ATO III; felix, o garoto em chamas.
❝ Se espera que as pessoas te ouçam, você não pode apenas tocá-las no ombro como antes. Você deve acertá-las com um martelo. Aí vai perceber que possui a completa atenção deles. ❞
— Os sete pecados capitais;
(🧭)
F e l i x
Cerro os dentes. Quando Sana, uma mulher de cabelos azul-claros e tatuagens douradas acima das sobrancelhas, dá um puxão numa tira de tecido na minha perna, e arranca o pelo que está embaixo.
― Desculpa! — diz ela, com seu sotaque ridículo da Capital. — É que você tem cabelos demais!
Por que essa gente fala com uma voz tão aguda? E Por que suas bocas quase não se abrem quando eles falam? Por que o fim das sentenças sempre tem um tom acentuado, como se estivessem fazendo uma pergunta? Vogais esquisitas, palavras abreviadas, e sempre a letra S sibilando... Não é para menos que é impossível deixar de parodiá-los.
Sana me dirige um olhar supostamente simpático.
― Mas tenho boas notícias. Essa é a última parte. Pronto?
Eu aperto com força a borda da mesa, sobre a qual estou sentado, e faço que sim com a cabeça. O que resta de pelo em minha perna, é exterminado com um doloroso puxão. Estou no Centro de Transformação há mais de três horas, e Minho ainda não tinha chegado com as roupas do desfile.
Aparentemente, ele não tem nenhum interesse em me ver, antes de Sana e os outros membros da minha equipe de preparação, terem solucionado alguns problemas óbvios. O que inclui esfregar meu corpo com uma espuma densa, que removeu não apenas a sujeira, mas pelo menos três camadas de pele, fazer minhas unhas adquirirem um formato uniforme e, principalmente, retirar todos os pelos de meu corpo.
Minhas pernas, braços, torso, axilas e partes das sobrancelhas foram depiladas, me deixando com a aparência de um pássaro depenado, e pronto para ser assado. Não gosto. Minha pele ficou sensível, e pinicando e intensamente vulnerável.
― Você está indo muito bem. — diz um cara chamado Dann. Ele sacode os cachos alaranjados e passa um batom roxo na boca. — Se tem uma coisa que não suporto é gente que fica choramingando. Passa a cera nele todo!
Dann e Yu-na, uma mulher roliça cujo corpo todo foi tingido de uma tonalidade esverdeada, me esfrega de alto a baixo com uma loção que no início pinica, mas logo alivia minha pele sensível. Depois, eles me puxam da mesa, removendo o roupão fininho que me permitiram usar vez por outra. Fico lá em pé, completamente nu, com os três a minha volta, empunhando tesouras para remover os últimos resquícios de pelo de meu corpo.
Eu sei que deveria estar constrangido, mas eles são tão inumanos, quanto um trio de aves coloridas ciscando aos meus pés.
Os três recuam, e admiram o trabalho.
― Excelente! Agora, você está quase parecido com um ser humano! — diz Dann, e todos riem.
Eu forço um sorriso para demonstrar o quanto estou grato.
― Obrigado, — digo, suavemente. — Nós não temos muitos motivos para ter uma boa aparência no Distrito Doze.
Isso os conquista inteiramente.
― Claro que não, coitadinho! — diz Yu-na, batendo as mãos para mim em aflição.
― Mas não se preocupe, — diz Sana. — quando Lee Know tiver terminado tudo, você vai ficar absolutamente deslumbrante!
― Nós prometemos! Sabe que, agora que a gente se livrou de todos esses pelos e de toda essa sujeira, você não está nem um pouco horrível? — diz Dann, me incentivando. — Vamos chamar Lee Know!
Eles saem correndo da sala. É difícil odiar minha equipe de preparação, eles são uns idiotas totais. Porém, mesmo assim, apesar de não saber explicar bem o motivo, sei que eles estão sendo sinceros em me ajudar.
Olho para as paredes frias e brancas e, resisto ao impulso de colocar de volta o roupão. Em vez disso, minhas mãos vão até meu penteado, a única área de meu corpo que minha equipe de preparação foi
orientada a não mexer.
Meus dedos sentem os cachos sedosos que minha mãe penteou com tanto cuidado. A porta se abre, e Minho entra na sala. Fico embasbacado por sua aparência, ele está usando uma camisa preta simples e calças.
A única concessão à automodificação parece ser um delineado dourado-metálico para os olhos, levemente aplicado, que parece ressaltar pontinhos dourados em seus olhos verdes. E, apesar de não gostar nem um pouco da Capital, e de suas modas hediondas, sou obrigado a aceitar que o visual é bem atraente.
― Oi, pequeno Lix. — cumprimenta ele, com uma voz calma, algo quase sempre raro em meio a toda a afetação da Capital.
― Oi. — respondo, cautelosamente.
― Me dá só um minutinho, certo? — Ele contorna meu corpo nu, sem me tocar, mas medindo cada centímetro dele com os olhos. Resisto ao impulso de cruzar os braços sobre o peito.
― Quem fez seus cabelos?
― Minha mãe.
― Estão lindos. E com um equilíbrio quase perfeito, com seu perfil. Ela tem dedos muito bons. — comenta ele.
― Você é novo aqui, não é? Eu acho que nunca te vi antes... — procuro saber.
A maioria dos estilistas me é familiar, imutáveis em meio às levas anuais de tributos sempre diferenciados, alguns eu conheço desde pequeno.
― É verdade, esse é meu primeiro ano nos Jogos. — diz Minho.
― Quer dizer que deram a você o Distrito 12. — concluo.
Recém-chegados geralmente acabam com a gente, o distrito menos desejável.
― Eu pedi pra trabalhar com o Distrito 12! — diz ele, sem maiores explicações. — Por que você não veste seu roupão, pra gente bater um papo?
Pego o roupão e o sigo até uma sala de estar. Dois sofás vermelhos estão frente a frente com uma mesinha no centro, três paredes estão vazias, a quarta é totalmente de vidro, proporcionando uma janela para a sala.
Vejo pela luz que deve ser mais ou menos meio-dia, embora o céu tenha ficado encoberto. Minho me convida a sentar em um dos sofás, e se senta à minha frente. Ele aperta um botão ao lado da mesa. O topo se divide e surge uma outra mesinha com nosso almoço. Frango com pedaços cozidos de laranja em um molho cremoso sobre um leito de grãos perolados, ervilhas pequeninas e cebolas, rolinhos na forma de flor e, de sobremesa, um pudim cor de mel.
Tento imaginar como faria para servir uma refeição dessas em casa. Frango é caro demais, mas eu poderia substituir por peru selvagem. Teria de roubar um segundo peru, para trocar pelas laranjas, o leite de cabra teria de substituir o creme. Podemos cultivar ervilhas no jardim.
Eu teria de colher cebolas selvagens na floresta, não identifico esse grão. Nossa ração de téssera depois de cozida fica com uma cara amarronzada muito pouco atraente. Esses rolinhos bonitinhos só seriam possíveis mediante outra troca com o padeiro, de repente por dois ou três esquilos. Quanto ao pudim, não consigo nem imaginar o que contém. Dias e dias de colheita para prover essa única refeição, e mesmo assim não passaria de um pobre substituto da versão original da Capital.
Como deve ser, imagino, viver num mundo onde a comida surge com um apertar de botões? Como eu passaria as horas que agora dedico vasculhando a floresta em busca de sustento se a comida fosse assim tão fácil de se conseguir? O que eles fazem o dia inteiro, essa gente da Capital, além de decorar os próprios corpos e esperar cada novo suprimento de tributos que vão morrer para garantir a diversão deles?
Levanto a vista, e vejo os olhos de Minho fixos nos meus.
― Então, Felix, a respeito de sua roupa para a cerimônia de abertura. Minha parceira, Portia, é a estilista de seu amigo, Seungmin. E nossa ideia atual é vesti-los de modo complementar. — explica ele. — Como você sabe, é costume dos Jogos refletir o que mais identifica o distrito.
Para a cerimônia de abertura você deve vestir algo que sugira a principal atividade de seu distrito. Distrito 11: agricultura. Distrito 4: pesca. Distrito 3: fábricas. Isso significa que, por sermos oriundos do Distrito 12, Seungmin e eu estaremos usando algum tipo de composição que tenha a ver com minérios.
Como os macacões soltos dos mineiros não são exatamente adequados, nossos tributos normalmente acabam usando uniformes não apropriados, e chapéus com lanternas na cabeça.
Teve um ano em que nossos tributos ficaram completamente nus, e cobertos de pó preto para representar a fuligem do carvão. É sempre horroroso e não nos favorece em nada junto à multidão. Fico preparado para o pior.
― Quer dizer que vou usar um uniforme de mineiro? — pergunto, na esperança de que o traje não seja indecente.
― Não exatamente. Veja bem, Portia e eu achamos os trajes dos mineiros muito ultrapassados. Ninguém vai lembrar de você usando algo assim. E nós dois entendemos que nossa tarefa é deixar os tributos do Distrito 12 inesquecíveis. — começa Minho.
Vou ter de ficar pelado com toda certeza, imagino.
― Então, em vez de focar na mineração propriamente dita, vamos focar no carvão!— conclui ele.
Pelado e coberto de fuligem preta.
― E o que nós fazemos com o carvão? Nós queimamos. Felix, você não tem medo de fogo, tem? — Ele percebe minha expressão e dá um risinho.
Algumas horas depois, estou vestido em algo que ou vai ser a mais sensacional ou a mais horrenda roupa da cerimônia de abertura. Estou usando uma peça única preta que me cobre do tornozelo ao pescoço. Botas de couro bem engraxadas com cadarços até os joelhos.
Mas são a pelerine esvoaçante — com matizes de laranja, amarelo e vermelho — e o chapéu que definem a roupa. Minho planeja iluminá-los com fogo pouco antes de nossa carruagem entrar nas ruas.
― Não são chamas reais, é claro, é apenas um foguinho sintético que Portia e eu inventamos. Você vai estar perfeitamente seguro, meu bem. — tranquiliza-me ele.
Mas não estou convencido de que quando chegarmos ao centro da cidade não estarei parecendo um churrasquinho.
Meu rosto está relativamente livre de maquiagem. Tem só um pouquinho de realce aqui e acolá. Meus cabelos foram penteados e trançados no meu estilo tradicional.
― Eu quero que o público o reconheça quando você estiver na arena, — diz Lee Know, sonhador. — Felix, o garoto em chamas. E você está lindo! Não ouse duvidar das minhas palavras, estou falando sério.
― Obrigado.
― Estou falando sério, Felix! — Minho repetiu. Os dedos movendo-se para pegar um botão no interior de sua manga, e a pressionando na palma da minha mão.
Meus olhos tremeram, e Minho sabia que eu não queria fazer isso, ninguém nunca quer. Mas não havia escolha. Menos ainda, quando a porta se abriu e havia um homem impaciente de cabelos rosas pulando para dentro.
― Uau! — Jeogin arrulhou, movendo-se para colocar um braço em volta das minhas costas, praticamente as esfregando. — Como você consegue ser uma coisinha, tão bonita?
Lee Know suspirou.
― Jeogin, por que você não está com Hyunjin?
― Estavamos lutando.
Não é surpreendente. Basicamente todo mundo estava brigando com Hyunjin, mas dadas as circunstâncias, brigar era incrivelmente inútil. Hyunjin sempre foi cabeça dura e teimoso, ele nunca acreditou em nada, até que ele presenciasse com os próprios olhos.
A negação de que Felix era... bem, qualquer coisa para ele, era difícil. O suficiente para contornar. Mas com Hyunjin, as coisas eram mais fáceis de plantar a semente da dúvida, do que convencê-lo.
― E, — Jeogin continuou. — eu queria ver essa coisa bonita. Oi, boneca.
Pisquei, torcendo as mãos e arrastando o pé no tapete de uma forma fofa e confusa.
― Hyung, oi.
Jeogin sorriu, provavelmente com a maneira como hyung soava, vindo de mim, porque era absolutamente adorável.
O relógio em contagem regressiva na porta tocou, e Minho rapidamente entrou em ação, pegando meu antebraço, para começar a puxar-me para fora. Me desequilíbrei um pouco, e isso foi o suficiente para fazer o estilista se desculpar, mas não havia nada que ele pudesse fazer a respeito.
Assim que a porta se abriu, sem surpresa, Changbin estava do lado de fora da porta, com a camisa dobrada e prontamente ignorando o pânico no meu rosto, enquanto ele olhava ao redor da estrutura enorme de metal sólido.
― Mantenha-se fora da vista de todos eles, entendeu?
― Olá, para você também. — Minho respondeu secamente, me conduzindo até o Centro de Transformação. — Ele não está lindo?
Changbin olhou para mim, em seguida para o macacão de couro e o botão em minha mão, mas não disse uma palavra sobre isso. Apesar da revelação do comportamento de Seungmin ocorrida na manhã de hoje, fico aliviado quando ele aparece vestido com uma roupa idêntica, para falar a verdade.
Ele deveria ter experiência sobre fogo, já que é filho de padeiro e tudo o mais. Sua estilista, Portia, e sua equipe o acompanham, e todos estão absolutamente atordoados de excitação com a impressão que ele vai causar. Fomos levados às pressas para o nível inferior do Centro de Transformação que, em essência, é um estábulo gigantesco. A cerimônia de abertura está para começar.
Pares de tributos estão sendo colocados dentro de carruagens puxadas por grupos de quatro cavalos. Os nossos são pretos como carvões, os animais são tão bem treinados, que não há nenhuma necessidade de alguém segurar suas rédeas.
Minho e Changbin nos direcionam para a carruagem e colocam cuidadosamente nossos corpos em posição, ajeitando o drapejamento de nossas pelerines antes de se afastarem para discutir os últimos detalhes.
― O que você acha desse fogo? — sussurro para Seungmin.
― Arranco sua pelerine se você arrancar a minha! — sugere ele, com os dentes cerrados.
― Combinado. — concordo. Talvez evitemos as piores queimaduras se conseguirmos arrancá-las o quanto antes. Mas a coisa não é tão fácil assim, eles vão nos jogar na arena independente de nossas condições. — Acho que eles não ficarão muito felizes, se queimarmos antes da arena, certo?
A diversão cintilou no rosto de Changbin, quando ele se virou para olhar para Jeogin e Minho, ambos pareciam um pouco chocados também. Visto que eu não era bem, do tipo que falaria algo bsurdo.
Parecia que as experiências de quase morte, me fizeram perder um pouco dos sentidos. Eles notaram, porém, que quando olhei em volta, fixei os olhos em uma costa familiar.
Jeogin se inclinou ao lado da carruagem. Com o cotovelo tocando o meu, enquanto ele refletia baixinho.
― Você gostaria de falar com ele?
Ele sendo Hwang Hyunjin, é claro, porque o Tributo do Distrito Dois estava sussurrando uma série de palavras provavelmente não gentis, enquanto um de seus estilistas ajustava as joias de metal em seu pescoço. Ele estava vestido adequadamente, como um tributo do distrito mais rico, deveria estar.
O Distrito Dois foi treinado para matar. Eles eram perigosos, então, quando decidi proferir rapidamente.
― Nunca!
Eles entenderam.
Isso causou uma sensação de náusea borbulhante dentro deles, especialmente quando Hyunjin notou os olhares. E descaradamente, ignorou Christopher murmurando algo para ele.
Christopher se virou, ao perceber que eles estavam sendo observados, ainda mais que ele estava sendo ignorado. Ele imediatamente empalideceu, estendendo a mão para agarrar o queixo de Hyunjin.
Ele o puxou para fora de seu olhar mortal, mas a essa altura eu já estava agarrado à carruagem, com a mandíbula cerrada, e um aperto trêmulo.
― Felix!
Minho parou Jeogin com a mão em seu pulso, ao invés disso, o estilista delicadamente, colocou a mão sob meu queixo.
― Não se esqueça de apertar o botão, e manter a cabeça erguida. Lembrem-se, cabeças erguidas. Sorrisos. Eles vão adorar vocês!
O pânico que cintilou em meu rosto, era o indutor do pânico. Eu parecia inteiramente um bebê à beira das lágrimas, quando a carruagem estava se movendo e olhava por cima do ombro. A música de abertura começa.
É fácil ouvi-la, já que é tocada a todo o volume na Capital, portas gigantescas se abrem, revelando ruas cheias de gente. A viagem dura mais ou menos vinte minutos e acaba no Círculo da Cidade, onde vão nos dar as boas-vindas, tocar o hino e nos acompanhar até o Centro de Treinamento, que será nossa casa/prisão até o começo dos Jogos.
Os tributos do Distrito 1 circulam em uma carruagem puxada por cavalos brancos como neve. Eles parecem tão belos, pintados com um spray prateado, vestidos em túnicas cintilantes repletas de joias. O Distrito 1 produz artigos de luxo para a Capital.
Dá para ouvir os gritos da multidão, eles são sempre os favoritos. O Distrito 2 se posiciona para segui-los.
― Jisung hyung, foi buscar patrocinadores para eles, — Changbin sussurrou, mudando de posição para se encontrar com Christopher.
― Dependendo de como isso for, ele pode ficar bem.
O poder pairava como um mau presságio no ar, fazendo tudo parecer muito mais tenso. Minho pigarreou ao lado deles, com os olhos fixos, nas enormes telas de transmissão.
― Hyunjin sempre adorou isso.
― Sempre adorou a atenção. — Christopher caminhou até eles, se encostando na parede, com as mãos nos bolsos. — Ele vai matá-lo!
Talvez ele o mataria. E agora isso não era uma escolha, não era uma decisão que eles tinham que tomar. No momento, havia muito pouco que eles confirmassem ou negassem que Felix fosse uma de suas almas gêmeas;
Mesmo que ele fosse incrivelmente difícil de lidar, e não ouvisse uma única palavra que qualquer um deles tivesse a dizer - havia um sentimento que flutuava ao olhar para Felix, mas não significava que poderia ser ele.
Podia ser apenas a ideia de assistir esse garoto de olhos de corça ser morto que fez a pena nadar, mas eles já faziam isso há anos e... doía, mas não era tão doloroso quanto parecia.
Em questão de segundos, já estamos nos aproximando da porta e percebo que, entre o céu encoberto e a chegada da noite, a luz está ficando acinzentada. Os tributos do Distrito 11 estão passando quando Minho aparece com uma tocha acesa.
― Aqui vamos nós! — anuncia, e, antes que possamos reagir, ele acende nossas pelerines.
Arquejo, esperando o calor, mas sinto apenas uma leve comichão. Minho sobe ao nosso lado e acende nossas toucas. Ele deixa escapar um sinal de alívio.
Em seguida desce da carruagem, e tem uma última ideia. Grita algo para nós, mas a música está mais alta que a voz dele, grita novamente e faz um gesto.
― O que ele está dizendo? — pergunto a Seungmin. Pela primeira vez, olho para ele e percebo que, em meio a todas aquelas chamas, ele está esplendoroso. E devo estar também.
― Acho que ele disse para nós ficarmos de mãos dadas. — responde Seungmin. Ele segura minha mão direita com sua mão esquerda, e nós olhamos para Minho em busca de confirmação.
Eles não podiam se apaixonar por esse garoto que tinha a galáxia em seus olhos, mas estava ficando incrivelmente difícil fingir que não havia uma atração ali, quando o caos explodiu em aplausos.
Seungmin assente e levanta o polegar, isso é a última coisa que vejo antes de entrarmos na cidade. O susto inicial da multidão com nossa chegada se transforma rapidamente em palavras de incentivo e gritos de "Distrito 12!".
Todas as cabeças estão viradas em nossa direção, tirando o foco das três carruagens à nossa frente. A princípio, fico paralisado, então, vejo nossas imagens em uma grande tela de televisão e fico impressionado como nosso visual está de tirar o fôlego. No entardecer cada vez mais acentuado, o fogo ilumina nossos rostos, parece que nós estamos deixando um rastro de chamas atrás de nossas pelerines esvoaçantes.
Minho estava certo em relação à pouca maquiagem. Nós dois estamos mais atraentes, mas, ainda assim, totalmente reconhecíveis.
Lembrem-se, cabeças erguidas. Sorrisos. Eles vão adorar vocês! Eu ouço a voz de Minho em minha cabeça. Levanto o queixo um pouco mais, apresento meu sorriso mais conquistador e aceno para a multidão com minha mão livre. Estou contente agora que tenho Seungmin para me ajudar a ficar equilibrado. Ele está bem estável, sólido como uma rocha, à medida que vou ganhando confiança, mando até alguns beijos para a multidão.
A população da Capital está ficando enlouquecida, lançando uma enxurrada de flores em nossa direção, gritando nossos nomes e sobrenomes, que tiveram o trabalho de procurar no programa. A música alta, os incentivos, as demonstrações de admiração penetram meu sangue e não consigo suprimir meu entusiasmo. Minho me deu uma grande vantagem. Ninguém se esquecerá de mim.
Não se esquecerão de meu visual, de meu nome. Felix, o garoto em chamas. Pela primeira vez, sinto uma pontinha de esperança percorrendo meu corpo. Certamente, algum patrocinador estará disposto a me bancar! E com alguma ajuda extra, um pouco de comida, a arma correta, por que razão eu deveria excluir minhas possibilidades de vencer esses Jogos?
Alguém joga uma rosa vermelha para mim. Eu a pego, cheiro-a delicadamente e mando um beijo na direção da pessoa que a jogou. Uma centena de mãos se aproxima para receber meu beijo, como se ele fosse uma coisa real e tangível.
― Felix! Felix! — Ouço meu nome sendo gritado de todos os lados. Todos querem meus beijos.
Somente quando entramos na cidade é que percebo que devo ter interrompido completamente a circulação sanguínea na mão de Seungmin, de tanto apertá-la. Olho para nossos dedos unidos enquanto alivio a pressão, mas ele aperta novamente.
― Não, não me solte. — pede ele. A luz do fogo faz seus olhos castanhos tremeluzirem. — Por favor, posso cair desse troço a qualquer momento.
― Tudo bem. — E continuo apertando, mas não consigo evitar uma sensação estranha, em relação à maneira com a qual Minho nos uniu.
Não é exatamente justo nos apresentar como uma equipe, e depois nos aprisionar na arena para que um mate o outro. As doze carruagens preenchem o anel do Círculo da Cidade.
Nos edifícios que circundam o Círculo, todas as janelas estão lotadas com os mais prestigiosos cidadãos da Capital, nossos cavalos puxam nossa carruagem até a mansão do Presidente Snow, onde paramos.
O Presidente Snow era um homem de poucas palavras. Com cabelos finos e brancos, dá boas-vindas a oficiais da varanda acima de nós. É tradicional as redes de televisão fazerem um corte para mostrar os rostos dos tributos durante o discurso. Mas seus olhos pareciam os de um leão, olhando para sua presa.
Mesmo de longe, podíamos sentir os olhos predatórios nos olhando de soslaio, e o pesamento imaginário do presidente ser como um leão, era digno de arrepios.
― Nós lhes damos as boas-vindas, saudamos sua coragem e o seu sacrifício. E desejamos a vocês, Feliz Jogos Vorazes! Que as probabilidades estejam sempre a seu favor.
A platéia aplaudiu ruidosamente as curtas palavras do presidente, e aquela vaga admiração voltou como acontecia todos os anos, imaginando se as pessoas ao menos sabiam o que o presidente havia feito aos distritos. Se ao menos se importavam com o fato de as pessoas passarem fome, e morrerem.
― Distrito Doze, onde você pode morrer de fome em segurança!
Christopher riu, e se inclinou para o lado.
― Distrito Dois, onde você matará seu melhor amigo por esporte.
Changbin olhou para ele, enquanto Lee Know e Jeogin faziam caretas antes de sorrir e meditar.
― Touché.
O Centro de Treinamento possui uma torre exclusivamente projetada para os tributos e suas equipes. Aqui será nossa casa até que os Jogos comecem efetivamente. Cada distrito possui um andar inteiro. Você simplesmente entra num elevador e aperta o número de seu distrito. Facílimo de lembrar.
A única coisa que estava odiando no Centro, era a necessidade de ser muito grande e escuro, além do benefício de estar sozinho. Passei a minha vida toda em uma casa de um quarto, com buracos no teto, onde eu podia ouvir tudo o que os vizinhos estavam fazendo, não que eu seja fofoqueiro. Então isso era assustador para mim.
Estar sozinho era um medo tão envolvente.
Já andei uma única vez no elevador do Edifício da Justiça no Distrito 12. Somente para receber a medalha pela morte de meu pai. Mas o de lá é uma coisa escura e desconjuntada, que se move como um caramujo e tem cheiro de leite azedo.
As paredes do elevador daqui são feitas de
cristal, para que você possa ver as pessoas no térreo encolherem até ficarem do tamanho de formigas à medida que você dispara céu acima. É uma coisa hilariante e estou tentado a perguntar a Jisung, se não podemos andar novamente nele. Mas isso me parece umpouco infantil da minha parte.
Parecia que não estava sozinho nesses pensamentos, porque quando saí do meu quarto, fui saudado pela visão de Changbin e Jisung sentados no chão da sala de estar. A tela estava exibindo o Tribute Parade.
Me pergunto, se eles estavam mentindo para mim, quando elogiaram a performance que fiz, com Minho até mesmo me abraçando e elogiando por ser o modelo perfeito, e Christopher refletindo sobre dar as mãos; percebi rapidamente, que eles eram todos amigos, e isso até que fazia sentido. Eu acho.
Imaginei que se tivesse que preparar crianças para o abate, provavelmente também teria alguém para chorar à noite. Era um pouco estranho ver os cidadãos do Capitol, e os do Distrito juntos com tanta frequência, mas era fácil esquecer, às vezes, que eles eram tão diferentes.
Ainda mais agora, quando Jisung não era uma boneca glorificada. Vestida com roupas sofisticadas, maquiagem elaborada e saltos. Andando por aí, com aquele tom agudo que os cidadãos do Capitol achava atraente.
― Oi...
Imediatamente, os três estavam se virando parando a tela de um rosto familiar, que fez minha pele se arrepiar por completo.
Hwang Hyunjin.
Eu sabia que iria morrer por suas mãos. Só não tinha digerido tudo ainda. A ideia de olhar em olhos tão sem coração, antes de morrer, era horrível!
Jisung moveu-se para o meu lado imediatamente.
― Ei, querido.
― Hum? — disse, enquanto mordia o lábio.
― Não consegue dormir?
Changbin jogou um travesseiro no chão, ao lado dele.
― Quer ficar com a gente, meu bem?
Estar com alguém, era melhor do que estar sozinho. Arrumei um pouco o pijama sobre o peito, antes me sentar no tapete, meu pé descalço acidentalmente roçou na panturrilha de Changbin, mas o outro não se mexeu.
Jisung se moveu para o canto, e olhei para ele, enquanto ele mexia em uma máquina no parapeito da janela.
― Espero que você goste de chocolate quente.
Franzi o nariz, óbvio que olhar de Changbin estava direcionado para mim. Jisung notou o olhar quando ele se virou e riu, movendo-se para me entregar um copo antes de se sentar novamente.
― Experimente, é bom!
Aceitei o copo e assim que a bebida atingiu minhas papilas gustativas, comecei a engolir tudo. Era doce, mas não enjoativo, era quente e caseiro. O copo estava vazio no momento em que tirei o objeto dos lábios, meus ombros caíram com culpa quando devolvi o copo, agora vazio.
Jisung riu e se aproximou, jogando o copo sobre a mesa e provocando.
― Demônio do chocolate, entendo.
Isso me fez corar e puxar os joelhos para mais perto do corpo.
Changbin olhou para mim por mais tempo, antes de se recostar nas almofadas e fechar os olhos, murmurando.
― Hyung, conseguiu muitos patrocinadores para você.
Meus olhos se arregalaram e Jisung praticamente arrulhou para mim, enquanto estendia a mão para beliscar minha bochecha.
― Você conquistou tantas pessoas esta noite. Tudo o que eu precisava fazer, era mentir um pouco, contar uma longa história sobre como o 'carvão se transforma em pérolas, quando pressionado o suficiente!
Carvão não se transforma em pérolas. Elas são encontradas em conchas. Possivelmente, quis dizer que o carvão se transforma em diamante, mas isso também não é verdade. Ouvi falar que existe um tipo de máquina no Distrito 1 que consegue transformar grafite em diamante. Mas não retiramos grafite no Distrito 12. Isso fazia parte das tarefas do Distrito 13 até ele ser destruído.
Imagino se as pessoas com as quais ela tem mantido contato durante o dia inteiro sabem disso, ou mesmo se importam com o fato. Todos sabiam disso, será que os patrocinadores sabiam ou realmente não se importavam? De qualquer maneira, estava grato.
― Obrigado... — minha voz era um mero sussurro, antes de me virar para olhar para a janela, ignorando intencionalmente a televisão com aquele sorriso aterrorizante, que Hyunjin havia dado a mim.
O Capitólio estava animado, colorido e iluminado. Os Tributos não eram permitidos fora do Centro - não tinhamos permissão para interagir com os cidadãos, porque isso poderia ser visto como suborno - mas não era como se eu estivesse interessado em ir longe. Mas gostaria de poder, apenas para ficar longe o suficiente para me esconder.
Changbin limpou a garganta, enquanto se movia para levantar, caminhando até o pequeno bar de bebidas no canto, para a desaprovação no rosto de Jisung.
― Fala, você parece um pintinho perdido, agora.
― É lindo, de certa forma. — sussurrei, os olhos fixos nas luzes do lado de fora. — De uma maneira doentia, e acho que perturbadora. Eles têm todas essas coisas, e o que os distritos têm? Não sei... não está certo. Mas... eles matam crianças anualmente, acho que dificilmente reconheceriam o que era certo se olhassem nos olhos deles.
Changbin estava sorrindo, Jisung parecia mal do estômago, quando me ajeitei para curvar o queixo sobre os joelhos, e piscar cansado.
Ouvir o tilintar suave de Changbin mexendo nos copos e observar a maneira como as luzes do lado de fora brilhavam como pequenas estrelas era reconfortante. Saber que não estava sentado aqui sozinho, era ainda mais reconfortante, como se todo o meu corpo relaxasse.
Então bocejei, era grande e silencioso. Amassei os pés no tapete como um gatinho me acomodando.
Jisung se esgueirou até ficar do meu lado, o calor foi se acumulando ao nosso redor, e quando o ancião passou um braço ao redor de mim. Apenas permiti ser embalado em seu abraço, com os olhos fechados.
― Oh, querido, — Jisung estalou a língua, o queixo aninhado no meu cabelo desgrenhado. — por que você fez isso consigo mesmo?
Não era uma pergunta para a qual alguém, esperava uma resposta. Jisung certamente, não. Ele estava ocupado acariciando os dedos no meu braço e cantando baixinho, como um pai faria com um bebê agitado.
Mas estava com sono e exausto, e parecia que perdi todos os filtros, quando na verdade eu era as duas coisas, porque minha resposta saiu em uma respiração lenta e arrastada.
― ... tão faminto...
Changbin soube então, que minha preocupação anterior havia acabado de se provar errada. Porque eu não queria morrer. Ele pensou que fiz aquilo... Era a ideia de uma vida prolongada, dolorosa e cheia de fome que me aterrorizava muito mais, do que a ideia de uma faca afiada.
Eu ainda queria viver, só não sabia como.
(🧭)
Hey, dessa vez não demorei tanto assim, certo?
Terão alguns capítulos focados em outros personagens (poucos). Vocês não se importam, né? Gosto de trabalhar bem, e apresentar todos os personagens importantes.
Hmm, não esqueçam de COMENTAR e VOTAR, o que acharam do capítulo? JG tem 200 views, mas poucas estrelinhas... Enton! Vamos ajudar a fic a crescer e alcançar cada vez mais pessoas, tudo bem?
Mas, para aqueles que ajudaram e ajudam a fic, meus mais sinceros e carinhosos agradecimentos! Love you so much.
Beijos, até o próximo capítulo e se cuidem! 💜
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