36° "Gelo, Café e Tequila"

Passaram-se algumas semanas, o calor havia chegado, primavera sutil, época de flores, o calor ajudava a criar desastres, além de ajudar muito meu treino. O corpo tinha ganhado forma, estava mais definido que nunca, o treino de corpo completo não era nada sutil, mas tinha efeito visível.

_Banho gelado ainda é banho gelado, mesmo em condições de calor.

Todo o resto do treino parecia ficar cada vez mais cansativo, a temperatura subia e o cansaço piorava.

_ Todo o nosso treino é baseado no controle corporal, e emocional, se você estiver com um emocional forte, com toda certeza não sentirá nada além do cansaço físico, que em algum momento vai diminuir. É só ter controle de sua temperatura.

_ Falar é fácil, não é você que está numa banheira cheia de gelo no único lugar frio da casa._ Falei para Vitória, que estava sentada no sofá da minha casa, bebendo uma bebida gelada, se abanando.

_ Queria eu, aqui está um calor desgraçado._ ela sorria para mim._ Quer um picolé? Juno já vem trazendo alguns.

_Se o demônio pudesse vir a terra ele com toda certeza não faria questão de passar perto de você.

_ Acho que você está reclamando de mais para alguém que esta quase batendo o recorde mundial de tempo em uma banheira de Gelo.

_Grande avanço, agora só falta saber como isso me treinou._ Estava congelado, tinha certeza de que eu não conseguia mais me mover, por isso ainda estava ali._ sentimos muito Karl, não conseguimos tirar seu corpo da banheira, mas como ele estava congelado, preferimos te manter lá, para não apodrecer quando tirar.

_ Largue de drama Karl, você pode sair quando quiser, não está nem batendo o queixo, e mais tagarela que uma criança.

Levantei, a bunda estava doendo de tanto tempo sentado.

_ Melhora que fala?_ Vitória me olhava séria, mas tinha um olhar de sarcasmo inegável.

Bateram a porta.

_Vitória!_ Era a voz de Juno.

_ Vá abrir eu vou colocar uma roupa seca._ Falei indo para o quarto.

_ Está se achando de mais,_ Vitória disse_ Vou abrir porque quero picolés, não porque eu dependo de suas ordens.

Intimidadora, é a palavra que descreve Vitória. Enquanto me trocava, Juno entrou, trazia consigo uma sacola cheia de sorvetes, após algumas semanas de horas extras ela conseguiu tirar uma boa folga.

_ Hey, tudo bem Vitória? Só achei os sabores mais azedos,_ Ela disse levando a sacola para o balcão da cozinha_ Onde está Karl?

_ Saindo do Gelo, cansou de servir de garrafa no balde._ Elas riram.

O relacionamento com Juno  tinha evoluído nas últimas semanas, ainda que não soubéssemos onde estávamos, neste assunto.

Vitória conquistou a amizade de Juno e Pipper rapidamente, por outro lado, brigava a cada cinco minutos com Polo.

Pipper tinha voltado para seu emprego na cafeteria, ela adorava aquele lugar

Vitória mudou sua feição, estava mais alegre desde que chegou, sorria um pouco mais, parecia estar gostando de me torturar todo dia ou gostava da companhia das novas amigas.

Saí, já estava me preparando para mais um treino massacrante. Este era o meu ritmo ultimamente.

_ Ei, gelo pós gelo?_ As piadas estavam melhorando junto com o humor.

_ Não deu tempo de preparar um picolé quente para você_ Vitória ganhou um sarcasmo explícito.

_ Ótimo, agora sou um alvo.

Juno encostou, me deu um beijo.

_ Você me parece frio.

_ Acho que o senso de Humor de vocês está cada vez maior._ Falei pegando uma xícara de Café.

_ É a amizade fortalecendo_ Juno disse rindo_ acentuando a pirraça do mais simples coração.

_Vocês foram feitos um para o outro._ Vitória mudou o rumo do assunto.

Nesse momento Juno tentava me fazer abocanhar um picolé de umbu, ela congelou mais que o refresco na mão dela.

_ Ficou sem graça?_ Vitória sorria, ela sabia atingir

O rosto de Juno ficou vermelho, o meu também, nada como um clima um pouco fora do centro para tirar-nos do eixo.

Talvez um pouco de papo jogado fora pudesse amenizar os pensamentos chatos e o cansaço.

_ Pudera, deveríamos ir ver a Pipper._ Vitória sorria, agora que deixou todo mundo sem jeito, era seu dom natural.

_ É, com certeza, uma boa ideia.

_ Eu vou arrumar o que vestir pra sair._ disse fugindo do assunto e do local.

Praticamente vesti uma nova versão da mesma roupa. Saí, era um alívio conseguir sair de casa sem o mundo de pessoas te seguindo, os jornalistas haviam se dispersado, um ou outro apareciam as vezes para fazer perguntas um tanto curiosas. Descobriram que os buracos na cidade tinham fundo, conectavam-se com  a uma rede de túneis prontos cavados a 646 metros de profundidade, os túneis ligavam vários lugares da cidade, além de unir cidades vizinhas e outros caminhos que ainda não tinham sido explorados. Perguntas como fuga de El do exército, ou plano de atacar e roubar bancos surgiam. 

    Eu não parecia ter sido um sobrevivente para nenhum curioso, parecia mais um novo tipo de terrorista. Perguntas da conspiração costumavam surgir mais do que os fatos sobre o ocorrido. Descobriram que o efeito das grandes fendas não foram em si um terremoto, não um normal causado por choque de placas ou vulcanismo, a força veio da superfície, ondas sísmicas surgiram de cima e foram se amplificando até os túneis.

    O único bônus de ter múltiplas pessoas surgindo e fazendo perguntas eram as informações que eles passavam  na intenção de ganhar uma resposta.

     Ao sair na rua vi um menino passeando com alguns amiguinhos, ele pulava as novas rachaduras brincando. Olhou para mim e gritou em seguida.

    _ O homem louco! Eu disse que apareceria!_ Ele apontava. _  Ele que caiu do céu, sabia que eu lembrava onde ele morava.

    _ Ele não parece um monstro._ disse seu amiguinho.

    _ Não é um monstro_ disse o primeiro_ É um criador da destruição aquele que trás todos os males, o Próprio Shiva.

    As outras crianças, provavelmente mais novas, se arrepiaram com a forma que o garotinho disse as palavras, já vinham ouvindo outras histórias, uma delas chorou e voltou correndo para casa.

    _ Parece que gostaram de você._ Vitória parecia um pouco mais satisfeita com a situação.

    _ As crianças tem um conhecimento absurdo..._ Falei chocado_  E você parece ter ficado mais humorada depois que começou a torturar as pessoas.

    _ Não é torturar engraçadinho, é treinamento, você que é um molenga. 

    _ Vamos crianças, parem de briga_ Juno nos empurrou para seguirmos._ Temos um destino.
    A criança ria enquanto seus amiguinhos pareciam estar amedrontados.

    Fomos a cafeteria, precisávamos de um bom café e de descanso. Já era quase noite, Pipper nunca estava cansada de trabalhar, sorria sempre animada.

    _Pipper! Ainda trabalhando?_ gritei ao entrar.
  
    _ Estou de saída, vou preparar os nossos e já vou me juntar a vocês._ Ela gritou apanhando alguns copos. Ela amava o que fazia ali._ venham para o fundo.

    Passamos por entre a cafeteria, o horário não era de movimento, poucas pessoas se sentavam em seu interior, alguns perdidos, todos esperando com calma por seus pedidos.

    O ambiente estava sobe nova supervisão, todos os comércios da cidade eram dirigidos por pessoas diferentes agora. A estética da cidade havia mudado em poucos meses, não só pelas destruições que chamavam novas pessoas, mas pela estética um pouco mais diferenciada, com muitas lojas tomando identidades distantes das que Hannah havia construído. Entretanto o ambiente do café não perdia seu ar de aconchego, ele se mantinha, sem muitas mudanças, tinha um espírito próprio.
     
    O jardim do fundo se mantinha, ainda belo com seus adereços, algumas plantas agora estavam florescendo em alguns lugares. Nos sentamos e esperamos Pipper, que vinha logo atrás de nós.

    _ Pedi a Tomás para trazer, o turno dele já começou._ ela disse se juntando a nós._ pedi para para trazer pães de chuva também.

    _ Uma ótima pedida._ disse satisfeito.

    _ Como que pode ser tão atenciosa assim? Amo essa menina._ Vitória disse sorridente.

    _ Obrigado_ Disse Pipper._ O que há de novo?

    _ Até agora nem uma vibração sequer da terra, nem um asteroide ou desastre qualquer.

     _ Só nuvens carregadas todos os dias após o pôr do sol._ disse Pipper._ Vocês sabem que meu horário de chegar em casa é às 6:30, às vezes fico imaginando se fazem de propósito para me molhar.

     _ Nem todos os dias é no mesmo horário._ disse Vitória.

    _ Só as piores torrentes que caem nesse horário, tem razão._ disse Pipper.

    _ Vai faltar água no resto do país inteiro. Espero que saibam disso.

     _ Não se preocupe, a cidade é alta, vai levar a água de volta ao mar._ Brinquei.

    _Deve estar criando novas nascentes de rios, com todas essas chuvas._ Juno sorria.

    O momento era descontraído, todos sorriam e brincavam conforme o sol ia chegando ao ponto de se pôr.

    Tomás veio de dentro da cafeteria, trazia consigo nossas bebidas, entregou a todos.

    _ Olá Tomás, quer se sentar conosco?_ Convidei.

    _ Não posso,_ ele respondeu simpático_ por mais que eu queira, agora a dona não está sentada a mesa, não é como se eu pudesse abandonar o trabalho agora._ ele deu um sorriso e voltou para seu serviço.

    O clima pesou um pouco.

    _ É verdade Karl, eu só me sentava a mesa por convite de Hannah, ainda é o nosso trabalho isto aqui.

    _ Eu havia me esquecido._ Falei. _ Quem está no lugar dela agora?

   _ Me disseram que seu irmão pode vir a aparecer. Não temos bem uma ideia. Todas as lojas estão sendo gerenciadas por seus respectivos líderes, ainda não temos uma previsão.

    _ Entendo_ falei, agora um pouco cabisbaixo.

    Olhei para o copo de café gelado cremoso. Por mais saboroso que fosse nunca seria a mesma coisa.

    Lembrei de todos os sorrisos que eu havia dado durante minha vida, a cidade tinham mudado, meus amigos e modos de vida também deixei de ser um escritor, agora eu era um vingador, alguém estudando formas de matar, nunca imaginei que teria que descrever minha própria batalha.

    _ O que acham de uns drinks pós lanche?_ disse Pipper._ Podemos chamar Polo.

    _ Se Polo não for eu vou._ disse Vitória.

    _ Não fale assim, ele é legal._ disse Juno.

    _ Nem dormindo._ Ela franziu a testa.

    _ Relaxe, vamos comer, depois nós pensamos na noite._ disse Pipper.

    _ Karl precisa treinar ainda hoje._ Vitória deu ênfase, não era negociável.

    O café estava delicioso, Juno não Abandonava seu café preto, eu sempre encontrava algo novo e diferente. O sabor era maravilhoso, cremoso e doce com aquele cheiro maravilhoso, deixando o amargo saboroso que só o café tem. De dar água na boca.

    Saímos. O sol se punha. Tinham muitas nuvens nos céus próximo a estrela, quando o sol chegou ao horizonte as cores que tocavam as nuvens se tornaram tons de rosa, passavam por um laranja e um avermelhado que se misturavam ao contraste azul do outro lado que estava mais limpo, mostrava as primeiras estrelas da noite e uma lua cheia que prometia continuar com uma noite iluminada.

    Algumas horas se passaram, foram todos se arrumar para ir a um lugar, chamei Polo pela janela de meu quarto e ele se encontrou conosco na rua.

    Fomos a uma petiscaria, não muito distante. Não quis beber muito pedi apenas duas doses de Tequila, fiquei acompanhado por um bom aipim frito.

    Diferente de mim Pipper e Vitória alugaram um garçom. Casualmente elas conseguiram ingerir mais bebida que carro antigo.

   _ Eu acho que eu seria uma boa lutadora_ Dizia Pipper embriagada._ Lutaria com qualquer um para dar uns beijos em você._ Ela apontou para mim e depois me afastou_ Não você, seu bobão, você tem a bonitona ali, estou falando dele.

    Ela estava falando de Polo. Passou um alívio de um momento vergonhoso, mas em seguida veio outro.

    _ Você sabe que eu prefiro meninos não é?_ Polo sorriu simpático. Ele e Juno não estavam bebendo.

    _ Droga! Só me apaixono por homens complicados._ Pipper cruzou os braços, fazia birra.

    _ Não se preocupe amiga, você ainda tem chance de escolher uma moça._ Vitória estava acompanhando Pipper, porem estava com as bochechas coradas, o único efeito visível que o álcool lhe causou._ Se quiser, conheço muitas moças divertidas.

    _Aí, eu vou ter que ficar com Polo nessa_ Ela disse apoiando na mesa_  eu prefiro meninos.

    _ Parece que Pipper já está alta, não deveríamos levar ela pra casa? Ela trabalha amanhã cedo.

    _ Eu concordo._ disse Pipper_ eu trabalh..._ Não conseguiu terminar a frase.

    Levantou correndo e foi vomitar no banheiro. Juno foi logo ajudar, Polo também não quis ficar apenas esperando.

    _ Achei que ela aguentava mais_ disse Vitória sorrindo.

    _ Seu sorriso é muito lindo._ falei_ quando te conheci imaginei que você fosse mais conservadora.

    _ Não é porque escolhi me tornar um soldado que eu me tornaria alguém fechada. Eu sou o que tenho que ser.

    _ Isso não se torna uma obrigação?_ questionei.

    _ O que foi? Está bêbado? Querendo ter uma conversa sentimental comigo?_ ela me olhou nos olhos._ Sou objetiva, tenho meu papel a cumprir, não deixo minha essência de lado por motivo algum, porém isso não muda o fato de que eu farei de tudo para atingir meus objetivos.

     _ Você só pensa em se vingar? Não queria ter outra vida?

    Ela desviou o olhar.

     _Eu penso, mas toda vez que tento dormir eu lembro, eu tenho pesadelos, e me motivo a não parar aqui._ Ela me olhou de novo._ porque essas perguntas? Está pesando em desistir?

    _ Sem dúvidas não._ não demorei com a resposta_ eu adoro Polo e Pipper, estou aprendendo a me apaixonar cada vez mais por Juno, todavia nenhum deles são El ou Hannah, eles fazem mais falta do que tudo o que tinha, eles me ajudaram a construir minha vida.

   _ Ei vamos leva-la para casa_ disse Juno, carregando Pipper para fora. _ Ela não está nada bem.

    _ Vamos!_ respondi levantando_ Nós destruiremos Harry e Minerva, não me importo com o porque deles estarem fazendo isso, viu caça-los até o inferno se necessário, vou acabar com eles e com quem os comanda. Vamos ser objetivos_ Falei com o semblante sério a Vitória.

    Ela estava quieta, quase arregalou os olhos, pela primeira vez, desde que a conheci, não tinha uma resposta pronta. Estava assustada.

    _ Não sei o que foi isso,  não conhecia esse seu lado._ Ela disse, voltando ao normal._ Mas me arrepiou, espero que você possa fazer essa cara quando ver Harry, ele vai se borrar todo.

    Levamos todos as suas casas.


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