O prometido

Jeon Jungkook

Seu alfa.

Jungkook não tinha um alfa e não aceitaria aquela marca, nunca, mesmo que significasse sentir dor pelo resto de sua vida, mesmo que seu lobo definhasse e morresse. Podia parecer algo irracional, até mesmo cruel, pois Taehyung também sofreria junto a ele sempre que a marca doesse ou matasse seu lobo, não sabia se o laço de sangue mataria o lobo dele também, mas estava disposto a fazer qualquer sacrifício, não iria aceitar aquele maldito como seu alfa, mesmo que significasse sua morte. Desviou o olhar de Yongok e ela pareceu entender que não queria voltar a falar sobre aquele assunto, por isso a Najin Arik entrou no templo e Jungkook a seguiu, quando pisou na entrada sentiu novamente aquele arrepio que sentiu na primeira vez, mas ignorou e caminhou até a sala onde fizeram o Laço de Sangue há alguns dias. Assim que chegaram, Yongok ajoelhou-se e curvou-se diante da pintura que representava Salìk.

Precisava fazer o mesmo? Jungkook pensou, mas negou e cruzou os braços. Era o Najin Uruk de Unàh, iria respeitar o templo de Salìk, mas não se curvaria diante dele.

— Sente algo? — Yongok perguntou e Jungkook a encarou com um semblante confuso. — Está ligado a meu neto, sente alguma coisa anormal?

— Só uma ansiedade intensa — respondeu e sentou-se ao lado dela.

— Isso é uma das coisas que mais me agoniam — ela disse ao cruzar os braços junto a um suspiro e Jungkook a encarou. — Sabe, não possuo o dom da clarividência como você, Unàh lhe dá esse poder porque a sabedoria pode ser buscada com vivências, você estar presente ou assistir coisas entre o passado e o futuro lhe deixa mais sábio. Salìk me provém força, então não consigo ver nada.

— O que você gostaria de ver? — Jungkook perguntou e Yongok o encarou com um sorriso mínimo.

— Meu neto... Porque além de Najin Arik, eu sou mãe e avó, me agonia ver meus filhos e meu neto irem a guerra sem conseguir prever se isso os tirará de mim ou não — ela respondeu com tristeza. — Tudo o que posso fazer é ler a consciência das pessoas, é o máximo que Salìk me proveu, para poder ajudar os filhos na busca pela alma gêmea e identificar ameaças ao nosso povo.

— Acho que posso ajudá-la com isso — Jungkook sorriu e Yongok virou-se em sua direção com um olhar curioso.

Jungkook decidiu que faria o mesmo que estava fazendo nos últimos dias para ajudar o conselho a encontrar e neutralizar qualquer investida de Delta, fechou os olhos e estendeu o próprio braço, chamou a coruja — que havia se tornado uma grande amiga — em Cunä e esperou que ela atendesse seu chamado. Quando a sentiu vir abriu os olhos e sorriu, ela entrou na gruta através da grande abertura que havia nas rochas e entrou no templo de Salìk sem nenhuma dificuldade, pois aquela sala não tinha teto para impedir sua passagem. Como a lua ainda estava brilhante no céu, seus dons estavam mais fortes, sua força duplicava durante a noite devido a presença mais forte de Unàh. A coruja pousou em seu braço, notou que mesmo que estivesse quase curado, ela evitou o encontro das garras com sua pele, o que o fez abrir um sorriso ainda maior e acariciar suas penas.

— Olá, meu bem, como vai? — Perguntou enquanto a coruja se inclinava para seu toque e respondeu com um corujar. — Preciso de sua ajuda novamente.

— O que fará? — Yongok perguntou com os olhos brilhando em curiosidade.

— Unàh me permite ser os olhos dos animais, para que possa ver tudo o que precisar a qualquer momento e em qualquer lugar — respondeu com um sorriso e Yongok arregalou os olhos.

— Não sabia que podia fazer isso — ela respondeu pávida.

— É um dos dons que eu mais gosto — disse com um sorriso grande nos lábios. Jungkook estendeu uma das mãos a ela e viu a confusão tomar sua expressão. — Posso mostrar o que eu vejo a você.

Yongok ergueu as sobrancelhas em surpresa novamente e segurou em sua mão, Jungkook sorriu e encarou a coruja, que permanecia quieta à espera de seu pedido, por isso sussurrou baixinho seu pedido e sua visão escureceu por um momento. Quando voltou a enxergar, viu pelos olhos dela a si próprio, seus olhos estavam completamente negros, não havia sequer um único espaço branco de suas escleras, a coruja encarou Yongok e ela estava com os olhos iguais os seus, o que mostrava que ela também conseguia ver. A coruja voou e Jungkook ditou o caminho que ela devia seguir, ela voou sobre as árvores por alguns minutos até que pôde ver o lago que apareceu em sua visão, ainda não havia qualquer sinal dos invasores, pois estava muito cedo. O olhar da coruja de repente se virou em direção a algo atrás dela e pôde ver alguns lobos, eles se esconderam atrás das árvores e vegetações, pôde ver alguns arqueiros escalarem as árvores e Taehyung, em sua forma humana com uma espada na mão.

Ele ditava algo aos homens que se escondiam, e antes que ele pudesse fazer o mesmo, algo pareceu chamar sua atenção e ele desviou o olhar até a árvore onde a coruja estava, viu os olhos vermelhos dele encararem a ave e um sorriso se abriu em seus lábios, como se soubesse que estava a observá-lo. Ele acenou com a mão em direção a coruja e correu para se esconder também, passou-se algum tempo daquela forma, os lobos estavam escondidos, os arqueiros estavam encobertos pelas folhas das árvores e alguns soldados estavam atrás dos troncos, à espera de qualquer sinal de invasão. Enquanto esperavam, Jungkook contou a Yongok sobre sua visão, sobre as pessoas que morreram e como os dois morreriam também, quando os primeiros raios de sol começaram a surgir, Jungkook sentiu um arrepio subir por sua coluna, seus pelos se eriçaram e sentiu um desconforto em seu estômago.

— Eles chegaram — Jungkook anunciou a Yongok.

Os olhos da coruja rapidamente foram para os homens que chegaram montados em seus lobos, como mostrava em sua visão, haviam vários deles, todos empunhavam espadas e suas expressões estavam determinadas. Quando a primeira flecha foi disparada, os lobos pararam de correr ao verem um companheiro cair com uma flecha atravessada em seu peito, porém, elas não pararam, após a primeira notou que outras foram lançadas, grande parte delas acertaram os homens, que se dispersaram e se esconderam atrás dos troncos para fugir da morte. Foi quando os lobos de Canis saíram das sombras, eles rosnavam e os lobos de Delta também fizeram o mesmo ao notar a presença deles, quando Taehyung saiu de seu esconderijo, todos os outros soldados fizeram o mesmo. Viu os soldados de Delta entrarem em pânico ao ver que estavam em menor número, mas não se acovardaram, pelo contrário, seguram as espadas com mais firmeza e deram um passo à frente.

Os primeiros a se enfrentarem foram os lobos, eles rosnaram e correram em direção uns aos outros, enquanto os homens gritavam e partiam para a luta também. Ouviu Yongok arfar ao seu lado ao ver a luta deles, havia sangue por todos os lados e até mesmo os arqueiros desceram das árvores para lutar, ninguém ali estava interessado em ser justo, não havia um contra um, viu vários homens de Delta serem apunhalados pelos dois lados. Aparentemente, Canis estava com a vantagem, principalmente por conta do elemento surpresa, porém as coisas pareceram mudar rapidamente de perspectiva quando viu Taehyung lutar com um homem, o alfa estava de costas para a coruja, por isso não viu quando um homem sorrateiramente caminhou em sua direção, com o intuito de pegá-lo por trás. Aquilo fez o sangue em suas veias gelar e sentiu Yongok segurar sua mão com mais força.

Impeça-o! — Jungkook pediu desesperadamente, apesar de não haver muito o que a pequena coruja possa fazer para ajudar.

A coruja saltou em direção a eles e chirriou alto, o bater de asas e o som pareceu atrair a atenção de Taehyung, que virou-se para trás assim que conseguiu apunhalar o homem à sua frente. Porém não foi rápido o suficiente, pois o homem que tentava pegá-lo por trás deu um passo rápido e mirou a espada em direção ao alfa, que tentou se afastar, mas não conseguiu impedir que a lâmina cortasse seu peito. Jungkook sentiu um dor aguda em seu peito e gemeu, provavelmente a mesma dor que Taehyung sentia, mas mesmo com dor, conseguiu focar em sua ligação com a coruja, a tempo de vê-la voar sobre o homem que atacou o alfa, ela usou as garras para arranhá-lo. Mesmo ferido Taehyung aproveitou a distração da coruja para atravessar a espada no peito do homem que caiu no chão sem vida logo em seguida, quando a coruja voltou ao galho que estava anteriormente, viu o momento que o alfa olhou para cima com uma careta dolorida e tocou o próprio peito.

O corte havia sido profundo, podia sentir a dor e pela quantidade de sangue ele precisava ser tratado urgentemente, os olhos de Taehyung voltaram a sua cor natural e ele caiu de joelhos, ele ainda encarava a coruja e apesar de não poder ouvi-lo, pôde entender o que ele disse a ela "desculpe". Jungkook chorou, não soube dizer se por conta da dor ou pela atitude do alfa, não deveria se desculpar, não havia feito nada de errado, pelo contrário, quem devia desculpas era ele por trazer tanto infortúnio a vida dele. Sentiu a mão de Yongok se afastar da sua e por conta do misto de sensações ruins, sua ligação com a coruja foi quebrada, pois a dor, a ansiedade e o medo o fizeram perder a concentração. Quando sua visão voltou ao normal, viu que Yongok estava ajoelhada diante do altar de Salìk e pedia a divindade para dar forças a seu neto que havia sido ferido ao defender a alcatéia.

Jungkook não sabia o que fazer, seu peito doía como se a ferida tivesse sido feita em sua pele, podia sentir o medo do alfa, sua angústia e seu desespero pela vida, tudo isso havia lhe tomado como se fossem suas próprias sensações. Após alguns minutos, Jungkook hiperventilava com a mão sobre o peito, o fato de estar consciente era algo positivo, visto que se desmaiasse, significava que o alfa não havia suportado suas feridas. Quando Yongok terminou de suplicar a Salìk, caminhou em sua direção e pediu para que respirasse fundo, ela o ajudou a convencer o próprio corpo de que aqueles sentimentos, sensações e aquela dor, não eram suas, pois se estivesse calmo, iria acalmar o alfa também. Jungkook havia adormecido com a ajuda de Yongok, para que seu corpo se acalmasse e pudesse ajudar Taehyung na própria recuperação, havia feito uma prece a Unàh antes de dormir, pediu segurança ao alfa, pois como estavam ligados, precisava prezar pela vida dele tanto quanto a sua.

Quando despertou notou que estava na casa de Taehyung, não fazia a menor ideia de como havia ido para lá ou quem o levou, apenas acordou em seu quarto, sem qualquer sinal de que alguém passou por ali, se fechasse os olhos um pouco, poderia até acreditar que tudo o que aconteceu nas últimas horas fora um sonho, mas a dor em seu peito e o sol do lado de fora provavam que não. Quando se sentou, notou que ainda usava o mesmo pijama de antes e simplesmente saiu do quarto descalço, precisava ver como o alfa estava, pois sua última lembrança dele era vê-lo caído de joelhos no chão enquanto sangrava. Assim que abriu a porta do quarto, deu de cara com várias pessoas no corredor, assim que deu o primeiro passo, todos os olhares se voltaram para ele, o que fez segurar a maçaneta da porta com força ao fechá-la, conhecia alguns rostos ali, mas ser encarado de maneira tão intensa por tantas pessoas era extremamente confortável.

— Olá, Jungkook — Jimin deu alguns passos à frente e sorriu aliviado ao vê-lo. Ele havia se tornado um suspiro de alívio em sua rotina caótica em uma aldeia onde não conhecia ninguém, sentiu que finalmente fez um amigo após muito tempo. — Como está se sentindo?

— Com dor — tocou o próprio peito e Jimin assentiu.

— O Tae já foi tratado e o Nam te trouxe de volta — explicou e Jungkook assentiu, sabia que era alguém da família Kim que havia ido buscá-lo, pois ninguém fora da família sabia a localização do templo. — Entre, o Tae quer vê-lo.

Jungkook assentiu e caminhou por entre as pessoas com Jimin em seu encalço, todos encaravam com curiosidade, sabia que se estavam dentro da casa do alfa eram confiáveis, mas não conseguia deixar de se sentir receoso próximo a eles. Quando entrou no quarto, apenas Namjoon, Seokjin e Taesu estavam presentes, eles estavam em volta da cama em que Taehyung estava sentado, eles conversavam sobre algo com seriedade, mas assim que ouviram o barulho da porta as atenções se voltaram para ele. Os olhos do alfa se fixaram aos seus e notou um pequeno sorriso surgir em seus lábios enquanto caminhava em direção a ele, Namjoon levantou-se de onde estava e pediu para que Jungkook se sentasse e não demorou a fazê-lo. Quando estava ao lado de Taehyung, viu ataduras que cobriam quase toda a parte superior de seu corpo, não havia mancha de sangue no tecido e aquilo o fez suspirar aliviado, pois significava que haviam conseguido conter o sangue.

— Você está bem? — Taehyung perguntou e Jungkook levantou o olhar.

— Eu? Estou ótimo, quem está péssimo é você — respondeu com a sobrancelha arqueada. Sua resposta arrancou o riso dos outros que estavam no quarto.

— Eu disse a você que ele estava bem — Seokjin disse a Taehyung com um sorriso.

— Ele estava preocupado que o ferimento o deixasse mal — Jimin lhe explicou e Jungkook fez uma careta.

— Você que foi ferido, deveria estar preocupado consigo mesmo — Jungkook cruzou os braços e encarou Taehyung, que tinha um sorriso pequeno nos lábios. O alfa desviou o olhar e encarou as próprias mãos, assim que sentiu o que ele sentia, não conseguiu conter o riso. — Está envergonhado? Por que?

— Não queria que sentisse dor por minha causa — respondeu com um suspiro. — Já sentiu dor o suficiente.

— Durante vários dias você sentiu minhas dores, é mais do que justo que eu suporte um pouco da sua também — respondeu e Taehyung mordeu o lábio inferior, ele nitidamente discordava do que falou.

— Enfim, obrigado por me ajudar — Taehyung disse ao encará-lo, havia um sorriso quadrado em seus lábios e Jungkook retribuiu seu sorriso. — Se não tivesse me alertado, eu certamente não teria apenas um corte.

— Não há de quê — respondeu. O som de vozes altas e passos soaram atrás da porta, de repente ela foi aberta de maneira abrupta por Hyeri, que estava furiosa.

— Taesu, meu filho foi ferido em uma batalha durante a madrugada e eu fui a última a saber? — Ela perguntou ao marido com os olhos azuis brilhantes, o que fez o alfa se encolher e se esconder atrás de Seokjin, que riu. — Onde estavam com a cabeça de não me avisarem? Se fizerem isso de novo eu termino o que Delta começou e mato vocês! — Ela disse enquanto dava passos pesados e apressados em direção ao filho, que apenas ria do comportamento da mãe. — Você está bem meu amor? Dói muito?

— Estou bem mãe, já fui tratado, estou fora de perigo — o alfa respondeu, mas Hyeri o encarou de cima a baixo e só relaxou a expressão quando não encontrou nenhuma outra ferida. — Graças a Jungkook não aconteceu o pior.

— Jungkook! — Ela o chamou de repente, o que o assustou e a encarou surpreso. — Essa é a sua chance! Jimin, vamos colocar o plano em prática agora!

— Ok! — Jimin respondeu animado ao caminhar em sua direção.

— Que plano? — Jungkook e Taehyung perguntaram em uníssono.

— Esse é o melhor momento para seu prometido aparecer! — Ela respondeu a Taehyung de maneira animada. — Existe algo mais romântico do que um ômega que veio até Canis porque seu alfa se feriu? Todos ficarão muito comovidos que ele veio de Lótus somente para cuidar do Tae!

— Mãe... — Taehyung fez uma careta, mas Hyeri o interrompeu.

— Vou separar as roupas de Jungkook e enquanto ele se banha, Jimin irá preparar os acessórios que compramos, Namjoon irá "trazê-lo de Lótus" em seu cavalo enquanto eu estarei esperando no centro de Canis para receber meu genro querido — ela disse ao olhar em direção a Jungkook, que não sabia se ria ou se sentia nervoso. — Quando chegar, irei trazê-lo até aqui novamente, onde o Tae estará te esperando.

— Parece que você pensou bastante em cada detalhe desse plano — Seokjin disse com um sorriso e Hyeri assentiu.

— Ela está se aproveitando da situação — Taesu disse e ganhou um olhar mortal da esposa, o que o fez se esconder atrás do irmão novamente. — Desculpa, querida.

— Vamos aos preparativos então! — Ela disse ao puxar Jungkook pela mão para levá-lo.

Jungkook olhou para trás com os olhos arregalados e viu um sorriso nos lábios de Taehyung antes dele dizer "desculpe" baixinho, o que o fez morder o lábio inferior, então havia chego o dia em que ele seria enfeitado como um boneco como o alfa disse há alguns dias. Dahyun preparou seu banho depressa enquanto ela junto a Hyeri tagarelavam sobre qual seria a melhor roupa para Jungkook fazer seu debut em Canis, quando estava na banheira, sentiu o cheiro adocicado da água que estava praticamente embebedada de colônia. Depois que terminou seu banho, passou um óleo corporal dado por Hyeri que afirmou que aquilo iria fazer seu cheiro natural se destacar ainda mais, Jimin apareceu logo em seguida em seu quarto com uma bolsa de couro enorme e um sorriso maior ainda. Jungkook apenas se sentou e deixou que fizessem o que quisessem, pentearam seus cabelos, aplicaram pó de arroz em sua pele, bálsamo em seus lábios e lhe encheram de acessórios, como brincos, anéis, pulseiras e um colar.

Quando terminaram de enfeitá-lo, houve um coro de suspiros admirados e contornaram seu corpo algumas vezes, enquanto apreciavam a obra que haviam criado, o que fez Jungkook rir. Quando terminaram, saíram pelos fundos, onde Namjoon estava à sua espera com um cavalo preto lindo, com uma crina grande e brilhante, tão escura quanto o próprio pelo, ele seria uma maneira bastante chamativa de chegar até a cidade. Após montar no cavalo junto a Namjoon, os dois saíram pelos portões de trás, protegidos por soldados e o alfa anunciou que dariam a volta para que entrassem novamente pelo portão principal, tudo para que desse templo de Hyeri espalhar sua chegada a todos e virasse uma grande atração. Enquanto o arrumava, Jimin dizia que as primeiras impressões eram importantes para os moradores de Canis, principalmente na aparência, eram uma alcatéia que prezava a vaidade e a beleza, muitos eram superficiais a ponto de pensarem que um ômega feio não tinha valor, por isso esperavam que o ômega do líder fosse nada mais, nada menos, que deslumbrante.

— Não que isso seja um desafio para você — foi o que Jimin disse enquanto passava o bálsamo em seus lábios.

Naquele momento, Jungkook se sentia ansioso, sabia que era uma mera formalidade para que não desconfiassem de sua chegada, porém não conseguia evitar ficar nervoso. Quando deram a volta, Namjoon anunciou que entrariam em Canis novamente e aquilo lhe deu um frio na barriga, pois tinha medo de não atender às expectativas dos moradores e acabasse por trazer mais problemas a Taehyung. Quando estavam diante dos portões principais, Jungkook respirou fundo e manteve a expressão confiante que Hyeri havia lhe ensinado, não podia demonstrar fraqueza, ser o pretendente do líder requer pulso firme, não podia aparentar ser um ômega frágil. Quando enfim os portões foram abertos, o cavalo de Namjoon trotou para dentro, notou que diversas pessoas estavam na entrada, todos curiosos quanto a sua chegada. Hyeri estava à sua espera com um sorriso imenso no rosto, o que o fez rir.

Ela realmente estava animada.

— Jungkook querido! — Ela estendeu os braços assim que Namjoon o ajudou a descer do cavalo.

— Olá, Hyeri — cumprimentou sem qualquer formalidade, como ela própria havia lhe pedido para fazer. Ele a abraçou enquanto tentava ignorar as dezenas de olhares sobre ele. — Como você está?

— Estou preocupada, agora que meu filho se feriu — ela fez uma expressão preocupada, mas abriu um sorriso logo em seguida. — Obrigada por vir cuidar de seu alfa.

— Não precisa me agradecer — respondeu ao sentir as bochechas arderem por ela se referir a Taehyung como seu alfa diante de todos.

— Vamos, vou levá-lo até a casa dele — ela disse ao caminhar até um cavalo que estava na sombra de uma árvore.

Jungkook caminhou até o cavalo de Namjoon novamente e subiu nele junto ao alfa, enquanto cavalgavam pelo centro da cidade se curvou para algumas pessoas que o encaravam, ouviu muitos cochichos durante todo caminho e fofocou com Namjoon sobre algumas pessoas, ele lhe contou sobre a história de algumas e as que deveria tomar cuidado. Observou diversos ômegas que o encaravam com raiva ou com inveja, outros pareciam admirados e curiosos, sabia que iria despertar diversos sentimentos negativos em grande parte deles, pois estava "prometido" líder, tinha certeza que esse era o sonho de quase todos os solteiros de Canis. O fato de ser um ômega de fora da alcatéia é o que parecia realmente incomodar, mas ninguém ousaria comentar sobre aquele fato, pois Hyeri também era e antes de Taehyung assumir o comando de Canis, seu pai era o alfa da alcatéia.

Enquanto cavalgavam, Hyeri mostrava a aldeia para Jungkook de maneira animada, aquela parte em específico não havia qualquer atuação, pois realmente não conhecia a aldeia por ter passado os últimos dias apenas na casa de Taehyung até que estivesse completamente recuperado de seus ferimentos. Canis era um lugar imenso, Hyeri mostrou apenas o mercado e alguns comércios que possuíam no centro, ela explicou-lhe que tinham pomares, campos de treinamento, cachoeiras e grandes campos de flores, lugares onde ela disse que o levaria para conhecer quando tivesse oportunidade. Jungkook observou que as pessoas de Canis usavam roupas leves, mas ainda assim robustas e bonitas, as mulheres em sua maioria vestiam graciosos vestidos e os homens focaram em trajes arrojados, mesmo que estivesse calor.

Quando se aproximaram da casa de Taehyung, que ficava um pouco mais afastada da cidade e próxima ao litoral, notou uma pequena comoção em frente à mansão. Namjoon e Hyeri apressaram seus cavalos e então Jungkook pôde ver o que haviam três pessoas junto a Jimin, Taesu, Seokjin e Taehyung, que vestida apenas um grande casaco por cima das ataduras, ele sorria de maneira educada, mas podia sentir que estava desconfortável. Jimin estava com os braços cruzados e uma expressão irritadiça, parecia querer voar no pescoço de um dos homens que estava próximo ao alfa, mas se continha com todas as suas forças. Quando desceram dos cavalos, ouviu Hyeri resmungar algo e quando a encarou, ela revirou os olhos, o que o fez franzir o cenho, não sabia quem eram aquelas pessoas, mas ninguém parecia gostar delas. Eram três homens, um deles segurava uma tigela de prata em direção a Taehyung, que parecia tentar recusar educadamente.

— Quem são? — Cochichou ao se aproximar de Namjoon, enquanto caminhavam em direção a eles.

— Pessoas que você deve tomar cuidado — Namjoon cochichou também. — O ômega que está segurando a tigela é o Baekhyun, ele é apaixonado por Taehyung desde... desde sempre eu acho, é completamente obcecado por ele.

— Ah — respondeu ao encará-lo, por alguma razão, ele lhe provocou um arrepio na espinha.

— Os outros dois são as sombras dele, não me pergunte o nome deles, eu não sei e duvido que alguém saiba, a única função deles é seguir o Baek como se fossem cachorrinhos — cochichou e Jungkook riu. — Jimin os odeia, antes de assumir um compromisso comigo, Baek e os cachorros dele implicavam muito com ele.

— Por que? — Perguntou confuso, Jimin era um doce de pessoa e sentia-se extremamente confortável ao lado dele, julgava ser impossível alguém não gostar dele.

— Ele e o Taehyung são amigos de infância, achavam que Jimin era um rival no amor — Namjoon explicou e Jungkook ergueu as sobrancelhas.

— Se eles implicavam com Jimin por conta de suposições, o que farão comigo quando souberem que eu sou o prometido do Taehyung? — Perguntou preocupado.

— Provavelmente farão pior — respondeu junto a uma careta. O que não o tranquilizou nada.

— É só devolver na mesma moeda — Hyeri disse de repente e Jungkook a encarou. — Mostre que você consegue ser pior que eles, se abaixar a cabeça vão achar que estão certos. Esfregue na cara deles, pise neles se precisar, meu filho merece coisa melhor do que esse merdi... — Ela parou e o encarou, um sorriso sem graça surgiu em seus lábios antes dela endireitar a postura novamente. — Enfim, vá lá e mostre que Taehyung está comprometido, ele está tentando há muito tempo fugir das investidas dele, mas estando solteiro, Baek não vai desistir tão fácil.

— Duvido que ele desista de qualquer maneira — Namjoon resmungou atrás dele, o que fez uma careta surgir no rosto de Jungkook. Onde ele havia se metido?

— Tae! — Hyeri o chamou e então a atenção do alfa se voltou a eles.

Enquanto caminhava ao lado de Hyeri e Namjoon, Jungkook foi alvo de todos os olhares, como se brilhasse mais que os outros, pois ninguém desviou o olhar dele enquanto caminhava, mas estranhamente, mesmo que todos os olhares estivessem sobre ele, apenas um chamava sua atenção. Taehyung lhe encarava avidamente, sem desviar o olhar nem mesmo que fosse por um único segundo, seus olhos passaram do castanho para o vermelho em um piscar de olhos, era como se ele estivesse diante de uma miragem, o que fez um sorriso envergonhado surgir nos lábios de Jungkook, que desviou o olhar, pois não conseguia manter contato visual. Sentiu os olhos do Baekhyun em cima dele e resolveu fazer o que Hyeri falou, se o ômega realmente fosse implicar com ele, daria motivos para fazê-lo, o encarou de cima a baixo e abriu um sorriso cínico antes de virar-se em direção a Taehyung novamente.

— Oi, Tae — Jungkook disse ao parar diante do alfa, que ainda permanecia estático com os olhos fixos em seu rosto. Apesar da coragem, suas bochechas ardiam em vergonha. — Vim cuidar de você, como está se sentindo?

— Péssimo, preciso de cuidados — o alfa respondeu no automático, o que fez Jimin desviar o olhar para rir. Jungkook acabou por não conseguir conter o riso também.

— Que bom que vim então — respondeu e um sorriso surgiu nos lábios do alfa também.

Hyeri lhe ensinou que em Canis havia um comprimento que era feito entre pessoas muito próximas ou que possuíssem grande admiração, entre casais era comum que o alfa ou o ômega beijassem o dedo anelar esquerdo do parceiro, como uma forma de mostrar o compromisso e o segundo comprimento era mais respeitoso, que era levar às costas da mão da pessoa até a testa, em um gesto de confiança e admiração. Quando Taehyung ajoelhou-se a sua frente, mesmo ferido e com dor, para beijar seu dedo anelar, Jungkook sentiu seu coração quase pular para fora de seu peito, porém, os planos do alfa iam além de um simples beijo, pois ele levou sua mão até a testa e fechou os olhos. Aquilo fez Hyeri soltar um suspiro ao seu lado, Jimin abriu um sorriso de orelha a orelha e olhou em direção a Baekhyun, enquanto seus olhos estavam presos aos de Taehyung, sem saber como reagir. Quando o alfa se levantou, estavam muito próximos e suas mãos estavam juntas.

— Você está bem? — O alfa perguntou com um sorriso, nitidamente se divertia com seu embaraço, até porque ele sentia o que o deixava com as bochechas quentes.

— E-Estou — respondeu e pigarreou quando sua voz falhou, o que fez o sorriso de Taehyung aumentar. O alfa se aproximou de seu ouvido e Jungkook sentiu um arrepio quando sentiu a respiração dele bater contra seus cabelos.

— Você está com as bochechas coradas — ele sussurrou, o que fez sua vergonha triplicar.

— Finja que não notou — cochichou em resposta e o alfa riu.

— Taehyung? — Ouviu a voz de outra pessoa e virou-se em direção a Baekhyun, que tinha um sorriso forçado no rosto. — Quem é esse?

— Ah, perdão pela falta de modos — Jungkook disse ao abrir um sorriso, ainda de mãos dadas com o alfa, colocou o braço braço livre nas costas e se curvou educadamente em direção ao ômega. — Meu nome é Jungkook.

— É um prazer — ele se curvou também, nitidamente de má vontade, mas seu olhar se voltou a Taehyung novamente, como se esperasse a resposta do alfa.

— Ele é meu noivo — Taehyung respondeu sem qualquer hesitação e Jungkook quis gritar de constrangimento, mas conseguiu manter o sorriso no rosto.

— Noivo? — O ômega perguntou com o cenho franzido, mas logo um sorriso descrente surgiu em seus lábios. — Pensei que os boatos eram falsos...

— Não são — o alfa respondeu e se curvou rapidamente em direção a Baek. — Com sua licença, preciso entrar e acomodar Jungkook, ele provavelmente está cansado de cavalgar até aqui.

— E você está ferido — Jungkook disse ao encarar Taehyung, por conta do laço, sabia que sua ferida doía e podia ver o suor se acumular na testa dele. — Precisa descansar apropriadamente. — O alfa assentiu e então Jungkook virou-se em direção a Baekhyun que não tinha uma expressão muito amigável em seu rosto. — Com licença.

Jungkook se curvou rapidamente e virou-se para a mansão, onde com cuidado puxou o alfa para que entrassem juntos, notou que sua plateia também os acompanhou para dentro silenciosamente, todos deixaram Baek e seus cachorros para trás. Quando a porta da entrada foi fechada, eles caminharam juntos até a sala de jantar que ficava um pouco afastada da porta ou das janelas, onde eles não poderiam vê-los e mesmo que tentassem espiar, não conseguiriam. Quando os gritos de Hyeri começaram, Jungkook queria afundar sua cabeça em um buraco, ela estava extremamente feliz e o puxou para um abraço apertado, ela dizia que estava muito orgulhosa enquanto o apertava entre os braços. Suas bochechas estavam tão quentes que pensou que iria derreter no abraço dela, havia feito o que ela pediu e apesar de não ser uma pessoa tímida, ele não era ousado, aquilo era um atentado contra a sua vontade de passar despercebido nos lugares. Quando Hyeri o soltou, notou que Taehyung ria de sua vergonha.

— Você estava tão confiante que nem parecia estar a ponto de correr de constrangimento — o alfa alfinetou.

— Só fiz o que tinha que fazer, mas realmente não vou conseguir manter o personagem sem sentir vontade de fugir — gemeu frustrado e Jimin riu.

— Acho que a única coisa que lhe entrega é o rubor nas bochechas — o ômega apontou para seu rosto. — Mas podemos dizer que é por conta de Taehyung.

— Se continuarem assim, realmente todos vão acreditar que estão juntos — Seokjin disse ao chamar atenção para ele, que estava de braços cruzados e tinha um sorriso enorme no rosto. — Taehyung ficou tão hipnotizado ao encarar o Jungkook que qualquer um acreditaria que está apaixonado por ele.

Jungkook sentiu um sentimento intenso de constrangimento e encarou Taehyung com um sorriso ladino, agora era ele que estava envergonhado.

— Você está com as bochechas coradas — Jungkook repetiu o que o alfa havia lhe dito e o viu virar o rosto.

— Finja que não notou — Taehyung também repetiu sua fala, o que arrancou uma risada sua.

— Meu melhor entretenimento será ver Baekhyun se mordendo de ciúmes no treinamento — Jimin cruzou os braços com um sorriso maléfico nos lábios. — Inclusive, Jungkook poderia fazer o treinamento comigo!

— Não será perigoso para ele? — Taesu perguntou com o cenho franzido.

— Os habitantes de Presa não são ótimos guerreiros? — Seokjin perguntou ao encarar Jungkook, que assentiu. — Sabe lutar?

— Eu era um caçador — respondeu e todos arregalaram os olhos.

— Um ômega como um caçador? Você tem força para isso? — Taesu perguntou surpreso e Jimin revirou os olhos.

— Em Presa não existe essa divisão — Jungkook respondeu confuso, já havia notado alguns comentários como aquele desde que saiu de Presa. "Um ômega" no lábios das pessoas soava como uma fraqueza. — Não sou tão bom com lutas porque não era um soldado, mas sou ótimo com arcos e lanças.

— Perfeito! Você pode entrar para o meu grupo então — Jimin disse ao encarar Taehyung que estava em silêncio. — Posso ensiná-lo a se defender, Tae.

— Acha que está recuperado o suficiente para isso? — Taehyung perguntou e Jungkook assentiu. Se sentia um peso por ser protegido, se pudesse lutar, seria mais útil. — Então não vejo porque não.

— Tae, se ele se machucar você também irá se ferir — Taesu disse com um olhar preocupado e Jimin cruzou os braços.

— Qual a sua ideia? — O ômega perguntou com uma expressão séria. — Quer prendê-lo em uma redoma de vidro? E se tentarem nos invadir como fizeram ontem e ele não conseguir nos avisar a tempo? Ele estará vulnerável, tratá-lo como uma flor só irá facilitar o trabalho de Delta quando tentarem pegá-lo.

— Concordo — Namjoon respondeu e atraiu a atenção de Taesu. — Pode ser que não estejamos sempre ao lado dele para protegê-lo e só pelo tamanhos das presas dele, sabemos que ele é forte.

— As Presas? — Hyeri perguntou confusa.

— Em Presa eles afiam os caninos desde pequenos, os de Jungkook são bastante afiados, isso mostra que ele é forte, estou certo? — Seokjin perguntou e Jungkook assentiu.

— Eu era o melhor caçador da alcatéia, fazíamos festivais com os animais que eu caçava — respondeu e a saudade o atingiu com força. — Ser um caçador não é um trabalho fácil e não é qualquer um que consegue, por isso minhas presas são afiadas, simbolizam a minha eficiência como caçador.

— Acha que conseguiria caçar pessoas como caça animais? — Taesu perguntou e aquilo fez um arrepio subir por sua espinha. Ele nunca havia matado ninguém, não sabia se conseguiria.

— Pai... — Taehyung o repreendeu com uma expressão séria.

— Vocês não podem me culpar por ser cauteloso quando a vida do meu filho está em jogo também — Taesu suspirou e cruzou os braços. — Não estou dizendo que ele é incapaz, só quero ter certeza que ao fazer isso, não estamos simplesmente jogando-o aos leões. Se o pegarem, será nosso fim, há muito a se considerar.

— Entendo o que quer dizer, mas não muda o fato de que ele não pode ser um alvo fácil — Jimin explicou, parecia mais calmo que antes. — Não vamos deixar de protegê-lo, mas precisamos que ele saiba fazer isso sozinho caso precise.

— Eu não contei a vocês sobre isso — Jungkook disse de repente, o que atraiu a atenção de todos. — Mas quando eu previ a chegada deles, vi minha morte... Eu fui atacado pelas costas, enquanto dormia, sequer notei o que me atingiu. Taehyung conseguiu se defender mesmo que estivesse dormindo também, ele ainda assim se feriu no peito como hoje, mas seus esforços foram em vão com a minha morte. — Aquilo pareceu perturbar a todos, principalmente Taesu e Hyeri. — Se eu não tivesse previsto o que aconteceria, nós morreríamos, porque eu sou um alvo fácil.

— Não se preocupe, eu irei ensiná-lo a se defender e o Tae pode treiná-lo também quando estiver recuperado — Jimin afagou seu ombro delicadamente para consolá-lo.

— Você disse que o Tae se feriu na sua visão — Seokjin disse cautelosamente e Jungkook assentiu. — Foi da mesma maneira que aconteceu hoje?

— Sim — Jungkook virou-se em direção a Taehyung, olhou em direção a seu peito e então subiu o olhar, para encarar seus olhos. — Foi exatamente no mesmo lugar da visão...

Era realmente estranho, apesar de ter conseguido evitar a morte de muitas pessoas, inclusive a dele, Taehyung ainda assim foi ferido, no mesmo lugar, da mesma forma e se não lhe falha a memória, pela mesma pessoa. Será que haviam alguns acontecimentos do futuro que não conseguia mudar? Sempre que tinha visões não eram sobre morte e nem sempre tentava mudar o futuro, pois se não, teria evitado a morte de seus pais, queria ter salvo a vida deles assim como salvou outras pessoas hoje, como Dahyun. Aquilo lhe trouxe um medo intenso, tinha medo de ver a morte de alguém e como aconteceu com seus pais que não conseguisse impedir, pois se a ferida de Taehyung ocorreu mesmo em outras circunstâncias, da mesma maneira que havia acontecido no quarto em sua visão, mostrava que algumas coisas eram inevitáveis. Taehyung segurou sua mão com mais força e foi naquele momento que Jungkook percebeu que ainda permaneciam de mãos dadas desde que entraram na mansão, sua palma estava quente e o cheiro de café o acalmou quase imediatamente ao se intensificar.

— Está tudo bem — Taehyung disse com os olhos fixos aos seus. — Não pense no que poderia ter acontecido, você salvou nossas vidas, foque nisso.

— Ele está certo — Namjoon se pronunciou e atraiu a atenção de Jungkook que o encarou. — Conseguimos impedir um ataque e apesar de alguns feridos, não temos nenhuma morte.

— E você pode tentar aprender a controlar suas visões com a minha mãe — Seokjin disse com um sorriso e Jungkook assentiu, apesar de não poder ver o futuro como ele, Yongok era a única que poderia ajudá-lo.

— Certo — Jungkook concordou e respirou fundo. Focaria apenas no presente, deixaria para se preocupar com o futuro quando tivesse alguma visão. — Agora deite-se e descanse, precisa se recuperar. — Disse ao encarar Taehyung. — Pode fingir que está bem diante de sua família, mas não consegue esconder o que sente de mim, está com dor.

— Finalmente conseguiremos cuidar desse alfa cabeça dura agora que temos um detector de mentiras! — Jimin cruzou os braços com um sorriso e Taehyung revirou os olhos.

— Não está tão ruim — o alfa disse sem encará-lo e Jungkook ergueu uma sobrancelha.

— Está sim! — Rebateu ao revirar os olhos também. — Já entendi tudo, alfa orgulhoso, né? — Perguntou aos outros e todos assentiram em concordância. — Pois com alfas marrentos eu sei lidar.

Jungkook disse ao segurar a mão de Taehyung com mais firmeza e levá-lo até o primeiro andar da mansão, onde caminhou até o quarto do alfa e entrou junto a ele, o empurrou até a cama e o obrigou a se deitar, enquanto o ouvia resmungar que realmente não estava ruim. Aquilo o fez rir, seu pai era igual a ele, se recusava a aceitar ajuda mesmo quando a febre o impedia de pensar racionalmente, aquela marra característica da maioria dos alfas, de querer parecer mais forte do que realmente eram era algo ao qual já estava habituado. Quando sentou-se na cadeira ao lado da cama de Taehyung, deixou que as memórias o tomassem pela primeira vez desde que encontrou o corpo de seus pais sem vida no chão de sua casa, as lembranças ao lado deles se tornaram dolorosas, porque eram apenas isso, lembranças. Mesmo que quisesse correr para os braços deles sempre que sentia medo, a única coisa ao qual poderia se apegar eram as lembranças de seus momentos juntos.

— O que o aflige? — Taehyung perguntou e o tirou de seus devaneios.

— Estava pensando em meus pais — disse com um sorriso pequeno, um sorriso sem qualquer resquício de felicidade.

— Sente saudades? — Ele perguntou e seu peito se comprimiu em dor, tinha muita saudade, por isso assentiu. — Jungkook... O que o levou a fugir de Presa?

Aquilo fez o medo aflorar ainda mais os seus sentidos, a marca em sua nuca o incomodou novamente e notou que Taehyung franziu o cenho, provavelmente sentiu a grande carga de sensações negativas que inundou seu corpo como um tsunami. Sabia que precisava contar a ele, sabia que aquilo os colocaria em perigo, mas não estava pronto para enfrentar seus medos, não ainda.

— Eu... Não quero falar sobre isso — disse ao sentir um bolo enorme surgir em sua garganta, seus olhos marejaram e Taehyung sentou-se na cama com uma expressão aflita.

— Me desculpe, não queria trazer lembranças ruins, não precisa me contar — disse rapidamente, com uma expressão preocupada no rosto.

— Eu irei contar, só não agora — respondeu e limpou uma lágrima solitária que escorreu por sua bochecha. — Está recente demais, não consigo...

— Me desculpe, eu realmente não queria pressioná-lo — respondeu e seu cheiro de café intensificou. Aquilo fez Jungkook suspirar, aquele cheiro tinha um efeito tão eficiente em seu corpo que aos poucos o bolo em sua garganta desapareceu. — Irei esperar até que esteja pronto.

— Obrigado — respondeu ao fungar. Nunca tinha chorado tanto em sua vida como nos últimos dias, sempre evitava pensar em sua fuga ou na morte de seus pais, como uma maneira de evitar que um novo acesso de choro viesse. Não estava pronto para enfrentar o luto, pois aquilo significava aceitar que nunca mais teria sua vida de volta.

— Não chore, seu rosto lindo ficará arruinado — Taehyung pediu e limpou a lágrima que havia escorrido. Aquilo o fez rir, um sorriso mínimo, mas que pareceu satisfazer o alfa. — Seu sorriso é lindo demais para ser coberto pelas lágrimas.

— Você não poupa elogios, não é? — Perguntou com um sorriso pequeno, sentia suas bochechas voltarem a esquentar.

— Para você, não — respondeu e Jungkook o encarou surpreso. Taehyung sorriu e virou-se em direção a cômoda de madeira que estava ao lado cama, sentiu a dor dele se intensificar e fez uma careta, mas o viu tirar um espelho de mão dourado e o entregar.

— Por que me deu isso? — Perguntou confuso e encarou seu reflexo. Realmente Hyeri e Jimin haviam feito um ótimo trabalho, seus olhos estavam destacados pela maquiagem, seus lábios estavam vermelhos e sua pele parecia uma porcelana, embora enrubescida.

— Eu disse que se você não enxergasse a própria beleza, eu o mostraria — o alfa respondeu e levou os dedos delicadamente a seus cabelos compridos que já possuíam cachos ondulados caindo sobre seus olhos. Taehyung afastou uma mecha e a colocou atrás de sua orelha. — Jungkook, você é o ômega mais bonito que já pisou os pés em Canis, parece que Unàh o esculpiu com as próprias mãos...

Aquilo o fez enrubescer ainda mais e Taehyung sorriu.

— É uma pena que o sol de Canis levará sua palidez embora, não poderei ver suas bochechas coradas com tanta intensidade quanto agora — ele respondeu e aquilo foi o ápice para Jungkook, que se levantou de repente e Taehyung assustou-se.

— E-eu... Vou pedir para Dahyun preparar um chá calmante para você — disse ao virar-se em direção a porta, para fugir do olhar e das palavras válidas de Taehyung. O ouviu rir antes de abrir a porta.

— Você é uma graça, Jungkook — foi a última coisa que o ouviu dizer antes de sair do quarto e fechar a porta. Suas bochechas ardiam tanto que colocou suas palmas sobre elas, como se pudesse afugentar o calor.

— Pare de corar toda hora! — Resmungou para si mesmo enquanto caminhava pelo corredor. Não podia deixar as palavras bonitas de Taehyung atingi-lo, ele era marcado.

Contra a sua vontade, mas era.

— Ele não deveria gastar suas palavras doces comigo — foi o que Jungkook disse a si mesmo. Aquilo fez o calor em suas bochechas desaparecer e parou diante da escada. — Eu já tenho um alfa...

Aquilo fez as lágrimas voltarem a banhar suas bochechas.

~🐺~

Ai que depressão.

Vocês vão notar que o Jungkook tem um ponto de vista bem diferente das coisas a volta dele. Coisas que provavelmente os deixarão bem agoniados, então estejam preparados.

Os traumas e inseguranças vão deixar as ações dele voltadas totalmente a isso.

Obrigada por lerem, até o próximo capítulo <3

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