Dois

Era fim de tarde.

Vegas suspirou deixando os ombros relaxarem. Estava feliz por ter um dia tão produtivo, ainda assim sentia o corpo dolorido com o peso do cansaço.

Havia passado a manhã prestando consultoria para uma das empresas parceiras e ficou tão imerso que quase perdeu o almoço com os irmãos, o que lhe rendeu uma leve chantagem. Não que já não fosse acostumado, funcionava sempre assim com os gêmeos.

— Hia, agora você vai nos alimentar por dois meses.

Foi o que Nakunta falou, enquanto Vegas inocentemente analisava o cardápio, decidindo-se por seu pedido.

— Com direito a sobremesa. — Macau emendou, sorrindo quando o mais velho os encarou com ar questionador.

Os gêmeos distinguiam em estilo. Enquanto Nakunta usava roupas largas com jaquetas de sobreposição ou moletons de capuz com estampas únicas e acessórios tão distintos quanto; Macau vestia o básico, roupas mais justas e em tons suaves, os seus únicos acessórios sendo o anel do polegar que os irmãos usavam juntos e as argolas simples. Vegas pensava ser incrível os gêmeos, embora idênticos, transbordarem em estilo a própria personalidade.

— Vocês estão querendo me levar a falência antes que eu construa o meu primeiro milhão? — a voz do mais velho saiu um tom indignado, mas o sorriso brincalhão nos seus lábios entregava a sua satisfação em ter um momento, por mínimo que fosse, com os irmãos.

— Esse é o preço que você paga por se atrasar no nosso almoço semanal.

Vegas pensou que Macau estava sendo corrompido por Nakunta. O alfa, sentado de maneira tão relaxada com um dos braços sobre o encosto da cadeira do irmão, era aquele que sempre tinha as respostas na ponta da língua para lhe dar, não seu bebê beta, por isso foi inevitável não travar fazendo uma careta antes de rebater.

— Foi apenas vinte minutos.

— Exatamente, vinte minutos foram convertidos em dois meses; e você tem sorte que não convertemos em dois anos.

Nakunta explodiu numa gargalhada, jogando a cabeça para trás quando Vegas abriu a boca atônito, perdido no que deveria dizer, e em seguida semicerrou os olhos analisando os dois rostos a sua frente com afinco.

— Você é o Macau… — meio perguntou, meio afirmou. — E você o Nakunta? Ou vocês fizeram aquele lance de trocar de lugar de novo?

— Nunca funciona com você, por que nos daríamos esse trabalho? — Nakunta pontuou num tom semi arrastado, quando Vegas o fitou profundamente, ele ergueu os braços em rendição e bufou levando o corpo para frente e apoiando os dois braços sobre a mesa. — Eu sou o Nakunta, ninguém trocou de lugar aqui. Quer olhar o sinal que eu tenho na bunda?

Aqueles olhos piscantes, tentando parecer doces, fez Vegas retorcer o rosto numa careta e se recostar na cadeira, dispensando a oferta com um gesto enquanto se justificava:

— Eca, não. É só que… — ele olhou intensamente para os dois irmãos, então mudou de ideia e desviou de assunto. — deixa pra lá. O que vocês vão querer?

— Tudo!

A reposta veio em uníssono. Vegas sorriu e chamou o garçon, guardando para si o comentário sobre Macau está carregado do cheiro de eucalipto do irmão. Ele lembrou quase de imediato que Nakunta sempre o cheirava antes de saírem. A sua maneira de proteger o beta de idiotas que mantinham uma crença inabalável que apenas os alfas eram dignos de liberdade.

Ainda era doloroso lembrar a primeira vez que Macau saiu sozinho na rua e um grupinho de imbecis, metidos a donos da verdade, o atacaram. O desespero de Nakunta naquele dia abalou os seus pais, contudo, perceber o beta todo ensanguentado foi o ápice da dor. Para todos. Principalmente para o gêmeo que gritou angustiado e não saiu do lado do irmão até ele acordar dois dias depois no hospital. Desde o ocorrido, mesmo ele estando ao lado do irmão, compartilhava o seu cheiro com ele. Vegas sabia que esse era um trauma que dificilmente seria apagado da memória dos dois.

Um silêncio foi estabelecido entre os três, Vegas mergulhado em pensamentos profundos, Nakunta e Macau pensando onde iriam jantar as custas do irmão. Quando os seus pedidos foram feitos e a comida foi servida, os três embarcaram numa conversa descontraída e trivial, até que o mais velho precisou os deixar, não antes de entregar algumas notas para pagarem o táxi e o cartão para poderem pedir comida a noite. Ele iria se arrepender quando chegasse a fatura, mas compensava por ver os irmãos tão radiantes.

Na parte da tarde o Theerapanyakul teve que correr com os últimos ajustes de um projeto teste, para logo em seguida entrar em reunião para apresentar aos novos investidores os avanços do novo aplicativo no qual ele e o seu sócio estavam trabalhando. Agradecia aos céus por Max ser tão ágil e focado quanto ele. Talvez até um pouco mais.

Agora, ele sentia o cansaço se agarrar aos seus ossos, porém a sua satisfação pela resposta positiva àquilo que levou noites e mais noites do seu sono, não permitia que o sorriso sumisse do seu rosto. Mais do que isso, ele desejava ir até à pessoa que mais o apoiou em todos os dias difíceis e contar as novidades. Pete.

— Ei, Vegas!

O Theerapanyakul parou no meio do saguão do prédio, onde a pouco havia realizado sua apresentação, e encarou seu sócio caminhar na sua direção esbanjando um sorriso triunfante. Max era bem mais alto que Vegas e um pouco mais forte, um alfa como ele. Sua estrutura física e feições lhe conferia o ar de adulto responsável que era, porém, o sorriso que exibia passava a ideia de inocência quase infantil. Vegas ajustou a alça da sua bolsa transversal e retribuiu o sorriso. Tudo o que ele desejava era ir até Pete e contar as novidades e depois ir para casa, tomar um banho relaxante e vestir algo mais confortável. Odiava se vestir de maneira tão formal, quando seu moletom o aguardava em casa.

— Ei, Max! Você fez um bom trabalho hoje.

Max ampliou o sorriso, fazendo um gesto para o colega continuar a caminhada.

— Indo ver o Pete? — o Theerapanyakul acenou em concordância e Max anuiu deixando um som, parecido com uma risada provocativa, escapar. — Então, sei que foi um dia longo e cansativo, mas quando contei as novidades a Melina, ela me fez prometer que iria convidar vocês dois pra um jantar de comemoração.

— Aposto que Pete ficará empolgado, ele adora sua esposa, mas ela não vai se cansar muito?

A sombra de algo doloroso transpassou o olhar de Max e seu cheiro de gengibre ganhou notas de tristeza, que ele dispensou com um aceno de cabeça e um longo suspiro.

— Ultimamente ela tem estado bem mais cansada que o habitual, mas garanto que não deixarei ela fazer nenhum esforço, além daquele de ir até à mesa de jantar e voltar pra cama. — Vegas conseguia detectar o carinho que transbordava dos olhos do sócio e todo amor existente ali, mas seu sorriso não brilhava mais tão intenso como segundos atrás. — Ela precisa se distrair um pouco, conversar com o Pete vai ajudar.

— Tudo bem, você me manda o horário e eu falo com o Pete.

Vegas não queria entrar naquele mérito de falar de Melina, já era suficientemente difícil para Max lidar com toda a situação da doença acometida a esposa, não precisava que alguém de fora ficasse o alertando sobre cuidados que deveria ter com sua parceira.

— Te vejo mais tarde então.

Foi a última coisa que Max falou, antes de se afastar do Theerapanyakul e ir se dirigir até o ponto de ônibus. Vegas o observou por alguns segundos e então se voltou no sentido oposto, fazendo sinal para o táxi.

Ele ficara pensativo sobre Max e Melina; todavia, ainda se sentia feliz pela aprovação do projeto. Parecia bobo, mas saber que tinha com quem comemorar suas pequenas e grandes conquistas, o fez sorrir durante todo o trajeto até o apartamento do melhor amigo. Óbvio que os seus familiares também celebravam junto a si, principalmente Macau e Nakunta, contudo, existia algo compartilhado com Pete, era como se tudo, até o mínimo, ganhasse extensão e profundidade. Porra! Ele até subia aqueles malditos lances de escadas sorrindo; e ele odiava subir escadas.

Ele tinha convicção de que Pete ficaria tão feliz quanto ele, mas suas certezas foram deixadas de lado quando, parado no corredor do prédio, ouviu a voz do ômega soar alterada e sentiu o ar pesar com o cheiro de raiva mal contida.

Seus punhos se fecharam e a passos largos andou até a porta de entrada, os instintos gritando para ele ir até o amigo, arrebentasse a porta se fosse preciso. Ele não conseguia explicar a ligação que tinha com o Saegthan, entretanto, sempre conseguia sentir a menor nuance nas alterações do cheiro dele e agora ele não cheirava aquele aroma calmo, que ele tanto amava, de anis-estrelado.

Ergueu o braço com o punho fechado, tentando controlar suas próprias emoções. A alegria que vinha sentindo no caminho até ali, se transformando em mero devaneio. Conseguia sentir o cheiro de Pete ganhar notas mais amargas a cada segundo e estava prestes a anunciar sua presença, quando ouviu a voz de Ann e o que ela disse fez seu estômago retorcer.

Pete havia lhe contado sobre a insistência quase obsessiva da mãe para ele casar e Vegas nutria certa aversão a mulher por tentar impor ao filho algo do qual ele sempre deixou claro não querer. Ouvir que ela seria capaz de dopar o próprio filho só para ser marcado por um alfa qualquer o qual ele nunca viu, o encheu de ódio e um amargor subiu a sua boca.

O Theerapanyakul queria derrubar aquela porta e arrastar seu amigo para longe daquela mulher, contudo, também não queria que Pete sentisse sua privacidade invadida. Eles sempre trocavam confidências, mas falar já era bastante difícil para o ômega. Vegas presenciou mais de uma vez o amigo hesitar em contar algumas das barbáries dos seus pais, se o Theerapanyakul causasse uma cena, o Saegthan provavelmente se trancaria numa concha; e ele não desejava isso.

Suspirando profundamente, Vegas deu dois passos para trás, sempre controlando os seus odores. Algo raro. Geralmente ele explodia em bombas de cheiro, principalmente quando muito estressado, mas não agora. Ele não sabia como, mas agradecia por isso. Talvez fosse a mistura de emoções ou o seu cuidado para Pete não se sentir mal, caso percebesse a sua presença. Ele não queria deixar o amigo ainda mais desconfortável.

Ouviu o tom de Pete se alterar, o seu cheiro uma mistura de dor, decepção, medo, angústia e muita, muita raiva. Escutou o som de saltos baterem forte contra o chão e correu na direção oposta as escadas, se escondendo na lateral estreita. Em algum momento confrontaria Ann. Não agora. Nunca quando a sua prioridade era o melhor amigo.

Teve o vislumbre da mulher pisando duro em direção as escadas, resmungando algo sobre sonhos e vida roubada e ouviu o baque da porta sendo fechada no segundo seguinte. Caminhou até lá novamente e ergueu a mão pela segunda vez naquele início de noite e pela segunda vez a abaixou quando ouviu o grunhido abafado do amigo, seguido de algo se partindo em cacos; e sentiu notas de dor e frustração o atingir em cheio.

Pete precisava de tempo e ele concederia-o, entretanto, isso não significava que sairia dali.

Levando as mãos até o bolso da calca social, retirou o telefone e enviou uma mensagem a Max, informando que Pete estava indisposto e não conseguiria ir para o jantar e ele ficaria para lhe fazer companhia. Aproveitou para enviar outra mensagem, essa no grupo da família, onde apenas ele e os irmãos conversavam, afim de passar o tempo enquanto aguardava Pete se acalmar. A certeza de que poderia levar minutos ou horas.

O choro de Pete chegava a ele em ondas dolorosas, o seu cheiro era uma bagunça de sentimentos tão grande, que até mesmo Vegas sentia dificuldade de distinguir. Grosso, pesado. Quase azedo.

Ele podia ouvir cada soluço do amigo e as movimentações no apartamento. Quando o choro de Pete se tornou um pequeno resmungar, o Theerapanyakul sentou no chão ao lado da porta e liberou uma dose mínima dos seus feromônios, o suficiente para o Saegthan se estabilizar.

— Vai ficar tudo bem.

O mantra foi murmurado repetidas vezes, algo sobre atração de energia positiva que o ômega o ensinara. Quando Pete cessou o choro, ele continuou repetindo e repetindo, liberando uma onda dos seus feromônios.

Pete ficaria bem. Ele tinha certeza disso.

Até breve!!!

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