter que seguir todas as regras. Sorrir, mas não demais. Rir, mas não muito alto. Vestir as roupas certas, praticar os esportes certos e se importar com as coisas, mas nunca demais. Ser positivo na medida certa e saber o que fazer.

Além disso, as pessoas parecem ser mais falsas do que necessário; até os fantasmas que ficam ao redor do campus sabem disso e vivem tirando sarro. No entanto, ouvi dizer que Raimoy e Manu são os mais sinceros desse grupo que cada um dos fantasmas até disse que desejariam poder falar com eles pessoalmente.

— Essa mesmo! — Manu disse.

— Você disse que iria — Raimoy lembrou.

— Na verdade, tive um pequeno probleminha — Falei, enquanto Simon me lançava um olhar diabólico, claramente achando a situação divertida, e ficava ao lado de Raimoy fazendo caretas. — Eu disse que veria se poderia ir, e não deu. Além do mais, detesto aquelas pessoas.

Manu arqueou uma sobrancelha, parecendo intrigada.

— Probleminha? Conta mais, Theo. O que aconteceu?

Raimoy cruzou os braços, esperando pela explicação enquanto Simon mantinha seu olhar malicioso, como se antecipasse à narrativa.

— Bem, aconteceu que... — hesitei por um momento, escolhendo minhas palavras com cuidado para não soar como se fosse um maluco. — eu preferi evitar a festa. Não sou muito fã desses eventos sociais e, sinceramente, não me dou bem com a maioria das pessoas lá. Lembra que já briguei com a maioria.

Por causa dos fantasmas.

Simon soltou uma risada leve, ecoando seu tom sarcástico.

— Acho que alguém está cansado das máscaras sociais, não é, Theo? — Ele disse e me controlei para não socar ele. Estava na cara que meu punho iria atravessar e além do mais estava cansado demais para dizer o que estava fazendo para ter que dar um soco no ar.

— Mais você concordou que iria — Manu disse com um biquinho. — Não pode ficar cansado depois de dizer isso para sua melhor amiga.

Balancei a cabeça, concordando com um sorriso.

— Eu sei, mas é exatamente isso. Prefiro a autenticidade de poucos amigos verdadeiros do que a superficialidade de muitos conhecidos de festas. — Falei e desviei o olhar.

— Estou pouco me fodendo, você prometeu — Manu disse com franqueza. — Deveria estar lá comigo e com o Raimoy.

Raimoy suspirou, expressando decepção, enquanto Simon mantinha sua postura descontraída, observando a cena se desenrolar.

— Eu... — Comecei e ouvi um barulho na janela do quarto, levando um susto ao ver um tentáculo escuro batendo no vidro. — Eu vou compensar você por não estar lá.

Fiquei tenso com a presença inesperada do tentáculo que bateu com força. Estava olhando perplexos para a janela, enquanto o objeto sombrio parecia dançar contra o vidro. Em segundos, o tentáculo sumiu da minha visão, e voltei a olhar para os outros dois ao mesmo tempo que o celular de Manu começou a tocar loucamente. Ela atendeu calmamente, pegando com delicadeza, e se virou.

— Eu estou indo — Manu disse, desligando o celular. — Então posso dizer que já estaremos de volta. — Virou-se na minha direção. — Isso ainda não acabou.

Pegou a mão de Raimoy e desapareceu do quarto em segundos, fechando a porta atrás deles. Simon riu divertido e voltou para o meu lado com calma.

Simon observou a porta fechada por um momento antes de se virar para mim, mantendo seu habitual ar de despreocupação.

— Parece que você arrumou mais problemas do que podia lidar, Theo. — Simon disse divertido. — Fantasmas e ainda uma amiga louca que está te segurando como um cachorrinho.

Revirei os olhos, tentando parecer indiferente, mas isso me irritou.

— Eu não quero saber disso, e você sabe que ela faz isso porque se preocupa comigo, assim como a família dela que parece querer ajudar a me misturar com o mundo exterior longe do meu — Falei, pegando o livro do chão.

Simon assentiu, dando de ombros como se estivesse acostumado a lidar com pessoas difíceis ou que querem ser bons samaritanos simplesmente por serem.

— Esqueça essas pessoas; pode simplesmente ignorar as coisas e continuar se afastando, e será incrível como um médium se você sobreviver a tudo isso — Ele soltou uma risada. — Mas você quer ser um bom profissional no futuro e ter uma carreira imagino que até conseguir entrar em uma boa faculdade.

Joguei um travesseiro na direção dele. Claro que o travesseiro passou por ele e caiu no chão. Simon apenas riu, mostrando que minha tentativa de expressar minha frustração não surtiu muito efeito.

— Você poderia parar de ser um idiota às vezes — Retruquei, deixando clara minha frustração. — Deveria agir como a sua idade.

— Eu tenho dezoito anos — Ele retrucou. — Posso ser um idiota e inconsequente.

— Você tem dezoito anos há muito tempo, cadê a sabedoria que dizem vir com a idade  — Respondi, e ele riu.

— Bem, alguns de nós apreciamos a eternidade, sabia? — Simon disse, sorrindo de maneira misteriosa.

Revirei os olhos, mas uma pequena risada escapou.

— E eu aprecio a normalidade e a sanidade. Coisas que você, aparentemente, nunca ouviu falar.

Simon riu mais uma vez, como se minha observação fosse a coisa mais engraçada do mundo. A tensão inicial começou a se dissipar.

— Você vai ficar bem, Theo. E quando precisar de ajuda, estarei por perto... mesmo que você não me veja.

Revirei os olhos novamente, mas agradeço pela oferta silenciosa. Às vezes, a presença de Simon, mesmo que um tanto inconveniente, era reconfortante. Enquanto ele desaparecia, o quarto voltou ao silêncio, e eu me encontrei mais uma vez mergulhado nos mistérios que cercavam aquele livro misterioso e as estranhezas do mundo sobrenatural que insistiam em fazer parte da minha vida.

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Gostaram?

Até a próxima 😘

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