Capítulo 24: Pavilhão Branco
Tomei a ponte de conexão que interligava o pico amarelo com o pico azul, era reta e continua, feita de madeira escura, as balaustradas eram em madeira talhada com delicados lírios escorregando ao longo de cada balaústre. A neblina da montanha já bailava no ar, como ondas sendo empurradas pelas brisas, com uma lanterna de papel apoiada numa mão, eu me desloquei rapidamente pelo espaço, meus pés ressoando, tec-tec, contra piso amadeirado.
Na noite apenas um pio de coruja era ouvido ao longe junto ao som de galhos sendo sacolejados. Avancei pelo mar de brumas, a gélida noite fazia meus braços se arrepiarem. Eu devia ter pegado um manto, trinquei os dentes para que não batessem com o frio que comecei a sentir e aumentei as passadas.
Finalmente, meus pés alcançaram o chão e alívio me preencheu, eu detesto a ideia de caminhar por longos espaços sem terra firme embaixo. Me apressei pela relva onde lírios-amarelos cintilou como pequenas estrelas no chão, enchendo a trilha até o pavilhão amarelo de luz. No horizonte era possível enxergar um lago como um espelho a refletir a lua, as estrelas e a imagem dos salgueiros-chorões que circundavam a lâmina d'água.
E também, próximo ao lago havia uma construção de seis andares, erigida em madeira amarelada e sólida, com dois tigres de pedra a vigiar a entrada. Havia uma pequena escada de 10 degraus que levava até a porta dupla do pagode, os quais estavam fechados.
Escutei sons de vozes vindo do outro lado, minha audição como cultivador era mais afiada e sensível que a maioria humana, assim também o era a minha visão. Virei o rosto para a direção do som e divisei ao longe duas figuras, um homem vestido num hanfu amarelo-claro, com os cabelos presos num coque alto e enfeites de jade a prender os fios. Sem barba, o homem parecia não passar dos 40 anos. Ao seu lado um jovem em uma vestimenta azul-água, mãos atrás do corpo e expressão pensativa enquanto ouvia seu Shizun.
Me conduzi até eles, preparei um discurso de inocência, já que ali não existia inocente até que se prove o contrário, na verdade, era mais para culpado até que se prove o contrário. Vou te contar, viu?! Era cada uma que eu tinha que aguentar!
Me aproximei e apresentei meus cumprimentos.
— O Shizun chamou e aqui estou. — falei ainda curvado.
— Atrasado! — Shizun Xian respondeu em tom de acusação.
— Não havia um horário especificado no aviso. — retruquei de polidamente, um único tropeço meu e eu estaria lascado.
— Isso não importa, quando eu os chamo não espero demoras. Vamos. — replicou Shizun Xian pouco dócil.
Ué, mal cheguei e sairíamos de novo?
Não questionei as ordens e acompanhei os passos do Líder da Seita. Pegamos um caminho lateral, passamos por um bambuzal que enfeitava a saída e criava arcos, formando túneis. Paramos diante da neblina que se locomovia lentamente, não havia ponte a vista.
Shizun Xian mordeu o polegar e traçou alguns caracteres no ar, que reluziram em dourado, houve um rugido e um tremor de terra, de acordo com que seus caracteres iam brilhando mais, até que tanta luz era produzida que olhá-lo incomodava a visão. Fechei os olhos, ocultando a face devido a forte luminosidade. Alguns momentos se passaram e o feixe de luz esmaeceu. Abaixei o braço e vi uma ponte em material transparente, como se fosse toda moldada em vidro.
Shifu Xian foi a frente, depois Yang e eu fechei a fila.
Aquela era famosa Ponte do "nada", a qual conectava o pico amarelo ao branco, era a única entrada possível para o pico já que esse era flutuante, ou seja, era um pedaço de rocha que pairava etéreo nos céus. Diziam que magia das fadas englobou a terra da montanha branca e isso o fazia pairar no firmamento. Além disso, possuía um domo de proteção que impossibilitava o acesso pelo ar. Em outras palavras, era impossível entrar se não fosse pela ponte.
— Tenho algo a revelar, visto que a qualquer momento, até mesmo eu, posso perder a sanidade. — Shizun Xian cortou meus pensamentos.
— Isso não acontecerá com o Shizun. — falou com afeto o Irmão Yang.
— Besteira, sou tão sucessivo à isso, quanto qualquer um, na Seita.
Ficamos calados. A ponte desapareceu atrás de nós, como se esta fosse uma névoa levada pelo sabor do vento e uma nuvem opressora de pestilência nos envolveu. Havia uma sujeira na atmosfera, como cinzas que choviam em flocos grudentos. A mata morreu ali, cada cerejeira, arbusto, árvore e relva, tudo coberto em cinzas viscosas. Tudo morto.
Aquilo parecia a imagem do mundo invertido do Stranger Things, a única diferença era que aquilo era real. Medo se enrodilhou em minha barriga. Continuamos a andar e logo encontramos com um grupo de patrulheiros, em hanfus azuis. Estes nos saldaram, eles deveriam ter sido designados para proteger a entrada, era um grupo de 20, seus rostos eram bem conhecidos para mim e isso me deixou amargo e cáustico, como ácido sulfúrico. Os reconheci como os Sêniores da Seita!
A Porr* dos Sêniores! Ou seja, cultivadores fortes e treinados. Analisei o qi radiante de seus Núcleos Dourados e percebi que todos estavam ao nível Alma Ascendente, estágio inicial. Meu nariz enrugou, por breves segundos, junto dos cantos da minha sobrancelha. Isso é injusto!
Um sentimento trevoso e denso começou a borbulhar em minha barriga. Mais ao longe um grupo de mais 100 guardas, constituída de Sêniores ao nível Alma Ascendente estágio mediano, formavam vigia nos arredores do pico branco, deveriam haver outros tantos escondidos na mata circundante, entre as cerejeiras e amoreiras.
Minha mandíbula se apertou.
Sempre era assim, tudo para ele nada para mim. TUDO PARA ELE. TUDO. Ele era popular. Ele tinha amigos. Ele tinha o amor e respeito do Shizun. Ele tinha o melhor material para as caçadas noturnas. Ele pegava as melhores missões. Ele. Ele. Ele. Nunca eu. Para mim só tinha as fofocas, o nojo e o ódio.
Irmão Yang se juntou as conversas e narrou o quanto eu era repugnante. Sua fala chegou até os meus ouvidos do outro do refeitório, mas o que eu podia fazer? Irmã Yue me olhou com cara de pena. "Ele fala isso da boca para fora, somos amigos. Somos família". Afastei minha mão da dela, a vontade de comer se foi. Me ergui e saí do refeitório e não voltei mais, em vez disso passei a pedir a comida no quarto. Se eu não ouvisse, não podia me machucar. Ledo engano.
O veneno se espalhava na Seita. O pouco respeito que conquistei, com meu esforço contínuo em melhorar no cultivo, minguou. A admiração pela minha perícia com a espada, também desapareceu e eu virei o "meio-elfo escória". Eu via Irmão Yang cercado do melhor enquanto eu me reduzia a fragmentos de mim mesmo. Sozinho nas trevas, eu virei o vilão. Era o que queriam? Então que fosse eu. Ódio era melhor que nojo. Ódio era melhor que solidão.
Encarei Shizun Xian que elogiava administração do recurso ofertado e na guarda que tinha os melhores cultivadores da Seita como recrutas. Palavras de elogio jorrou da boca do Mestre, junto as palmadinhas nas costas repletas de orgulho. "Seu melhor pupilo". Fiquei atrás, vi os olhos brilhantes de Shizun fixados na falsa humildade de seu "Melhor" discípulo.
Melhor. Eu nunca seria o melhor, não importa o quanto tentasse. Não importa o quanto meu corpo se rasgasse ou sangrasse em cada prática. Eu nunca seria ele. Trevas rolou por mim e eram libertas do meu corpo como vapor negro, todo o meu corpo ficou duro e meu coração congelou, se tornando uma pedra de gelo.
Minhas unhas se cravaram no ferimento em minha mão, este se rompeu e filete de sangue escarlate escorregou por entre meus dedos, isso me fez voltar ao mundo real. Minha cabeça latejava. O rancor de Shun estava ficando tão grande e intenso que às vezes me consumia e eu esquecia que não sou o Shun, sou Guilherme.
Não. Você e eu somos um.
Era a primeira vez que eu ouvia o Shun me responder.
"Shun? Amigo, ok?" Falei em troca.
Somos um. Repetiu. Você sou eu, uma parte de mim, um fragmento.
Fragmento? O que ele queria dizer com isso? Antes que eu pensasse mais, a estrutura de um pagode branco de quatro andares me chamou a atenção, toda a construção era em um tom branco perolado que emanava uma fraca luminescência. Havia tigres de mármore a guardar as portas, em posição reta e imperiosa. Olhos como fogo azul, caudas sacolejando em seu entorno. Espera sacolejando? Arregalei os olhos, aquilo estava vivo?
Plágio é crime, não reproduza essa obra sem citar a autora e sem autorização.
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top