Capítulo Único
Esta fanfic pertence ao projeto Blackinnon Day (DBlackinnon no Twitter).
— Eu preciso que você seja a minha ex-mulher.
Trabalhar com Sirius Black era sempre garantia de situações inusitadas.
Se alguém perguntasse a Marlene como tinha chegado naquela situação, trabalhando como secretária no escritório de advocacia daquele pedaço de mau caminho, ela não saberia responder.
O motivo que a mantinha com o emprego certamente não era a vista — apesar de ajudar —, ela tinha dois filhos para criar.
Não era como tinha imaginado a sua vida quando estava no ensino médio.
— Bom dia, Sirius! Como você está? — ela perguntou, debochada, os olhos focados na prancheta em seu antebraço — Eu estou bem, obrigada por perguntar.
— Marlene... — ele disse entredentes.
— Sua cliente está te esperando. Você está atrasado.
Ela indicou a porta de correr de madeira com a cabeça, enquanto ajeitava a gravata torta, e claramente posta às pressas, do homem. Três botões estavam fora de suas casas, e era possível sentir uma fragrância feminina, o que só podia significar que ele tinha passado a noite com uma mulher e perdido o horário, o que não era exatamente uma novidade.
— Precisamos conversar — Sirius disse, praticamente só movendo os lábios.
E que lábios.
— Depois — ela retrucou firme, e então empurrou a porta, pondo o sorriso mais falso no seu rosto — Bom dia, senhorita Umbridge. Quem nós vamos processar hoje?
A cliente mais insuportável que eles tinham, e eles tinham vários desses. Se Marlene escorregasse nas palavras e a chamasse de "senhora" — porque francamente ela tinha a idade para ser chamada assim, e não fazia sentido definir se uma mulher era "senhorita" por ser casada ou não —, a mulher surtava. Aparecia pelo menos uma vez por semana querendo processar alguém, mesmo que fosse um processo completamente sem cabimento, e parecia pensar que Sirius era advogado criminal, civil e familiar, tudo em um só ser humano. Apesar disso tudo, era a única senhora que não parecia querer empurrá-lo para suas sobrinhas mais jovens — algumas jovens até demais.
Carinhosamente, a secretária a apelidou de Karen.
Até nas anotações que fazia das reuniões, ela rabiscava "Karen". Ela nem sequer sabia qual era o primeiro nome da mulher, o que devia ser uma vergonha para uma profissional séria — o que ela não era.
Com certeza já teria sido demitida se não fosse Sirius o seu chefe.
Inventou uma desculpa para deixar os dois a sós, enrolando ao máximo para pegar os copos de café e a xícara de chá açucarado da pantera cor-de-rosa, e acabou se distraindo durante a reunião, mais admirando os desenhos que Ian fez no seu bloco de notas do que realmente prestando atenção no que estavam falando. Ela não tinha ensinado a ele que não podia mexer nas suas coisas e sair desenhando em cima de tudo?
— Certo, então a minha secretária entrará em contato — Sirius frisou a palavra, fazendo-a despertar.
Empurrou a cadeira para trás, ficando de pé assim como os outros dois e, com mais um sorriso treinado, acompanhou a senhora para fora da sala de reuniões.
— Eu preciso que você seja a minha ex-mulher — o advogado disse, no mesmo segundo em que a porta se fechou e ficaram sozinhos.
— Eu pensei que o efeito da ressaca tinha passado com o café, mas pelo visto, o porre foi forte demais — Marlene resmungou para si mesma — Sirius, para alguém ser "ex-mulher", precisa primeiro ter sido "esposa". Casamento, aliança, certidão assinada. Eu não tenho como ser sua ex-mulher se nunca fomos casados.
E se aquela fosse uma cantada, era péssima.
— Escuta — Sirius sentou em cima da própria mesa, gesticulando enquanto falava — Eu conheci a mulher da minha vida.
— E o que o cu tem a ver com as calças? — ela o interrompeu.
— Eu posso falar? — ele brigou, batendo as mãos contra as coxas, irritado — Eu estava no bar e então vi a mulher mais linda que eu já vi na minha vida.
Marlene respirou fundo, apoiando uma mão na cintura. Ela escutava aquele discurso pelo menos uma vez por mês.
— Ela é perfeita, Leninha.
— Não me chama de Leninha.
— Eu nem precisei usar a cartada da aliança, da esposa que me bate.
— Como que é? — Marlene perguntou, desacreditada — Esposa que te bate? Ah! E eu vou ser essa esposa que te bate? Não! Tô fora! Não me meta nas suas furadas!
— Ela viu a aliança nas minhas coisas, então ela achou que eu era casado e estava traindo minha esposa!
O feitiço virando contra o feiticeiro.
— Então você contou para ela que usava a aliança para enganar e conquistar pobres garotas indefesas? — Marlene debochou, virando-se para organizar os papéis em cima da sua mesa — Aposto que ela amou isso.
— Na verdade, eu disse que estava me divorciando. E então ela disse que queria conhecê-la.
Ela voltou a olhá-lo fixamente, inclinando a cabeça para o lado.
— Você tem dinheiro para pagar uma acompanhante de luxo ou sei lá o quê. Por que eu? — tentou apelar para o seu bom senso.
— Porque você é a minha melhor amiga. Porque eu confio em você mais do que em qualquer outra pessoa no mundo — Sirius abriu um sorriso cara de pau, chantageando-a.
— E porque eu sou mais barata do que uma acompanhante de luxo? — ela ergueu uma sobrancelha.
— Eu jamais ousaria pensar isso.
— Ótimo, porque se eu vou fazer parte dessa armaçãozinha aí, você vai me pagar. E muito. Eu vou te extorquir que nem eu fazia com o James na faculdade.
— Você sabe que extorsão é crime, não sabe? — ele levantou uma sobrancelha.
— E eu não vou ser a ex-mulher que batia em você, eu vou ser a ex-mulher gostosa.
Sirius negou com a cabeça, se recusando a sorrir para as suas palhaçadas.
— E qual seria o motivo do divórcio? — ele a desafiou, cruzando os braços.
— Incompatibilidade amorosa — ela nem hesitou.
— Isso não existe. Eu faço os divórcios, lembra? É sempre traição, brigas...
— Você trabalha com divórcios litigiosos, Black. Não aguenta uma causa ganha ou um processo tranquilo.
E ela que comprasse tinta de cabelo para cobrir os cabelos brancos que aquele ser humano lhe causava em conjunto com as duas pestes que ela tinha em casa, que saíram do seu útero.
— Então percebemos que não dávamos mais certo, terminamos e continuamos amigos? — Sirius perguntou, um pouco condescendente.
— É o tipo de coisa que atrai uma mulher — Marlene respondeu — Um homem que não fica falando mal das ex-namoradas.
Ele parou, parecendo considerar a hipótese.
Ela sentou-se na cadeira com rodinhas para organizar as pastas e então o encarou.
— Mas por que se dar ao trabalho? Vocês tiveram a noite, não tiveram? — ela puxou assunto.
Sirius apoiou as mãos na mesa.
— Ela é a mulher da minha vida. Eu quero me casar com ela!
Será que o bartender podia dar a ela ⅓ do que tinha servido para Sirius na noite passada? Ela bem que estava precisando, começava a sentir um pouco de enxaqueca.
Ela deveria se preocupar com bruxas ou sereias tentando enfeitiça-lo? Bom, ele era um adulto, ele podia tomar as suas próprias decisões. E tinha certeza de que ele cansaria da moça em poucas semanas. Sirius nunca foi capaz de entrar em um relacionamento duradouro, quem dirá se casar.
Sirius Casanova Black se casando. Essa era boa.
Tão boa quanto Marlene McKinnon sendo mãe solo de duas crianças aos 35 anos de idade.
— Tá, tanto faz — ela revirou os olhos.
Ele a puxou para um abraço repentino e beijou a sua bochecha, agindo como se o natal tivesse chegado mais cedo.
Ela tinha James, tinha Remus, tinha Peter, tinha Frank. Tantos amigos homens. E ela foi manter contato justo com o mais desajuizado que existia no grupo.
— Vamos, pega o seu casaco! — Sirius praticamente saltitou até a porta.
— Nós temos reunião daqui a 1 hora com o cliente...
Ele tirou a pasta da mão dela, jogando-a em cima da mesa, e então começou a guiá-la com a mão nas costas até a porta do escritório.
— Então teremos que ser muito rápidos — respondeu simplesmente.
Então ele a levou a uma das lojas de departamento mais caras de Londres, a Harrods.
O miserável era um gênio.
Claro, mulheres demoram provando roupas, então vamos deixá-la com apenas 1 hora de tempo, já que precisamos retornar rápido ao trabalho, então ela não poderá gastar muito e eu não terei que aguentá-la tanto.
Ainda teve a audácia de bater no próprio relógio para ela antes que a vendedora viesse auxiliá-la.
— Quais são os vestidos mais caros que você tem? — Marlene virou-se para a atendente, sentindo uma vontade de se vingar.
Elas se deram muito bem, é claro.
Marlene já tinha trabalhado como vendedora, sabia como as coisas funcionavam.
E demonstrando a sua eficiência, conseguiu terminar as compras de roupas, sapatos e bolsas restando 15 minutos para a data da reunião, o tempo exato para voltarem ao escritório.
Sirius ficou mudo o caminho de volta inteiro, o que ela considerou uma vitória.
Então aqueles eram os tais "dias de glória" que tanto lhe falaram.
Escondeu as sacolas de compras — que ele, obviamente, não lhe ajudou a carregar — embaixo da mesa da recepção, perguntando a si mesma como faria para levar tudo aquilo para casa, enquanto os clientes chegavam e iam embora com o passar das horas.
Bateu na porta do escritório dele, assim que o relógio deu o seu horário.
— Eu vou pra casa, vai ficar mais um pouco? — ela perguntou mais por perguntar, pois ele raramente ficava depois da hora.
Sirius estava analisando uma apostila preta, fazendo aquela expressão que sempre fazia quando estava concentrado, a boca entreaberta e uma mão coçando o queixo. Ele ergueu o olhar, fechando a pasta com apenas uma mão e então ajeitou a posição na cadeira.
— Eu já vou pra cama, amor — ele respondeu debochado.
Marlene jogou a chave do escritório na sua direção sem o menor cuidado, mas ele tinha bons reflexos e conseguiu pará-la com apenas uma mão, antes que atingisse o seu rosto.
— Vamos jantar no Sexy Fish amanhã depois do expediente — Sirius avisou, antes que ela pudesse sair.
Certo, ela podia se acostumar com isso.
Pediu um Uber por aplicativo por não ter a menor condição de levar todas aquelas sacolas no transporte público, ela estaria implorando para ser assaltada. O melhor foi a expressão no rosto do porteiro, confuso, quando ela chegou ao prédio.
— Obrigada pela cooperação — disse Marlene com ironia, quando não recebeu ajuda para abrir o portão, nem para abrir a porta do elevador.
Pelo menos já estava em casa.
Respirou fundo, encostando a testa no espelho, enquanto esperava chegar no seu andar. Então ela novamente se esforçou, colhendo as sacolas e carregando-as até a porta de casa. Apenas tocou a campainha, sem a menor disposição de procurar as suas chaves.
Ian, de 7 anos, destrancou a fechadura do lado de dentro, sem desviar os olhos do celular, onde estava jogando algum jogo de tiro.
— Ian, eu já disse que você tem que olhar pelo olho mágico antes de abrir a porta — Marlene o repreendeu, apressando-se para largar as compras no chão o mais rápido possível, antes de voltar para fechar a porta — E onde está a sua irmã?
— Vendo Frozen. De novo — o mais novo respondeu, os olhos ainda fixos na tela do celular.
Aquela geração estava perdida.
— Vai buscar o seu caderno, quero ver se você fez o dever de casa, ou se passou as últimas horas só jogando — disse e ignorou os protestos do garoto, indo atrás da filha mais velha.
Seguiu a voz de Idina Menzel dizendo "Você não pode se casar com alguém que acabou de conhecer", que vinha do seu quarto. A vida podia ser cheia de mensagens subliminares.
— Não quis ficar na sala? — perguntou Marlene, sentando-se na cama para tirar os sapatos apertados.
— A sua cama é mais confortável — respondeu Sarah, de 13 anos, sem desviar os olhos da televisão.
Ela tinha criado crianças viciadas em tecnologia.
— O que é isso? — a garota prestou atenção quando ela foi buscar as sacolas, chutando-as para dentro do quarto.
— Nada demais, o meu chefe enlouqueceu — ela deu de ombros, abrindo o guarda-roupas para poder pegar um pijama confortável.
Sarah rolou na cama até chegar do outro lado e pôr os pés no chão, curiosa. Enquanto Marlene agachava-se para alcançar as gavetas mais baixas, ela puxou uma das sacolas de papelão.
— O seu chefe te deu essas roupas só porque enlouqueceu? — ela perguntou, incrédula — Onde eu mando o meu currículo?
— Você tem 13 anos, isso é trabalho infantil — a mãe respondeu, divertida, puxando as compras para escondê-las em uma parte vazia do armário.
Desde que se divorciou, vinha encontrando muito espaço livre no guarda-roupas.
— Mas ninguém precisa saber — retrucou a espertinha.
Fechou as portas, mesmo sabendo que isso não impediria seus filhos de revirarem as suas coisas, caso tivessem vontade. Uma das dicas para mães de primeira viagem: móveis com fechadura eram muito úteis.
— Já comeram? — ela perguntou.
— Já, a Mary fez macarrão pra gente. Aliás, ela deixou um pouco pra você esquentar no microondas — Sarah voltou a prestar atenção no filme.
Voltou para o corredor, carregando a muda de roupas limpas, só para encontrar Ian com a porta aberta do quarto dele, desesperado, resolvendo os exercícios da escola que tinha deixado para depois. Negando com a cabeça, ela voltou para o quarto, indo se banhar no banheiro que — ainda bem — não precisava dividir.
A sua vontade era a de afundar-se na banheira e ficar lá por horas até dormir, mas não podia ignorar a presença de seus filhos nas poucas horas que compartilhavam juntos.
Às vezes sentia que não era a mãe que deveria ser. Tudo bem que ela começava a trabalhar próximo das onze horas, já que Sirius odiava manhãs, mas não era ela que levava os seus filhos para a escola, já que não dava tempo, e não era ela quem os buscava, já que o seu expediente acabava depois do horário das aulas. Podia ser pior, ela sabia, mas mesmo assim, sentia que não era o tipo de mãe que se entregava completamente. O seu divórcio era uma prova disso. Se ela fosse uma boa mãe, teria se esforçado mais para que seus filhos tivessem um pai presente. Na verdade, se ela fosse uma boa mãe, não teria...
Um som mais alto vindo da televisão a despertou de seus pensamentos. Esticou o braço para alcançar a toalha pendurada na parede e então saiu da banheira.
Esquentou o prato que Mary tinha deixado para ela, viu um pouco do filme com Sarah e depois foi revisar o dever de casa de Ian. Então pôs os seus filhos para dormir e, apesar de querer fazer mais do que isso, apenas se jogou na cama, exausta.
Sirius esteve fora do ar o dia seguinte inteiro. Apesar de estar presente de corpo, os seus pensamentos estavam bem longe dali, na reserva da mesa do Sexy Fish ou na "mulher da vida dele". Por causa disso, os dois se liberaram mais cedo da jornada de trabalho. Seria estranho se chegassem juntos no restaurante, o que deu a Marlene tempo suficiente para voltar para casa para se arrumar — seria bem chato e estranho levar o que usaria no jantar para o escritório.
Sarah se deu a liberdade de opinar no que ela usaria, e então soltou a seguinte pergunta:
— Você está saindo com alguém?
— O quê? — ela encarou-a através do espelho do banheiro, esquecendo o pincel de maquiagem a centímetros de seu rosto — Não! Por que você...
Interrompeu-se antes de concluir a pergunta. É claro que ela pensaria isso. De repente, a sua mãe estava se maquiando e usando roupas chiques para sair para jantar em dia de semana em um restaurante. E pior: com o seu chefe.
— Eu nunca te vi sair com ninguém depois que você se divorciou do pai — Sarah explicou-se, ignorando a parte óbvia da questão.
— Porque eu não preciso sair com ninguém — ela voltou a espalhar o blush pela bochecha, tentando se concentrar para não exagerar — É sério — acrescentou ao ver a sua descrença — Eu não sinto que preciso de um homem agora. A minha vida está ótima, eu tenho você, tenho o seu irmão e tenho um emprego que ocupa demais do meu tempo.
Parando para pensar nisso, fazia realmente um bom tempo que ela não saía para se divertir. É, ela tinha se tornado oficialmente uma adulta, estava de abstinência sexual há pelo menos 5 anos.
— Se eu encontrar alguém, você será a primeira a saber — prometeu, fechando a caixinha do blush e pegando a bolsa já pronta — Já sabe, os números de emergência estão na porta da geladeira.
— Tá bom, mãe, a gente já sabe disso — Sarah revirou os olhos.
— Se precisarem de ajuda...
— Batam na porta da Mary — ela imitou-a — Você não tem um encontro pra ir?
— Não é um encontro!
— Claro que não é.
Talvez devesse contar a ela tudo o que estava acontecendo antes que ela se iludisse. Mas, naquele momento, precisava chegar ao restaurante, pois já devia estar atrasada — apesar de que qualquer atraso que pudesse ter só ia favorecer o momento a sós do casal.
Durante o trajeto do motorista do aplicativo, o seu celular vibrou com Sirius perguntando onde ela estava — com muita simpatia e delicadeza, é claro, típicas dele —, mas logo avistou a entrada do restaurante. Começou a considerar que ia cobrar dele o valor do transporte que esteve usando, já que não podia usar o Vale Transporte usando Prada.
— Olá, estou procurando o meu ex-marido — disse Marlene, tirando os óculos escuros assim que pisou na recepção — A reserva está no nome de Sirius Black, ele está esperando por mim.
Deu uma olhada ao redor disfarçadamente, admirando a arquitetura e arte do local, enquanto a atendente conferia no computador.
— Por aqui — a mulher saiu andando.
Pôde avistar Sirius e a mulher loira conversando em uma mesa. A mulher — que tinha acabado de perceber que não sabia nem o nome — foi a primeira a notá-la, parecendo completamente deslumbrada e um pouco intimidada. Ela comentou algo com Sirius e então foi que ele virou-se.
A atendente chegou à mesa antes dela.
— Senhor, esta jovem diz que é sua...
— Sim, eu estava esperando por ela, obrigado — Sirius pareceu recuperar a voz, levantando-se como parte da etiqueta em que foi ensinado desde criança — Emma, esta é a...
— Lena — Marlene adiantou-se, estendendo uma mão — Eu mal podia esperar para conhecer a famosa... Emma! O Six não tem falado de outra coisa!
Sorte a sua que ele falou o nome dela antes do seu.
— É sério? — Emma pareceu surpresa e até comovida — Então você não se incomoda?
— Me incomodar? Eu? Não! É claro que não! — exclamou — Eu e Six somos ótimos amigos. Tudo que eu quero é a felicidade dele.
Sirius moveu-se para ajudá-la com a cadeira e então murmurou "menos".
— Nós não sabíamos o quanto você ia demorar e a Emma estava com fome, então nós pedimos uma entrada — ele voltou a falar normalmente, sentando-se de novo em seu lugar.
— Ah! Não tem problema! — ela disse, puxando o guardanapo de pano para o colo, antes que Emma pudesse terminar de dizer "me desculpe" — Então me contem, como se conheceram? Eu quero saber de tudo! — sinalizou para um garçom, puxando rapidamente o cardápio de bebidas para si.
— Eu estava com umas amigas no KOKO quando eu o vi... — a loira pôs uma mecha de cabelo para trás da orelha.
Meu Deus, as opções de bebida...
Golden Riviera, Clog Nine, Super Magic Monkey, Virgin Pornstar...
Espera. O quê?
Marlene engasgou tentando segurar uma gargalhada. O nome da bebida era "estrela pornô virgem"?
— Já vão pedir? — o garçom aproximou-se no exato instante.
— Eu quero um F'Row, por favor — ela tentou se recompor e então virou-se para os outros dois.
— Acho que já podemos pedir — Sirius foi quem se pronunciou, puxando um cardápio para si.
— Desculpe, o que você estava dizendo? — Marlene perguntou docemente, virando-se novamente para Emma.
Para a sorte deles, a loira não perguntou muito sobre como era o relacionamento deles, e as poucas perguntas feitas foram fáceis de serem respondidas. Eles sempre foram bons mentirosos.
— Eu amei te conhecer! — Emma a puxou para um abraço, já do lado de fora do restaurante.
Marlene demorou alguns segundos para reagir, pega de surpresa.
— Você é um amorzinho — ela lançou uma careta discreta para Sirius, que pôs uma mão no ombro da namorada.
— Eu mal posso esperar pra nos encontrarmos de novo. É sério, eu gostei que vocês foram muito maduros no divórcio, queria...
Antes que ela pudesse continuar tagarelando, o celular de Marlene tocou.
Só tinha quatro pessoas que ligavam para ela: Mary, Sarah, Sirius ou a empresa do cartão de crédito.
— Só um minuto — ela deslizou o dedo pela tela do celular e então virou o rosto, apoiando o aparelho na orelha — Alô?
— Deve ser o cafetão dela — escutou Sirius fazer piada.
Chiou para que ele calasse a boca enquanto tentava entender o que estava acontecendo, o sinal estava péssimo.
— Lixão? — ela repetiu, perdendo o seu tom de voz antes descontraído — Mas é claro que você não foi encontrado no lixão, querido! A sua irmã só tá te enchendo. Passa o telefone pra ela!
Sirius tentou fazer um gesto para que ela desligasse a ligação, mas Marlene não prestou atenção.
— Sarah Susan, você não pode sair dizendo por aí que encontrou o seu irmão no lixão! Mesmo que ele fosse adotado, o que teria de errado com isso? Ele é o seu irmão e você tem que respei... Não interessa o que eu dizia pro meu irmão, essa conversa não é sobre mim, mocinha. Quando eu chegar em casa, nós vamos ter uma conversa.
Ela desligou a ligação antes que pudesse escutar a resposta de sua filha mais velha, virando-se indignada para o chefe.
— Dá pra acreditar...? — então ela percebeu a expressão no rosto dele.
— Vocês... têm filhos? — perguntou uma voz feminina.
Então ela se lembrou que Emma estava ali. E que eles estavam fingindo ser casados.
— O quê? — Marlene perguntou, tentando desesperadamente pensar em uma saída.
Porém, antes que pudesse inventar alguma desculpa muito ruim, Sirius respondeu por ela:
— Temos.
— E você ia me contar isso quando? — Emma cruzou os braços, parecendo indignada.
E lá se ia o noivado...
Considerou a ideia de correr e entrar no táxi, que estava deixando passageiros apenas alguns passos a frente, mas todas as vezes que Sirius abria a boca, ele piorava a situação.
— Eu acho que filhos não é exatamente algo que uma mulher procura em um parceiro — Marlene disse, tentando manter-se plena — Tenho certeza de que Sirius estava apenas esperando o momento certo pra te contar. Afinal, nós nem falamos com as crianças ainda.
— Eles não sabem que vocês vão se divorciar? — não sabia se a loira estava preocupada ou indignada.
— Sabem! — Sirius exclamou — Eles só não sabem sobre... você sabe. Nós. Não tivemos tempo de conversar sobre isso.
— E não precisa se preocupar! — Marlene acrescentou — Eu vou falar com Sarah e Ian hoje mesmo, assim que eu chegar em casa.
Ela frisou os nomes, apenas para o caso de Sirius não se lembrar do nome de seus filhos. Esperava que ele não fosse tão relapso, já que a relação deles era muito mais de melhores amigos do que de advogado e secretária — ele já tinha até comparecido em algumas ocasiões festivas, já que não mantinha contato com a sua família.
— Eu vou deixá-los a sós — disse e então abraçou-os rapidamente — A gente se vê.
Então ela aproveitou que um carro preto estacionou para entrar.
— Mas o quê...? — o motorista virou-se, confuso.
— Moço, me deixa ali na esquina, por favor. Eu tô tentando impressionar um cara que eu conheci no Tinder — ela disse rapidamente.
Por um segundo, pensou que ele ia chamar a polícia, mas ele dirigiu até um pouco mais a frente, quando já estavam longe do ponto de vista de Sirius e Emma.
— Muito obrigada — ela saiu rapidamente antes que ele pudesse pedir qualquer coisa.
Caminhou rapidamente pela rua até encontrar uma loja fechada para que pudesse parar e pedir um Uber de volta para casa. Nem a pau que ela ia pedir um táxi, as taxas naquele horário eram um absurdo.
Quando chegou em casa, só queria jogar-se na cama e dormir.
Ignorou a secada que levou do porteiro, tirando os saltos altos já dentro do elevador. Aqueles saltos que Sirius tinha comprado para ela conseguiam ser mais desconfortáveis do que os saltos que ela usava no dia a dia no trabalho. Pelo menos ela ficava sexy.
O seu celular vibrou no instante em que passou pela porta de casa — dessa vez, ela tinha pescado a chave da bolsa, já que não carregava sacolas de compra pesadas.
"Emma quer conhecer as crianças".
A mentira que contaram estava indo longe demais.
Não sabia se queria agredir a si mesma por ter atendido o celular na frente deles, ou a Sirius por ter dado corda em vez de inventar alguma desculpa.
— Como foi o encontro?
Mesmo tendo levado uma bronca da mãe há poucos minutos, Sarah não tinha vergonha na cara para provocá-la com aquele sorrisinho malicioso que a tirava do sério.
— Já te disse que não era um encontro — ela jogou os saltos altos em um canto da sala, os seus pés calejados sendo amaciados pelo tapete felpudo — Sirius se meteu em encrenca porque a ficante dele achou uma aliança nas coisas dele.
— Mas ele não é casado — Sarah estranhou, jogando-se no sofá ao seu lado.
— Ele usa a aliança na conquista. Acredite. Tem mulheres que gostam de um cara comprometido.
A mais nova revirou os olhos.
— E aí sobrou pra você?
— É. Eu tive que fingir ser a mulher dele, que está se divorciando — Marlene fechou os olhos e apoiou a cabeça no encosto do sofá, respirando fundo — E aí vocês me ligaram, e agora ela acha que ele tem dois filhos.
— Bye bye, ficante — disse Sarah.
— Não. Ela quer conhecê-los.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos.
— E o que eu ganho com isso?
Não pôde conter um sorriso orgulhoso. Era mesmo a sua filha.
— Barganha com ele — respondeu, dando de ombros — Ele tem grana.
Ela era um péssimo exemplo.
O dia seguinte era uma sexta-feira. O escritório não funcionava nos finais de semana, então ela teria dois dias de descanso antes de recomeçar tudo de novo. Se desse tudo certo, não precisaria fingir mais ser esposa dele depois daquele encontro com Emma.
O problema é que, se ele se casasse com ela, ela descobriria tudo. Afinal, o que Lena Black estava fazendo trabalhando como secretária no escritório dele, certo?
Ah que ótimo. Ia perder o emprego. Era melhor começar a espalhar o currículo em alguns lugares.
Marlene estava arrumando as coisas para as primeiras reuniões do dia quando Sirius chegou, um pouco mais cedo do que de costume, parecendo muito satisfeito.
— Bom dia — ela disse, espalhando as revistas de negócios na bancada da recepção — Parece que alguém teve uma ótima noite.
— A melhor — ele respondeu, apoiando-se contra a mesa para alcançar a prancheta — O que temos para hoje?
— Não sei, a agenda tá contigo — indicou a prancheta em suas mãos, mas foi ignorada por ele, que estava lendo atentamente a lista — A propósito, Sarah e Ian vão passar aqui daqui a pouco.
— Por quê? Eles não têm escola? — Sirius estranhou.
— Emma não quer conhecê-los? Eu não vou sacrificar o meu fim de semana por sua causa.
Ele jogou a prancheta em cima da bancada, bagunçando a organização que ela tinha acabado de terminar.
— E o que tem de tão bom reservado pro fim de semana? Dormir até às 4 da tarde?
— É. Se chama descanso — Marlene retrucou — Me ajuda a te aturar de segunda a sexta. E eles têm condições pra aceitar esse joguinho.
— Condições? — Sirius repetiu, incrédulo — Você é a mãe deles. Não é só você mandar e eles obedecem?
— Não, eu criei os meus filhos pra pensarem por si próprios — ela mostrou um sorriso debochado.
— É claro que criou... — escutou-o resmungar enquanto desfilava em direção à sala de reuniões para pôr a cafeteira para trabalhar.
Não demorou muito para escutar a porta de vidro se abrir e os passos ritmados por cima do chão de madeira.
Não foram muitas as vezes que suas crianças tinham visitado onde ela trabalhava.
— Venham cá, me deem um beijo — disse Marlene, separando algumas folhas de papel.
Abaixou-se para que Sarah e Ian alcançassem a sua bochecha.
— Senhor Black, os seus novos clientes chegaram — ela anunciou debochada, assim que eles a cumprimentaram.
Não ficou para escutar as negociações, mas Sarah lhe contou depois que Ian conseguiu um PlayStation 5 e que ela tinha conseguido ingressos pro show de uma banda que ela era apaixonada.
— Ian queria nadar com golfinhos no Havaí, acredita? — comentou a filha enquanto elas se arrumavam para ir no tal passeio com Emma e Sirius em um fliperama.
Crianças normais não queriam viajar para a Disney?
— De onde ele tirou isso? Algum jogo? — ela perguntou.
— Eu sei lá!
Escutaram o som de uma buzina forte vindo do lado de fora. O prédio ficava localizado em uma rua sem saída, o que significava que não enfrentavam o engarrafamento diário da grande cidade. Marlene pôs a cabeça para fora na janela, apenas para confirmar que era Sirius fazendo escândalo como sempre.
— Pegou a sua bolsa? Certo, vamos — ela caminhou até o corredor e deu uma batida na porta do banheiro — Ian? Pronto?
Ele abriu a porta quase imediatamente.
— Bem que ele podia nos dar carona todo dia — comentou o mais novo, assim que viu o carro quando desceram para a portaria.
— Não se acostuma não — disse Marlene — E lembre-se do que falamos.
— Por que você tá se sujeitando a isso mesmo? — Sarah ergueu uma sobrancelha.
Manter o emprego e ajudar o amigo não eram respostas que faziam sentido, nem na sua cabeça.
— Não sei — murmurou para si mesma.
— Nós temos hora, sabia? — Sirius reclamou, abrindo a porta do carona para ela.
— Não me estressa.
Ela olhou para trás para ter certeza de que seus filhos estavam acomodados, de que usavam o cinto de segurança, e então Sirius deu a partida.
Emma estava esperando por eles dentro do fliperama, parecendo bem mais animada do que era esperado. Ela devia gostar de crianças — e de uma pré-adolescente. Sarah a esganaria se a chamasse de criança em voz alta.
— Emma, esses são os meus filhos, Sarah e Ian — Sirius apressou-se nas apresentações — Garotos, essa é a Emma.
"Garotos" era melhor do que crianças. A expressão no rosto de Sarah não tinha se alterado, era um bom sinal.
— É um prazer conhecê-los! — a loira sorriu.
Era possível uma pessoa ser tão bem humorada o tempo todo? Estava começando a pegar um pouco de ranço dela sem motivo nenhum.
— Pena que eu não possa dizer o mesmo — Sarah retrucou, antes de sair caminhando em direção a uma das máquinas.
Ou não...
— Adolescentes — Sirius exclamou, tentando salvar o clima constrangedor — Sempre tão... rebeldes.
— Que tal hóquei de mesa? — sugeriu Marlene para os que restaram.
— Hóquei! — Ian fingiu animação com bastante empenho.
Depois de algumas horas, todos se reuniram na pizzaria para comer alguma coisa antes de poderem ir para suas casas.
— Eles não te obrigam a gastar as fichas antes de ir embora — Sarah ia dizendo, enquanto espalhava ketchup no seu pedaço de marguerita (com ingredientes sem lactose) — É só você guardar e juntar pra conseguir alguma coisa realmente boa.
— Lembra do aniversário daquela sua colega? Como é mesmo o nome dela? — Marlene estalou os dedos, tentando se lembrar.
— Ginny.
— Isso! Aquele fliperama não tinha fichas, era cartão.
— Não, o cartão é pra fazer as máquinas funcionarem. Depois que você ganha o jogo, sai aquelas fichas de papel.
— Seria tudo melhor se tivesse animatronics — Ian disse solenemente.
Sarah olhou para Marlene, como que pedindo permissão silenciosamente para chutar o irmão.
— É, seria bem interessante mesmo, principalmente quando um deles chegasse bem perto de você e... — ela ameaçou pular em cima do garoto, que soltou um berro e levantou correndo da cadeira.
— Ei! Ei! — Sirius exclamou, executando o seu papel de pai — Parou!
— Deve ser tão bom ter irmãos, eu fui filha única — comentou Emma, antes de dar mais uma mordida na sua pizza califórnia.
Péssimo assunto.
O seu irmão se chamava Ian, assim como o seu filho, e tinha morrido em um acidente de carro quando ela tinha uns 14 anos de idade. O irmão de Sirius, Regulus, tinha morrido afogado anos depois de Ian, Marlene ainda não entendia o que tinha acontecido. Evitavam falar sobre isso, era doloroso, principalmente porque a relação de Sirius com a família nunca foi muito boa, e isso interferiu na sua relação com o irmão.
— Eu tive um irmão — murmurou Sirius, nostálgico — Regulus era mais novo. Ele morreu.
Devia realmente se sentir à vontade com Emma para tocar no assunto.
— Ai meu Deus, eu sinto muito — disse a mulher, já se sentindo culpada.
— Você não tinha como saber — ele respondeu, mas parecia distraído.
— Eu também tive um, ele era mais velho — Marlene comentou — Dei o nome do Ian em homenagem a ele. Ter um irmão é complicado, vocês podem ser os melhores amigos do mundo, ou os maiores inimigos. No geral, não importa o quanto vocês briguem, vocês estão ali um para o outro. E só você pode encher o saco do seu irmão, mais ninguém.
— É isso aí, só eu posso implicar com o Ian — disse Sarah.
— E só eu posso implicar com a Sarah.
Para estragar o momento, o garoto mais novo puxou a cadeira da irmã, fazendo-a cair no chão.
— Ian! — ela gritou, antes de sair correndo atrás dele.
— Quer um conselho? — Marlene virou-se para Emma — Não tenha filhos. Adote um cachorro.
A loira riu, como se ela tivesse contado uma piada.
— Eles são uma gracinha — ela pegou mais um pedaço de pizza —, mas eu prefiro gatos — então deu uma mordida, deixando a mesa silenciosa.
Virou o rosto para o outro lado, procurando por onde as crianças estavam correndo. Esperava que não acabassem esbarrando em nenhum adulto ou derrubassem alguma coisa das mesas, ou que o gerente não os pegasse.
— É, ninguém é perfeito — murmurou, olhando diretamente para Sirius.
— O que disse? — perguntou Emma, já que ela tinha falado praticamente só movendo os lábios.
— Eu vou atrás daqueles dois antes que eles se matem — pôs o guardanapo de pano em cima da mesa, antes de buscar os seus filhos.
Assim que fez os seus filhos voltarem a se sentar e se comportarem como gente por algum tempo, esperava que a confraternização acabasse o mais rápido possível, mas Emma gostava de conversar, mesmo que os assuntos não estivessem rendendo muito.
— Vocês não se incomodam que eu e seu pai estejamos juntos, não é? — a loira perguntou, em certo ponto.
Caramba, tinha se esquecido de como uma mulher na faixa dos 20 anos podia ser tão insegura.
Sarah ficou em silêncio, o que fez Marlene estranhar.
— Não me incomodo, eu só fico triste porque... — Ian se calou.
— Você pode nos contar, querido — Emma o estimulou a continuar falando, pondo a sua mão em cima da dele.
Sentiu vontade de dizer "tira as mãos do meu filho", mas se conteve.
— É que ele prometeu que ia nos levar para nadar com os golfinhos no Havaí, mas agora ele não vai querer nos levar, ele tá ocupado com você — disse Ian.
Sarah cobriu o rosto para conter uma gargalhada, mas ficou parecendo mais que ela estava chorando por causa dos ombros sacudindo.
O miserável era um gênio.
— Sirius! — Emma ficou automaticamente do lado da criança.
Marlene não sabia se ela fazia isso porque queria agradar, ou porque realmente gostava dos seus filhos, mas era obrigada a admirar a sua atitude. Pena que sua atitude só estava piorando as coisas.
— Você prometeu! Não pode quebrar uma promessa desse jeito!
— Se vocês vão ter uma DR, pode ser pra lá? Não quero que eles escutem os adultos brigando, não é um bom exemplo — Marlene apontou para um lado mais afastado, e Sirius só faltou assassiná-la com o olhar.
Se vira, otário.
Quer dizer, a solução simples da situação seria que Sirius prometesse que ia levar Ian para uma viagem e então esperar todos esquecerem desse assunto, mas Emma parecia ser uma mulher que não desistia fácil. Por esse motivo, eles voltaram para a mesa; ela, animada como se tivesse contribuído para a paz mundial, e ele fingindo animação, mas no fundo querendo matar alguém.
— Ótimo! Nós vamos pro Havaí! — ele exclamou, batendo as mãos na mesa.
E lá se ia o final de semana tranquilo que Marlene tinha planejado para si.
Foi difícil não ficar emburrada quando chegaram ao aeroporto, arrastando as malas feitas completamente às pressas. Odiava fazer malas, e odiava mais ainda desfazer-se delas, era por isso que quase nunca viajava. Mary não poderia ir, obviamente, então ela teria uma desculpa para ficar agarrada aos filhos até aquele pesadelo passar.
Aquele pesadelo tinha que passar em algum momento, certo?
Sirius não podia simplesmente sequestrar a ela e aos seus filhos para a vida toda. Talvez pudessem abrir uma filial do escritório nos Estados Unidos, e aí Marlene poderia viver e trabalhar em paz.
Falando no diabo, ele sentou-se ao seu lado nas cadeiras do aeroporto.
— Você tá brava?
Lançou um olhar furioso na sua direção e ele encolheu-se ligeiramente.
— Olha, eu vou me casar com ela e então isso vai...
— Não! Isso não vai acabar, Sirius! — ela exclamou, apontando um dedo no rosto dele — Olha só onde essa mentira está nos levando! Você não pode simplesmente armar um acidente de carro pra parecer que, de repente, você não tem mais ex-mulher e filhos, e seguir em frente como se nada tivesse acontecido. Quanto mais você demorar pra contar a verdade, uma hora ela vai descobrir, e ela nunca vai te perdoar!
Ele fingiu que ia morder o seu dedo, o que só a deixou mais irada, cruzando os braços e jogando as suas costas contra o encosto com força.
— Qual é, Lene, por favor — Sirius implorou, deslizando as costas contra o assento até estar completamente torto na cadeira, sem postura.
Se continuasse daquele jeito, adquiriria uma cifose muito em breve.
— Essa viagem é o fim, entendeu? — Marlene retrucou — Se você sair um dedo da linha, eu pego os meus filhos e vou embora. Eu me demito! — ela fez um gesto com a mão, como se estivesse cortando o próprio pescoço.
Sirius sorriu do seu jeito clássico e então levantou-se quando avistou Emma aproximando-se deles.
Era estranho se acostumar ao fato de que ele tinha uma namorada fixa agora. As vezes que teve de lidar com as ficantes de uma noite era quando iam ao escritório atrás dele, e sempre acabava com alguém jogando um copo d'água ou de café em alguém — às vezes ela dava o azar de ser essa pessoa.
— Lena! — Emma exclamou quando a viu.
Levantou os óculos escuros, apoiando-os no cabelo, e então sorriu para cumprimentá-la.
— Pensa pelo lado bom, não é todo dia que viajamos pro Havaí — Sarah tentou animá-la.
— Você é um amor — ela abraçou-a de lado.
A voz do alto-falante anunciou o número do voo deles, então eles levantaram-se e foram despachar as malas e embarcar.
Foi um voo bastante longo, mais do que Marlene tinha paciência para suportar. Ian e Sarah juntaram-se para ver algum filme de super heróis na televisão atrás das poltronas, ela tentou não morrer de tédio — tomando alguns remédios para enjoo e ver se conseguia hibernar pelo tempo restante —, enquanto Sirius e Emma estavam igual dois pombinhos conversando no canto deles.
Finalmente, depois do que pareceram dias, eles finalmente pousaram.
Era uma diferença de pelo menos 11 horas no fuso horário, mais uma razão para a viagem ser estressante para Marlene.
— Você não podia ter escolhido um lugar mais pertinho não, meu filho? — ela resmungou para Ian, enquanto puxava a mala de mão para poderem desembarcar.
— Anime-se, Lena — Sirius não pôde deixar passar a chance de provocá-la — É verão!
Ela odiava o calor. Ele sabia disso.
— Eu preciso descansar um pouco antes de sairmos pra fazer alguma coisa — Emma se pronunciou — Eu tenho tantas ideias!
Mordeu a língua para evitar uma resposta mal educada.
— Acho uma ótima ideia — disse simplesmente.
Estava começando a pensar que aquela viagem duraria mais do que 2 dias.
Naturalmente, Sarah e Ian ficaram em uma suíte junto com ela. Eles entraram e ficaram empolgados com a decoração.
— Olha só pra essa TV! — Sarah exclamou, jogando as malas no chão de qualquer jeito.
Observando pela janela, percebeu que já tinha escurecido. Tinham saído às pressas, então não houve um real planejamento sobre a viagem. Ela manteve o notebook e o celular por perto, para caso precisasse cancelar alguma reunião de segunda-feira, pois não tinha tanta certeza de que conseguiria manter a agenda com as impulsividades de Sirius. Não seria exatamente a primeira vez. Um dia, ele tinha ligado para ela só para avisar que estava em Bali e que não poderia ir trabalhar. Avisou com antecedência? Claro que não.
Gostaria de saber em que ponto da vida tinha se tornado uma adulta responsável. Era o tipo de loucura que ela cometeria durante a juventude e não estaria nem ligando para o que os outros pensariam.
— Mãe?
Desviou o olhar, focando em Sarah, que parecia preocupada.
— Tá com enxaqueca? Quer que eu pegue um remédio pra você? — ela perguntou.
Marlene sorriu, sentando-se no chão ao lado dos filhos.
— Não, só tô cansada por causa da viagem. Não precisa se preocupar— respondeu e então acrescentou — Vamos ver algum filme?
Mandou uma mensagem para Sirius, perguntando se iam sair para jantar, ou se ela podia ficar na suíte com as crianças. Ele respondeu que ia sair sozinho com a Emma.
Ela não soube dizer se tinha ficado exatamente feliz com essa resposta.
Negou com a cabeça, esfregando a glabela acima do nariz. Não podia cair nessa de novo, não outra vez. Ela não podia ver Sirius como mais do que um amigo, aquilo não funcionava. Não acreditava que, depois de tantos anos, os seus sentimentos não tinham acabado. Mas também, era difícil tendo...
— Boas notícias! — Marlene exclamou, afastando a mão do rosto — Nós vamos jantar aqui no quarto hoje. Então, escolham o que vocês quiserem, a reserva tá no nome de Sirius mesmo.
— Você ainda vai ser demitida — Sarah riu, procurando pelo cardápio por cima do frigobar.
— Vou nada, ele não consegue viver sem mim — respondeu sem muito entusiasmo na voz.
Agora ele tinha a Emma.
— Ian, você pode escolher o filme hoje — ela disse, enquanto levantava-se para pôr uma roupa mais confortável.
— Eu deixei ele escolher o filme no avião! — Sarah protestou.
— Isso! Sem mais Frozen! — Ian comemorou.
Não sentia orgulho em admitir que dormiu na metade do filme. Ela sempre odiou quem dormia no meio dos filmes e agora tinha se tornado aquilo que jurou destruir. Sentiu que tinha dormido pouco quando os sons de batida na porta a acordaram. Espreguiçou-se, tentando esticar as costas doloridas.
Os três tinham acabado dormindo no tapete da sala.
Apoiou-se no sofá para conseguir levantar.
— Leninha? Tá viva?
Gemeu, correndo as cortinas para impedir a claridade.
— Um segundo! — ela exclamou.
Puxou um robe que o hotel emprestava para os hóspedes e então abriu a porta do quarto. Sirius lhe deu uma olhada de cima a baixo, e ela já sabia o que viria antes que ele abrisse a boca.
— Não precisava disso, eu já te vi com menos — ele deu um sorriso cafajeste.
— Sabe, eu tô começando a desconfiar daquele papo de "mulher da sua vida" — Marlene retrucou — Homem apaixonado não sai cantando qualquer uma que aparece pela frente. O que você quer?
— Vamos tomar café da manhã. Emma planejou um passeio pra todos nós.
Ela gemeu, encostando-se no batente da porta.
— Eu vou dizer que vocês nos encontram lá — Sirius deu um olhar crítico na direção dela — É melhor lavar essa cara, você tá péssima.
— Vai se foder — ela fechou a porta na cara dele.
Depois de uma chuveirada revigorante, e que seus filhos já tinham acordado por si sós, a família arrumou-se e desceu para o restaurante em que Sirius e Emma estavam esperando por eles.
— Não sabíamos o que as crianças iam querer comer, então pedimos algumas coisas pra que possam escolher — Emma já os cumprimentou ligada nos 220, como sempre — Mas se quiserem alguma outra coisa...
— A gente pede, tá — Ian respondeu com os olhos fechados.
Sarah estendeu a mão para pegar uma caixa de leite.
— Ah não! Esse é o de aveia! — Emma avisou e então estendeu a mão para pegar outra caixa mais afastada — O de vaca é...
— Ela não... — Marlene tentou falar.
— Eu sou alérgica a lactose — respondeu Sarah.
A loira pareceu surpresa, então ela olhou de Sarah para Sirius.
— Caramba! Eu nunca tinha conhecido uma pessoa que fosse alérgica a lactose! E agora eu conheço duas! Geralmente, as pessoas têm intolerância — ela exclamou.
— É diferente, intolerância você pode conviver, tem medicamento...
— Sim, Sirius me explicou. Deve ser genético, não é?
Marlene sentiu o seu rosto empalidecer.
— Não, alergias não são necessariamente hereditárias — ela tentou não gaguejar.
— Eu sei, é claro, mas é que, nesse caso, é — Emma replicou — E seria muita coincidência!
— É, coincidência — Sarah murmurou, lançando um olhar ininteligível para a mãe.
Ela não conseguiu prestar atenção na conversa que se seguiu à mesa, esforçando-se para comer e manter a comida dentro do estômago.
Puta que pariu, puta que pariu, puta que pariu.
— Então, eu estava pensando, hoje nós vamos fazer uma trilha e então irmos a uma cachoeira, o que vocês acham? — Emma sugeriu — E antes podemos andar de caiaque!
Marlene apenas assentiu, ocupando a boca com uma colherada cheia de iogurte.
Como não tinham pensado em pôr roupa de banho por baixo das roupas, subiram de volta ao quarto para pegar o que estava faltando. Um filtro solar era uma boa ideia também, já que ficariam um bom tempo debaixo de sol, e tinham uma pele sensível.
Escutou Sarah bater a porta do quarto com força, deixando Ian se arrumar no banheiro, e então cruzou os braços.
— Mãe.
— Aqui — Marlene agachada jogou um biquíni na direção dela, tirando direto de dentro da mala, já que não teve paciência para desfazer as malas.
Sarah conseguiu pegar a peça no ar, antes que caísse no chão, mas continuou encarando-a com a pergunta silenciosa.
Se não fosse por Sirius e sua mania estúpida de inventar histórias, nada disso estaria acontecendo. Ela realmente não precisava reviver aquelas perguntas.
— Eu não sei, tá bem? — ela pôs uma mecha de cabelo atrás da orelha, nervosa, voltando a revirar a mala atrás de um biquíni para ela.
— Você não sabe? — Sarah repetiu, incrédula — Ou você só não quer me contar?
— Querida, por favor.
Sentia que podia começar a chorar a qualquer momento.
— Tá, quando a gente voltar, a gente resolve isso — sua filha cedeu, antes de sair do quarto.
Maldita Emma Vanity e sua boca grande.
Foi difícil fingir naturalidade durante a canoagem e a trilha, ainda mais sabendo o que a esperava quando voltassem a Londres. Sirius casaria com Emma, ela provavelmente se demitiria ou mudaria de estado, Sarah exigiria um teste de paternidade para saber a verdade, muitas verdades viriam à tona. Enfim, a sua vida virando de cabeça para baixo de um jeito que não virava desde que descobriu que estava grávida na faculdade.
— Aconteceu alguma coisa? — Sirius ficou para trás na caminhada para conversar com Marlene.
— Não, por quê? — ela devolveu a pergunta com outra pergunta.
— Sei lá. Você e a Sarah estão estranhas.
— Não é nada — ela negou com a cabeça — Tenha filhos adolescentes e vai descobrir como é.
— Então eu vou poder pedir conselhos pra maior especialista — ele sorriu, antes de acelerar o passo para voltar para o lado de Emma.
Se tinha uma coisa que Sarah era diferente dela, quando tinha aquela idade, era que ela conseguiu manter a boca fechada, por mais que a sua cabeça estivesse explodindo de perguntas e frustração.
— Nada como uma trilha com uma cachoeira depois, não é? — Emma virou-se para sorrir para os que estavam mais atrás, assim que chegaram a uma clareira — Não tem graça apenas caminhar e não ter uma recompensa no final.
Sarah foi a primeira a pular na água, sem esperar que falassem algo, e sem nem mesmo tirar a blusa e o short que estava usando.
Desde que ela não pegasse uma pneumonia...
— Sua vez, Ian — disse Sirius, virando-se para o mais novo.
Marlene ficou alarmada ao ver que ele parecia assustado.
— O que foi, querido? — inclinou-se em sua direção.
Ele sussurrou no seu ouvido "eu não sei nadar".
Mas... ela não tinha pagado aulas de natação quando ele tinha uns 3 anos?
— O que ele disse? — perguntou Sirius.
— Ele não sabe nadar — ela respondeu, já sabendo o que viria.
— Não sabe nadar? E você queria vir nadar com os golfinhos? — ele ergueu uma sobrancelha.
— É só ensinar, Six — Emma o defendeu — Não é tão difícil assim! Venha, eu te mostro!
Ian olhou para a mãe, como que pedindo permissão, antes de seguir a outra mulher.
Ao contrário de Sarah, Emma puxou o vestido por cima da cabeça antes de se jogar na água e então virar-se para ajudar Ian.
— Ela é instrutora de natação também? — Marlene perguntou a Sirius.
— Ela gosta de crianças — ele respondeu — Foi babá pra poder pagar a faculdade.
Deu uma olhada ao redor, certificando-se de que estavam a sós. Se ela tivesse amigos, teria trazido alguém com ela para evitar passar por tudo aquilo sozinha. Seria divertido se tivesse fingido ter um namorado.
— Não vai lá? — perguntou Marlene.
— Não, a vista é melhor daqui de cima.
Sentiu vontade de dar um tapa na nuca dele.
— Não está fazendo bem o seu papel de pai — ela disse, abaixando-se para descer o short.
— Pegou o maiô de 1950 do armário? — Sirius implicou.
— Cala a boca.
— Você odeia ir à praia, deve ter pego o mesmo maiô que usava na escola.
— Pelo menos ainda serve em mim. Quantas mulheres podem dizer isso?
— Ah! Fala sério! Você teve...
Fosse lá o que ela tivesse, ela não soube porque, assim que tirou a blusa, ele ficou mudo.
— Você dizia? — Marlene exibiu um sorriso convencido.
Então ela se jogou na água, aproveitando a água fria da cachoeira.
Não gostava de praia, mas amava uma piscina. E uma cachoeira era praticamente uma cachoeira com água caindo de cima.
— Bom trabalho — Sarah surgiu em algum ponto atrás dela, com a blusa e o short molhados.
— Não sei do que tá falando.
Sentaram-se em algumas pedras próximas da grande cachoeira, observando como Emma ajudava Ian a nadar, posteriormente Sirius foi ajudá-la.
— Eu sei que não é o tipo de coisa que as mães querem contar pras suas filhas, mas você pode contar comigo — disse Sarah depois de alguns momentos de contemplação silenciosa — Eu meio que já tô na fase das desilusões amorosas e etc, então... Acho que entenderia melhor que o Ian.
— Obrigada pelo apoio — Marlene riu — Pode deixar. Eu provavelmente vou precisar.
— Mãe! Olha só! — Ian gritou do outro lado, batendo as mãos contra a água.
— Lindo! — ela pôs as mãos ao redor da boca para ecoar.
— Agora tenta sem as mãos! — Sarah gritou ao seu lado.
— Sarah! — repreendeu a filha, que apenas deu uma piscadela.
Ficaram mais um tempo ali, tentando ensinar Ian a nadar, e então voltaram para a trilha, fazendo todo o caminho de volta. Ainda era de tarde e Marlene já se sentia exausta pelo esforço, não tinha mais disposição para essas atividades.
— E o que vamos fazer agora depois do almoço? — Sirius abraçou Emma pelos ombros, fazendo Sarah revirar os olhos.
— Eu e Marlene vamos passar algumas horas no spa — ela respondeu.
— Eu? — Marlene perguntou.
Que horas ela tinha sido consultada?
— Não se importa, não é? — Emma virou-se para olhá-la — Eu pensei que seria bom pras crianças se passassem um tempo a sós com o pai, ele trabalha tanto.
Não tinha uma desculpa boa o suficiente para recusar.
— Tudo bem, eu bem que preciso de uma massagem — ela respondeu.
Esperava que não fosse um tipo de armadilha adolescente em que Emma do nada virasse para ela e falasse "tire os olhos dele, ele é meu" ou a ameaçasse, ou coisa do tipo.
Deram uma pausa para o almoço e então — depois de ameaçar Sirius, caso algo acontecesse com seus filhos — as mulheres seguiram para o spa.
Era como nos filmes que via: os funcionários passavam coisas estranhas na sua pele, a mergulhavam em substâncias que ela preferia nem saber o que era, e então as massagens. A melhor parte.
Nem sabia quando foi a última vez em que se permitiu relaxar desse jeito.
— É difícil cuidar de duas crianças, não é? — em algum momento, Emma puxou assunto, fazendo-a despertar do estado de semiconsciência.
Porque ela não conseguia ficar de boca fechada.
— Uhum — conseguiu responder — Depois de um tempo, você se acostuma. Fica difícil ficar longe deles. Mas Sirius me disse que você era babá, certo? Então não vai ser tão difícil pra você.
— Eu não sei se ele vai querer ter filhos. Quero dizer, ele já tem dois — não podia ver a sua expressão facial, já que estava deitada de barriga para baixo, com a cabeça voltada diretamente para o chão.
— Sabe, ele não acompanhou muito do crescimento deles — comentou Marlene, virando a cabeça de lado para tentar olhá-la — Ter filhos enquanto ainda está consolidando carreira não é um bom plano. Nós não tivemos um planejamento.
— Os meninos não podem se sentir magoados por isso? Porque Sirius daria mais atenção a uma nova criança?
A preocupação dela com o bem estar de todos lhe lembrava uma pessoa que não falava há algum tempo. Tantos sentimentos encontrados.
— Eles vão ficar bem — respondeu, mesmo sem ter a menor certeza disso.
Não, eles não iam ficar bem.
— De qualquer forma, é muito cedo pra falarmos sobre isso, nós nem nos casamos — Emma soltou uma leve risada.
Mal sabia ela.
— Tem razão — forçou um sorriso — Ainda é cedo.
— Você o conhece tão bem, a dinâmica entre vocês é tão perfeita, eu não entendo como o casamento de vocês acabou.
Ele nunca aconteceu.
— Acho que casamento não é a minha praia — Marlene disse — Eu gosto de liberdade. A sensação de poder tomar as minhas próprias decisões sem precisar consultar ninguém.
— E os sentimentos? — Emma virou-se para olhá-la.
— Os sentimentos são facilmente confundidos — voltou a deitar a cabeça no apoio da maca, olhando para o chão — Nós somos melhores amigos. Nunca vamos deixar de ser.
Ela não pareceu muito convencida por suas palavras. Honestamente, podia entender o porquê. Marlene não estava sabendo disfarçar o turbilhão de emoções que vinha revivendo nos últimos dias. Um casamento perfeito, que durava há pelo menos 10 anos, com dois filhos, sem traições. E de repente, depois de tanto tempo, percebiam que eram só amigos? E qual seria o problema do casamento com isso? Não era apenas paixão o pilar de uma relação, era o companheirismo, a parceria, a compreensão, a maturidade.
Céus, ela tinha mesmo envelhecido. A ideia de se casar sem uma quebra de rotina quando mais nova era insuportável. Ter engravidado cedo tinha feito com que ela enxergasse as coisas de forma diferente, ela precisou disso quando os seus pais a expulsaram de casa como se fosse uma adolescente. E então ela se envolveu com Amos Diggory não muito depois e eles se casaram, e não foi um casamento por amor. Não para ela, pelo menos. Não havia nada de errado com Amos, ele só... não era o Sirius.
E ela tinha estragado tudo. Não importava o quão bom marido ele fosse, ela não estava feliz com isso. Ela era egoísta. E tinha cometido o mesmo erro pela segunda vez, só que daquela vez não teve perdão.
A massagista deu um toque para avisar que a sessão tinha terminado, então ela ajustou a toalha e foi para o vestiário se trocar.
Era incrível a habilidade de um massagista de tirar o peso do mundo sobre os seus ombros, pena que não podia fazer nada em relação aquele aperto no seu coração.
Durante o caminho de volta, Emma ficou tagarelando sobre algum assunto que Marlene não prestou a menor atenção.
— Vai, Ian! Vai! — escutou o grito de Sarah vindo da piscina.
Caminharam na direção do som, vendo o momento em que Ian conseguia nadar até o outro lado da piscina sem boias no braço e sem ajuda.
Sirius e Sarah estavam gritando, comemorando. Emma sorriu vendo a cena.
— Não me sinto muito bem, vou pro meu quarto — Marlene balbuciou, antes de se afastar, sem nem saber se foi escutada.
Jogou-se na cama de roupa e tudo, olhando para o teto sem vontade de se mover ou fazer nada.
— Mãe? Tá tudo bem? — Sarah entrou correndo e parou na porta — Emma disse que você tava passando mal.
— Exagero dela — respondeu — Eu só... precisava ficar sozinha um pouco.
Emma surgiu atrás de Sarah.
Céus, estava difícil desgrudar naquele lugar. Ela era fofa, mas parecia que se considerava a sua melhor amiga. Daqui a pouco não a deixaria ir sozinha ao banheiro.
— Não se preocupe com isso — disse a loira — Essa noite terá um tempo pra se divertir sozinha.
— Do que você tá falando?
— Ontem à noite, deixamos as crianças com você — Sarah lançou um olhar irritado para a mulher — pra poder jantar sozinhos. Hoje, nós vamos cuidar deles, você vai sair e se divertir. E não aceito um não como resposta! — o último ela acrescentou ao vê-la abrir a boca e saiu antes que pudesse insistir.
— Eu não preciso ser cuidada, eu tenho 13 anos — reclamou Sarah.
Ela parecia suportar menos a presença da mulher desde o que aconteceu no café da manhã.
— Só mais um dia e nós vamos embora — Marlene prometeu.
Parecia que estavam ali há uma semana já.
Quando a noite caiu, ela obrigou-se a pôr um vestido bonito e sair do quarto para beber em algum bar. Era o máximo que estava disposta a fazer, nada de rebolar a raba até o chão ou dormir com um desconhecido. Ela não era brasileira para não ter limites.
Tentou imaginar como se ainda estivesse em Londres, como se Mary estivesse cuidando de Sarah e Ian enquanto ela saía para algum coquetel de negócios ou coisa do tipo. Era sempre por trabalho.
— Um Martini, por favor — ela pediu assim que sentou-se na mesa do bar.
Deu uma olhada interessada para o cardápio, pensando que tinha muitas bebidas ali que não conhecia.
— Eu não acredito. Marlene McKinnon?
Ela virou-se, dando de cara com uma figura ruiva muito conhecida.
— Lily Evans — sorriu.
Lily aproximou-se para abraçá-la.
— É ótimo te ver! Nós não nos vemos desde... a faculdade? Você sumiu! — ela pegou a cadeira ao lado da sua.
— É. Eu fiquei grávida — Marlene puxou o copo que o bartender pôs em cima da mesa para mais perto — E aí eu larguei a faculdade.
— Nossa. Que droga. Quero dizer, parabéns, mas imagino que tenha sido difícil.
— É, foi. O que te traz aqui?
Lily pediu um Mojito antes de virar-se de volta para ela.
— Eu me casei com o James, nós tivemos um filho e agora estamos de férias aqui. Aproveitando que ainda não começou a temporada lotada de dezembro — ela sorriu — E você?
— Trabalho. Quer dizer... — coçou a testa.
Não faria mal contar a verdade a ela, certo? Precisava desabafar com alguém.
— Eu não quero jogar os meus problemas pra cima de você — disse Marlene, olhando ao redor.
— James tá falando com uns conhecidos, não precisa se preocupar — Lily percebeu — Você pode me contar o que quiser. Sei que faz alguns anos que não nos falamos...
— A culpa foi minha. Me desculpe — tomou um longo gole do seu Martini — Não queria estar ligada à minha vida de antes. Sentir o que eu podia ter tido. Não me leve a mal, eu amo a minha filha...
— Eu sei. Eu entendo — a ruiva sorriu levemente — Não precisa se explicar.
Sentia saudades disso, de conversar com ela.
E que momento oportuno para se reencontrarem.
— Bom, eu trabalho com o Sirius — começou Marlene — É, pois é. E ele continua o mesmo cafajeste de sempre. Então ele inventou uma história de usar, olha só, uma aliança pra contar umas histórias tristes pra convencer as mulheres a ficarem com ele, ou sei lá.
Lily deu um gole no Mojito assim que o bartender deslizou para ela através da mesa.
— Incrível como os homens demoram o quádruplo do tempo pra amadurecer — ela negou com a cabeça.
— Só que o tiro saiu pela culatra. Parece que ele tá gostando dessa mulher e aí ela ficou indignada porque achou que ele era casado.
— Bem feito.
Bons tempos em que Lily e Sirius ficavam se bicando o tempo inteiro. Era hilário de se ver.
— É, só que ele me arrastou pra isso. Então, prazer, Lena Black, a esposa que tá se divorciando dele — ela estendeu a mão, irônica.
— Eles estão aqui com você? — Lily tentou seguir o raciocínio com a falta de elementos — Precisava viajar pro Havaí pra assinar os falsos papéis de divórcio?
— Não, ela... ela escutou uma ligação minha com a Sarah, minha filha, e aí as crianças foram envolvidas nisso. Eu tenho duas. O mais novo meio que chantageou o Sirius — ela riu — Por isso estamos aqui, ele queria nadar com os golfinhos.
Matou o resto do seu Martini e virou para o bartender, pedindo por um Cosmopolitan.
— Marlene McKinnon e sua vida sempre agitada — brincou Lily, mas então ficou séria — Você ainda gosta dele?
Era por isso que ela não mantinha muito contato com os antigos amigos, supunha.
— É, eu acho que sim — ela respondeu — Sabe a pior parte?
— Não.
— Os meus filhos... são dele.
Dizer isso em voz alta parecia confirmar algo que não deixou sair da sua cabeça por anos.
— Ele não sabe? — Lily pareceu chocada com a revelação.
Apenas negou com a cabeça, pensando em pedir algo mais forte.
— Uma Piña Colada, por favor — a ruiva pediu ao barman — Acho que você tá precisando mesmo de um porre.
— Quem é você e o que fez com Lily Evans? — ela riu.
— Lily Evans tá completamente desorientada com o rumo que tu deu na tua vida — ela retrucou — Como isso aconteceu? Você precisa me contar!
Então ela contou sobre como eles se divertiam na época da faculdade, mas como as coisas desandaram quando ela descobriu que estava grávida. Sobre como conheceu Amos, sobre como ele sabia que ela estava grávida de outra pessoa e foi super atencioso com ela por anos. Sobre como acabaram se casando, mesmo não sendo exatamente o que Marlene planejava para a sua vida. E sobre como, anos depois, em um dos coquetéis do trabalho, ela acabou tendo uma recaída. E que isso Amos não conseguiu perdoar.
— Você se superou — foi o que Lily disse, no final.
— Agora eu não sei o que dizer quando aquele homem vier e me perguntar o porquê eu não contei a ele, porque nem eu sei a resposta — ela sacudiu o copo para ver o gelo batendo contra o vidro.
Lily a puxou para um abraço. Sempre tinha sido o tipo de pessoa que gostava de consolar com gestos, por mais que fosse boa com as palavras.
— Medo — ela disse simplesmente — Você sentiu medo, Lene. Isso é completamente normal. Era uma garota normal de 22 anos, e o Sirius... Bom, ele continua sendo o Sirius, não é? — revirou os olhos, como se aquilo explicasse tudo.
— Não por muito mais tempo. Ele disse que vai se casar com ela — Marlene afastou-se um pouco.
Lily mordeu o lábio, parecendo em conflito por ela.
— Tá tudo bem — ela garantiu — Não é como se fosse dar certo mesmo.
— É, por isso que você planeja esvaziar o open bar? — retrucou.
— Touché — a morena ergueu o copo em um brinde, antes de virar a bebida garganta abaixo — Me fala sobre vocês. Como se chama o filhote? Tem quantos anos?
Lily sorriu fraco e então começou a falar sobre como andavam as coisas na sua família, parecendo fazer isso mais para distraí-la do que realmente pôr a conversa em dia.
Quando percebeu, já estava fora do hotel há pelo menos 2 horas.
— Foi muito bom te ver de novo — disse sinceramente e então pôs o copo vazio em cima da mesa — Acho que tô alcoolizada o suficiente pra cair na cama e não acordar mais.
— Lene! — a ruiva a repreendeu.
— É brincadeira — ela riu — A gente se vê, Lils.
Depois de uma rápida despedida, ela se livrou dos saltos altos, que não sabia o porquê tinha descido com eles, e então caminhou de volta para o hotel. Não tinha ideia de que horas deviam ser, só sabia que se sentia um pouco mais leve, tanto pelo álcool quanto pela conversa com uma velha amiga.
Girou a maçaneta, tentando ser o mais silenciosa possível, e então viu que Sarah e Ian já estavam dormindo na cama king size que os três dividiam.
Sentiu uma movimentação estranha vindo da sala, então arrancou o abajur da tomada e o carregou como se fosse uma arma, preparada para atacar quem quer que fosse. Era só Sirius, sentado no sofá do quarto, parecendo estar esperando-a. Sentiu-se como uma adolescente pega no flagra pelos pais.
— Que susto, cara — ela largou o abajur em cima de uma mesa qualquer — Você não pode aparecer desse jeito sem avisar!
Ele estava silencioso demais para ser o Sirius que conhecia.
Dirigiu-se até o frigobar atrás de uma garrafa d'água. A sua cabeça estava girando, e tentou se lembrar do porquê que ela gostava tanto de beber quando adolescente. Talvez ela tivesse perdido a sua alta resistência ao álcool com o passar dos anos.
— Você e a Emma brigaram? — atreveu-se a perguntar.
— Não, nós não brigamos — ele respondeu, parecendo irritado — Eu não vim aqui por causa disso.
Virou-se para ele, ainda sentada na frente do frigobar, por pura preguiça de se agachar. Sirius jogou alguns papéis em cima da mesa de centro. Por um momento, pensou que fossem os falsos papéis de divórcio que ela teria que assinar — isso não seria crime? Tipo, era forjar documentos. Então ela puxou para si os documentos e viu que eram as certidões de nascimento de Sarah e Ian.
O seu estômago afundou.
— Que que tem? — ela conseguiu abrir a garrafa e então deu um longo gole na água.
— Por que você deu o nome do meu irmão pro Ian? Você e Regulus nem eram próximos!
Nossa, ela sentia tanto sono. Estava difícil de se concentrar na conversa. De repente, era como se sua mente fosse um grande vazio. Será que ele não percebia que era um péssimo momento para conversarem sobre isso?
— E por que você saiu fuxicando nas minhas coisas? — Marlene retrucou.
— Porque... — ele esfregou o rosto, parecendo perdido — Porque a Emma falou algumas coisas e...
Emma e sua boca grande.
— E você quer saber se eles são os seus filhos — ela completou.
Fungou, sentindo a rinite começar a atacá-la, e então levantou-se com dificuldade, ainda segurando a garrafa d'água e tentando não pôr as mãos no chão. Era mais fácil sóbria.
— Mas você não precisa que eu te diga isso.
— Por quê? — Sirius levantou a cabeça para olhá-la.
Pela escuridão, era difícil de descobrir como ele estava se sentindo e o que ele estaria pensando. Era melhor assim.
— Por que não me contou? — ele repetiu.
Olhou para a frente, na direção do corredor onde os seus filhos estavam adormecidos, sem ter ideia da discussão estranha que estavam tendo.
— Eu não sei — murmurou — Talvez eu pensei que você não estava preparado pra ser pai, talvez eu pensei que você fosse agir igual a um babaca, ou que... sentisse como se devesse alguma coisa pra mim por causa disso.
Sirius umedeceu os lábios com a língua, parecendo não saber o que dizer. Isso era uma habilidade recém-descoberta, ninguém o deixava sem uma resposta na ponta da língua.
— Você devia ter me contado — ele disse, tentando pôr os pensamentos em ordem.
— Eu sei — ela respondeu — Mas eu nunca fiz as coisas do jeito certo, não é?
— Eles... — Sirius ajeitou a postura no sofá — Eles sabem?
— Sarah descobriu por causa da Emma. A história do leite.
Ele assentiu, os olhos fixos nas certidões em cima da mesa.
Observou-o se levantar repentinamente, parecendo incapaz de permanecer sentado por mais tempo, quase anestesiado pelo maremoto de novidades.
— Então o Ian também...? — ele perguntou próximo da janela, a luz da lua sendo a única testemunha da situação.
Ela já tinha meio que confirmado isso, mas assentiu.
— Mas... quando isso aconteceu? Eu não consigo me lembrar! — Sirius exclamou.
— Nós estávamos em um coquetel da empresa. Não me lembro de muita coisa, lembro que você tinha esbarrado com o seu pai lá dentro e tinha ficado péssimo com isso. Sei que nós bebemos. E quando acordei, bem... Tinha acontecido — ela disse — Eu saí do quarto, e então foi como se tivesse sido mais uma das suas ficantes de uma noite.
— Uma vez — ele murmurou — Uma vez e você ficou grávida. De novo.
— É, sabe, existe uma coisa chamada período fértil feminino — ela retrucou, começando a se irritar — E falta de camisinha, anticoncepcional.
— Também existe pílula do dia seguinte, se você tivesse realmente ficado preocupada com a possibilidade de ficar grávida.
Ela não tinha ficado.
E, apesar de ser a favor do direito das mulheres abortarem, ela não queria.
Era uma decisão dela, de mais ninguém. Não dos seus pais, não de Amos, não de Sirius. Era o corpo dela, a vida dela, os filhos dela. Sarah e Ian eram a luz dos seus dias, não teria feito nada de diferente.
— E é por isso que eu não te contei nada — sentando-se no sofá desocupado, ficando de costas para ele — Não queria ter que ouvir um "você precisa tirar" ou coisa do tipo.
— Eu nunca faria isso! — ele exclamou, parecendo se conter para não gritar.
— Tem certeza? — virou-se para olhá-lo, desafiando-o — Pode dizer isso do seu eu de 22 anos, que com certeza não ia querer abandonar a faculdade e a sua vida de festas pra ficar em casa trocando fraldas?
— Eu nunca diria pra você tirar — ele repetiu lentamente — Nunca. Você pode duvidar de muitas coisas, Marlene, mas disso não.
Desviou o olhar, incapaz de continuar encarando os seus olhos. Tentou não sentir a esmagadora culpa que ameaçava sufocá-la. Tinha feito o que achou que era certo, e não adiantava de nada ficar choramingando sobre o passado, que não podia ser modificado. Bem ou mal, Sirius dificilmente teria chegado tão longe na carreira se tivesse duas crianças a tiracolo.
— Espero que um dia possa me perdoar — ela voltou a se levantar — Se não se importa, eu preciso dormir. E acho que você também precisa de um tempo pra pensar em tudo isso.
Ele não se moveu por alguns minutos, encarando a vista externa do hotel pela janela panorâmica. E então, sem dizer mais nada, caminhou até a porta da suíte e foi embora.
Assim que a porta se fechou, ela desabou.
Abafou os soluços com a almofada para não acordar os seus filhos, mesmo que não fosse necessário — eles tinha um sono muito pesado. Apesar do que disse, não conseguiu pregar o olho a noite inteira, revisitando todos os erros que cometeu na sua vida e se martirizando por cada um deles.
Esse era o problema de quem fazia as coisas por impulso, sem pensar. Uma hora, a conta chegava, e era uma conta bem cara que ela não podia pagar.
Em algum ponto da madrugada, ela pegou o seu notebook para escrever uma carta de demissão e começar a procurar vagas de emprego como secretária, fosse em escritório de advocacia ou consultórios médicos.
— Comprando as passagens de volta?
Ela ergueu os olhos, percebendo que tinha passado tantas horas que já era manhã, e Sarah já tinha acordado.
— É uma boa ideia, mas não — forçou um sorriso — Hoje é o último dia.
— Sabe que não pode fugir dos problemas, né? — ela sentou-se ao seu lado no sofá, deitando a cabeça no seu ombro.
Respirou fundo, sentindo o aroma do shampoo de morango que a mais nova usava.
— Eu sei — murmurou, antes de voltar a focar no notebook.
— Vou ver o que a Emma planejou pra hoje — Sarah levantou-se.
Abriu uma aba no navegador para confirmar quando eram as passagens de volta, eram para aquela noite. Então só precisava aguentar mais algumas horas antes de poder ir para casa. Um pouco mais do que isso, mas pelo menos, estaria longe de Emma Vanity e daquele clima quente odioso do Havaí.
— Não vai comer, mamãe? — perguntou Ian alguns minutos depois.
— Podem descer, queridos, eu já vou — ela disse, sem desviar os olhos da tela do computador.
Quando olhou para o relógio, tinham se passado apenas 5 minutos.
Suspirou, sabendo que não podia simplesmente se trancar no quarto e fingir que não existia, fechou o notebook e foi se arrumar para mais um dia.
— Bom dia — cumprimentou a todos, que ainda estavam na mesa do café da manhã.
— Aqui — Emma empurrou um copo de água com efervescente — Imagino que você esteja de ressaca depois de ontem.
— Acertou em cheio — disse Marlene, os olhos escondidos por trás de óculos escuros.
Bebeu a água em apenas um gole, esperando que fizesse efeito logo.
— Por que os adultos bebem se vão ficar desse jeito no dia seguinte? — Sarah perguntou para Ian.
— Continue pensando assim — ela murmurou — Daqui a uns 5 anos a gente conversa.
— 5 anos — Sirius soltou uma risada seca.
Todos na mesa tinham percebido que tinha alguma coisa errada.
— E o que nós vamos fazer hoje, Emma? — Sarah tentou mudar de assunto.
— Bom, nós devemos uma nadada com os golfinhos pra alguém, não é? — ela indicou Ian com a cabeça.
— Legal! — ele comemorou.
Sirius estava muito quieto, encarando Sarah e Ian o tempo inteiro. Provavelmente não tinha dormido nada também. Marlene deu um chute nele por baixo da mesa para acordá-lo, tomando cuidado para não chutar a perna errada.
— Tudo bem, vocês lembraram de pôr biquíni e sunga por baixo da roupa hoje? — ela resolveu tomar a dianteira — Ótimo! Então vamos!
— Mas você não comeu nada... — Emma reparou.
— Tô sem fome.
Ela ficou mais à parte naquele dia. Em vez de se esforçar para participar das situações, pôs a desculpa da ressaca para poder apenas observar de longe. Não queria estragar a felicidade dos filhos, ou causar mais brigas.
— Pensei que não conseguiria te ver mais depois de ontem.
Lily sentou-se na espreguiçadeira ao seu lado, enquanto observavam Ian finalmente se divertir com os golfinhos.
— Sabe, eu tô começando a achar que você é uma ilusão criada pelo universo pra fazer o papel de conselheira amorosa — comentou Marlene — Tipo um anjo que adquire a aparência de pessoas próximas...
Ela gargalhou.
— Tá vendo aquele garoto ali? — Lily apontou para o outro lado — É o Harry.
Meu Deus. O garoto era uma cópia escancarada do James.
— Aquele é o Ian — fez a sua parte, apontando para a sua cria — E aquela é a Sarah.
— E a loira é a "maldita Emma"?
Tinha falado isso em voz alta?
Abaixou a cabeça com o riso frouxo.
— Você já passou por alguma coisa assim? Tipo, você esconder uma coisa de alguém, um segredo, e quando as pessoas descobrem, as coisas ficam estranhas e parece que nunca vão melhorar?
— Melhoram — Lily garantiu — Acho que o problema aqui não são as crianças.
Crianças nunca eram um problema quando o assunto era "o seu pai não é quem vocês pensaram", principalmente quando o falso pai era tão ausente em suas vidas.
Se Sarah, que era pré-adolescente, não tinha odiado a ideia, Ian seria um doce.
Escutou gargalhadas vindo da área, quando o golfinho saiu nadando com Ian de pé em cima dele. Não precisou se preocupar, um instrutor estava por perto para qualquer dificuldade.
Esperava que aqueles golfinhos não fossem maltratados como as orcas do Seaworld, lembrava-se de Alice falando sobre isso quando estavam na faculdade.
— Eu poderia fingir que nada aconteceu, mas Sirius tá estranho — disse Marlene.
— É claro que ele tá estranho! — Lily exclamou — Céus, eu não sei como vocês dois nunca ficaram juntos.
— O quê?
Que conversa era aquela?
— Vocês dois têm uma química, uma sincronia, e você trabalha pra ele há anos e só rolou uma recaída? — a ruiva continuou, expressando toda a sua incredulidade.
— Eu tava casada — Marlene sentiu-se na obrigação de lembrá-la.
— E se não estivesse?
Ela ajeitou-se na espreguiçadeira.
— O que você tá querendo dizer com isso? — perguntou.
— Você é mais inteligente do que isso. Tem sentimentos mal resolvidos entre vocês — ela foi direto ao ponto.
— Não tem sentimentos! — exclamou — Nunca teve sentimentos! O nosso lance sempre foi diversão e...
— E você afogando as mágoas ontem foi o quê? — Lily retrucou, cruzando os braços.
Nossa, era realmente bom reencontrar uma velha amiga só para levar uma bicuda.
— Eu tô falando dele — Marlene virou-se para ela — Da minha parte, você sabe o que eu sinto. E isso é uma droga, porque não era pra ser assim. Ele vai se casar, Lily! Essa viagem, tudo isso, é um pedido de casamento. Ele só não teve a chance ainda porque descobriu tudo!
— Não importa o que os filmes digam, um relacionamento que começou na mentira, não é pra ser — ela negou com a cabeça — Sério, o cara inventou uma família de mentirinha, uma esposa de mentirinha. Tudo pra não admitir que ele usava uma aliança pra atrair mulheres! Eu não sei como ele vai sair dessa, porque ele não pode nem desabafar pra ela sobre descobrir ter filhos do nada, já que ela achou desde o começo que vocês eram uma família.
— Eu sei, eu sei — murmurou — Mas os problemas dele não são da minha conta.
— Eu nunca quis tanto socar a tua cara.
Marlene cruzou os braços, espelhando-a.
— Mãe, olha só as fotos que eu tirei! — Sarah surgiu do nada, correndo para o seu lado com uma câmera fotográfica nas mãos.
— Educação, Sarah — a repreendeu — Dê um oi pra tia Lily.
— Oi, tia Lily — ela acenou sem nem prestar atenção direito e então voltou a focar na câmera — Aqui! Eu acho que vou virar fotógrafa, sabe. Eu levo jeito pra isso.
— Tudo que uma mãe quer escutar de seu filho — Marlene brincou, mas realmente admirando as fotos que ela tinha tirado — Ficaram muito boas mesmo.
E então, sem esperar por mais nenhum comentário, ela saiu correndo de volta para perto do irmão.
— Não corre na borda da piscina! Você vai escorregar e cair! — Marlene gritou, mesmo sabendo que seria ignorada.
— Eu vivi pra ver Marlene McKinnon sendo uma mãe responsável — Lily debochou.
— Ah, cale a boca — resmungou.
A ruiva levantou-se da espreguiçadeira ao seu lado.
— Eu preciso ir — avisou, ajeitando a tanga no corpo — Mas eu vou te caçar na internet. Se você trabalha com o Sirius, o seu número deve ter em algum lugar.
— Ainda morando em Washington? — ela perguntou, enquanto se despediam.
— Não, nós voltamos pra Liverpool há alguns meses — deu uma piscadela — Odeio estadunidenses.
Observou-a voltar para perto de sua família.
Olhando para a frente, pensou consigo mesma. Como Sirius não tinha esbarrado com James ainda? Ou será que eles já tinham conversado entre si? Bom, ela não teria como saber, quase não tinha falado com ele desde que embarcaram naquela viagem.
Emma aproximou-se dela, sentando-se na espreguiçadeira de onde Lily tinha saído.
— Eu sei que você disse que vocês eram bons amigos... — ela começou, olhando para as próprias mãos.
— Caralho, ninguém me deixa em paz nessa merda — Marlene estressou-se, levantando-se — Emma, me escuta, pela última vez. Para de ficar perguntando o que as pessoas sentem o tempo inteiro. É insuportável! Se as pessoas quisessem falar, elas falariam! E se você tá insegura, o problema tá em você, não em mim, ou no Sirius.
— Mãe!
Não olhou na direção de Sarah, apenas virando-se para ir embora.
Não conseguiu ir tão longe quanto queria, antes de sentir alguém puxar o seu braço.
— Ei! O que foi isso? — Sirius perguntou, irritado.
— Você devia tá consolando a sua namoradinha e não vindo atrás de mim pra encher o saco — retrucou.
— Você causou a situação inteira e agora quer agir como se a culpa fosse nossa?
— Oh! Peraí! Eu causei isso? Não foi você com a sua aliança falsa e as suas mentiras não, né? A culpa é inteiramente minha!
— Você não me contou que...
— Não! Eu não contei! Supera!
Percebeu que os seus rostos tinham se aproximado muito e, antes que pudesse se afastar, Sirius pôs as mãos no seu rosto e a puxou para um beijo.
Cedeu por alguns segundos porque a carne era fraca, mas assim que percebeu o que estava acontecendo, o empurrou.
— Você... você vai casar com a Emma — ela disse, quase catatônica — Não pode fazer isso!
— Não posso te beijar ou não posso me casar com ela? — ele perguntou, parecendo genuinamente confuso.
Se casar.
Não.
As duas coisas.
— Você tá confundindo as coisas — tentou retomar a linha de pensamento, desviando o olhar dele.
— Não, dessa vez não — ele negou com a cabeça — Eu disse pra Emma que não consegui superar a minha ex.
Ela levantou o rosto para olhá-lo.
— Você terminou com ela? — perguntou, chocada — Mas... mas vocês iam se casar! Você ia pedi-la em casamento! Ela não era a "mulher da sua vida"?
— Eu posso ter exagerado um pouco — Sirius murmurou — Achei que não tinha chance contigo, então tentei seguir em frente.
Marlene olhou ao redor, procurando alguma corda imaginária para se segurar.
— Eu não quero que você fique comigo só porque nós temos filhos — ela voltou a virar-se para ele — Eu já tentei manter um casamento por causa deles e não deu certo, porque não funciona assim.
— Acho que o fato da traição também não ajudou muito — ele não conseguiu manter a boca fechada, levando um soco nada delicado no ombro — Lene, eu não tô fazendo isso por causa deles.
Ela sempre odiou conversar sobre sentimentos.
Ele sempre odiou conversar sobre sentimentos.
E agora estavam conversando sobre sentimentos.
E ela estava se repetindo na sua própria cabeça.
— Você tem certeza? — Marlene perguntou — Tem certeza de que tá tudo bem? Que...
— Eu pensei que você achasse pessoas inseguras insuportáveis — Sirius debochou, lembrando-a do que tinha dito à Emma apenas alguns instantes antes.
— Vai a merda!
Ele segurou o seu braço antes que ela pudesse batê-lo de novo, e então se aproximou outra vez.
E, dessa vez, ela não o empurrou.
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