Capítulo 03

"Não há nada que eu não faria
Não foi assim que eu planejei

Me mostre como você quer que as coisas sejam

Me diga, amor, porque eu preciso saber agora
Oh, porque"

—( ... Baby one more time, Britney Spears)

Nunca vi duas semanas passarem tão devagar; semanas que eu achei bastante triste e totalmente decepcionante porque absolutamente nenhuma garota, nenhuma mesmo, da cidade apareceu mostrando interesse em participar de um time de futebol feminino. Minha lógica era que se houvesse tantas garotas apaixonadas por futebol, elas iriam se interessar em jogar, mas até agora nada.

Já virei motivo de chacota até mesmo para o Fernando. Sempre quando o via pelos corredores da escola, ouvia o seu riso debochado e fazia algum comentário que eu ignorava ou tentava pelo menos.

Estou extremamente decepcionada. Percebi que as pessoas ao meu redor tentam me animar me chamando para ir até a lanchonete da cidade ou para a pracinha com o objetivo de fofocar sobre a vida alheia, pensando que isso iria me pôr para cima, mas não tiveram sucesso. Minha mãe chegou a fazer o meu bolo favorito, que é de cenoura com cobertura de chocolate, mas nem isso me animou, para todo mundo ver como estou hiper triste.

Já era sexta-feira, segunda semana do mês de Março, e fui cedo na escola para tirar os cartazes e jogar no lixo. Enquanto eu arrancava todos papéis que colei, sentia que algumas pessoas estavam me encarando, mas pouco liguei para o que iriam comentar pela escola.

Amassei todos e os descartei na lixeira de cor verde, onde jogamos fora os materiais de papel, com muita dor em meu coração. Depois segui para a sala de aula, onde tive aulas e aulas que sequer me lembro do que os professores haviam explicado.

Quando o sinal tocou, enfim sinalizando que havia se encerrado aquele terrível dia, saí em disparada sem sequer esperar Ana e fui para casa.

Cheguei em casa e entrei sem falar com ninguém, fui diretamente para o meu quarto onde tranquei a porta, joguei minha mochila e me esparramei na cama. Finalmente eu poderia colocar para fora toda a tristeza que fiquei segurando durante essas duas semanas para que ninguém ficasse com pena ou achasse que eu fosse fraca.

[ ... ]

Já estava quase no final da tarde, meu pai já havia terminado de arrumar uma moto e tinha se limpado.

— Meu bebê, tenho que ir ao banco depositar um dinheiro antes que feche. Pode tomar conta até o horário e depois fechar pra mim?

Tento conter uma careta ao ouvir o seu apelido tão carinhoso, mas foi inevitável. Ele sempre faz isso para me envergonhar e consegue com sucesso, sua risada chega aos meus ouvidos.

— Pode deixar, pai. Não deve aparecer ninguém mesmo, então fecho no horário, chefe — falei rindo.

— Então, vou menos preocupado. Tchau, querida.

— Tchau, pai. — Me despedi dele com um sorriso no rosto.

Dentro da oficina, me sentei na cadeira e coloquei minhas pernas na mesa que estava na minha frente. Esse lugar era um dos grandes amores do meu pai, foi passado do meu avô Alberto, que abriu a primeira e única oficina da cidade de Futebol, para ele. Meu pai sempre o ajudava em algumas coisas, mas, quando estava com dezoito anos, teve que trabalhar para sustentar a sua família que estava por vir.

Meus pais mesmo dizem que foram irresponsáveis por terem engravidado tão novos. Meu pai tinha acabado de completar dezoito anos e minha mãe ainda estava no terceiro ano do ensino médio. Apesar de ter sido algo bastante inesperado, nada planejado e inconsequente. Meu pai assumiu, logo se casou com a minha mãe, mesmo não podendo ser na igreja, por conta da rigidez da época e como foram excluídos pelos vizinhos que criticavam eles, e trabalhou bastante para que não faltasse a ela e ao bebê, que futuramente viriam a descobrir que eram gêmeas.

Como nossos pais são novos, sempre tivemos espaço para conversar sobre o que queríamos, eles nos orientam para que a gente se previna e evitemos que tenhamos filhos tão cedo. Tenho certeza de que sofreram bastante com comentários maldosos de muitas pessoas por terem tido filhos tão cedo, mesmo que não tenham dito para mim ou para minha irmã. É algo bastante claro ao meu ver.

Sei como as pessoas podem ser bastante maldosas quando querem.

Ano passado, uma garota do último ano acabou engravidando e ouvi bastante comentários muito ruins, até tinham pessoas dizendo que seria melhor que ela perdesse o bebê, mas isso felizmente não aconteceu. Ela está com sua linda neném que nasceu saudável.

Despertei dos meus pensamentos com um estalar de dedos diante dos meus olhos e acabei levando um susto. Quando percebi, desgrudei meus pés da mesa e isso fez com que eu me desequilibrasse. Soltei um gemido de dor ao me chocar no chão juntamente com a cadeira, fechei os meus olhos por causa da dor ligeira que se apossou de mim.

Fiquei alguns poucos segundos de olhos fechados, então escutei uma tosse forçada. Abri os meus olhos e dei de cara com uma mão estendida para mim, suspirei e aceitei a mão do indivíduo, que me ajudou a levantar. Logo reconheci ser uma das pessoas que eu não queria ver provavelmente nem tão cedo.

— O que você veio fazer aqui, hein garoto? Veio ver o meu fracasso pra ir contar ao babaca do seu capitão? — questionei irritada e larguei sua mão, me afastando dele.

— É assim que você trata os seus clientes, Raquel? Achei que fosse mais receptiva. — João Pedro falou e notei um tom sarcástico em sua voz.

— O que você quer? — Cruzei os meus braços.

— Vim apenas trocar o óleo da moto do meu pai.

Olhei desconfiada para ele e logo me lembrei de um fato importante.

— Você trouxe essa moto não deve ter um mês.

— Pelo visto você sabe muito sobre mim.

— Não sei se você sabe, mas nossas mães são melhores amigas desde o ensino médio e eu estava neste dia aqui. — lembrei dando um sorriso de canto ao pontuar minha justificativa.

— Está bem, não vim pra isso e sim pra outra coisa.

— Desembucha logo. — O incentivei.

— Podemos ir para um outro lugar?

— Não quero ser vista com alguém do seu time — falei com desgosto.

— Um tapa iria doer mais — respondeu dramaticamente e cerrei o meu olhar para ele.

Dei as costas para ele e comecei a andar disposta a ignorá-lo, até que ouço um longo suspiro vindo dele, me fazendo parar.

— Quero te ajudar a formar seu time.

— Não preciso da pena de ninguém.

— Só me escuta, por favor. Depois de me ouvir, pode fazer o que quiser.

Virei-me para ele e acenei a cabeça para que continue.

— O Fernando é um tremendo babaca e merece uma bela lição. Ele mesmo está intimidando as garotas para não participarem.

— Mas por que ele faria isso? Só vocês podem jogar? — indaguei irritada.

— Eu não sei porque ele está fazendo isso, não entendo o motivo de tanto ódio entre vocês. Acho errado o que ele tá querendo fazer e por isso quero ajudar, Raquel.

Fico pensando no que ele disse. Está tudo tão confuso, principalmente o que ele estaria fazendo para intimidar tanto as garotas.

— Essa bela lição seria então me ajudar a montar meu time?

— Sim, tenho certeza de que daria certo.

— Olha, Pedro, eu tenho certeza de que isso é algum tipo de brincadeira de mau gosto.

— Não é, eu juro! Só pensa com calma e depois fala comigo, ? — Ele dá uma piscadela na minha direção.

— Por que faria isso?

— Apenas acho que a cidade do Futebol já devia ter um time feminino há tempos.

O vejo dando as costas para mim, subindo na moto e sumindo da minha vista. Uma bomba havia caído em minhas mãos, será que eu deveria confiar nele? Será que o Fernando não estava por trás de tudo isso apenas para me enganar? Que grande confusão. Não sei nem mais o que pensar em relação a tudo isso.

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