- V -
Nos desfiladeiros de Kvarkala, os corvos crocitavam, como se entoassem um canto fúnebre naquela noite de acontecimentos irreparáveis. Não se sabe, entretanto, se lastimavam a morte do jovem Edhisendil ou se sua sinistra sinfonia apenas anunciava o início da era de terror da qual o mago aprendiz seria o infame arauto.
E indiferente ao que se passava do lado de fora, nas galerias subterrâneas dos sinistros montes, o vetusto Isoutur dava prosseguimento ao seu plano.
No fim das contas, apesar de todos os milênios que superou, ele se sentia realmente surpreso pela dádiva que literalmente caíra dos céus em suas mãos. Justamente naquele momento em que seus preparativos chegavam ao fim.
Evidentemente que o tal presente que recebera atrasaria a execução de seu plano. Todavia, caso sua experiência surtisse o efeito desejado, os ganhos seriam maiores que as perdas por um pequeno atraso.
Com essa convicção e um entusiasmo que há milênios não sentia, ele deitara o pequeno e desengonçado corpo de Adhamastor em uma maca bem ao centro de seu laboratório improvisado.
Deteve-se por um instante analisando o semblante disforme e inexpressivo do homúnculo, sabedor de que o que viria a fazer poderia significar o sacrifício de seu experimento melhor sucedido. No entanto, se um reles boneco de barro tivesse de morrer para o bem de todas as raças de Aldamā, ele não hesitaria. Há muito tempo, quando renunciara à humanidade para se tornar um maghi, ele também abrira mão desse tipo de sentimentalismo.
— Perdoe -me, meu fiel e diligente companheiro, mas preciso dirimir qualquer sombra de dúvida antes de executar meu plano. Mas caso eu esteja certo, tu me serás ainda mais útil! — E ele ria algo desvairado pelas possibilidades novas que se abriam graças àquela suposta fonte de poder que lhe havia sido dada pelos deuses.
Então o maghi introduziu no peito do homúnculo a longa haste de vidro que continha uma poção criada a partir da seiva proibida*, que havia escondido em seu laboratório secreto, e do sangue recém-coletado de Erastos. E esperou, esperou...
O tempo passou indefinido e, por certo, o maghi que acumulava tantos milênios sobre seus ombros teve uma percepção nada precisa do quanto havia transcorrido desde o início de sua experiência com Adhamastor. Pacientemente ele apenas vigiava para ver se o efeito que teorizara realmente aconteceria.
A primeira hora da madrugada já havia terminado e um vento vindo da Baía dos Magos soprava gélido, trazendo uma chuva insistente que tornara a noite ainda mais tétrica e silenciosa. Foi quando a primeira convulsão tomou o corpo da criatura e um urro gutural escapou do orifício que lhe fazia vez de boca, como se ele estivesse angustiado.
A seguir, o boneco se contorceu e contorceu sobre a maca. E seu corpo se distendia como se estivesse prestes a se desfazer. Dir-se-ia que a nobre criatura sofria, se isso fosse possível, mas Isoutur sabia que tudo aquilo era meramente espasmódico e não correspondia precisamente à dor de um ser vivo.
Ademais, do ponto de vista de seu experimento, ele podia dizer que isso era bom sinal, pois significava que Adhamastor reagia à poção...
E foi nesse exato momento que uma lama alaranjada começou a escorrer dos olhos e boca da criatura copiosamente.
*
Basicamente era dessa matéria-prima que Adhamastor se constituía, bem como de um encantamento muito poderoso de Isoutur que lhe dava coesão, certa individualidade e o mantinha em sua forma humanóide. E esse homúnculo, dentre os milhares que o maghi criara, era o mais próximo do que se podia chamar de um ser senciente, embora carecesse de muitos dos predicados de um.
O corpo de barro da criatura continuou a se desfazer ante o olhar impassível de Isoutur: Apenas a camada externa permanecia firme enquanto a lama escorria de dentro do pequeno boneco. Sua existência parecia esvair-se, até que os sigilos mágicos que lhe haviam sido dados por seu criador surgiram em vermelho incandescente sob a camada externa de sua pele como se a magia do thalindariano reagisse ao que tentava anulá-la.
E qualquer um que visse a cena por certo repararia que a rede intrincada de símbolos mágicos que surgia sobre o feioso boneco dava ao seu corpo inânime sob a maca uma feição incrivelmente bela.
Súbito a lama então começou a escorrer num tom arroxeado e, de densa no princípio, foi se tornando líquida até cobrir todo corpinho da criatura. Restando expostos somente os sigilos que brilhavam fortemente.
— Vamos, meu pequeno! — incitou o velho mago como se encorajasse Adhamastor. — Tu serás o primeiro de muitos! E com teus irmãos, num futuro próximo, governareis Aldamā sem a sombra dos primevos ou dos deuses. Esse mundo enfim pertencerá às raças autóctones!
Quando a lama roxa cobriu finalmente o corpo de Adhamastor, os sigilos arderam e uma grande labareda com chamas que lambiam o teto da caverna o envolveram completamente, fazendo com que o poderoso mago se afastasse para longe dali.
Apreensivo, de um ponto seguro, ele apenas observava, aguardando com certa contrariedade que o fogo cessasse para que pudesse se aproximar novamente da maca.
Depois de um longo período em que o fogo consumira com avidez, o maghi se aproximou, deparando-se com a maca de seu experimento totalmente carbonizada depois da explosão de chamas, a qual levara a sólida estrutura de couro e madeira a um colapso desolador.
E consternado, Isoutur constatou que no meio do que sobrara da fogueira restava tão somente um grande monte de cinzas.
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top