ATO IV; noites solitárias, para corações solitários.

❝ Tudo que desejamos, tudo que tememos não possuir, tudo que, no fim, acabamos comprando, é porque, no fim das contas, nós ansiamos por amor, desejamos ter mais tempo, e tememos a morte. ❞

Whit Yardsham;

(🧭)

F e l i x

Meu cochilo estava arrebatado de sonhos perturbadores. O rosto de Seungmin se misturava com imagens sangrentas de edições anteriores dos Jogos Vorazes. E com minha mãe afastada, e inalcançável. Acordo berrando para que meu pai corra, porque a mina está explodindo em um milhão de pedacinhos mortíferos de luz. Na manhã de hoje, a Capital está com um ar enevoado e fantasmagórico.

Minha cabeça doía e devo ter mordido a parte interna de minha bochecha, durante a noite. Passo a língua na carne áspera e sinto gosto de sangue na boca. Lentamente, arrasto-me da cama até o chuveiro. Aperto arbitrariamente alguns botões no painel de controle, e acabo saltando no boxe, quando jatos de água gelada e quente alternam seus ataques sobre meu corpo.

Então, sou inundado de espuma com aroma de melancia, que sou obrigado a esfregar no corpo com uma pesada e dura escova. Bom, pelo menos meu sangue está fluindo. Depois de me secar e aplicar uma loção hidratante, encontro um traje que foi deixado para mim em frente ao closet. Calças pretas justas, uma túnica verde de mangas compridas e sapatos de couro.

Penteio os cabelos com uma única mão, e voilà. Essa é a primeira vez em que estou parecendo comigo, desde a manhã da colheita. Nada de penteado ou roupas extravagantes, nada de pelerines. Somente eu. Como se estivesse indo para a floresta. Isso me deixava calmo. Changbin não nos deu uma hora exata para o encontro no café da manhã e ninguém me contatou. Mas estou faminto, de modo que me encaminho para a sala de jantar na esperança de encontrar comida.

Não fico decepcionado por ninguém ter aparecido. Apesar da mesa vazia, um longo aparador que fica ao lado foi abastecido com pelo menos vinte tipos de iguarias. Um jovem Avox, está atento nas proximidades da mesa. Quando pergunto se posso me servir, ele balança a cabeça em aquiescência.

Encho um prato com ovos, salsichas, bolos cobertos com uma densa camada de geleia de laranja e fatias de melão. À medida que ponho tudo para dentro, observo o sol se erguendo sobre a Capital. Faço um segundo prato com grãos quentes envoltos no vapor de bife cozido.

Minha mente vagueia até minha mãe. Ela já deve estar de pé, preparando o angu que ela come de manhã e depois tirando o leite da cabra. Há apenas duas manhãs, eu estava em casa. Será isso mesmo? Sim, apenas duas manhãs.

O que eles disseram ontem à noite sobre minha estreia feérica nos Jogos? Será que isso os deixou esperançosos ou simplesmente aumentou sua sensação de terror, quando viram a realidade de vinte e quatro tributos enfileirados, cientes de que somente um poderá escapar com vida?

"Em duas semanas, vinte e três de vocês estarão mortos, talvez um de vocês esteja vivo. Vai depender de quão bem você presta atenção nos próximos três dias. Particularmente para o que estou prestes a dizer.

Primeiro, sem brigas com os outros tributos, você terá muito tempo para isso na arena. São quatro exercícios obrigatórios, o restante será treino individual. Meu conselho é não ignorar as habilidades básicas de sobrevivência.

Todo mundo quer pegar uma espada, mas a maioria de vocês morrerá de causas naturais, dez por cento de infecção, vinte por cento de desidratação. A exposição pode matar tão facilmente quanto uma faca."

Treinamento.

Era tudo para avaliar um ao outro. Pelo menos é o que parecia. Todos usavam as mesmas camisas pretas com mangas justas listradas de marrom e cinza, seus números de distrito costurados nas costas, mas por algum motivo a distância entre todos parecia erroneamente grande. Temia treinar desde o primeiro dia, porque tudo isso era para induzir o medo, e não para treinar alguém; ninguém se tornaria um profissional dentro de apenas duas semanas.

As verdadeiras salas de treinamento ficam no subsolo do edifício. Com esses elevadores, a viagem não dura mais do que um minuto. As portas se abrem para um enorme ginásio repleto de diversas armas e sequências de obstáculos. Embora ainda não sejam dez horas, somos os últimos a chegar. Os outros tributos estão reunidos em um círculo retesado.

Assim que nos juntamos ao círculo, a treinadora principal, uma mulher alta e de porte atlético chamada Jisoo, dá um passo à frente e começa a explicar como será a rotina de treinamento. Os peritos de cada habilidade permanecerão em suas estações.

Nós ficaremos livres para transitar de uma área para outra, de acordo com a escolha que fizermos, seguindo as instruções de nosso mentor. Algumas estações ensinam técnicas de sobrevivência, outras técnicas de combate. Nós somos proibidos de nos engajar em qualquer exercício de combate
com outro tributo. Há assistentes à disposição, se quisermos praticar com algum parceiro.

Parecia que todos eles já tinham opções de armas em mente. Mesmo alguns dos Tributos Distritais menos favorecidos, estavam testando facas, machados e espadas. Após o café da manhã de hoje, Changbin e Jisung nos questionaram sem parar sobre as habilidades que nós tínhamos. E tenho certeza, de que nunca tinha visto a quantidade de decepção no rosto de uma pessoa antes.

Nós éramos totalmente sem esperança.

Pra começar, nunca havia tocado em armas. A coisa mais próxima que já toquei, foi em um arco quando tinha cerca de quatorze anos. Minha mãe me deu um velho arco e flecha. Meu pai me ensinava a atirar por medo, mas fazia tanto tempo que não segurava um. Tentar sobreviver cortando carvão o dia todo, tinha sido um pouco mais urgente, do que tentar manter as habilidades de tiro.

Quando Jisoo começou a ler a lista das estações de habilidades, não consigo evitar algumas olhadelas nos outros tributos. É a primeira vez que estamos todos reunidos no mesmo nível, e com roupas comuns. Meu ânimo desaba. A maioria de todos os garotos e, pelo menos, metade das garotas são maiores do que eu. Embora muitos deles nem tenham sido adequadamente alimentados. Dá para ver pelos ossos, pela pele e pelo olhar vazio de alguns deles.

Para a surpresa de todos, eu e Seungmin tínhamos a magreza em nossos olhares.

As exceções são os garotos dos distritos mais ricos. Os voluntários. Aqueles que foram alimentados e treinados durante toda a vida para esse momento. Os tributos dos Distritos 1, 2 e 4 são tradicionalmente, assim. É tecnicamente contra as regras, treinar tributos antes que eles cheguem à Capital, mas todo ano isso acontece.

No Distrito 12, nós os chamamos de Tributos Carreiristas ou, simplesmente, Carreiristas. E quase sempre o vencedor é um deles. Ainda assim, não conseguia evitar que meus olhos olhassem para os arcos, enquanto os outros começavam a ir para diferentes circuitos para praticar. Nunca tinha visto tais arcos antes ― eles eram de metal e pesados.

― Quer tal irmos para a estação de camuflagem?

Olho para os tributos que estão se exibindo, claramente estavam tentando intimidar a todos. Então, olho para os outros, os subalimentados. Os incompetentes, recebendo com os corpos trêmulos, as primeiras lições com uma faca e com um machado.

― Ótima ideia. - digo.

Atravessamos o ginásio em direção à estação vazia, onde o treinador parece grato por receber alunos. Eu tenho a nítida sensação, de que a aula de como fazer nós, não é uma das grandes atrações dos Jogos Vorazes. Quando percebi que tenho alguma noção de arapucas, o treinador nos mostra uma armadilha simples, porém excelente para deixar um competidor pendurado numa árvore por uma perna.

Nós nos concentramos nessa habilidade específica, por uma hora até os dois adquirirem pleno domínio sobre o processo. Havia tantas opções; internalizei muitas maneiras de morrer.

Estação de arremesso de facas, combate corpo a corpo, estação de plantas, escalada, fabricação de fogo, arco e flecha, luta de espada, arremesso de lança, empunhar machado, construção de abrigos...

Certeza, que iria morrer para uma dessas coisas. O pensamento me fez estremecer rapidamente, então corri atrás de Seungmin até o carrinho, movendo-me para observá-lo abrir algumas tintas habilmente.

― Você pinta? - perguntei franzindo a testa.

Seungmin parece genuinamente adorar essa estação, esfregando na pele clara uma combinação de lama, argila e extratos de frutas silvestres, tecendo disfarces a partir de galhos de vinhas e folhas. O treinador que coordena a estação de camuflagem, está bastante entusiasmado com o trabalho dele.

― Sim, - ele admitiu, com uma pequena risada, saindo de seus lábios. - minha mãe é dona da padaria em Seam, você sabe disso, certo? Eu já vi você visitar o mercado antes. Enfim, sou eu que decoro as sobremesas.

Me senti um pouco envergonhado, em saber que ele tinha me visto por lá. Seam era um mercado desprezado pela maioria das pessoas mais ricas. Não que Seungmin fosse rico, ninguém no Doze era "rico", além do prefeito designado e sua família, mas ele estava em melhor situação do que eu.

Olho mais criticamente para o desenho no braço dele. Os padrões alternantes de sombra, sugerem a luz do sol penetrando nas árvores da floresta. Imagino como ele conhece esse efeito, pois duvido que já tenha ultrapassado a cerca alguma vez. Será que foi capaz de sacar a coisa só olhando para aquela velha, e descarnada macieira que ele têm no quintal de casa?

Mostrava como suas bochechas eram redondas e como suas mãos estavam ilesas. Ele era tão diferente de mim em termos de vida, mas provavelmente não vivíamos a menos de um quilômetro de distância. A verdade era que um garoto como ele, nunca teria falado comigo.

Talvez em qualquer outra situação, eu teria ficado nervoso e com certeza me esquivado, quando os olhos castanhos brilhantes dele, se voltaram para mim. Mas do jeito que as coisas estavam, não conseguia pensar em coisas como beleza, agora. Nunca tive tempo para ficar me preocupando com coisas assim.

― Mostre-me, como se pinta?

Seungmin sorriu para mim. Não esperava que seu sorriso fosse tão reconfortante.

― Se algo acontecer, - ele começou depois de um momento, pegando em minha mão.- e, por alguma razão, todo esse prédio explodir e nós sobrevivermos, eu vou te dar pão de graça para sempre! Mesmo que minha mãe grite por isso.

Comecei a rir.

― Até o pão de passas?

― Inferno! - Seungmin riu, silenciosamente. - Se algum dia sairmos daqui vivos, eu daria a você qualquer coisa da padaria. Biscoitos e tudo.

― Biscoitos e tudo!

Parece que estavamos fazendo um acordo. Conspirando. Nós dois começamos a dar pequenas risadinhas e, por um curto período, achei fácil esquecer o que está acontecendo. E apenas observar as cores girando em minha pele, enquanto ele pintava flores e raízes em meus dedos.

É uma pena. Talvez pudéssemos ter sido amigos. Mas, só poderíamos ter momentos assim. Onde tudo é calmo, gentil e pacífico; onde posso me perguntar em silêncio, como as coisas poderiam ter sido. Infelizmente, nada pode fazer-me esquecer completamente de onde estamos, porque havia uma janela grande e transparente acima de nós, onde conseguíamos ver os Idealizadores dos Jogos festejando.

Sêneca Crane. O Head Gamemaker continua a olhar para todos os Tributos, como uma criança ganhando um presente de aniversário. Como se nós ― ou todas as mortes ― fossem o presente mais incrível que ele já havia recebido. Talvez fossemos como pedaços de carne para eles.

O pensamento me faz perguntar baixinho.

― Você acredita que temos uma chance?

Seungmin olhou de relance, enquanto largava o pincel.

― Felix. Isso é um jogo, todos sabemos o final. Pessoas como nós, nunca vencem.

Pensei sobre isso pelas próximas horas. Não parava de refletir sobre o assunto, até enquanto praticavamos amarrar nós, e iniciar incêndios ― sou muito bom em ambos, devido a gastar muito tempo iniciando incêndios na lareira de casa, e amarrando lonas no telhado.

Minha cabeça estava latejando, este mesmo assunto não saiu da minha cabeça, mesmo quando decidimos fazer uma pausa, e ir até os bebedouros para aguardar na fila. A única coisa que me tirou dos meus pensamentos, foi quando ocorreu um zumbido rápido perto da minha orelha, como o de um corte sendo lançado no ar.

E então, o bebedouro à frente começou a vazar. Uma faca havia sido arremessada. Prendi a respiração, quando escutei um punhado de gargalhadas.

Os Carreiristas sempre fazem as malas juntos, é a rotina deles todos os anos. Logo não fico surpreso, ao vê-los reunidos em um círculo. A garota do Distrito Dois, Jung Yi-Seo, provavelmente com menos de quatorze anos, está girando uma faca entre os dedos, gargalhando alto. E de brinde, hove uma provocação lançada.

― Você terminou de colorir, Doze? Quer brincar com as crianças grandes, agora?

Não ousei responder, não porque estou apavorado - puta que pariu, e como estava - mas porque há uma bolha de algo perigoso sob minha pele, e ele está... ele está irritado. Um dos tributos no círculo, não estava sorrindo.

Hwang Hyunjin, estava carrancudo. O garoto estava olhando para a menina de seu próprio distrito. Em seguida, se moveu para pegar a faca da mão dela, e em um segundo, todos na sala estavam inteiramente congelados.

Os soldados sacaram suas armas, e imediatamente ficaram em alertas.

― Doze é meu. - Hyunjin disse, segurando a faca perigosamente pela lâmina, girando-a sem se preocupar em se cortar.- Eu vou ser o único a matá-lo. E o que eu digo, vale! O. Doze. É. Meu.

Hyunjin ao menos olhou para mim, ele simplesmente largou a faca no chão com um estrondo, e foi em direção ao elevador. Todos abriram caminho, provavelmente porque Hwang Hyunjin é um louco.

Corri para me esconder dentro da estação de construção do abrigo. Minha respiração estava em uma explosão forte e trêmula. Assim que dei as costas para sair de lá, tudo voltou ao normal. Eles continuaram como se eu não estivesse pálido como um papel e quase desmaiando, mas não estava tremendo porque estava com medo. Eu sentia raiva, muita raiva. E decidi, que naquele momento, que eu odiava Hyunjin, com todas as minhas forças.

Após o fatídico ocorrido, todos ouviram sobre o incidente. Provavelmente porque os Gamemakers observaram tudo, e todos durante o treinamento. Eu não precisava de mais pena. Então, assim que eu e Seungmin voltamos do treinamento, tentei me esconder no meu quarto.

Eu deveria saber nessa altura do campeonato, que não daria muito certo. Porque, assim que entrei na cobertura, mãos afundaram sobre minha pele. Me arrastando de volta para o elevador. O sigo até uma escada que leva ao telhado. Onde há uma pequena sala em formato de domo, com uma porta para o exterior.

Assim que entramos, e sentimos o vento frio da noite, fico perplexo com a vista. A Capital pisca como um vasto campo repleto de vaga-lumes. A eletricidade no Distrito 12 não é algo constante. Normalmente,
contamos apenas com algumas horas diárias de luz. Frequentemente, as noites são passadas à luz de vela. A única ocasião em que podemos contar com a luz, é durante as transmissões dos Jogos ou quando alguma mensagem importante do governo é veiculada. E somos obrigados a assistir. Mas aqui não há racionamento de energia. Jamais haveria. Pois, sempre fui apaixonado por luzes.

Jeogin e eu caminhamos até um parapeito na borda do telhado. Olho bem para baixo, em direção à rua, que está cheia de gente. Dá para ouvir os carros, um grito ou outro e um estranho ruído metálico. No Distrito 12, a uma hora dessas, todos já estariam pensando em ir para a cama.

― Não chegue muito perto!

Uma mão agarrou meu braço, outra vez.

Lancei um olhar confuso e repreendido para Christopher. Mas o mentor apenas pressionou um sorriso de boca fechada em seus lábios, e sussurrou.

― Campo de força.

A palavra campo de força, vindas de um homem que matou várias pessoas, apenas com um estalar de dedos. Me fez recuar, mas não passou despercebido, Bang Chan se afastou rapidamente, também.

― Venha aqui, - Jeogin chamou, movendo-se para sentar no chão, bem no meio do telhado. - precisamos conversar.

― Por quê? - suspirei. - estou muito cansado, hyung. Não podemos deixar para outro dia?

― É bem simples, você não sabe metade das coisas que fazemos. - Jeogin me cortou com a voz firme. - Agora. Sente-se aqui, Christopher.

Minha mente parecia estar totalmente confusa e sem esperança. Como se preferisse apenas sucumbir, à morte futura que estava me aguardando. Eu estou muito cansado, para continuar a viver.

―Primeiro de tudo, - Bang Chan começou, enquanto se movia para sentar na beira de um canteiro de flores, ao lado de Jeogin. - Ninguém pode te ouvir aqui em cima, então você pode falar o que quiser.

Apenas o olhei.como um cachorrinho perdido. Ele suspirou, e continuou.

― Você mostrou ter alguma habilidade útil, aqui?

Mordia os lábios. Enquanto cruzava as pernas, e mexia distraidamente em uma das cordas da calça, que usava naquele momento. Do outro lado do domo, construíram um jardim com leitos de flores e árvores.

― Eu sabia atirar e eu... não sei, sou bom com plantas e outras coisas.

Christopher olhou para mim com expectativa.

― Costumava ser?

― Meu pai costumava ser um necrófago para os Peacekeepers. - fiz uma pausa, o rosto caindo. - Mas acabou se tornando ilegal, depois ele trabalhou nas minas... então, sim.

Minha mãe tinha um livro que trouxera do boticário. As páginas eram de pergaminho bem antigo, e cobertas de desenhos de plantas feitos a nanquim. Palavras muito bem desenhadas indicavam os nomes delas, o local em que poderíamos colhê-las, onde elas floresciam e suas utilidades medicinais. Mas meu pai acrescentou outros itens ao livro. Plantas comestíveis, não curativas. Dentes-de-leão, erva-dos-cancros, cebolas selvagens, pinheiros.

No dia seguinte, não tínhamos aula. Zanzei um pouco pela Campina, e por fim arrumei coragem para passar por baixo da cerca. Era a primeira vez que eu ia lá sozinho, sem as armas de meu pai pra me proteger. Mas recuperei o pequeno arco e as flechas que ele fizera para mim, e que estavam guardados no oco da árvore. Provavelmente não adentrei mais do
que vinte quilômetros na floresta, aquele dia. Na maioria das vezes, fiquei empoleirada nos galhos de um velho Carvalho.

Jeogin e Chan estavam me encarando há minutos, nenhum dos dois realmente sabendo o que dizer. Antes recomeçar com um longo suspiro, e esfregar os olhos.

― Sério, - disse reclamando - foi um longo dia e eu realmente preciso tomar um banho. Eu nem mesmo... você não deveria ir ajudar o seu próprio tributo?

― Não tenho nada para ajudar. - Christopher imediatamente lançou à mim, um olhar severo, quando me levantei. - Sente-se, garoto.

Então obedeci, com uma respiração bastante dramática e uma expressão amuada. Era um biquinho fofo e muito cativante. A combinação perfeita com meus olhos estrelados.

― Eles já estão à frente, - Chan acrescentou, esfregando sua têmpora. - e nós... bem...

Jeogin o interrompeu.

― Queremos te ensinar a como se livrar de um Dois.

Olhei através de seu cabelo, em seguida para ele.

― Eu não sou seu tributo, por que você...

― Apenas aceite nossa ajuda. Agora, escuta o que nós temos a dizer!

Jeogin se moveu para rastejar até meu espaço, o ancião não perguntou ou disse uma palavra. Até que ele me empurrou no chão, e pressionou seu antebraço na minha garganta.

Agarrei seu pulso por instinto, com os olhos arregalados.

― A maioria dos tributos vão te deixar assim, certo? Todos eles aprendem como alfinetar alguém. - Jeogin sussurrou, a respiração soprando em meu rosto, os olhos procurando. Ele se moveu para montar em uma das minhas coxas, apertando-a firmemente. - Eu vou te empurrar para baixo, ok? Vai doer, mas esse é o ponto. E preciso que você me ouça, mas não entre em pânico.

Não entrar em pânico, era uma coisa enorme para se pedir. Porque, é claro, assim que Jeogin pressionou contra minha garganta e colocou todo o peso do seu corpo contra o meu, é... eu entrei em pânico!

Eu não conseguia respirar.

― Não agarre meu braço. - o garoto de cabelos rosas ordenou. - Não! Use o seu cérebro. Você precisa colocar um pé no chão e empurrar. Pare de agarrar. Felix!

― Jeogin, ele não está pronto! - Chan se exaltou, movendo-se para pular e agarrar as costas da camisa de seu companheiro. - Ele não...

― Ele vai morrer se não o ensinarmos. - Jeogin não desviou o olhar, e nem se importou ao ver o horror em meu rosto, ele apenas pressionou mais forte seus quadris. - Felix, vou repetir de novo! Coloque o pé no chão e impulsione. Ao mesmo tempo, agarre meu ombro e empurre. Faça isso, agora!

Nesse ponto, já estava ficando sem ar, então não tive outra escolha. A não ser ouvir, porque fisicamente não conseguia me mover, e agora Christopher estava gritando. Pressionei o calcanhar com força no chão e empurrei Jeogin para longe de mim, com toda a força que ainda me restava, o ancião escorregou para o lado e imediatamente sorriu.

Merda. Estava ofegante, com as pálpebras dos olhos quase fechando, e lutando por ar.

― Eu disse que ele poderia. - Jeogin sussurrou excitado, deixando Christopher cair no chão e tirar o cabelo do meu rosto, enquanto acariciava a linha vermelha na minha garganta.

― Respira, querido. Eu sei que é difícil. - Chan sussurrou. - Desculpe. Hyungs, estão arrependidos. Desculpe.

Tossi por breves segundos, antes de rolar para o lado, enrolando-me de uma forma que fez minha testa pressionar no colo de Chan. Dando ao ancião a chance de acariciar meu rosto, fazendo movimentos suaves. O garoto fada, esfregou os arranhões em seu antebraço antes de se aproximar, para friccionar uma mão apologética sobre o lado do pescoço que estava ferido.

― Hyung está arrependido. Me desculpa, mas você tem muito a aprender, certo? Nós vamos te ensinar. Eu vou te ensinar.

Então, os três dias seguintes transcorreram com ensinamentos e ensinamentos, as viagens que basicamente, eram as mesmas todos os dias. O que variava, eu seguindo Seungmin como um cachorrinho perdido e Hyunjin estreitando os olhos, quando chegava perto demais. No final da contas, aprendi muito mais com eles, do que com as idas diárias ao Centro de Treinamento.

Mas o que achei mais suspeito, foi que Hyunjin não disse nada.

Sim, meus amigos, o tributo dois não abriu a boca para participar dos tópicos e sons de zombaria das outras carreiras envolvidas, ele apenas meio que... reparou.

E isso só me assustou dez vezes mais, então apenas fiquei disfarçado, e assim que o alarme soou, sinalizando que estávamos livres para ir, vazei correndo até o telhado. Bang Chan ensinou-me diferentes técnicas de sobrevivência, até mesmo sobre plantas e primeiros socorros, coisas que lembrava de forma rápida, da época que meu pai ensinava-me quando era muito jovem.

Jeogin me ensinou a lutar, mas eu não era nada bom nisso e não ajudava, que de vez em quando, não conseguia conter as risadas, quando ele pegava um objeto aleatório - como uma colher - e exigia para fingirmos que era uma arma.

Armas não eram permitidas fora do Centro de Treinamento, de certa forma, entendia o que Jeogin estava tentando fazer, mas eu não estava conseguindo me controlar. Foi hilário. Não era demais afirmar, que havia ficado bastante confortável conviver com a presença deles. Confortável o suficiente, pelo menos, para finalmente perguntar, enquanto fazíamos uma pausa para comer os lanches que Chan correu, e pegou para dividirmos.

― Hyung, como você sabe tanto sobre como o Distrito Dois funciona?

Jeogin agiu de maneira inusitada, parecia que eu tinha acabado de atirar nele, totalmente surpreso e um pouco assustado. Christopher olhou entre nós dois, ajeitando os óculos em seu nariz, antes de voltar a folhear seu livro.

― É um segredo.

Ué, não havia compreendido nadinha do que ele queria dizer. Peguei mais um punhado de morangos e os coloquei na boca, depois de mastigar engolir, disse num murmuro.

― Sou bom em guardar segredos, hyungs.

O garoto de cabelos rosas, passou a língua no interior de sua bochecha. Ele esfregou sua cavidade bucal e estendeu a mão para dar à mim, toda a caixa de frutas - poderia comer o dobro de meu peso, se quisesse.

―Ok, bem... - Jeogin mordeu o lábio. - Na verdade, não sou do Capitol. Sou do distrito dois. Eu... minha mãe ganhou os Jogos quando eu era jovem. Nos mudamos para o Capitol, quando eu tinha dez anos.

Minhas sobrancelhas se ergueram em surpresa, mas não foi tão chocante, considerando que eu era bastante jovem. Hum, teria apenas oito anos na época em que a mãe de Jeogin ganhou os Jogos; é claro que uma criança não teria permissão para assistir. Também não era incomum que os vencedores viajassem pelos lugares que quisessem. Ser famoso certamente tinha suas vantagens. Mas, percebi depois de um momento, que se Jeogin tivesse apenas dez anos, e ele sabia de tudo isso. Então, isso significa que...

― Eles ensinam essas coisas para crianças?

Não era uma pergunta, apesar de ter sido formulada assim, porque eles já sabiam a verdade.

Eu também, sabia. O Distrito Dois abrigava as pedreiras e pedreiros do país; eles também construíram armas. Seus tributos sempre foram fortes e bem arredondados. O que mais o Distrito Dois poderia fazer, além de treiná-los desde a tenra idade?

Enojado, comecei a me setir mal. Coloquei a fruta que estava comendo para o lado.

― Felix, - Christopher mudou então, largando seu livro e se inclinando para mais perto. - Dois, é onde os Pacificadores são treinados. Recrutados. As armas são feitas e testadas. Somos treinados desde os quatro anos de idade.

Estava horrorizado, aproximei as pernas para mais perto do meu corpo, com os olhos fixos no livro no chão e engolindo em seco.

Quatro anos de idade.

Conseguia sentir que eles estavam dizendo a verdade; não tinham razão para não fazê-lo. eu podia ver e sentir a dor de cada um, por terem que admitir tal coisa. Dizer tudo o que estava enclausurado dentro de si, em voz alta e com cada palavra era torturante. Que Christopher havia passado tanto tempo de sua vida mergulhando a cabeça em livros e conhecimento. É como se ele não tivesse outro motivo para viver. Doía.

Outro dia, quando caí feio no chão e me desculpei por ser tão fraco, Chan recitou: "Ser forte não é uma característica física, você pode ter um corpo forte, um coração forte ou uma mente forte." Foi a maneira como ele disse - como se fosse um mantra, como se estivesse gravado na minha pele, que me fez refletir sobre isso, agora.

Talvez fosse isso que seus pais diziam à eles quando crianças. Talvez eles os tenham feito escolher uma dessas categorias para se enquadrar. Christopher não era forte da mesma forma que Jeogin era, não. Ele era grande e forte, mas toda vez que ele se oferecia para me ajudar, era apenas para desenvolver uma mente forte.

Jeogin me ajudou a construir um corpo forte. Ou, ele tentou, e tentou tanto que às vezes só queria gritar para ele parar de tentar, porque estava pronto para desistir. Eu não tenho uma mente forte. Eu não tenho um corpo forte. E com certeza, não tenho um coração forte, mas dentro de todas essas notícias e a realização, veio outra coisa. Todos eles conheciam Hwang Hyunjin.

Desde o primeiro dia. Todos o arrastaram pela orelha e já o conheciam, e o repreenderam, gritaram com ele e... Eram amigos. Lágrimas reais picaram sobre os meus olhos, quando finalmente percebi. Momentos depois, que tudo isso... tudo isso foi por pena. É claro que estava presumindo, que sim. Eles realmente não precisavam fazer nada disso, mas a confirmação foi como um soco no peito.

Não estavam fazendo isso porque se importavam, estavam fazendo isso, porque Hyunjin iria me estripar. E eles sentiram-se mal, ao ver seu amigo lutar contra um oponente tão fraco. Que show lamentável seria - assistir a gratificação de me ver chorando, contorcendo de dor e soluçando, enquanto era morto apenas por alguns momentos de alegria.

― Felix? - Jeogin se preocupou, estendendo a mão para tocar meu queixo, levantando minha cabeça. - Ei, por que você está chorando? Hyungs estão aqui, babydoll. Tem alguma coisa errada ou incomodando você?

Na verdade, tudo estava errado e nada ao mesmo tempo, sabia que não podia nem ficar com raiva. Não seria justo se soubessem que iria morrer, porque todos sabiam que eu morreria. Foi uma pena. Porque, mesmo que por um breve momento, pensei que poderia viver. Talvez. Talvez. E por um tempo, ponderei de como seria a vida se eu sobrevivesse, nunca mais teria que trabalhar para conseguir comida.

E nunca teria que me preocupar em estar com fome. E nunca teria que sentar em uma cabana em ruínas, onde o telhado era arrancado, com cada tempestade que passava. Era realmente patético que tinha conseguido esquecer, que não estavam me ajudando, mas sim tornando os Jogos mais interessantes para eles. Levantei-me de forma abrupta, ao mesmo tempo em que soltei um sussurro.

― Acho que vou treinar sozinho.

Eles olharam em minha direção de forma chocada, Christopher conseguiu agarrar meu pulso antes de chegar ao elevador. E a essa altura, já tinha lágrimas escorrendo por todo o rosto. Minhas bochechas ainda estavam raspadas, quando Jeogin me prendeu no cimento mais cedo.

De alguma forma, quando chorei, as menores ações parecerem totalmente devastadoras. A forma como minhas narinas se dilataram quando respirei fundo, ou como meus lábios brilharam molhados com as lágrimas, porque eu as esfreguei ao redor do meu rosto com a palma da mão. Tão infantil, mas tão... tão doloroso.

Estava doendo chorar, sabendo que eles poderiam fazer qualquer coisa para consertar. Doeu ainda mais, porque tinha tantas coisas para me preocupar, que consertar essa única coisa, realmente não importava. Christopher sabia como estava me sentindo, porque ele esteve no meu lugar, anos atrás. Mas também, o ancião sabia que eu devia estar duas vezes mais apavorado do que ele. Porque, como cidadão do Distrito Dois, Chan sempre soube que seria enviado para cá.

Eu realmente sou apenas um garoto, que cometeu um erro horrível.

― Nós só queremos ajudá-lo.

― Você não deveria! - respondi, com os lábios trêmulos. - Ajude Hyunjin.

Praticamente corri para o elevador. É a única coisa que estava me mantendo a salvo, fugir. ⁠Todos os dias alguém controla o que você come, o que você veste, como se mexe e quem toca. Você está preso na montanha-russa com seus piores adversários. Mas o que mais ninguém vê é que os rivais são os únicos que te entendem, que te aceitam como você é e te desafiam a dar seu melhor. Não há outra maneira de dizer. Eles são sua tribo.

Ouvi um suspiro preocupado na voz de Jeogin quando ele sussurrou.

― Nós estamos ajudando ele e você.

⁠Sempre tem algo doendo. Em alguma parte do seu corpo há dor, causada por um esforço maior do que qualquer um deveria fazer. Mas fazer parte de um corpo maior, tem um grande poder.

(🧭)

Olá, babys! Tudo bem, com vocês?

Se o Felix fizer mais cu doce, ele fica com diabetes, juro sksksksks... Mas o garoto tem motivos para estar em negação constante. Porém, aos poucos, isso irá se modificar, é claro, hehehe.

Já conseguimos ver uma "química" entre eles, né? Finalmente, senhor! E ela ficará cada vez mais forte, à medida em que os sentimentos entre eles também se aprofundarem. Prometo que no próximo capítulo os desentendimentos de hoje começarão a ser resolvidos. Pode haver dedo no cu e gritaria por conta disso? Com toda certeza, meus amigos.

Bom, por hoje é isto, muito obrigada pela sua leitura!!! Vou ficar por aqui ksks apenas com 2% de bateria, enquanto publico esse capítulo.

Não esqueçam de VOTAR e COMENTAR, ok?

Até logo, beijões! 💜

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