Capítulo Dezesseis
Theodoro Vinro:
Peguei o livro de dentro da mochila, minhas mãos tremendo ligeiramente enquanto o abria. As páginas completamente em branco, como se aguardassem um comando que eu ainda não sabia como dar. Uma sensação de frustração e desamparo começou a se formar dentro de mim.
— Como vou saber usar isso... ou como vou entender esses poderes que aparentemente tenho? — perguntei, minha voz carregada de incerteza. Olhei para Fred, buscando alguma orientação, algum sinal de que ele tinha as respostas que eu precisava.
Fred me observou com uma calma que, por um momento, quase me irritou. Mas então ele sorriu, um sorriso que parecia carregar tanto consolo quanto desafio.
— Da mesma maneira que sua avó sempre fez — Fred respondeu, sua voz suave, mas cheia de significado.
Antes que eu pudesse perguntar o que ele queria dizer, o ar ao nosso redor começou a mudar. O corpo de Fred começou a se transformar, seus músculos expandindo, suas feições se alongando e se distorcendo. Ele crescia a cada segundo, os ossos estalando audivelmente enquanto sua forma mudava diante dos meus olhos. Em um instante, ele se jogou no chão, e em meio a um turbilhão de movimento, sua figura humana se dissolveu, dando lugar a um enorme lobo.
A criatura que agora estava diante de mim era impressionante e aterrorizante ao mesmo tempo. Sua pelagem era de um laranja vibrante, como as chamas de um incêndio ardente, e seus dentes afiados brilhavam com uma luz ameaçadora. O lobo me encarou com olhos que ainda eram os de Fred, mas que agora possuíam uma ferocidade que me fez dar um passo instintivo para trás.
— Lutando — ele rosnou, sua voz gutural, mas inconfundivelmente a de Fred.
Meu coração disparou enquanto percebia o que ele queria dizer. Não havia uma maneira simples ou fácil de aprender. Não haveria um guia ou instruções claras. Eu teria que descobrir, eu teria que lutar, exatamente como minha avó havia feito antes de mim.
Respirei fundo, sentindo a adrenalina correr por minhas veias. A jornada que estava apenas começando não seria nada além de uma batalha constante, e a primeira estava prestes a começar ali mesmo, naquele momento.
Segurei o livro com mais firmeza, sentindo um calor começar a emanar dele, como se estivesse respondendo à tensão da situação. Eu não sabia o que fazer, mas estava claro que a única maneira de aprender seria enfrentando o desafio que Fred, agora na forma de um lobo colossal, havia colocado diante de mim.
Com os dentes cerrados e os olhos fixos na criatura à minha frente, preparei-me para o que viria a seguir. O livro, minhas habilidades, e meu próprio instinto seriam minhas armas. E, pela primeira vez, eu estava prestes a descobrir do que realmente era capaz.
O lobo gigante à minha frente rosnou, o som reverberando pelo espaço ao nosso redor como o trovão de uma tempestade iminente. Seus olhos fixos em mim brilhavam com uma mistura de desafio e expectativa. A tensão no ar era quase palpável, como se o próprio universo estivesse prendendo a respiração, esperando para ver o que eu faria.
Senti o calor do livro em minhas mãos aumentar, quase como se ele estivesse vivo, respondendo à energia que emanava do lobo. As páginas, antes em branco, começaram a vibrar suavemente, emitindo uma luz suave que escapava por entre as bordas do livro. Algo dentro de mim sabia que este era o momento de agir, de confiar nos poderes que, até agora, estavam ocultos.
Fred, na forma de lobo, avançou em minha direção com uma velocidade surpreendente, seus músculos poderosos impulsionando-o com uma força devastadora. O chão parecia tremer sob o impacto de suas patas, e o ar ao meu redor se encheu com a aura selvagem e indomável que ele exalava. Não havia tempo para pensar, apenas para reagir.
Instintivamente, levantei o livro diante de mim, como um escudo improvisado. Assim que o lobo estava a poucos metros de distância, as páginas do livro se abriram por conta própria, e uma explosão de luz dourada emergiu, criando uma barreira brilhante entre nós. O lobo colidiu com a barreira, o impacto enviando faíscas de energia por toda parte, mas ele não recuou. Em vez disso, rosnou com ainda mais ferocidade, atacando com suas garras enormes, tentando romper a proteção que eu havia conjurado.
Senti o peso da força do lobo contra a barreira, como se estivesse segurando uma porta contra uma tempestade furiosa. Minha mente estava em um turbilhão, tentando desesperadamente entender o que estava acontecendo e como eu estava fazendo aquilo. Mas uma coisa era certa: eu não podia manter essa barreira para sempre.
Com um grito de esforço, empurrei a barreira para frente, tentando afastar o lobo, e por um momento, a criatura recuou, como se estivesse avaliando minha força. Aproveitei essa pausa para tentar outra abordagem. Fechei os olhos, tentando me conectar com o poder que estava fluindo pelo livro, tentando guiá-lo, moldá-lo de acordo com minha vontade.
Quando abri os olhos novamente, senti uma nova força dentro de mim. As palavras que eu precisava dizer estavam na ponta da língua, como se estivessem esperando para serem liberadas. Com uma voz que parecia ecoar de algum lugar além de mim, eu murmurei:
— Chamas do espírito, despertem e protejam!
O livro respondeu imediatamente e os nomes voaram de suas páginas, transformando-se em um fogo ardente que envolveu a barreira, criando uma muralha de chamas que se ergueu em torno de mim. O lobo hesitou, observando as chamas com um olhar astuto. Eu sabia que Fred estava testando meus limites, mas também sabia que, se quisesse sobreviver a esse teste, precisaria ir além do que eu acreditava ser capaz.
O lobo atacou novamente, suas garras atravessando as chamas, e desta vez, eu não me limitei a me defender. Com um movimento rápido, canalizei a energia das chamas para frente, direcionando-a como um chicote de fogo na direção do lobo. As chamas se enroscaram ao redor de suas patas, impedindo seu avanço por um breve momento. Ele rosnou, mas, em vez de recuar, usou sua força para romper as correntes de fogo, avançando ainda mais.
A luta estava se intensificando, e eu podia sentir o desgaste começando a se instalar em meu corpo. No entanto, algo dentro de mim — uma determinação feroz e quase primitiva — me impulsionava a continuar. Eu não podia desistir. Não podia falhar.
Quando o lobo estava prestes a dar o golpe final, uma ideia ousada passou pela minha mente. Em vez de tentar bloquear seu ataque, eu deixei as chamas se dissiparem, desativando a barreira. O lobo, pego de surpresa, hesitou por um segundo. E foi nesse segundo que eu fiz meu movimento.
Com uma rapidez que surpreendeu até a mim, ergui o livro e, em um gesto decisivo, bati-o contra o chão. A energia acumulada nas páginas liberou uma onda de choque que se espalhou pelo solo, criando uma fissura que correu em direção ao lobo. A terra sob ele tremeu e se abriu, engolindo parcialmente suas patas. Ele lutou para se libertar, mas a força da fissura o prendeu momentaneamente.
Aproveitei a oportunidade, canalizando toda a minha energia restante em um último ataque. As palavras saíram da minha boca sem que eu as planejasse, como se fossem uma ordem natural:
— Espírito da Terra, desperte e prenda!
Do chão, raízes antigas e robustas emergiram, enlaçando o lobo e puxando-o para baixo. Fred, ainda na forma de lobo, lutou contra as amarras, mas a força combinada da terra e do meu poder recém-descoberto o mantiveram contido.
Finalmente, o lobo parou de lutar, sua respiração pesada e o olhar fixo em mim, agora sem a ferocidade inicial. Ele me observou por alguns segundos antes de sua forma começar a se transformar novamente, diminuindo de tamanho até que, em vez da besta imponente, Fred estava de volta à sua forma humana, ajoelhado no chão, um sorriso de aprovação no rosto.
— Muito bem — ele disse, sua voz ainda um pouco rouca do esforço, mas cheia de orgulho. — Você aprendeu a primeira lição... confiar em si mesmo e no poder que possui. Mas lembre-se, essa foi apenas a primeira batalha. Muitas outras virão, e você precisará estar pronto para todas elas.
Eu respirei fundo, ainda sentindo a adrenalina correr pelo meu corpo, mas também um estranho senso de realização. Eu tinha muito a aprender, muito a dominar, mas pela primeira vez, senti que talvez eu pudesse estar à altura do desafio que me aguardava.
Fred se levantou, estendendo a mão para mim. Eu a aceitei, sentindo a força dele me puxar de volta à posição ereta.
— Vamos — ele disse. — Temos muito trabalho pela frente.
E com isso, deixamos a sala para trás, sabendo que aquele era apenas o início de uma longa e árdua jornada.
*****************************************
Fred me olhou com uma expressão de aprovação enquanto limpava a poeira de suas roupas. Depois de um breve momento de silêncio, ele começou a explicar, sua voz calma, mas cheia de uma seriedade que capturou minha total atenção.
— O que você fez agora foi usar uma das habilidades básicas do livro — disse Fred, seus olhos brilhando com uma mistura de orgulho e alerta. — Quando você fez os nomes nas páginas do livro se manifestarem, basicamente estava canalizando os poderes que os espíritos armazenaram ali. Cada nome, cada palavra, carrega consigo a essência de um espírito, e ao pronunciá-los, você libera essa energia, essa força.
Eu absorvi suas palavras, começando a entender a profundidade do que tinha feito, mas Fred não terminou ali. Ele continuou, agora com um tom mais firme, quase desafiador.
— Mas você precisa ir além disso — ele acrescentou, cruzando os braços enquanto me encarava. — Não basta simplesmente ver os nomes e usar o poder que está armazenado no livro. Você precisa aprender a entender a essência de cada espírito, a conexão que eles têm com o mundo ao seu redor, e usar isso de maneira intuitiva. Ver o nome não é o suficiente; você deve sentir o que eles representam, antecipar o que cada espírito pode fazer, e usar essa conexão para moldar a energia conforme a situação exigir.
Fred fez uma pausa, permitindo que suas palavras se assentassem em minha mente.
— Isso requer treino, foco e uma compreensão profunda de quem você é e do que os espíritos significam para você. Somente assim você poderá desbloquear todo o potencial do livro e, mais importante ainda, o seu próprio potencial.
Eu assenti lentamente, sentindo o peso do que ele estava me dizendo. O que eu tinha feito até agora era apenas o começo, uma pequena amostra do que era possível. Mas para realmente dominar o que estava diante de mim, eu precisaria mergulhar profundamente em um mundo de aprendizado e autodescoberta. Cada espírito, cada nome no livro, não era apenas uma palavra ou um poder; era uma entidade com história, com força própria, que eu precisaria compreender e respeitar.
Fred se aproximou, colocando a mão em meu ombro de forma reconfortante, mas também cheia de expectativa.
— Vou te ajudar nesse caminho, mas a maior parte do trabalho será sua. Você deve estar disposto a explorar essas profundezas, a enfrentar desafios e, acima de tudo, a não desistir quando as coisas ficarem difíceis.
Eu respirei fundo, sentindo a determinação crescer dentro de mim. Estava claro que o caminho à frente seria árduo, mas pela primeira vez, senti que talvez pudesse estar pronto para enfrentar tudo o que viesse. Com Fred ao meu lado e o livro em minhas mãos, eu sabia que estava prestes a embarcar em uma jornada que não apenas testaria minhas habilidades, mas também moldaria quem eu era destinado a ser.
— Estou pronto — disse, minha voz firme. E com isso, dei mais um passo em direção ao desconhecido, determinado a dominar o poder que agora estava ao meu alcance.
Fred sorriu, mas não era um sorriso de conforto; era o sorriso de alguém que sabia que a verdadeira lição estava apenas começando. Sem aviso, ele avançou em minha direção com uma rapidez que me deixou sem reação. Suas mãos, que pareciam tão humanas momentos antes, começaram a se transformar, as unhas alongando-se em garras afiadas e ameaçadoras.
Antes que eu pudesse me preparar, ele me alcançou, e um choque percorreu meu corpo, como uma descarga elétrica, me derrubando no chão com o impacto do susto. O mundo ao meu redor girou por um instante enquanto tentava recuperar o fôlego, mas quando finalmente consegui focar, percebi o quão próximo Fred estava.
Ele se ajoelhou sobre mim, as garras agora a meros centímetros do meu rosto. O brilho selvagem em seus olhos mostrava que ele não estava brincando, e o perigo era real. O medo tomou conta de mim, meu coração batendo descontroladamente enquanto eu tentava processar o que estava acontecendo. As garras de Fred, afiadas como lâminas, pareciam prontas para cortar o ar entre nós, e por um momento, pensei que ele realmente pudesse me ferir.
Mas em vez de recuar ou implorar por misericórdia, uma força inesperada dentro de mim começou a se manifestar. A adrenalina misturada com a necessidade de sobreviver despertou algo que eu nem sabia que existia. Sem pensar, ergui o livro novamente, tentando canalizar a energia que antes havia sentido. As páginas, ainda abertas, começaram a brilhar levemente, respondendo ao meu desespero.
Fred não se moveu, mantendo as garras perigosamente próximas ao meu rosto, mas seus olhos observavam cada movimento meu com uma concentração quase predatória. Ele estava testando não apenas minha força, mas minha vontade de lutar, minha determinação em enfrentar o perigo de frente.
— Não espere que o mundo lhe dê tempo para se preparar — Fred disse, sua voz baixa e cheia de intensidade. — Você deve estar pronto a qualquer momento, para qualquer coisa. A luta não espera, e a vida não oferece segundas chances.
O desafio em suas palavras ressoou dentro de mim, e com um esforço final, canalizei toda a energia que eu podia reunir, forçando as páginas do livro a responderem ao meu comando. As palavras antigas começaram a surgir das páginas em uma luz dourada, e uma pequena onda de poder emanou do livro, empurrando Fred para trás apenas o suficiente para me dar espaço para respirar.
Fred recuou, suas garras retraindo-se à medida que ele voltava à sua forma humana. Ele ainda sorria, mas agora havia algo diferente naquele sorriso — uma aprovação silenciosa.
— Você está começando a entender — ele disse, estendendo a mão para me ajudar a levantar. — Mas lembre-se, você precisa estar preparado para o inesperado. O verdadeiro teste não é saber o que fazer quando você está pronto, mas sim o que fazer quando o mundo joga algo em você sem aviso.
Eu aceitei sua mão, me levantando com um corpo ainda trêmulo, mas uma mente mais clara. Fred estava me ensinando uma lição valiosa: a vida, e especialmente a vida que eu estava destinado a viver, seria cheia de surpresas e perigos. E se eu quisesse sobreviver, precisaria estar sempre pronto para reagir, para lutar, mesmo quando o medo ameaçasse me paralisar.
Eu me levantei, ainda sentindo o impacto do susto e da adrenalina correndo pelas minhas veias. A sensação das garras de Fred tão próximas ao meu rosto ainda estava fresca em minha mente, mas junto com o medo, havia uma nova compreensão — uma consciência da necessidade de estar sempre preparado, de nunca subestimar o que poderia acontecer a qualquer momento.
Fred observava meus movimentos com um olhar atento, avaliando minha resposta ao teste que ele acabara de me impor. Seu sorriso tinha mudado, agora não mais carregava a ferocidade de um predador, mas sim o respeito de um mentor que viu potencial em seu aluno.
— Você fez bem em reagir rápido — Fred disse, sua voz agora mais calma, mas ainda firme. — Mas lembre-se, as ameaças que você enfrentará no futuro não serão tão misericordiosas. Elas não hesitarão, não te darão tempo para pensar. E é exatamente por isso que precisamos continuar seu treinamento, para que suas respostas se tornem instintivas, naturais, como respirar.
Eu assenti, ainda processando tudo o que havia acabado de acontecer. Sabia que ele estava certo. As palavras de Fred ecoavam em minha mente, me lembrando da realidade dura que eu estava prestes a enfrentar. Eu precisava aprender a confiar em meus instintos, a usar os poderes que estavam começando a se manifestar dentro de mim sem hesitação ou dúvida.
Fred deu alguns passos ao redor de mim, como se estivesse considerando o próximo passo. Ele parou em frente a uma parede de pedra, tocando-a suavemente com a palma da mão. De repente, a pedra começou a se mover, revelando uma passagem oculta que levava a uma sala escura e desconhecida. A luz suave das tochas nas paredes mal iluminava o que parecia ser uma câmara subterrânea.
— Venha — ele disse, gesticulando para que eu o seguisse. — O que você viu até agora é apenas o começo. Há muito mais que você precisa aprender sobre o poder que possui, sobre o que realmente significa ser herdeiro dessa linhagem. Mas, acima de tudo, você precisa entender o que está em jogo e como proteger aqueles que ama.
Sem hesitar, segui Fred pela passagem, o som de nossos passos ecoando suavemente pelo corredor de pedra. A atmosfera era pesada, quase opressiva, como se o próprio ar carregasse o peso de antigos segredos e desafios que aguardavam nas sombras.
Quando finalmente chegamos ao fim do corredor, Fred parou diante de uma grande porta de madeira. Ele a empurrou com facilidade, e eu fiquei maravilhado com o que vi do outro lado. A sala era vasta, quase cavernosa, com paredes cobertas de símbolos antigos e desenhos que pareciam contar histórias de batalhas e alianças passadas. No centro, havia um grande círculo desenhado no chão, feito de pedras incrustadas com cristais que emanavam uma energia pulsante.
Fred se virou para mim, seus olhos brilhando com determinação.
— Aqui é onde seu verdadeiro treinamento começa — ele disse, sua voz ecoando pela câmara. — O que você enfrentou até agora foi apenas uma introdução. Agora, você vai aprender a canalizar o poder dos espíritos, a moldá-lo de acordo com sua vontade, e a usá-lo de formas que você ainda nem imagina. Mas, para isso, precisará estar completamente aberto, preparado para confrontar seus medos, suas dúvidas e as partes de si mesmo que você tem evitado.
Eu podia sentir o peso das suas palavras, o desafio que estava sendo colocado diante de mim. E, no entanto, em meio a todo esse peso, havia uma faísca de excitação. Por mais difícil que fosse o caminho à frente, sabia que cada passo me aproximaria do meu verdadeiro potencial, do poder que eu precisava dominar para proteger aqueles que amo e cumprir meu destino.
Fred deu um passo em direção ao círculo no centro da sala e fez um gesto para que eu o seguisse.
— Entre no círculo — ele disse. — E lembre-se, a força que você precisa já está dentro de você. Agora, é hora de despertá-la.
Com uma última respiração profunda, entrei no círculo, sentindo a energia vibrar sob meus pés. Sabia que não havia mais volta, que a partir daquele momento, meu destino estava selado. E estava pronto para enfrentar o que viesse, para descobrir do que eu realmente era capaz.
__________________________________
Gostaram?
Até a próxima 😘
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top