Capítulo 14

A sala se mantinha em silêncio, o fogo crepitava na lareira perto da mesa retangular de carvalho, a luz do dia nublado entrava pelas amplas janelas que se encontravam abertas. A neve continuava a cair do lado de fora, e de alguma forma o mundo parecia um lugar triste demais para se habitar.

Minha mãe permanecia de pé do outro lado da mesa, seus olhos pareciam duas brasas em chamas que pretendiam me queimar. Já Ettore, ainda estava sentado, no entanto, sua postura relaxada, se tornou tensa, meu primo me olhava com certo temor contido.

Ambos sabíamos quem venceria se fôssemos para a arena.

— Ora, já basta — Ariost cortou o silêncio. — Não precisamos de uma disputa por poder agora. Precisamos nos preparar, montar uma estratégia de defesa.

— Concordo com você — minha mãe se virou para ele. — Mas não será Atali a fazer...

— Já basta, Nulara — Vasti vociferou.

Todos se calaram, ninguém se moveu, nem mesmo ousou elevar a respiração.

— Deixa de ser rabugenta — Vasti continuou, ignorando o olhar ameaçador de minha mãe. — Atali é a líder, e creio que os anciões não nomeará outro, e irmos para a arena agora só nos custará tempo. Tempo esse que precisamos para nos preparar para enfrentar um ataque.

Observei minha mãe abrir a boca para dizer algo, contudo, as palavras pareciam ter se perdido antes de pronunciadas. Surpreendentemente ela se sentou, e me olhou com a mais forçada atenção.

É de conhecimento geral que Nulara Riagáin, filha do comandante do vilarejo do norte, não aceita cumprir ordens. Ela fora criada para liderar, para dar as ordens, entretanto, não foi isso que aconteceu ao se casar com o líder dos Drak e ter uma filha.

Às vezes penso que ela se recente por ter abdicado de um possível cargo entre os Drak, para se tornar uma esposa e mãe exemplar. Talvez seja esse o motivo que a levou a se tornar alguém fria e rancorosa. Ela fora moldada para batalhas, para guerras, e agora tende a se contentar com um cargo no conselho, o que não é nada emocionante.

Todos na sala ainda se mantinham assustados, embora tentassem não demonstrar. Não era todo dia que alguém gritava com Nulara como Vasti fizera. Mesmo já estando em uma idade mais elevada, minha mãe ainda era uma guerreira habilidosa e temida.

— Você tem a palavra agora, Atali — Vasti conteve um sorriso ao me olhar com satisfação.

Vasti era a versão não rancorosa de minha mãe. A pessoa mais inteligente e calculista que conhecia, e a mais protetora quando se tratava de alguém que ela amava.

— Obrigada — agradeci ainda incrédula por ela ter feito minha mãe se calar.

— O que sabemos sobre os planos de Meliha? — Ariost perguntou em tom sério.

— Apenas que ela está reunindo os Pylares dos deuses, e já possui dois — respondi. — Sabemos que ela enviou espiões para descobrir a localização exata deles. Então, não teremos um ataque à cegas.

— Provavelmente ela pretende retirar um exército do submundo, ou algum ser poderoso, com isso ela pode finalmente escravizar o mundo — Ettore disse pensativo.

— É uma possibilidade — Ariost concordou.

— Precisamos evacuar o vilarejo, mandaremos todos que não podem lutar para a vila do sul ou do leste. Quero todos os nossos guerreiros aqui, principalmente os das montanhas do sul — disse para os demais.

— Colocaremos armadilhas e encantamentos ao redor da vila — Ariost continuou minha linha de raciocínio. — Ela tentará uma distração...

— Meliha não sabe que já sabemos todos os seus planos — minha mãe continuou. Ariost assentiu. — Ela irá atacar pelos portões, criará uma distração, para não suspeitarmos que ela já sabe onde é o templo...

— Enquanto estivermos contendo o ataque aleatório, ela poderá roubar o Pylar sem ser vista — Ettore completou.

— Por isso precisamos das armadilhas na entrada — continuei. — Criar obstáculos para conter o avanço das tropas. E manter nossas forças na Fortaleza Branca.

— Será uma batalha difícil — Vasti me olhou preocupada. — Aquele lugar é traiçoeiro.

— Temos a vantagem — disse. — Conhecemos aquele local como a palma de nossas mãos. É ela quem deve se preocupar.

— Sabemos o que iremos enfrentar? — Vasti perguntou.

— É Meliha, uma imortal — disse tentando conter o medo que começou a surgir. — Poderemos esperar o pior.

                      ★★★

— E então? Como está o nosso hóspede? — minha pergunta fez Eylem se virar abruptamente.

A reunião com o conselho durou toda a manhã, fora algo cansativo, porém produtivo. No entanto, não consegui tempo para descansar, e sabia que não teria paz nos próximos dias.

Montar um plano de ação às pressas é algo desgastante, por sorte, meu conselho possui mentes brilhantes, o que me poupou esforço para raciocinar. Não estava conseguindo manter a concentração, os últimos dias foram os piores e mais cansativos de minha vida.

Assim que consegui tempo para respirar, sai a procura de minha amiga, precisava saber como estava Thierry, até porque havia prometido a Kian que o libertaria e o escoltaria até Morningh. Minha mãe voltara a insistir em matar o guarda como prova de que não aceitamos traição, foi quase impossível faze-la esquecer essa ideia absurda, porém tentadora.

Entretanto, antes de partir para Morningh, fiz Eylem jurar que não revelaria o local em que Thierry ficaria, nem mesmo para sua mãe. Sabia que ela era a mais indicada para cuidar da segurança dele, e não deixar que ele fugisse ou causasse problemas.

Depois de caminhar por toda a feira, meus pés já estavam doendo, o que somado a dor nas pernas e costas pela cavalgada só me faziam quere desabar no chão e dormir por dias sem me importar com a neve, o frio, e os olhares das pessoas. Por sorte, encontrei Eylem perto de uma barraca onde um velho gordo com um semblante ranzinza estava vendendo adagas.

A garota se virou ainda segurando a adaga que ela olhava prestes a compra-la quando a abordei. Seus olhos escuros se iluminaram com certa alegria contida ao me ver, seus cabelos negros estavam presos em uma costumeira trança, o casaco de couro preto escondia toda a roupa que ela usava, revelando somente as botas marrons.

— Estava louca para lhe ver — disse avançando em minha direção com um amplo sorriso estampado no rosto. — Aquele conselho de velhos lhe prendeu a manhã toda — concluiu ao me dar um abraço apertado.

— Conselho esse — disse me afastando dela, o abraço só fez as dores em meu corpo piorarem —, que sua mãe e seu avô fazem parte.

— Mas eles não são velhos?! — ela fez uma cara pensativa antes de esboçar um sorriso debochado.

— Ettore também faz parte do conselho, e ele não é velho — disse para irrita-la.

— Mas se comporta como um — ela rebateu ao devolver a adaga para o vendedor.

Depois de um aceno de cabeça amigável ela se afastou da barraca, a segui caminhando para os limites da vila, em silêncio.

Mencionar meu primo era seu ponto fraco. Eylem não suportava ouvir o nome dele já fazia algum tempo, e eu adorava desestabiliza-la quando estava perdendo uma discussão, ou apenas para provoca-la quando entediada.

Ela continuou em silêncio até nos afastarmos da multidão que se aglomerava na feira. Eylem sabia o que eu queria, e era esperta o suficiente para não dizer em voz alta no meio de tantas pessoas.

— Eu sinto muito por seu pai — ela disse quebrando o silêncio.

Lutei contra o nó que se formou em minha garganta.

— Como soube?

— Bert.

— Aquele velho fofoqueiro — tentei não soar triste.

— Não é culpa dele, eu que o pressionei até me contar tudo o que aconteceu.

— Disso eu não duvido — tentei sorrir.

Apenas algumas pessoas sabiam o real motivo da ida até Morningh, e isso não incluía todos os guerreiros Drak, muito menos os aldeões.

— E Meliha...

— Não se preocupe — a cortei —, já estamos cuidando de tudo.

— Ah, eu não estou preocupada, muito pelo contrario. — ela disse animadamente com um largo sorriso. Arqueei uma sobrancelha confusa. — Estou louca por um pouco de adrenalina. Inclusive — ela disse parando para me olhar. — Soube que você enfrentou uma Colchi na Floresta Cinza.

— E...?

— E que eu estou te odiando por não ter me levado junto — ela disse irritada.

Não contiver minha gargalhada ao vê-la fazer uma expressão muito comum no rosto de crianças birrentas.

— Você terá sua batalha em breve — disse tentando controlar o riso. — Agora me leve até o soldado de Morningh.

— Como quiser — ela fez uma reverência debochada, e saiu andando.

Seguimos na trilha deserta coberta de neve até as margens da floresta, contornamos um grande e antigo carvalho, pegando assim, a trilha ladeada por arbustos pequenos e congelados. Meu casaco se arrastava sobre a neve a medida que caminhávamos por entre as árvores.

Ao contrario de mim que só levava uma adaga presa no cinto da calça, Eylem carregava uma espada e varias facas em seu cinto. A jovem era sempre precavida e ávida por uma batalha, agora ela teria a chance de mostrar seu valor, embora eu tenha quase certeza que sua mãe vá querer tranca-la em algum forte para impedi-la de lutar.

— Chegamos — Eylem disse parando em frente ao chalé abandonado.

O lugar estava completamente decadente do lado de fora, as madeiras usadas na construção estavam quebradas, rachadas ou ameaçavam se partir a qualquer momento. O que antes parecia ser uma varanda, agora estava totalmente destruída. A parte de trás do chalé, se encontrava praticamente incinerada — provavelmente houve um incêndio naquele lugar, o que levou os antigos donos a abandonarem.

À primeira vista, era apenas uma velha cabana inabitável, e fora em razão disso, que ela se tornou o local perfeito para esconder alguém. E no caso de Thierry, esconde-lo dos aldeões e de minha mãe.

— Pise onde eu pisar — ela disse caminhando para a entrada. — Coloquei algumas armadilhas — ela deu de ombros despreocupada.

A segui a passos lentos e cautelosos, sei como as armadilhas de Eylem podem ser dolorosas ou até mesmo mortais. Paramos em frente a porta, Eylem a abriu e assim que pisamos no assoalho velho e empoeirado da cabana um reagindo de madeira preencheu o ambiente.

No único cômodo ainda utilizável estava apenas um colchão gasto do chão com um velho cobertor, uma poltrona do que antes parecia ser couro marrom, mas agora estava indecifrável. Eylem fechou a porta atrás de nós fazendo outro barulho estridente, Thierry estava de pé perto da lareira que se encontrava acessa. O soldado de Morningh se virou no mesmo instante para nos olhar.

O sorriso de escárnio que ele encarou Eylem se desfez ao me ver, e uma assustadora expressão de pânico tomou seu rosto ao olhar em minha direção. Vê-lo, fez com que todo meu ódio, voltasse a sufocar-me, trazendo consigo as lembranças das ameaças de Kian, e o juramento que eu fizera antes de partir.

Algo na forma como Thierry engoliu em seco, me fez ter certeza de que ele tinha total conhecimento dos planos de seu rei, e sabia qual era seu destino agora.

— Veio me matar? — sua voz quase não saiu.

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