Capítulo 9
O quarto era enorme e bem arejado, graças as duas janelas que proporcionavam uma vista de quase toda a cidade. O sol já havia desaparecido e tons rosas e alaranjados coloria o céu acima de nós. A vista era quase hipnotizante, poderia passar horas apenas olhando da janela o mundo iluminando e colorido que eu acabara de descobrir, se não fosse o medo que estava me consumindo.
— Senhorita, seu banho está pronto — a senhora Ayers surgiu por uma porta onde era o banheiro. — Precisa de ajuda?
— Não obrigada, pode ir agora — disse dispensando-a. A mulher fez uma reverencia e saiu me deixando sozinha.
Me sentei na cama que estava no meio do quarto, com lençóis tão brancos que considerei um insulto macula-los com minhas roupas empoeiradas.
Não havia nenhuma decoração no quarto, apenas um tapete marrom que cobria metade do piso de mármore, uma penteadeira com um grande espelho e um pequeno guarda roupas de mogno. As paredes também eram amarelas com dourado.
Meu primeiro pensamento foi sair verificando se meu pai estava no castelo, mas não adiantaria, como suspeitei, eu só iria me perder. Imaginei se deveria fugir e tentar encontrar Bert e Howard e contar minhas suspeitas, porém, não queria dar essa satisfação a Howard, muito menos à minha mãe.
Por fim, quando a noite chegou e a única luz no quarto era das velas presas nos candelabros, tomei uma decisão.
Eu não seria fraca, não falharia. Iria fingir que tudo estava normal, falaria com Kian — o jovem rei que sabe bem como jogar um jogo de estratégias —, deixaria ele montar sua armadilha, usar todos seus argumentos, e quando ele pensar que ganhou, eu o mato.
Sei que isso irá custar minha vida, mas não me importo. Eu disse que o mataria caso me enganasse, e o farei. Algo na voz e na forma dele agir mudou quando chegamos à Morningh, suspeito que isso tem haver com meu pai.
Levantei da cama decidida a encarar meus medos e minhas dúvidas. Kian está vendo uma garotinha assustada que anseia ver seu pai a qualquer custo, então darei isso a ele.
Entrei no banheiro já terminando de retirar minhas roupas, uma banheira de porcelana branca estava cheia de água — um vapor denunciava que a água ainda estava quente. Entrei na água, e quase chorei quando senti seu contato com minha pele — a sensação era indescritível.
No entanto, não me permiti o luxo de muito tempo no banho, me limpei rapidamente com um sabonete com um cheiro que não identifiquei, mas era bom. Sai do banheiro enrolada em uma toalha pingando água no piso, me assustei ao ver a senhora Ayers parada em frente a cama.
— Desculpe senhorita — ela disse constrangida. — Mas o rei pediu para que eu trouxesse isso — ela apontou para algo em cima da cama, mas não consegui ver o que era. — É para usar durante o jantar — concluiu.
Me aproximei o bastante para ver o que era.
— Não vou usar isso — arqueei a sobrancelha.
Em cima da cama estava um vestido vermelho — quase vinho — em tecido que se aproxima do veludo, e ao lado um branco simples, exceto pelas mangas com detalhes dourado.
— O clima aqui é bastante quente — Ayers começou a falar. — O rei achou que fosse melhor usar algo mais confortável do que coro, além do mais, um vestido é mais propicio para um jantar.
Realmente o clima era absurdamente quente, e minhas roupas são para inverno, entretanto, não queria dar essa satisfação a ele.
— Não servirá — disse convicta.
— Tenho certeza que sim — ela afirmou. — Vamos, eu a ajudo vesti-lo — ela abriu um sorriso gentil.
— Tudo bem — assenti. Quanto mais eu demorasse, mais tempo levaria para descobrir a verdade. Além do mais, um vestido não me impediria de mata-lo se necessário.
O que era para ser confortável, se mostrou insuportável para se vestir. O vestido branco era extremamente transparente, o vesti primeiro, em seguida o vermelho. Ayers apertou o corpete, puxando as fitas na parte da frente até eu ficar sem ar, depois de muita insistência ela o afrouxou um pouco.
O vestido vermelho contrastava com o branco, já que ele possuía uma abertura na frente até a altura dos joelhos, as mangas só cobria os ombros, e entendi porque as do vestido branco possuía detalhes dourado e cobriam até o pulso. O vestido vermelho também contava com detalhes em dourados, ramificações delicadas de flores que contornavam a cintura e o decote — que mostrava mais do que eu gostaria.
O calçado era baixo e confortável, agradeci mentalmente por isso. Ayers fez uma trança simples, porém bonita em meus cabelos. Parei em frente o espelho, minha boca se abriu em um O perfeito — aquela não era eu.
— Isso está mostrando de mais — apontei para o decote.
— Não é nada demais, pelo contrário, ele é mais comportado do que pensa — ela sorriu.
— Eu não vou usar isso — corei.
— Bom, já o vestiu. E está atrasada.
Franzi o cenho diante da forma como ela estava me tratando. A senhora à minha frente, não demonstrava medo por eu ser uma Drak, muito menos pelo meu poder, ela me tratava como trataria a qualquer jovem normal — o que me fez lembrar que eu não era normal. Porém, seu comportamento não me incomodou, pelo contrario, me senti bem em parecer uma pessoa comum.
— Mas...
— Sem mas, não o deixe esperando.
— Espera... Eu... — tentei argumentar enquanto era praticamente arrastada para fora do quarto.
A senhora Ayers não disse mais nada, apenas me escoltou pelos corredores e escadas do palácio. Descemos para o primeiro andar, entramos em uma porta que levava a mais um corredor, até finalmente chegarmos no salão de jantar.
O ambiente estava iluminado por diversas velas, e um enorme lustre — do que parecia ser ouro — estava perdurado no teto, acima da mesa no centro da sala. O lugar não contava com muita decoração, além de vasos de plantas, armas e peças de armaduras espalhadas em cantos estratégicos.
— Majestade — Ayers se curvou.
Kian estava sentado à mesa, a qual possuía inúmeros lugares vazios. Imaginei se ele sempre fazia as refeições sozinho — isso parecia triste. O rei se levantou assim que Ayers anunciou nossa chegada, seu olhar se direcionou à mim, contive a vontade de me encolher.
Ele caminhou em nossa direção, suas roupas eram pretas como as que ele usou quando foi no Desert. Kian parou à nossa frente sem demonstrar nenhuma emoção, ele me lançou um olhar rápido, mas que percorreu todo meu corpo, em seguida se virou para a senhora Ayers.
— Obrigada senhora Ayers — ele a dispensou com um agradecimento.
A mulher apenas se curvou em uma reverência e saiu. Kian me conduziu até a mesa, onde haviam dois lugares arrumados, o que significa que seremos apenas nós — a ideia não me agradou muito.
O rei se sentou na cabeceira da mesa, e eu ao seu lado esquerdo, a mesa estava repleta de diversas comidas, e o cheiro apenas atiçou ainda mais minha fome. No meio estava uma bandeja do que supus ser cordeiro assado, diferentes pães, carne fatiadas em bifes, alguns legumes e vegetais.
Quatro mulheres de meia idade trajando o mesmo uniforme marrom e preto surgiram e começaram a nos servir. As taças perto do meu prato foram enchidas, uma com água e outra com vinho, antes de piscar meu prato estava cheio de comida. As mulheres nos serviram com agilidade e se retiraram.
Peguei a faca e o garfo, mas antes deles cortarem a carne à minha frente parei abruptamente.
— Eu não iria traze-la até aqui para mata-la envenenada durante um jantar — Kian riu, logo após encheu a boca com comida.
Refleti suas palavras por alguns instantes, e por mais que ele tenha tentado fazer a ideia soar tola, havia uma lógica nisso tudo. Ele poderia envenenar a comida de meus guerreiros e a minha também, porém, não creio que seja esse o motivo de ter me trago até aqui. Há algo errado, contudo penso que não é me matar envenenada seu plano.
Clamei aos deuses que me guiassem.
O gosto da comida parecia normal, deliciosamente normal. Não detectei cheiro ou gosto de nenhum veneno conhecido. Fizemos a refeição em silêncio, e somente quando uma criada trouxe a sobremesa — doce de amoras —, foi que Kian resolveu falar.
— O que achou de Morningh? — perguntou casualmente.
— Normal como todos os reinos — não demonstrei minha fascinação pelo lugar.
Era tudo tão diferente, tão novo e convidativo para mim.
— Isso significa que gostou ou não?
— O lugar é agradável — disse com desinteresse.
Fez se outro silêncio, e todo barulho que havia na sala era das colheres de metal sobre as taças de doces.
— Quando saímos do Desert — Kian parou de comer para me olhar —, você disse que Thierry iria precisar de proteção. A vida dele corre perigo? — sua voz soava preocupada.
— Eu disse que ele estaria seguro desde que obedecesse Eylem, e estará — disse encarando-o. — Agora a vida dele só depende de você. Embora, eu pense que ela não vale tanto assim, já que até agora você não me disse nada sobre meu pai.
— Atali...
— O que você está pretendendo fazer? Por que me trouxe até aqui? Onde está meu pai? — tentei manter a calma.
— Eu...
— Você o que? Acha que eu já não percebi que tem algo estranho acontecendo? — esbravejei. — Eu disse que não era nenhuma tola, e disse também que não aceitaria que me enganasse.
— Você precisa se acalmar — Kian estava nervoso. — Eu vou...
— Vai o que? — vociferei. Ao inferno meu autocontrole. — Continuar mentindo? Fazer...
— Dá para me deixar falar?! — Kian gritou.
Arregalei os olhos diante de sua ousadia.
— Não ouse gritar comigo — sibilei.
— Me desculpe — disse passando a mão sobre os cabelos. — Você poderia me escutar agora?
— Se for para inventar mais alguma coisa...
— Não é — ele garantiu. Sua voz estava vacilante.
— Tudo bem. Vou escutar e quero a verdade — cruzei os braços.
Kian pareceu respirar fundo, como que se reunisse toda a coragem e palavras certas para falar. Apenas continuei sentada olhando para ele, meu coração batia forte, algo dentro de mim já sabia que eu não iria gostar dessa conversa.
— Eu não menti quando fui ao Desert — ele soltou um suspiro. — Não menti sobre Meliha também — ele me olhou preocupado. — Nunca quis engana-la, não planejei nenhuma armadilha para você. Eu realmente preciso de sua ajuda, precisamos nos unir para deter Meliha, sei que você pensa o mesmo...
Realmente precisamos nos unir, porém, não sei se isso será possível, não depois dessa conversa. Entretanto, ele disse não ter mentido para mim. Talvez a única forma de vencer essa guerra seja nos aliando, já que Meliha está reunindo os Pylares dos deuses, e não faço ideia do que ou quem ela quer tirar do submundo, e muito menos as consequências desse ato.
— Não pretendia traze-la aqui — ele confessou ficando de pé. Sua voz estava baixa.
— Como?! — me pus de pé, as palavras quase não saíram.
— Eu tentei conversar com você, tentei argumentar, eu... eu tentei, Atali — ele deu um passo em minha direção, recuei dois passos para trás, Kian parou assim que percebeu meu estado.
— Meu pai... ele... ele...
— Fiz de tudo para você me ouvir, e acredito que teria dado certo — ele continuou. — Mas sua família não a deixava me escutar, ficavam pedindo para que me matasse o tempo todo, e... acredito que foi por pressão que você me mandou ir embora, que não acreditou em mim sobre os planos de Meliha... Então...
— Então você mentiu para mim — conclui. — Você me enganou — sibilei. Cerrei as mãos em punhos ao lado do corpo, pude sentir a unha rasgando a pele — Você achou que eu era uma criança tola que iria vir correndo se dissesse que meu pai estava vivo, você... — senti a primeira lagrima correr em minha bochecha.
— Atali — Kian recuou um passo, temeroso. — Atali, por favor...
— Você acha que sou idiota — gritei. O ar se condensou à minha frente, só então percebi o motivo do pânico de Kian, a sala estava gelada.
— Atali — ele chamou mais uma vez.
Já estava chorando, no entanto, percebi que as lagrimas viravam gelo antes de atingirem o chão.
Fui enganada. Traída. Ele deve ter rido tanto da minha ingenuidade. Eu sou uma estúpida. Acreditei na possibilidade de tudo ser verdade, criei expectativas em vê-lo novamente. Meu pai vivo. Tudo que eu queria. E ele usou isso para me humilhar, e minha mãe estava certa todo esse tempo.
Vou perder tudo agora.
— Eu disse que iria mata-lo — ergui o rosto para olha-lo. Um sorriso cruel moldou meus lábios, o reflexo de meu ódio.
— Se você fizer isso, não sairá daqui viva — ele argumentou, porém, sua voz denunciou seu medo.
— Eu perdi a liderança do Desert no momento em que o segui — meu sorriso aumentou. — Não me resta mais nada, abri mão de tudo para rever meu pai, e ele está morto.
— Atali, por favor, pense direito, Meliha...
— Ao inferno Meliha — gritei ensandecida. — Ao inferno você — vociferei.
Ergui a mão em um movimento tão rápido que seria impossível detectar, e mais impossível ainda desviar da estaca de gelo que atirei na direção de Kian. O tempo pareceu parar, o mundo se calou e tudo que eu vi foi a flecha de gelo rumo ao coração do rei que me traiu. Eu morreria, mas antes iria me vingar, iria matar o homem que brincou com meus sentimentos, com a perda de um pai para uma filha. Eu mataria kian.
Pude ver o exato momento que a estaca de gelo se aproximou do jovem rei, a cena se passava lentamente diante de meus olhos. Seu reinado seria curto, assim como o meu. Foi nesse exato momento que um clarão irrompeu iluminando toda a sala, ofuscando minha visão. Uma parede de fogo engoliu e flecha de gelo como se ela não fosse nada.
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