Capítulo 1 - Thomas

"A chuva...", disse Thomas, apontando para a janela azul do quarto.

Alex assentiu lentamente com a cabeça para indicar que estava ouvindo. Eles estavam em silêncio, deitados um do lado do outro, há tanto tempo que a voz de Thomas o quebrando foi bem-vinda.

"Ela é..." o garoto fez uma pausa, procurando a palavra certa.

"Crocante?", sugeriu Alex.

"Exatamente", disse Thomas, balançando a cabeça. Ele sorriu levemente enquanto abaixava o dedo.

"E um pouco..." Alex franziu a testa, "vermelha? É isso?"

"Sim, mas com um toque de laranja."

"Ah, é verdade." ele colocou um braço por de baixo da cabeça. "Isso mesmo. Eu sempre me esqueço do laranja."

"A maioria das coisas são laranjas, na verdade", disse Thomas, contorcendo a boca para o lado e fazendo um leve bico, como Alex sabia que o garoto sempre fazia quando estava pensativo.

"Não de onde eu venho," a voz de Alex abaixou alguns tons. "Lá é tudo azul e preto. Não há espaço para as outras cores."

Thomas estremeceu.

"Eu nem consigo imaginar isso."

"Por favor, não.", pediu com firmeza. Ele se apoiou em um cotovelo para encarar Thomas de cima. "Nem tente."

Thomas ficou arrepiado com o tom severo do amigo.

"Acredite em mim: eu não vou."

Alex acenou com a cabeça.

"Espero que não mesmo. Nós..."

Mas ele se interrompeu, de repente ficando com o corpo reto, e inclinou a cabeça na direção da porta do quarto.

"Minha mãe está vindo?" Thomas perguntou, fazendo com que Alex acenasse com a cabeça. Ele se levantou.

"Seja breve, okay?" Alex pediu enquanto fechava a porta do armário.

"Ok", respondeu Thomas para a sala agora vazia.

Ele ouviu uma leve batida na porta antes que sua mãe enfiasse a cabeça para dentro.

"O que você está fazendo, Tom?" A mãe de Thomas perguntou, olhando para dentro.

"Conversando com Alex," Thomas respondeu. Sua mãe suspirou, e ele imediatamente se arrependeu de ter dito aquilo.

"Tom...", começou ela, enfiando um pouco mais a cabeça para dentro e lhe lançando um olhar abatido. " Alex não é real, lembra? Já falamos sobre isso antes."

"Certo, mãe", concordou, balançando a cabeça. "Desculpa."

"Tom, eu ..." Sua mãe fez uma pausa, parecendo insegura. "Não se desculpe, ok? É que o Alex não existe."

"Ok," Thomas falou a ela, esperando que ela saísse para que Alex pudesse voltar logo. Ele sabia o quanto o amigo odiava o armário. Lembra a minha casa, ele sempre dizia.

Sua mãe olhou para ele, algo amarelo-azul-vermelho em seus olhos. Ele esqueceu como as outras pessoas chamavam aquilo. Alex saberia.

"Tom, você tem um compromisso amanhã, lembra?" ela continuou. "Com o doutor Paulo."

Thomas desviou o olhar. O doutor Paulo tinha muitos marca-textos coloridos, um tabuleiro de xadrez de vidro e uma gaveta cheia de doces, onde Thomas sempre podia pegar quantos quisesse sob a promessa de não contar a ninguém sobre isso. Uma vez, entretanto, os doces pareciam ter o sabor de metal e sabão e magenta mergulhado em cera de vela, então ele passou a pegar apenas um nas consultas.

"Tudo bem", disse Thomas, assentindo.

Sua mãe mordeu o lábio. "Tudo bem, Tom", falou ela. "Lembre-se de comer, ok?"

"Ok," Thomas ecoou, e ela fechou a porta.

Alex imediatamente abriu a porta do armário.

"Doutor Paulo...", repetiu ele em tom de desgosto.

"Por que você não gosta dele?" Thomas perguntou enquanto observava Alex se acomodando na estante dos livros dele.

"Ele parece tão ..." Alex mordeu o lábio, procurando as palavras certas. "Eu diria roxo-verde, mas estou esquecendo de alguma coisa, não estou?"

"Rosa", completou Thomas imediatamente.

"Certo, certo", disse Alex. Ele fez uma careta. "Eu não gosto quando você vai lá." Falou enquanto recuava o melhor que podia para se empoleirar precariamente em uma estante.

"Você prefere que eu volte para o doutor Caíque?" Thomas perguntou.

Os olhos do amigo se arregalaram e ele parou de se mover completamente.

"Não!" Exclamou. "Não, não, nunca!"

"Eu estava brincando", disse Thomas enquanto se esparramava na cama com um sorrisinho travesso.

"Uau, que engraçado," Alex murmurou, parecendo irritado. "Não brinque mais com isso, ok?"

"Tudo bem", concordou Thomas, de repente se lembrando de suas conversas com sua mãe. O som da manteiga sendo espalhada na torrada; a aceitação suave e vermelho-púrpura.

"Não, sério", disse Alex, pulando da estante para poder agarrar a mão de Thomas. "Não brinque com isso. Isso foi... ruim."

"Foi," Thomas assentiu, e Alex pressionou os lábios contra sua mão.

"Por favor, não brinque com isso, Thomas", murmurou Alex.

E Thomas ficou tão encantado com a forma como a boca de Alex formou seu nome que concordou automaticamente.

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