7°: "Felicidade"
Acordei eufórico, a noticia de ontem era melhor do que eu podia imaginar, aquilo aliviou a minha alma do peso dos meus erros, eu quase colocaria outra armadura daquela novamente apenas para comemorar o que El me contou. Não, isso seria muita burrice para apenas uma pessoa.
Fui logo me levantando e indo para a cafeteria. O dia era o melhor possível. Uma leve garoa caía enquanto o grande sol brilhava iluminando as pequenas gotículas d'água tornando tudo simplesmente fantástico criando pequenos arco-íris, o dia era tão frio que a maioria das pessoas estavam de agasalho fechado e cachecol sobre todo o pescoço, porém não era frio o bastante para parar a cidade. O calor daquele dia irradiava de sua beleza, da forma como o vapor saía da boca de um corpo emaranhado sobre todo aquele agasalho que esquentava, não havia calor do sol que brilhava.
Pensei comigo mesmo em tentar aproveitar o poder de tempestades que corria dentro de mim, já que seriam meus últimos momentos com aquilo eu me divertiria.
Com toda a concentração que eu tinha comecei a fazer movimentos, como os de artes marciais de filmes orientais, esperava conseguir fazer uma parte da garoa se dissipar com um movimento.
Joguei as mãos para frente com muita força, foi como se eu pudesse abrir o céu, entretanto a única coisa que consegui abrir foi a costura da manga de minha blusa e o sorriso de uma criança que andava com a mãe na rua.
_ Olha mãe! Um louco!_ disse a criança rindo e apontando o dedo.
O melhor desses dias é a calmaria.
Fui andando para a cafeteria para observar tudo o que as pessoas estavam fazendo, a forma como ninguém está apressado ou estressado de mais nas ruas. Parece que todos pedem pra ficar mais perto para se aquecerem, o frio junta as pessoas. Qualquer coisa quente naquele dia era bom, pedi uma bebida quente ao chegar na cafeteria algo diferente. Hannah já me esperava sentada.
_ Quando você está de bom humor aquece meu coração, teve uma noite boa?_ ela estava apenas com o rosto e as mãos descobertas, a pele branca dela fazia as maçãs do rosto e o nariz ficarem vermelhas no frio, era lindo como aquilo acontecia.
_ É notável quando eu estou bem?_ falei com um sorriso verdadeiro no rosto.
_ Claro você entra e sorri pra Pipper, ela entra toda vermelha pra cozinha como se isso fosse a melhor coisa do dia dela e depois vem trazer seu café da manhã, as vezes acho que ela gosta de você.
_ Todo mundo que fala comigo gosta de mim? Você e El tem umas ideias diferentes sobre gostar.
_ Não é culpa minha que você é gentil com todo mundo, as pessoas que te conhecem te idolatram ou são apaixonadas por ti, você tem o dom de fazer as pessoas se aproximarem por você e quando não fazem isso é porque te conheceram na escola, você era louco naquela época!_ ela deu uma rizada o que fazia as maçãs do rosto quase que sumirem com os olhos dela, aquele momento passava paz_ Ei, falando do El, ele não veio hoje de novo, mas tu se resolveu com ele não? Passei lá ele disse que tinha falado contigo, porém estava muito ocupado para me explicar o que tinha acontecido e agora você chega aqui sorrindo desse jeito.
_ Sim. Ontem quando saí daqui ele me ligou, passei lá e ele resolveu tudo de uma forma tão esplêndida, estou besta até agora.
_ Parece que está tendo um gatilho romântico._ Ela me olhou de lado e fez uma "cara de lua"_ Estranho essas coisas de vocês.
Não era aquilo que ela estava imaginando, não chegava nem perto de ser. Ela gargalhou, eu ri também, a forma como ela satirizava a minha vida era muito cruel.
Pipper chegou com nossas bebidas, ela era uma garota um pouco mais nova que eu, era uma moça de cabelo castanho claro, com algumas sardas em seu rosto _ sardas são simplesmente incríveis, as estrelas da pele humana, é como eu vejo_ seu olho era negro-azulado como a noite, usava um óculos igual o meu, seus cabelos lisos eram levemente ondulados, quase sempre que a via estava usando as roupas da cafeteria, mesmo assim sua beleza não era escondida. Depois que ela saiu Hannah murmurou.
_Ela ficou vermelha de novo, você ficou encarando muito ela._ Hannah sorriu.
_ Ei, não me vem com essa. Eu só estav..._ eu realmente tinha me perdido um pouco para observar Pipper, só percebi depois que Hannah tinha me falado._ ela estava vermelha pelo frio é como você, "sensível".
Inventei uma desculpa.
_Sei, sei._ ela parou e olhou para a janela_ Você precisa de alguém Karl. Viver só naquela Casa pode ser ruim para você, mesmo que você esteja sempre cheio de coisas na cabeça e escrevendo, é impossível nunca ter um momento de solidão.
Mesmo que viver só fizesse bem ao escritor sempre ocioso.
_ Estou ciente disso, não me sinto solitário naquela Casa, estar só me conforta e me gera criatividade, porém estou arrumando uma solução para um relacionamento._ ela me encarou imediatamente.
_ E me conta agora? Quem é a injustiçada?_ eu adorava a forma como ela ironizava tudo.
_ Uma mortal comum que não resistiu a meus dotes._ Gesticulei acentuando minha auto-estima._A Doutora.
_ A do Hospital? Que te conheceu quando entrou no quarto? Não é falta de ética sair com paciente? Ela não deveria ter aceitado... Ela vai sofrer para o resto da pobre vida._ Hannah concluiu com um longo suspiro.
_ Você me faz sentir o pior deus que existe, ainda bem que só existe um deus como eu._Rimos juntos.
_ Seu narcisismo é tão grande quanto a quantidade de letras que escreve por dia._ A melhor forma de faze-la parar de me insultar era essa._ Não tem graça falar contigo, vou trabalhar agora.
Ficar ali depois que Hannah saia se tornou um costume.
Tudo estava bom de mais pra ser verdade.
Ela saiu e fez o mesmo percurso de sempre.
O clima pesou um pouco, senti que algo não ia acontecer hoje, era péssimo senti essa sensação.
Passei algum tempo observando o dia, a neblina ainda caía, agora mais forte escondendo o sol que já elevava-se mais, as pessoas tentavam se proteger das pequenas gotículas que caiam. Algumas pessoas que ficavam sentadas no banco do outro lado da rua se levantaram e correram para um abrigo. Na esquina alguns garotos vieram correndo pareciam está falando de algo que vinha atrás deles estavam felizes como quem via a profissão do futuro.
O exército passou na rua novamente vinha virando a esquina, os garotos observavam admirados. Dessa vez alguns deles viraram e vieram em direção a cafeteria. Eram seis soldados não vinham em ordem unida, encostaram na cafeteria e olharam para dentro, eles me viram da janela, olharam em minha mesa e entraram.
Entraram quatro e ficaram dois na porta de vigia, vieram em minha direção, um deles o primeiro me olhou, seu busto era sério, ele parou e falou:
_O que é isso?_ sua voz era grossa e rígida, mas estava calma e relaxada, não parecia que ele tinha vindo me matar, o coração palpitava tão rápido que quase parou._ Café cremoso?
_ Si... Sim_ fiquei nervoso e gaguejei.
_ Faz tanto tempo que não tomo nada que tenha gosto bom._ Ele me encarou. Em outro momento ele seria assustador.
Aquele cara robusto e corpo lento, tinha uma barba grande e bem feita, seu cabelo grande estava amarrado. Ele era diferente dos soldados comuns de cabeça raspada ao redor dele, alguns tinham fardas de praças e oficiais, mas todos pareciam seguir o grandão de cabelos grandes que não tinha patente, o que o tornava um soldado era sua postura e uniforme arrumado. Ele deu um sorrisinho amigável e continuou.
_Ei relaxa, não vou pegar o seu copo, vou comprar um. _ele percebeu que eu ainda estava sem reação_ Acho que fui meio gorceiro, certo? Me desculpe, tenha um bom dia.
Me senti extremamente envergonhado, dei uma risada, e devolvi o gracejo, estava tão pressionado com tudo o que tinha acontecido nos últimos dias que algumas pessoas com uniforme me fizeram tremer as pernas. Eles pegaram alguns copos quentes e foram se sentar na parte de fora da cafeteria com cobertura, se juntando com os outros dois que tinham ficado do lado de fora, eram todos homens, todos observavam o grandão.
Parei novamente para observar a janela, Juno apareceu rápido, entrou, pegou um café e me chamou.
_Vamos tenho que ir para casa, não vou poder ficar aqui hoje.
Me assustei um pouco, entretanto me levantei paguei a minha conta e fui atrás dela com um copo pela metade na mão.
Ela vinha do hospital de novo.
Já na rua.
_Parece mais animado do que ontem._ Ela estava linda como sempre, aquele brinco redondinho de sempre parecia um pequeno planeta naquele universo de mulher.
_ Sim, eu estava brigado com um amigo meu, o El do hospital, e acho que consegui resolver todos os problemas, agora estou mais feliz, mais animado.
_ Percebe-se, você está mais radiante hoje._ A garoa começava a se transformar em chuva lentamente e ia molhando os fios de cabelo dela, as gotículas d'água se juntavam sem escorrer, como numa flor depois da neblina do alvorecer._ Acho que estou começando a gostar da forma como você me olha, ainda é um pouquinho sinistro se você encarar de mais, só que eu me sinto mais bem vista, você parece ter pensamentos legais quando me olha.
_ Os meus pensamentos são poesias que a voz nunca teria coragem de declarar, porém minhas mãos adorariam escrever para te mostrar.
_ Acho que estou confiando de mais em você, não parece que está mentindo para mim. _ ela falava com tom de desconfiança_ Você tem o dom de fazer as pessoas gostarem de você e tornar isso algo intenso, já percebi isso.
_ Você não é a primeira pessoa a me dizer isso essa semana, na verdade me disseram isso hoje em quanto tentavam me empurrar uma namorada.
_ Sério? E o que você disse?
_ Não lembro bem, mas depois eu falei que eu tinha um encontro.
_ Então finalmente eu soube de um fora acontecendo, na sua vida e foi você que deu._ ela deu uma risada a garoa virou chuva e começou a engrossar as pequenas gotas agora desciam e escorria pelo rosto de Juno._ Mas essa garota do encontro é legal?
_ Bem... Ela que o diga.
Sabia que algo de ruim ia acontecer, aquele sentimento se referia a esse momento. Eu não gostava de ficar na chuva sem guarda-chuvas quando estava muito frio, fazia doer a ponta dos dedos.
_ Droga, eu não posso gripar, essa semana vou trabalhar com um grupo de risco._ Juno falou se encolhendo ao lado de um muro
_ Sua casa é perto daqui?
_ Não, ela é a uns três quarterões ainda_ o céu escureceu a chuva ficou mais forte, ao longe ouvi o som dos trovões, vinham nuvens de raios na nossa direção, aquilo ia se tornar uma tempestade rapidinho._ Você mora aqui por perto? está sempre na cafeteria, sua casa deve ser aqui por perto não?
Deuses, tive uma péssima ideia. Olhei a minha volta e reconheci a rua, estava perto de casa. pensei em leva-la para se abrigar, entretanto estava um pouco envergonhado nem tínhamos saído ainda. Todavia não podia deixar ela ficar nessa chuva sabendo que minha casa estava tão perto.
_ Minha casa é aqui perto, quer ir para lá? Podemos esperar a chuva passar.
Ela assentiu, fomos correndo, não precisamos atravessar mais do que duas ruas para poder chegar, entramos na casa, e deuses... ela ainda estava arrumada. Ela tirou o agasalho molhado e olhou ao redor.
_Sua casa é pequena, você mora sozinho aqui? ela falava enquanto tiravamos as roupas molhadas.
_ Sim eu precisava de um pouco de paz para poder escrever e me mudei para cá, adoro esse lugar, mas quando estou muito concentrado no livro passo dias apenas usando o escritório, a cozinha e o quarto.
_ Você usa a cozinha? Quer dizer que não é de pedir comida para não parar de trabalhar?
_ Amo cozinhar._ falei e peguei as roupas dela para colocar na área para ir secando._ Me destrai a mente.
_ É difícil achar bons cozinheiros hoje em dia._ ela estava apenas com uma calça e uma blusa clara que ficavam um pouco colada agora, seu corpo era escultural, ela não era do tipo de pessoa que tinha tempo de ir a uma academia ou algo do tipo, suas voltas eram perfeitas para mim, confesso que ela tinha um pouquinho mais de carne do que o padrão de beleza define, não era um corpo de modelo de revista, não tinha voltas perfeitamente definidas, entretanto meu padrão se tornou aquele quando a vi, a "imperfeição" do seu corpo me travou.
Fui logo preparar algo quente para tomarmos, para não acabar me perdendo no labirinto daquele corpo. Peguei uma blusa minha pra ela se agasalhar. Depois de pronto, ofereci a bebida a ela que encostou a mão em meu braço, a mão dela era muito gélida, porém isso não me incomodava, o toque dela era delicado, era bom na verdade.
_ Seu corpo está quente, como consegue?_ ela parecia surpresa.
_ Não estou quente, eu sou quente!_ ela corou, não era a intenção, mas deixei o clima mais quente do que meu corpo.
_ Você é bastante convencido também._ ela deu uma risada nervosa e pegou o copo.
_ Acontece._ ficamos calados enquanto tomávamos nossa bebida. Ali era meio difícil não olhar para ela , não tinha outro ponto de foco, mas enquanto eu disfarçava e olhava para o chão notei algo, ela também estava me encarando._ Sabe, eu acho estranho quando as pessoas me encaram de mais.
Ela deu uma risada, sabia que eu estava de gozação, eu adorava ser observado, estava praticamente escrito na minha testa, a encarei também dessa vez ninguém desviou os olhares. Tudo estava quieto a chuva estava parando, o som que se podia ouvir era das gotas que desciam e pingavam do telhado agora. A luz da cozinha fazia pouca sombra nos nossos rostos, eu a observava em cada detalhe. Sutilmente encostando.
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