Catorze
Ele parecia estar distraído olhando para o céu quando eu me aproximei. Ele até acabou se assustando quando eu toquei o seu braço e acabou derrubando o copo-plástico de café que tinha em mãos.
— Oi, Christian. — Eu disse, fitando o policial alto e loiro dos olhos bicolores que estava escorado na viatura em frente à escola.
— Julieta! — Ele descruzou os seus braços e virou o seu rosto em minha direção. Uma linha apareceu entre as suas sobrancelhas claras. — Oi. — Ele disse depois de ficar me fitando por um tempo, e pude ver quando a linha torta em sua boca se desfez dando lugar a um sorriso.
Não, não era apenas um sorriso, era aquele sorriso gentil que ele me lançara na noite passada. — O Que você faz aqui? — Ele pergunta, o seu rosto está um pouco vermelho.
— Eu estudo aqui. — Digo, meus olhos fixos nos dele; isso parece deixa-lo levemente desconfortável e ainda mais vermelho. — E você, o que faz aqui? — Pergunto, mesmo tendo quase certeza de que era ele o policial que o xerife havia pedido para que me levasse até a sua casa.
— Estou aqui a pedido do xerife. — Ele diz, os seus olhos agora estão fixos no chão, os dedos da mão direita entrelaçados aos da esquerda, parece estar envergonhado. É a primeira vez que um homem fica tímido em minha presença, gosto disso.
— Então foi para você que o xerife pediu que viesse me buscar na escola e me levasse até a casa dele? — Pergunto, dando um passo para frente. Agora estamos próximos o suficiente para que eu consiga sentir o cheiro de colônia que vinha dele, juntamente com o seu hálito quente que cheirava a café.
Os seus olhos se ergueram do chão e se encontraram com os meus. Ele riu de repente, e eu senti o meu coração dando uma sacudida e começar a bater rigorosamente. Deus, ele era bonito. *belo era uma palavra fraca para descreve-lo*. A risada durou apenas um momento, mas mesmo quando os seus lábios já estavam sossegados ela deixava traços no seu olhar.
— Céus! — Ele exclama, parece ter se lembrado de algo que havia se esquecido. — Sinto muito por estar rindo. — Ele diz, ainda está um pouco vermelho. Por minha causa ou por causa do sol que brilha forte sobre nós? Pergunto a mim mesma, mas queria mesmo era perguntar para ele. Mas não pergunto. Ao invés disso lhe pergunto outra coisa:
— Por que você está se desculpando? — Me afasto um pouco, isso parece deixa-lo um pouco mais confortável. Foi o que eu pensei, mas então o seu corpo ficou rígido, o peito se encheu e ele assumiu uma verdadeira postura de soldado.
— Você sabe, você acabou de perder a sua mãe... — Ele diz baixinho, evitando levantar o seu tom de voz, como se falar isso em voz alta pudesse me ferir de alguma forma.
— Ela não era a minha mãe. — Digo, a voz mais áspera do que deveria ter sido.
— Me desculpe. — Ele diz, rápido, meio desajeitado. — Eu só... — O interrompo antes que ele comece a se enrolar ainda mais com as próprias palavras.
— Tudo bem. — Digo, tentando parecer normal, mas tenho quase certeza de que a minha voz soou amargamente fria.
— Eu sinto muito mesmo, eu não sabia que ela não era a sua mãe. — Os dedos da sua mão direita continuam a se enroscarem nos dedos da esquerda, ele está nervoso? — De qualquer forma eu sinto muito mesmo pela sua perda.
— Pare de se desculpar, por favor. — Peço. Ele assente com a cabeça baixa, mas depois a ergue, trazendo o seu olhar de encontro ao meu. Não consigo desviar os meus olhos dos dele. Claro que eles são lindos, mas não é só por eles serem cada um de uma cor diferente, há algo neles. Eu só ainda não sei o que é. Vejo uma de suas sobrancelhas se erguer ao que ele balança a cabeça levemente de um lado para o outro. Está sorrindo de lado, me parece um pouco tímido, e eu não sabia o por que até perceber que eu estive o encarando por longos segundos, quem sabe até minutos, e saber disso faz com que eu me sinta envergonhada. Acho que agora quem está vermelha sou eu.
— Podemos ir agora? — Ele pergunta, eu concordo com a cabeça e deixo ele me guiar até a viatura, ele abre a porta do carona e eu me sento e em silencio espero ele dar a volta e sentar-se no banco do motorista ao meu lado.
Ele olha para mim, eu olho para ele, nenhuma palavra é dita. Ele liga a viatura e segue rumo a casa do xerife.
A viatura para em frente à casa do xerife. Consigo escutar o motor se desligando, Christian suspirando lentamente e virando o seu rosto em minha direção. Desgrudo os meus olhos da janela e os levo de encontro aos dele. Ele sorri.
— Chegamos. — Ele diz. As palavras saem apressadas por sua boca junto com uma lufada de ar, é como se ele tivesse prendendo a respiração e as palavras desde que entramos no carro e só estivesse conseguindo respirar agora.
— Acho que isso é um adeus. — Minha mão está sobre a maçaneta da porta do carro, pronta para abri-la a qualquer momento, mas os meus olhos não deixam os dele. Não consigo desvia-los.
— Acho que isso é um até logo. — Ele diz, está sorrindo.
— Então até logo. — Digo, e então me despeço dele com um olhar, descendo do carro logo em seguida e andando até a porta da casa do xerife. Não me atrevi a olhar para ele nenhuma vez sequer enquanto percorria esse pequeno trajeto do carro até a porta da casa do xerife. O carro era silencioso e não fazia barulho algum ao dar partida, e isso me deixou muito tentada em querer me virar para ver se ele estava ali ainda, me observando enquanto eu andava até a casa do xerife, ou se ele simplesmente foi embora logo após eu ter descido da viatura.
Ao chegar na porta, finalmente crio coragem para olhar para trás, mas não o encontro. Ele já havia se ido. Enquanto torno a me virar para a porta, meus olhos acabam avistando o carro de Victor estacionado na garagem. Suspiro e volto a minha atenção para maçaneta da porta, levando minha mão até ela para verificar se a porta estava aberta. Estava.
Suspiro mais uma vez, desta vez mais profundamente. Antes de abrir a porta para entrar, inspiro o máximo de ar que consigo, enchendo os meus pulmões de oxigênio, como se tivesse medo que ao entrar, eu não fosse mais capaz de respirar. Mas acabo os esvaziados logo em seguida ao abrir a porta e avistar Victor sentado no sofá próximo a porta onde eu estava.
Logo ao entrar ouço a voz de Victor sussurrar baixinho.
— Oi... — Os seus olhos azuis se erguem do chão e vem de encontro aos meus.
Não o respondo. Termino de entrar, fecho a porta e encosto as minhas costas nela. Como se ela fosse um tipo de apoio que me impedisse de cair. Respiro fundo, tento parecer calma, mas o meu coração parece estar pronto para explodir a qualquer momento.
Finalmente crio coragem para encara-lo nos olhos. Penso no quão belo ele é, no quanto seria fácil confundi-lo com um anjo. E no quanto as aparências enganam, pois ele é um monstro.
Não sei ao certo se o que eu sinto ao olhar em seus olhos é tristeza; ou se é raiva. Quem sabe um misto dos dois. Ele me deixa tão confusa e perdida que me arrisco a dizer que o que ele me faz sentir são um milhão de coisas e sentimentos diferentes. Tudo e todos ao mesmo tempo. E isso faz com que eu sinta como se eu estivesse me afogando. Como se Victor fosse para mim um enorme tsunami que devasta, destrói e arrasta consigo tudo por onde passa.
Eu estou me afogando!
Não consigo mais respirar. Ele percebe isso e se levanta e começa a andar em minha direção. Eu entro em pânico, e ele parece perceber isso também, pois para de andar. Estendo a mão esquerda pedindo para que ele se afaste, ele obedece e da alguns passos para trás, enquanto isso mantenho a minha mão direita sobre o peito acelerado tentando me lembrar de como se respira.
Victor não está mais se aproximando de mim, e isso parece fazer com que o meu corpo finalmente entenda que se entrar em pânico novamente me fazendo ter de respirar no modo manual, eu vou acabar morrendo asfixiada e então ele torna a assumir o modo automático de novo, e respirar volta a ser a coisa mais fácil do mundo.
— Achei que você tivesse treino. — Digo, a minha voz não parece tão minha agora, e ela machuca ao sair pela garganta seca. Levo uma das mãos a garganta ao perceber que preciso de um copo de água. Mas ela acaba deslizando da garganta, e não tenho noção do que estou fazendo até perceber que estou deslizando os dedos sobre as partes em que a boca de Victor me tocou na noite passada. Sinto como se eu fosse chorar a qualquer momento, e estou pronta para isso, para transbordar. Mas não derramo nenhuma lagrima sequer. A vontade de chorar permanece no peito, e as lagrimas nos olhos. O choro não rasga a minha garganta para sair como acontecia antigamente, e as lagrimas não fluem para fora. Fica tudo preso dentro de mim. Quero gritar. Me calo. O encaro, ele está paralisado encarando o chão.
— Meu pai disse que você estava vindo para cá. — Ele diz, a voz fraca, ele tenta, mas não consegue me olhar nos olhos e então permanece fitando o chão. — Podemos conversar? — Ele pergunta, suas mãos estão entrelaçadas em frente ao seu corpo, elas tremem.
Tento juntar saliva o suficiente para limpar a garganta e deixa-la menos seca, mas não sei se só estou fazendo isso por estar de fato com a garganta seca, ou para ganhar tempo pois não sei como responde-lo, ou como continuar falando com ele sem que isso me faça desabar.
— Já estamos fazendo isso agora. — Digo por fim.
— Sobre ontem à noite. — Ele diz, parece finalmente ter criado coragem para me encarar nos olhos, e quando o faz, sinto-me me afogar novamente, desta vez, nos seus olhos cor-de-oceano. Seus lábios se contorcem em uma careta, ele parece estar com dor. Mas sou em quem havia sido destruída na noite passada, não ele. Foi EU quem ELE destruiu na noite passada. Era eu quem deveria estar com dor, e eu estou, mas ele não deveria parecer estar tão afetado assim, porque ele é um monstro e monstros não sentem nada!
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