Já vai canoeiro?

https://youtu.be/cSCyotix5tU

Dedicado á Arlindo Jr, o Pop da Selva.

- Mas Luísa... Você já quer passear numa hora dessas?

- Porque não? A hora de navegar é agora mesmo!

No momento em que Pedro aos dezoito anos conversava com sua prima Luísa, eu via o povoado de Rio Adentro crescer com seus pequeninos e oferecer algumas opções para viver. Uns continuavam na pesca, outros se descobriam na caçada, no cultivo de frutas e plantas medicinais, organizavam "orquestras de pau e corda" para tocar em quermesses, nos namoricos inocentes que levavam ao matrimônio e tinha quem deixasse tudo para realizar o maior sonho de um jovem oriundo de uma família humilde: Ingressar na Cavalaria Real de Angustura, herdeira da antiga tropa chefiada por D. Jerônimo Fuas Nolasco e que muito contribuiu para a conquista do território, no surgimento de seu reino e nas vitorias sobre o reino da Campina do Vento Norte.

Naquela semana, Pedro andava aos pulos de alegria porque finalmente havia aprendido a navegar em sua própria canoa. Mérito especial á seu Isaac, o antigo canoeiro que estava para se aposentar, não tinha filhos e precisava deixar seus ensinamentos para outros aprendizes que não soubessem como controlar a própria velocidade e chegavam a perder os remos durante o treino. Apesar dos defeitos, venhamos e convenhamos, Pedro era uma pessoa linda! Disso, a graciosa Luísa Pontes e Souza e sua tia Rosaura de Souza Antunes bem sabiam, independente do parentesco.

Por sinal, lá estava ela á espera do passeio e de Pedro com os remos em mãos. Sendo a caçula do pai Bastião, Luísa recebia cuidados de sobra através de bombinhas de São João, vestidos de missa, bonecas de pano, passeios e tostões para gastar com seus  doces e salgados favoritos.  Apesar disso, ela não se tornou uma garotinha mimada e sempre atuou a favor do irmão Juca e de seu priminho Pedro ao defendê-los dos meninos maiores, mesmo estando os três entre cinco a sete anos! Enquanto isso, a vizinhança dizia que a juventude deveria ser a fase mais bonita e bem-aproveitada da vida. Época dos primeiros amores, das grandes aventuras e desilusões. Outros a aproveitavam como podiam, sem se preocupar com a eminência de um depois ou da chance daquele ser o último dia para sorrir e respirar.

- É uma pena que a gente não mora perto de rio, precisa se deslocar de lá para poder andar de canoa... Mas me conta, foi difícil de aprender?

- É uma pena mesmo... - Suspirava Pedro. - No começo foi sim. Só de sentir o balanço da canoa e a fundura do rio eu tremia tanto que eu caia e por pouco eu não me afogava. Mesmo porque igarapé não é a mesma coisa que rio!

-Nem me fala Pedro, nem me fala... Mas eu posso confiar em você, não posso?

-Pode sim, ainda mais depois do que seu Isaac me falou. Quanto mais eu pensava no balanço e na fundura, menos eu conseguia aprender...

Estando o canoeiro de pé e os remos mergulhados nas águas, finalmente o sonho de Luísa começa. Já vai nosso Pedro nos braços do rio, Pedro menino que acolhia o frescor do vento e brincava com as curvas que o remo dava enquanto a menina de tranças se distraia com a paisagem. Por mais que não fosse tão longe, Pedro canoeiro encarava aquele momento como um ótimo desafio, prenunciando as grandes coisas que viriam em seguida, de acordo com o que a vida oferecia.

- Luísa, você já sentiu uma coisa, como se alguém tivesse lhe observando?

- Deus me livre de sentir! - Respondia a menina enquanto fazia o sinal da cruz. - Eu quero tudo menos assombração na minha vida!

- Mas não é de assombração que eu falo não, é de algo bonito que não dá medo. Tão bonito que se me aparecesse agora, a primeira coisa que eu ia dizer era dizer bom dia e "Pois não, de onde vens?"

- Como se fosse uma proteção, uma sombra amiga... Mas é bom você levar sempre um terço na mão e girar, só para confirmar se é amiga ou não.

-Isso se eu não tiver esquecido em casa... - Por falar em esquecer, o semblante de Pedro começava a ficar apreensivo e queria ter certeza de que não havia se esquecido de nada. Algum objeto, algum aviso... - Luísa você sabe das piranhas que pulam no rio de vez em quando, não sabe?

-AAAAHHH!!! - No mesmo instante, ela gritou e tirou a mão direita da água, temendo que alguma piranha pudesse lhe morder de repente.

- Ei calma Luísa, calma que...

- Ai meu Deus, ai meu Deus me leva de volta pra Rio Adentro! Uma piranha dessas já me mordeu e foi muito ruim, por favor me leva de voltaaaaa... - De onde vinha aquele temor de piranhas poucos sabiam, mas até que foi divertido ver Luísa cair com Pedro e tudo para dentro do rio!

Ao emergir e se dar conta do "perigo", a menina se debatia para se manter na superfície enquanto Pedro colocava os remos de volta na canoa e depois a resgatava, lutando conseguir acalmá-la e segurar o próprio riso. Bem que haviam lhe dito para estrear o vestido florido na noite próxima de São João, mas o que ela tinha de teimosa... E se a tal da sombra protetora e amiga tivesse alguma coisa a ver com aquilo, ela ia ver só!

- A gente correndo perigo aqui e você ainda quer achar graça?

- Me escuta Iara, eu perguntei se você sabe, não quer dizer tem piranha aqui...

- Pois agora você vai me levar de volta que já não sei se tenho medo ou raiva dessa tua brincadeira!

- Não se preocupa que eu já vou... Égua, nunca vou me esquecer desse dia! - Ele respondia enquanto Luísa se enxugava com o avental esquecido na proa da canoa. Aos poucos, a zanga passava e ela concluída que também não se esqueceria daquele dia.

"Talvez esse seja o tipo de coisa que eu não posso contar para ninguém. Nem para o meu pai, ainda mais agora que ele e Juca estão brigando de novo. E se tia Rosaura..."

- Meu Deus do céu, olha como eles estão! - Exclamava um senhor corpulento, barbudo e nervoso ao ver os dois de longe. - Eles deviam estar nadando da metade do rio até aqui!

- Tem calma Bastião, a chuva começou faz tempo! - Exclamava uma senhora cujo nome lembrava uma rosa... - O importante é que já estão de volta e vão tomar a sopa do jeito que eles gostam!

- Nem parece que a gente está em junho, espero que esse toró não acabe com a festa... - Murmurava um garoto magricela de olhar triste. "Até Luisinha já tem par para a festa de São João e eu vou passar a noite dançando de tripa do Boi Caramelo..."

Por coincidência ou proteção daquela sombra-amiga, a chuva serviria de desculpa para os dois encharcados que regressavam á praia e contavam com outras pessoas para guardar a canoa e regressar de carroça á hospedaria onde dona Rosaura, seu Bastião e Juca. Os três cercavam Pedro e Luísa de cuidados, preocupações e bebidas quentes, mas dona Rosaura estava mais serena em comparação ao irmão e o sobrinho por conta das discussões ainda recentes. Depois do jantar, Luísa ainda tremia de frio e pensava num jeito de conversar com a tia enquanto Pedro voltava para a mesa.

-A nossa sorte é que a gente não foi navegar em março quando a chuva é pior... Quer mais sopa?

-Quero sim, obrigada. Olha Pedro, você me desculpa... Eu que comecei aquela bagunça toda, caí com tudo, ainda briguei.

-Que nada Luísa, até que foi divertido... Já que você vai ficar aqui até junho acabar, a gente pode navegar de novo, não pode? - Enquanto Pedro indagava, Luísa finalmente sorria e sentia algo parecido com a sensação descrita por ele enquanto remava. Sem piranhas e assombrações, era ua sensação tão bonita, tão amiga...

-Claro que sim, a gente pode ir sim. Até junho acabar...

FIM... De uma fase. Nem tudo acaba por aqui!

Oiê!

Ah meus amigos, nem acredito que voltei para Rio Adentro... Quando me pediram para desenhar uma cena do livro "Abaruna", tentei reproduzir a foto de capa do capítulo 7 - Pesadelo dos Navegantes, a noite foi trocada pelo dia, os passarinhos surgiram no céu, Luísa embarcou na canoa e Pedro me fez uma cara... Em poucas horas, nasceu "Já vai canoeiro?" esse conto ocorrido uns três anos antes de nossa aventura começar. Ah, e a dedicatória ali de cima é daquele que cantou algumas das toadas que me inspiraram a escrever ao longo desses anos (e pular dentro de casa, porque não?) quando de repente, soube que ele havia partido antes de 2019 acabar, como o canoeiro da canção. O canoeiro já descansou, mas deixou um material incrível, dançante e sonhador que nos podemos curtir sempre!

Se a sombra protetora e amiga se tratava de Abaruna, de Estefânia... O importante é que o Amor sempre esteve ali de todas as formas e se servindo para nós de muitos dons. E agora, vamos juntos nessa missão de espalhar alegria, desenvolver nossos talentos, vencer desafios e nos fortalecer através do que há de melhor na gente: O Amor!

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