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27/03/2024

Point of view: Lohan Manobal
Bangkok - Tailândia
Quarta-feira

07:30 AM

Debaixo do sol quente que estava no céu de Bangkok, a capital da Tailândia, eu andava apressadamente até o meu serviço, tomando um café gelado enquanto fazia o percurso. Trombei em algumas pessoas por conta do tumulto que estava na calçava, provavelmente não era só eu que estava atrasado para trabalhar.

Após caminhar por bastante tempo, observei a faixada da empresa onde eu trabalhava. Adentrei no local, recebendo os olhares julgadores de algumas pessoas, e de outras recebendo um "bom dia" simples e dócil. Ignorei quem me encarava e respondi quem me deseja um dia bom, me apressando em ir até o elevador.

Entrei em um corredor, clicando apressadamente no botão que chamava o elevador, esperando impaciente até que ele descesse até o meu andar. Enquanto isso, terminei o meu café e fui jogar-lo no lixo que fica posicionado um pouco mais ao lado do elevador. Quando voltei até o elevador, me deparei com a irmã do meu chefe, esperando pelo o elevador que chegou em poucos segundos.

Adentramos no mesmo e deixei que ela tocasse no andar que ela queira, que por coincidência, era o mesmo que o meu. Ficamos em silêncio, apenas sentindo o impacto do elevador subindo.

— Você é o Lohan Manobal, né? — ela perguntou, cortando o silêncio e olhando para mim, me deixando surpreso com a pergunta.

— Isso. A senhorita é irmã do chefe, certo?

— Sim, sim. Me chamo Nicha Yontararak, mas pode me chamar de Minnie.

Assenti, prestando atenção no meu reflexo que estava no espelho do elevador, arrumando o meu cabelo que bagunçou por conta do vento que estava lá fora.

— Você tem quantos anos, Lohan?

— Estou fazendo vinte e quatro anos hoje, por quê? — perguntei, voltando meu olhar para ela.

— Você parece ser mais novo, e meus parabéns!

— Obrigado!

A porta se abriu, e logo saímos lado a lado, porém a garota continuou me seguindo até a sala do meu chefe, conversando comigo durante todo o caminho.

— O que vai fazer hoje? — ela perguntou.

— Nada.

— Podemos sair pra comemorar? Eu, você e...

— Eu sou trans — a interrompi, fazendo ela parar de andar e franzir o cenho.

— O quê?

— Eu sou um homem transsexual. Sabe o que é? — parei de andar e olhei para ela.

— Sei. Eu vou ir pegar um pouco de água. Tchau — ela saiu.

Meus lábios se formaram num sorriso de canto, enquanto colocava uma mão no bolso da minha calça jeans, deixando o meu sobretudo um pouco para trás. Voltei a caminhar até o escritório do meu chefe e bati na porta assim que cheguei, recebendo permissão para entrar.

— Me atrasei de novo, eu sei — disse, assim que entrei. — Você sabe como o trânsito é grande, né? — fechei a porta e me virei para ele, o vendo assentir enquanto sorria.

— Lohan, bom dia! Eu estava olhando pelas câmeras e a minha irmã estava te perturbando?

— Eu dei um fora nela, fique tranquilo — disse, me sentando na cadeira em frente a sua mesa, observando seu sorriso satisfeito.

— Obrigado por isso. Eu não aguentava mais ficar ouvindo ela falar de você. O que fez pra ela largar do seu pé?

— Eu disse que sou trans — cruzei meus braços, suspirando em seguida.

— Por que sempre que você quer tirar alguma garota do seu pé, você fala isso?

— Porque a maioria das garotas estão procurando um cara cis, que tenha um pau e tire foto sensualizando na academia.

Ele riu, entregando um papel para mim, que no caso, era a minha carta de demissão. Porém, tinha outros papéis, e assim que eu os vi, olhei para ele com os olhos arregalados, o vendo sorrindo de orelha a orelha para mim.

— Lohan, eu tenho uma empresa lá em Seul, e quero que você seja o chefe de lá. Bom, eu não confio em mais ninguém para cuidar de lá, a não ser você. Já que irá se demitir pra voltar pra lá, volte como chefe da minha empresa. É muito complicado cuidar de duas empresas ao mesmo tempo.

— Mas eu?

— Sim, Lohan. Vai ser ótimo, pois você irá incentivar mais homens trans a seguirem suas vidas firmes e fortes, e não se suicidarem. E outra: você merece, garoto! Eu sei o quanto você se esforçou trabalhando aqui comigo, então eu tenho certeza que você merece isso.

— Mas, Kunpimook...

— Somos melhores amigos agora, me chame de Bambam, Lohan. Bom, vá embora antes que eu desista da ideia. Ande, rapaz! — sorri e me levantei, indo até o rapaz para agradecer-lo.

— Muito obrigado mesmo! — segurei o choro. — Eu vou cuidar daquela empresa como se fosse a minha vida.

— Assim espero. Ah, Lohan, tenho algo pra você — ele me entregou um presente embrulhado. — Abra quando chegar em Seul, tem uma cartinha explicando o porquê disso. Feliz aniversário, Manobal! — ele me abraçou, e isso fez com que eu não retribuísse, já que foi um ato muito repentino. Porém, eu logo o abracei também, agradecendo profundamente pela oportunidade.

— Tchau, Bambam!

— Tchau, Lohan — ele acenou, enquanto eu me afastava. — Qualquer dia desses eu vou ir ver como anda a minha empresa, e se estiver tudo certo por lá, irei passar-la para o seu nome.

— Obrigado! Vai estar tudo muito bem, eu prometo.

Saí de seu escritório, sorrindo de orelha a orelha enquanto caminhava até o elevador, desejando um bom dia para todos que apareciam na minha frente. Após sair da  empresa, eu me direcionei até o primeiro táxi que vi em minha frente.

— Bom dia, senhora, tenha um ótimo dia — desejei, sorrindo para uma senhora que estava caminhando pela calçada.

— Pra você também, mocinho — sorri enquanto me afastava dela, indo até o táxi que estava apenas a seis passos de mim.

— Bom dia! — desejei, assim que entrei no banco de trás do táxi.

— Bom dia! Qual será o destino?

Falei o endereço da minha casa para ele, e não demorou muito para que ele começasse a dirigir. Observei a paisagem pela janela, apenas apreciando a lindeza que Bangkok tinha. Aquele sol estava brilhando bastante, se destacando no céu azul e cheio de nuvens pequenas, separadas umas das outras. Alguns passarinhos passavam no meu campo de visão às vezes, tendo a minha atenção para os mesmos.

Em alguns minutos, o táxi estacionou em frente a minha casa. O paguei e saí do carro, suspirando alegremente, logo caminhando para dentro da minha casa com um sorriso de orelha a orelha.

Assim que entrei dentro da minha casa, fui logo para o meu quarto preparar as minhas malas, pois irei para Seul amanhã de manhã. Eu comprei as passagens faz um tempo, já que meu chefe e eu estávamos negociando para que eu pudesse me demitir.

Depois que eu fui embora de Seul por motivos triste e felizes ao mesmo tempo, Jennie me bloqueou no Instagram e tornou sua conta privada, proibindo até os seus irmãos de publicar algo sobre ela. Eu não entendi o porquê ela fez isso, já que antes de eu me mudar para cá, a gente estava muito bem, e ela que tinha me incentivado a morar no meu país natal.

Vou explicar quem é Jennie.

Ela é simplesmente a melhor garota. Jennie e eu somos melhores amigos desde a infância. Quando eu estava me descobrindo trans, ela teve a ideia de me chamar pelos pronomes masculinos para ver se eu iria me sentir mais confortável, e isso aconteceu. A partir daquele momento, meu nome mudou para Lohan Manobal, inclusive, foi ela que escolheu meu nome. Eu perguntei qual nome combinava mais comigo e ela falou Lohan.

O nome dela é Jennie Ruby Jane Kim, porém eu chamo ela de Jen, Mandu, Nini, Jendeukie, JenJen ou Jennie mesmo, tudo depende do que eu quero e do meu humor.

Quando eu a chamo de Jennie, normalmente eu estou em um dia normal como todos os outros, o que muda é a entonação. Se eu falar com a voz mais fria o nome dela, quer dizer que estou bravo com ela.

Quando eu a chamo de Jen, quer dizer que eu estou calmo, muito dócil e amigável, já que todos os amigos dela a chamam assim.

Agora Mandu e Nini, é uma história bem fofa. Quando estávamos no colegial, eu tinha o costume de chamar a Jennie de apelidos aleatórios, como por exemplo: cupcake, bolinho de maracujá, urso panda, galinha, fofão — por causa de suas bochechas grandes — e entre outros. Até que um dia, eu olhei para ela e lembrei de um apelido que eu a chamava quando tínhamos cinco anos, que no caso, era Nini. Eu a chamava assim porque não conseguia pronunciar Jennie.

Mandu... eu me lembro perfeitamente em que momento eu decidi que esse seria o mais novo apelido da Jennie. Nós tínhamos comprado bolinhos recheados — Mandu — e fomos comer no Nice To Cu, pois poderíamos fazer bebidas geladas e também era mais barato do que o restaurante.

Aquele dia foi tão incrível...

***

23/09/2015

Point of view: Lohan Manobal
Seul - Coreia do Sul
Quarta-feira

03:30 PM

Eu e Jennie estávamos sentados na mesinha de fora do Nice To Cu, saboreando os Mandus e as nossas bebidas geladas.

Normalmente, quando Jennie comia algo muito bom, ela mastigava que nem uma criança, fazendo um biquinho fofo com seus lábios, e com isso, suas duas bochechas costumavam inflarem um pouco, tornando-as um pouco maiores e bem fofas. Dessa vez não foi diferente, ela saboreava o Mandu como uma criança de quatro aninhos.

— Tá gostoso, bolinho de maracujá? — perguntei, rindo, vendo-a corar no mesmo instante.

— O que foi? — ela colocou a mão em frente a boca, pois ainda estava mastigando.

— Suas bochechas estão recheadas que nem o bolinho — eu ri e ela revirou os olhos, voltando a comer. — Vou te chamar de Mandu quando eu querer alguma coisa.

— Legal. Obrigada por me avisar. Agora eu já sei que quando você me chamar de Mandu, você vai estar querendo alguma coisa, e quando você me chamar de Nini, você vai estar carente e querendo um abraço da sua melhor amiga.

— Muito bem, Mandu — sorri.

— O que você quer? — ela perguntou, antes de comer mais um bolinho. Meus lábios se curvaram em um sorriso quando ela fez isso, pois era muito fofo vê-la comendo.

— Eu quero que amanhã você dê atenção pra mim. Agora que você conheceu a Rosé, não me dá mais atenção. Nem parece que somos melhores amigos. Você me trocou.

— Para de drama, Lohan — ela disse, sem muita paciência comigo, o que não é novidade.

— Eu amo quando você me chama de Lohan — recebi seu olhar julgador, enquanto o meu olhar brilhava em sua direção.

— É o seu nome. Queria que eu te chamasse de quê? Michael Jackson?

— Você e suas doceis palavras — disse, bebendo um pouco da minha bebida.

— Você é tão dramático. Como eu te aguento?

— Você me ama, é por isso que me aguenta — provoquei-a, vendo-a semicerrar os olhos e estalar a língua repetidamente.

— Nos seus sonhos, só se for. Sua mãe me paga pra ser sua amiga — entreabri a minha boca, levando a minha mão para o meu peito esquerdo.

— Você é tão cruel. Como pôde vender a sua amizade? Isso não é coisa que se faz.

— Você é tão sínico.

— E você é tão seca.

28/03/2023

Point of view: Lohan Manobal
Bangkok - Tailândia
Quarta-feira

05:30 AM

Estou sentado no banco do aeroporto, esperando até o meu vôo chegar. A minha ansiedade está a mil, não vejo a hora de reencontrar a Jennie e abraçar-la fortemente, sentir o seu cheiro, o calor do seu corpo, bagunçar seus fios morenos, mesmo sabendo que vou apanhar depois...

Uma ligação acabou interrompendo os meus pensamentos intrusos que, estavam me dando muito espectativa para reencontrar alguém que me excluiu de sua vida...

— Acordado esse horário, Tae? — perguntei, assim que atendi a ligação.

Taehyung é o irmão do meio de Jennie, sendo ela a caçula e a Jisoo a mais velha. Os três têm uma relação muito boa, e o garoto também é o meu melhor amigo.

Meio que quando Jennie começou a andar com a Chaeyoung — que estudava na mesma sala que ela —, eu conheci o Jungkook, o Jimin e o Tae eu já conhecia. Bom, nós três trabalhávamos juntos em uma cafeteria, e isso fez com que nos tornássemos melhores amigos, um quarteto inseparável.

— Pro cê vê, né. Mas enfim, te liguei pra saber se contou pra Jennie que está vindo.

— Como eu iria contar se ela me bloqueou? E eu também quero fazer uma surpresa pra ela.

— Acho que quem vai ter uma surpresa vai ser você.

— O quê? Como assim? — franzi o cenho, olhando para um avião que estava pousando.

— Você vai descobrir quando chegar aqui. Bom, preciso ir agora. Bom vôo, Lo.

— Obrigado!

Suspirei, pensando em várias supresas que eu poderia ter, como por exemplo: Jennie estar casada e com filhos, ou estar namorando, ou estar noiva.

O meu vôo chegou e agora eu estou mais nervoso ainda. Peguei minha mala que eu levaria no avião, e comecei a caminhar, pensando em mil probabilidades de dar errado o nosso encontro, mas agora, não tem mais volta. Foram só três anos, não tem como ter mudado tanta coisa...

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