Nove

Decidido a fazer uma surpresa para Pete, Vegas chegou um pouco antes das sete e, em vez de mandar uma mensagem para o ômega o encontrar no saguão do prédio, optou por subir diretamente até seu apartamento. A mão úmida ao segurar o caule da rosa azul que trazia consigo.

Mais cedo, quando ligou para sua mãe por vídeo chamada, ela ficou eufórica ao saber que ele estaria ali para o jantar, mas se tornou ainda mais radiante quando o nome de Pete foi mencionado. Ficou nítido para Vegas o carinho especial que a mãe tinha pelo ômega, embora esse não fosse de frequentar assiduamente a casa deles. O alfa nutria certa paz com essa percepção, pois sabia que Pete teria onde se ancorar além dele.

Ele sabia que a ida do Saegthan até a casa dos pais era sinônimo de uma mesa repleta das mais diversas comidas tradicionais, sempre acompanhadas de um toque apimentado, que ele não era muito fã, mas comia para agradar o amigo, e algumas sobremesas deliciosas, feitas pela matriarca especialmente para eles. Sua mãe faria questão de tratar Pete como um rei e ele apreciava todo o esforço, especialmente porque, depois daquele jantar, Pete se tornaria oficialmente parte da família Theerapanyakul.

Ao contrário do que Pete pensava, não considerava nenhum sacrifício o que estava fazendo. Óbvio que em seus planos, casar não constava na lista, mas de longe acreditava que não seria um sacrifício se casar com o ômega. Lógico, foi uma ideia meio absurda no início, mas, sendo honesto consigo mesmo, era absurdo apenas a ideia de casar e não a de casar com Pete, seu melhor amigo. Era estranho, ele se sentia estranho, ainda assim não era um completo absurdo. Talvez porque fosse Pete.

Enquanto subia as escadas, sentiu o cheiro de mirra alcançar seus sentidos. Era sutil, mas forte o suficiente para deixar seu lobo inquieto, pulsando dentro dele como um pisca-pisca descontrolado. Tentou ignorar a sensação e, quando finalmente chegou ao quinto andar, suspirou, uma mistura de esforço para se recompor e a necessidade de respirar fundo, como se o ar estivesse mais denso do que o normal.

Foi até a porta do apartamento de Pete, apertando levemente a rosa azul contra a mão. Queria, mesmo que apenas naquele momento, que o ômega sentisse o carinho e respeito de um noivo verdadeiramente amado, ainda que esse sentimento fosse algo que ele não compreendesse totalmente; ainda era aquele que o fez parar na floricultura mais próxima e escolher a rosa. Algo dentro dele pulsava vivo, quase eufórico, uma sensação de dever, talvez. Algo que ele não conseguia identificar a origem. Uma incógnita.

Fosse o que fosse, não estava lutando contra.

Bateu na porta com firmeza e, segundos depois, ouviu os passos suaves se aproximando. Quando a porta se abriu, Pete surgiu com um sorriso radiante, vestindo uma regata branca e jeans de lavagem clara. Os cabelos, ainda úmidos, estavam partidos ao meio, com alguns fios pesados caindo sobre o rosto. O colar prateado com a constelação de Áquila repousava sobre sua pele, roubando toda a atenção. O aroma familiar de anis estrelado envolveu o ambiente, acolhedor e reconfortante como sempre. De repente, a combinação da própria camiseta preta e jeans de lavagem escura lhe deu a impressão de que eles eram a perfeita representação do yin e yang.

— Você trouxe uma rosa… — Pete comentou, mais como uma constatação do que uma pergunta, seus olhos fixos na delicada rosa azul.

O alfa sorriu de leve, aproximando-se para depositar um beijo casto na testa do ômega enquanto cruzava a entrada.

— É pra você. — disse, casualmente, enquanto o ômega fechava a porta e se virava para encará-lo.

— Obrigado. — Pete respondeu, pegando a flor em mãos e levando-a ao nariz para sentir o perfume suave.

Sem pressa, ele caminhou até a cozinha, com Vegas o seguindo de perto. Pegou um pequeno pote de vidro, retirou a tampa, colocou um pouco de água e posicionou a rosa cuidadosamente dentro. Com um toque sutil, arrumou o recipiente sobre o balcão, onde ficava bem visível da sala. Assim que terminou, virou-se para encarar Vegas, sorrindo largo.

— E então, como estou? Bonito o suficiente pra impressionar sua família e anunciar que estamos noivos?

Vegas riu de leve, notando a tensão que se acumulava sutilmente em volta do ômega, apesar da tentativa um tanto teatral de disfarçar.

— Você está lindo. — respondeu, sua voz firme e sincera. — E sabe que não precisa de muito esforço pra ficar bonito, estrelinha. Além disso, não precisa ficar nervoso. São só meus pais, e eles já te adoram.

Pete deixou escapar um suspiro pesado, acompanhado de um som ruidoso. Caminhou até a sala em passos firmes e se jogou no sofá com um movimento teatral. Ele deu duas batidas no estofado ao seu lado, indicando para o alfa sentar.

— Talvez esse seja o problema. — murmurou, cobrindo parcialmente o rosto com as mãos por um instante antes de encará-lo novamente. — Eles já me adoram. Eu não quero estragar isso... e se eles começarem a pegar no seu pé como minha mãe faz comigo?

Vegas meneou a cabeça sutilmente, sentando no lugar indicado e levando as mãos para cobrir as do ômega em uma tentativa de acalmá-lo.

— Entendo seu receio, mas, embora minha família pareça tradicional, meus pais sempre respeitaram nossas decisões. Não será o nosso noivado repentino um motivo pra eles se oporem.

O alfa sabia o quanto era difícil para Pete acreditar naquilo, especialmente vindo de uma família tão disfuncional. Para alguém que, por ser ômega, era tratado como nada mais do que uma mercadoria.

— Você tem razão, mas ainda assim me sinto angustiado. Talvez pelo fato de que estamos enganando eles.

O ômega suspirou, seus olhos se voltando para as mãos deles unidas e para o anel que brilhava em seu dedo. O peso do que estavam prestes a anunciar se triplicava naquele símbolo agarrado à sua pele.

O Theerapanyakul levou a mão até o queixo do ômega e o ergueu, fazendo com que ele olhasse em seus olhos. Conseguia notar a dualidade brilhando naquelas orbes, um intenso infinito entre o desejo de ser livre e o medo de ser demais. O alfa sorriu contido, deslizando a mão do queixo do ômega para o lugar que ocupava anteriormente.

— Também não gosto de mentir pros meus pais, mas não quero correr o risco de que algo dê errado. Não que não confie neles, mas é que, moralmente falando, não sei se eles mentiriam na frente dos seus pais.

— É… sua mãe é bem enérgica; quando começa a falar, ela se empolga.

Pete sorriu. Uma espécie de carinho transpassava seu olhar.

— Sei que ela não faria nada deliberadamente para prejudicar nenhum de nós, mas… conheço minha mãe, estrelinha. Ela ficaria chocada no início, depois daria algum conselho e seu apoio incondicional e, em algum momento, ela esqueceria sua vigilância e acabaria dizendo algo desnecessário.

O Saegthan se remexeu no sofá, buscando o conforto do ombro do alfa instintivamente, como costumava fazer quando algo o incomodava ou causava certo sentimento de aflição.

— Veve, espero que a gente esteja fazendo a coisa certa.

A voz de Pete carregava um tom que misturava esperança e tristeza, provocando uma inquietação frustrante no alfa. Instintivamente, o Theerapanyakul envolveu os ombros do ômega com o braço, puxando-o para mais perto. No mesmo instante, uma onda sutil de seu cheiro se espalhou pelo ar, como um reflexo inconsciente.

— Não fica assim, tá bom? Ou vai parecer que você está sendo forçado a casar comigo.

Ele riu e o ômega o seguiu no riso. Não era algo com que sonharam, mas os dois estavam juntos naquilo agora, fosse para o bem ou para o mal.

Quando cessou o riso, Pete voltou a se mexer; contudo, não saiu do abraço torto do alfa, apenas fixou o olhar na unidade azul disposta naquele vidro transparente sobre o balcão.

— Uma flor, hum? Isso é tipo pra termos uma história romântica pra contar?

Seu tom saiu quase zombeteiro, mas sério o suficiente para o alfa interpretar como uma espécie de incômodo.

— Pensei que termos algo concreto diminuiria as chances de sermos pegos em alguma mentira. Como sempre te trago outros tipos de presente, achei a flor adequada pro momento. Você não gostou?

— Eu amei. — o ômega respondeu sincero. — Nunca recebi flores, você sabe. Fico feliz que tenha sido você o primeiro a me dar uma.

Vegas sorriu. Uma sensação quente, como orgulho crescente, serpenteando por seu interior, lhe causava uma alegria serena. Reconfortante. Novamente não estava se opondo. Outra vez não tentava entender.

Pete se desvencilhou de seu toque quase repentino, deixando apenas o calor perpetuante de seu corpo enquanto se colocava de pé.

— Ok, vou só terminar de secar o cabelo e podemos ir.

O ômega estava prestes a sair da sala quando o alfa agarrou seu pulso. Vegas se levantou, encarando-o diretamente, um sorriso charmoso surgindo em seu rosto enquanto levava uma das mãos até os fios bagunçados de Saegthan.

— Deixa eles assim. — disse, a ponta dos dedos deslizando sutilmente pelos cabelos do outro, como se gravasse o momento. — Gosto quando ficam com esse aspecto. — o alfa sorriu, quase em admiração. — Só leva uma jaqueta caso sinta frio.

Pete assentiu automaticamente e, quase como se estivesse escapando, caminhou apressado até o quarto. Minutos depois, voltou com uma jaqueta de moletom cinza pendurada no braço e uma bolsa transversal preta repousando sobre o ombro.

Ambos saíram do apartamento em meio a uma conversa animada, fazendo os degraus se tornarem algo esquecível. Quando chegaram ao saguão, no entanto, Vegas sentiu novamente aquele cheiro de mirra, dessa vez um pouco mais forte, e teve que conter sua insatisfação quando o homem loiro sorriu com todos os dentes para Pete.

— Olá, parece que nos vimos novamente.

A voz animada do outro alfa quase fez Vegas revirar os olhos, mas sua atenção logo se voltou para Pete quando este, sem perceber, se recostou contra ele. O Theerapanyakul, instintivamente, segurou sua mão, entrelaçando os dedos e deslizando o polegar suavemente pelo dorso, numa demonstração silenciosa de apoio, como se dissesse "estou aqui. Está tudo bem". Ele capturou o instante exato em que o loiro à sua frente lançou um olhar para aquele gesto, acompanhado de um suspiro suave e o grunhido rouco que escapou de seus lábios, que ele rapidamente disfarçou com uma tosse mal medida e um sorriso torto.

Era nítido que Pete não se sentia confortável, e isso fez Vegas imediatamente classificar o alfa loiro como não confiável. Além disso, o fato de ele estar marcando o prédio com seu cheiro colocou Vegas em alerta. Embora ele e Pete se cheirassem com frequência, algo que sabia não ser aceito pela sociedade, essa dinâmica sempre foi natural para eles. No entanto, Vegas nunca espalhava seu cheiro deliberadamente pelo apartamento de Pete, a menos que fosse solicitado ou em situações de extrema necessidade. Também tomava o cuidado de não deixar sua fragrância por onde passava, consciente dos transtornos e desconfortos que isso poderia causar. Para eles, era normal que suas essências se apresentassem em pequenas quantidades, como uma transpiração comum, algo que não afetava nem incomodava os outros. O comportamento daquele alfa, por outro lado, parecia ter a intenção de marcar território, como se estivesse se preparando para uma guerra.

— Oi... — A voz de Pete soou hesitante, e seus olhos logo buscaram os de Vegas. — Veve, esse é o Vince — disse, apontando para o loiro, que, aos olhos de Vegas, parecia menos confiante agora. — Vince, esse é o Vegas... meu noivo.

A satisfação quase escorreu pelos lábios de Vegas enquanto ele sorria para o loiro, estendendo-lhe a mão em um gesto que mais parecia um deboche velado do que um cumprimento cordial.

Ele sabia que Pete precisaria de tempo para se ajustar ao novo título que sua relação agora carregava, assim como ele mesmo teria que lidar com o impacto que a palavra "noivo" causava ao escutá-la sair dos lábios do ômega. Embora fosse a primeira vez que Pete a pronunciava, Vegas não pôde negar que gostou da sonoridade.

— É um prazer conhecê-lo.

Vegas não repetiria as palavras se tivesse escolha, até porque não sentia prazer algum em conhecer o tal "Vince". Ainda assim, manteve um sorriso cortês antes de desfazer o aperto de mão.

— Mudança concluída? — Pete perguntou, como se quisesse de alguma maneira diminuir a tensão e preencher o vazio daquele encontro.

— Mudança concluída. — confirmou o loiro, coçando a nuca em um gesto inquieto, como se buscasse algo mais para acrescentar à resposta.

— Bem-vindo, oficialmente. — desejou o ômega, e, como se seguisse um sinal invisível, o loiro indicou as escadas com um gesto antes de se despedir em silêncio.

Vegas acompanhou o loiro com o olhar até que ele desaparecesse de vista. Quando se voltou para o ômega, arqueou as sobrancelhas em uma expressão de dúvida.

— Ele é o novo proprietário do apartamento vazio no quarto andar. — explicou Pete, quebrando o silêncio e dando de ombros.

Vegas o observou com cautela. A sombra do desconforto ainda pairava ao redor do ômega, e parecia que sua mente se perdia em lembranças. O alfa apertou sua mão com mais firmeza, puxando-o de volta à realidade, certificando-se de que estava tudo bem.

— Você acha que…

A pergunta do alfa ficou suspensa no ar, e pelo suspiro cansado que o ômega soltou, não era necessária uma resposta verbal.

— Acho… só não quero pensar nisso agora.

Vegas se limitou a acenar e, guiando Pete para fora do prédio, pegaram o primeiro táxi, com destino à casa de seus pais.

Durante a curta viagem, Pete demonstrou grande apreensão, balançando a perna de forma descontrolada e, de vez em quando, deixando seu cheiro escapar sutilmente. Em outros momentos, se inclinava na direção do alfa, reivindicando um pouco da sua essência ou apertando sua mão, em notável desespero.

Quando chegaram ao destino, Vegas deu algumas notas extras ao taxista, um bônus por ele ter sido bombardeado pelo cheiro deles, ao que o homem agradeceu, mas comentou com um sorriso descontraído que entendia. Ele contou, lembrando com leveza, como foi a primeira vez que sua esposa alfa o levou para conhecer os sogros, seus olhos vagando ao mencionar que o fato de ser beta deixou tudo mais complexo. Vegas sorriu para o homem, que devia ter uns sessenta anos, e acrescentou mais uma nota às extras que já havia lhe dado.

Virando-se para Pete, Vegas segurou sua mão e o guiou até a entrada da casa. Antes de tocar a campainha, no entanto, parou e puxou o ômega para um abraço caloroso, envolvendo-o com seus braços de forma protetora, garantindo que tudo ficaria bem.

Quando Vegas apertou a campainha e a porta foi finalmente aberta, pôde ouvir os passos apressados de sua mãe descendo as escadas enquanto reclamava com Stepan e repetia, impaciente, que estava ansiosa pela visita dos dois.

Pete mal teve tempo de cruzar a soleira da sala de visitas quando Daria o puxou para um abraço, cheirando-o da mesma forma que fazia com Vegas. Um gesto afetuoso e acolhedor. Depois foi a vez de Vegas receber o carinho da mãe, logo em seguida sendo trocado novamente por Pete. Ele deveria sentir ciúmes por ser trocado pela mãe dessa maneira, mas, em vez disso, tudo o que seu coração sentiu foi orgulho.

— Que saudades estava de você, meu bebê. — a mais velha disse, puxando Pete para se sentar no sofá com ela, enquanto Stepan se desdobrava para recolher a jaqueta de Pete e sua bolsa. — Mas você está cheirando mais ao Vegas do que ele mesmo.

Pete se encolheu um pouco, encarando o alfa em um pedido de desculpas silencioso. Vegas sorriu, dispensando o pedido com um gesto e tomando um lugar ao lado da mãe, envolvendo-a em um abraço apertado. Era aconchegante e familiar.

— Você está querendo me comprar, garoto? — a voz de Darika soou alegre e os outros dois riram com a provocação.

— Veja só se não são meus garotos. — a voz grave do pai de Vegas ressoou pela sala, cortando as risadas dos três e atraindo os olhares na sua direção.

Pete se levantou de imediato, oferecendo um sorriso respeitoso ao homem mais velho, que passou diretamente por Vegas e abriu os braços em sua direção. Um leve desconforto tomou forma no peito do alfa ao observar aquela cena; havia algo naquilo que o incomodava profundamente, ainda que não conseguisse nomear o motivo. Vegas se limitou a observar, girando o anel no dedo com impaciência enquanto aguardava. Assim que o pai se afastou de Pete e finalmente se virou em sua direção, Vegas percebeu que tinha prendido a respiração e deixou o ar escapar, quase aliviado.

O sorriso astuto que recebeu em troca era o de sempre: um olhar cheio de significados escondidos, o tipo que seu pai usava quando queria apontar algo que Vegas ainda não conseguira perceber por si mesmo.

— E você, meu garoto… — a voz firme do mais velho ganhou notas de saudade enquanto envolvia seu primogênito num abraço. — Senti sua falta, da última vez mal conseguimos conversar. — completou, apertando Vegas com mais força, como se o ato pudesse compensar o tempo.

O aroma de café torrado invadiu os sentidos de Vegas e, como sempre, ele foi transportado de volta aos tempos em que tinha oito anos, sentindo-se novamente aquele garotinho protegido e amparado pelo pai. Era uma sensação inigualável. Familiar. Era engraçado como certas coisas nunca mudavam, mesmo com o passar dos anos.

Quando finalmente se afastaram, o pai o segurou pelos ombros, observando-o minuciosamente. O afeto e o cuidado transbordando em suas orbes.

— Você parece cansado. — observou o pai, e Vegas apenas inclinou a cabeça em um gesto de concordância. Não tinha como esconder nada dele. — Esse mundo cruel está drenando a energia do meu garoto.

— Isso faz parte do processo de amadurecer, pai. A bagagem adulta vem com esses desafios.

O pai assentiu, o orgulho preenchendo seus olhos.

— Nosso garotinho cresceu tanto, não é, Kan? — A voz de Darika soou suave, embargada, com sua essência de baunilha permeando o ambiente de forma intensa.

— Ele cresceu sim. — Kan olhou para a esposa com ternura antes de voltar a olhar o filho novamente. — Só espero que nunca se esqueça que sua família sempre estará aqui, pronta para te apoiar, seja no que for.

Vegas meneou a cabeça, consciente de que o que o pai dizia era verdade, mas preferiu não prolongar aquele assunto. Caso contrário, o pai começaria a insistir em trazê-lo de volta para casa ou, pior ainda, tentaria convencê-lo a aceitar a oferta de comprar um prédio e ajudar no desenvolvimento de sua empresa. A recusa de Vegas em aceitar a generosidade do pai não vinha de orgulho, mas sim de um desejo profundo de se provar capaz. Ele queria viver a experiência de começar do zero, assim como o pai, seu maior exemplo de vida, fizera no passado. Por isso, havia decidido trilhar esse caminho sozinho, com suas próprias forças. E, embora soubesse que a família se preocupava, ele era grato por todo o apoio que recebia deles.

Vegas olhou para Pete, que observava a interação entre ele e seus pais com um olhar distante, ao mesmo tempo que um sorriso afetuoso bordava seus lábios. De repente, Vegas sentiu uma vontade súbita de puxar Pete para seus braços e envolvê-lo em um abraço apertado. A consciência de que o ômega nunca vivenciou o amor familiar como ele, a conexão verdadeira e sem reservas, fez a culpa escalar por sua pele de maneira dolorosa. Ele sabia que aquele conforto e segurança eram algo que Pete nunca conhecera e, de alguma forma, sentia-se impotente por não poder tirar a dor que isso lhe causava.

Ele não avançou. Em vez disso, dirigiu o olhar à mãe, que agora parecia menos emotiva, e perguntou:

— Onde estão os gêmeos?

— Oh! Sim. — a ômega falou apressada, desviando os olhos na direção do estúdio. — Stepan, querido! — chamou em tom cordial, mas com urgência, e quando o mordomo apareceu em seu campo de visão, ela continuou: — Chame as crianças para o jantar. — Depois, olhando para Pete, completou: — Essas crianças, quando entram no mundinho delas... — e fez um gesto que indicava o distanciamento e a distração típicos da juventude.

Mais tarde, quando todos se acomodaram à mesa, Vegas percebeu Pete um pouco nervoso e sua primeira reação foi buscar a mão do ômega sob a mesa, apertando-a em um sinal tranquilizador.

— Então, Pete, como andam os designs? — Macau perguntou, e Vegas o fitou com um olhar de agradecimento.

— Hum... bem. Ultimamente, tenho recebido bastante propostas. — O orgulho na voz de Pete ressoou pela mesa, e diversas expressões de parabéns surgiram. — Eu até vou colaborar com o seu irmão.

— Uau, o Vegas finalmente conseguiu te arrastar pro lado dele? — Nakunta exclamou, parecendo um pouco desapontado.

Dramático, Vegas pensou.

— Sempre estou do lado dele, Na.

O sorriso do alfa parecia ter ganhado quilômetros de distância, tamanha a largura que alcançou, e, como reflexo, ele apertou sutilmente a mão de Pete.

A entrada foi servida: uma salada picante e crocante composta por tiras de mamão verde, pimentões, amendoim, camarão seco e molho de peixe. Vegas sentiu a ardência tomar sua boca antes mesmo de provar. Tentando adiar o momento e prolongar um pouco mais a antecipação, ao mesmo tempo em que se preparava para tocar no assunto que os havia reunido, fixou o olhar no pai, sentado na ponta da mesa.

— Bem... — Vegas pigarreou, sentindo a pressão crescer em seu peito, assim como a que sentia da mão do ômega agarrada à sua. Ele o olhou rapidamente, procurando permissão, e Pete, com um gesto quase imperceptível, o encorajou a continuar, embora sua postura rígida demonstrasse o contrário. — Antes de comermos, eu e o Pete temos algo a dizer.

Os olhares imediatamente se voltaram para os dois. Macau sorriu com expectativa, a empolgação transbordando em seu rosto. Nakunta observava Vegas com uma análise crítica, suas sobrancelhas ligeiramente arqueadas em uma provocação silenciosa. A mãe de Vegas parecia um tanto perdida, mas seus olhos eram pura curiosidade. O pai, reclinado na cadeira, no entanto, não demonstrou muita reação, exceto por um pequeno sorriso que começava a se formar no canto de sua boca. Pete, ao seu lado, estava claramente nervoso, com os ombros tensos, a respiração quase inaudível e a mão apertando a sua cada vez com mais força. Seus olhos buscavam desesperadamente qualquer distração, evitando encarar os olhares curiosos.

— Nós vamos nos casar.

Um suspiro abafado escapou da boca de alguém na mesa, mas Vegas não conseguiu identificar de onde vinha, pois seus olhos estavam grudados nos do ômega ao seu lado, tentando lhe passar confiança e apoio.

Tudo o que se seguiu depois disso foi um silêncio absoluto.

Até breve, estrelinhas!

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