Capítulo 5: O Furacão
Música Tema: Hurricane - Thirty Second to Mars
Riad, Arábia Saudita, 2023
Senti o peso do aparelho celular saindo das minhas mãos, assim como toda e qualquer percepção de poderia ter do mundo a minha volta. Caminhei de forma lenta, até o elevador de trabalho, via que Cabeça falava algo para mim, mas não conseguia ouvir. Quando entrei no elevador, não estava só, o Sr. Demir me acompanhava de forma silenciosa, me olhando a distância, em pé no canto do elevador, dando espaço para mim.
Tudo parecia borrado, distante, sai quase no último andar da construção e assim que estava parada no meio do grande pavimento, dei um imenso grito que vinha no fundo da alma, era um grito libertador, como se estivesse ali, anos por anos preso, intacto, aguardando o momento da libertação, caminhei de forma tropega, até a borda do grande edifício.
- Ma'an...Maria...Please, take care. (Senhora...Maria...Por favor, tome cuidado) - A voz de Ali desesperada veio aos meus ouvidos.
Ele se aproximou rapidamente, mas manteve a distancia, sem muito saber o que fazer comigo. Mas logo sentei na borda da estrutura, sentada a beira do precipício. Não, não estava pensando me jogar, ao contrário, agora que tinha mais motivo do que nunca para viver.
- Calm down, I'm not going to play. I want to live now more than ever because now I'm free. (Se acalme, não vou me jogar. Eu quero viver agora mais do que nunca, por que agora estou livre.) - Falava com uma calma e serenidade absoluta, olhando aquele horizonte de mim e gritei a plenos pulmões para ele. - LIIIIIIII-VREEEEEEE!
O homem veio com cuidado, sempre achei que o loiro tinha um espirito e ele provou aquilo quando sentou ao meu lado, na borda do mundo, na borda de um prédio altíssimo, para acompanhar a louca que precisava de um vento no rosto, de sentir-se viva, livre, dona do próprio mundo, não precisaria mais fugir.
- What happened? (O que aconteceu?) - Ele pergunta simplesmente.
Era uma pergunta simples, mas que envolvia tantas coisas, tantas idas e vindas, um universo de problemas que falar agora seria ressuscitar uma infinidade de coisas que poderiam voltar para assombrar.
Esquadrinhava o horizonte quente daquela cidade, pensativa, então quando menos percebi, eu falei. Parecia que falar aquilo em outro idioma soava como um segredo compartilhado apenas entre eu e um desconhecido, que não poderia me julgar por justamente não me conhecer. Era como se na solidão do 26º andar só estivesse eu, ele e o vento forte que zunia vindo do deserto, varrer aquele segredo dito em outra língua e que era varrido pelo vento.
- I'm free now... I grew up with a house, a family, and it seems... I don't know if your culture has the story of the three little pigs, the one where the bad wolf came and blew their house...well. ..mine was the straw one, which he blew and everything flew away and I had to run away, go far away. I became a woman without a country, without a family, without friends, without anything. It was just me, hiding from my biggest nightmare.
(Estou livre agora...Eu cresci tendo uma casa, uma família, e parece...Não sei se na sua cultura tem a história dos três porquinhos, aquela que o lobo mal vinha e soprava a casa deles...pois bem...a minha era a de palha, que ele soprou e voou tudo e eu tive que fugir, ir para longe. Me tornei uma mulher sem patria, sem família, sem amigos, sem nada. Era apenas eu, me escondendo do meu maior pesadelo.)
Ele apenas me observava, mesmo olhando para horizonte, eu sentia seu olhar curioso, expectante, esperando ansiosamente pelo resto da história. Até que olhei para ele e comecei a falar sem medo:
- My biggest nightmare is dead now, he died in jail... An ordinary person would ask God to intercede for his soul, but I can't do it myself, I can only thank the person who killed him. That yes had a good part of his sins redeemed by making a patient like that disappear from the map... If I'm calm now, if I'm not afraid of anything anymore, it's because this man is dead.
(Meu maior pesadelo está morto agora, morreu na cadeia...Uma pessoa comum ia pedir que Deus intercedesse pela alma dele, mas eu não consigo mesmo, só consigo a agradecer a pessoa que o matou. Esse sim teve boa parte dos seus pecados redimidos ao fazer um doente como aquele sumir do mapa...Se agora estou tranquila, se agora não tenho mais medo de nada, é por que este homem está morto.)
Ao terminar meu breve relato, ele sorriu, era um sorriso brilhante e falou empático:
- I think you need a drink. (Acho que você precisa beber.)
- Beer, please! (Cerveja, por favor!) - Falei como se implorasse.
- Now I'm surprised, you didn't seem like giving me beer, but more like those elegant women who appreciate glasses of expensive wine. (Agora estou surpreso, você não me parecia ser dar cerveja, mas parecia mais aquelas mulheres elegantes que apreciam taças de vinhos caros.) - Após compartilhar sua perplexidade, ele ergue um dedo fazendo logo a sua ressalva. - Buuuut...Don't worry, you'll have your beer. (Maaaaas...Não se preocupe, você vai ter a sua cerveja.) - Então fez sinal com a mão para continuar. - You can talk more while I work my magic. (Você pode ir falando mais, enquanto faço a minha mágica.)
E assim foi feito, contei toda a minha história com o Daniel, desde que eu o conheci, até quando ele foi abusivo comigo e tive que fugir para Portugal, como ele conseguiu me encontrar, como o Jorge ajudou a prende-lo. Foi libertador compartilhar tudo aquilo tendo como fim da história a morte do infeliz na cadeia.
Enquanto estava contando essa história, ele se levantou, foi até o elevador certamente, só sei que voltou com um balde e garrafas de Budweizer estavam enfiadas no balde, logo estávamos abrindo elas e bebendo na boca da garrafa.
- Now, I no longer need to live without roots, I need to have roots, because of my children. (Agora, eu não preciso mais viver sem raízes, eu preciso ter raízes, por causa dos meus filhos.) - Falava olhando o sol de pôr no horizonte.
- Now, I think we'd better go, because it's getting dark. It's getting late. The Cabeça keeps sending messages. (Agora, acho melhor irmos embora, por que está anoitecendo. Está ficando tarde. O Cabeça não para de mandar mensagem.) - Ele sempre ria quando falava o apelido do cabeça, que ficava ainda mais engraçado no sotaque dele.
- Let's Go! (Vamos!) - Falo empolgada.
Quando vou me levantar, toda cuidadosa por estar a beira do precipício. Nessa hora caiu até um lado do meu sapato lááááááááá para baixo, o que me fez parar o processo e rir muito ao imaginar o quanto o Cabeça deve ter infartado naquele momento, esperando que meu corpo caísse atrás do sapato.
Depois de um tempo, soltei um "Ops", antes de tentar reiniciar o processo de forma cuidadosa, agora só com um lado do sapato, logo contando com a ajuda do Ali, que estava super ultra mega cuidadoso, só sei que dei um tropeção e ele me abraçou, me mantendo em segurança.
- Take care! (Tome cuidado!) - Fala Ali preocupado.
- Pelo que vejo, já estais a salvo.
Vem a voz grave de trás de nós e quando me viro, vejo Cristiano com a expressão de poucos amigos em pé na saída do elevador.
- Gajo! Estais atrasado no meu resgate! - Falo com meu senso de humor.
Ali percebendo a situação, se afasta e fala preocupado para o meu marido:
- Sorry, Mr. Ronaldo! (Desculpa, Sr. Ronaldo)
- That's Ok, Ali! Thank you for taking care of my WIFE. (Obrigada por cuidar da minha ESPOSA.) - Cristiano enfatiza a palavra esposa, ao se aproximar e pegar a minha mão, sem deixar de encarar o Ali naquela guerra fria.
- Vamos! Acabou o concurso de quem mija mais longe! - Caminho em direção ao elevador, sendo seguida por Cris.
Ali passou a mão no balde e foi nos seguindo, entramos no elevador. Sendo um de cada lado e eu no meio.
O loiro pega uma garrafa de cerveja e estica na direção do outro homem:
- Do you want a beer? (Você quer uma cerveja?) - Ali não poupo o toque de deboche na voz.
- No, thanks! (Não, obrigada!) - Agradece Cristiano.
- Yes, thanks! (Sim, obrigada!) - Agradeço pegando a cerveja e dando um gole.
Ouvir um bufar do Cristiano ao meu lado, enquanto o Engenheiro retirava do balde outra garrafa, destampava, tocávamos a boca da garrafa e dávamos um gole. Aproveitando a descida.
Assim que chegamos, Cabeça estava desesperado.
- Dona Jo do céu! O que foi que aconteceu? - Ele entrega meu sapato que tinha caído, enquanto ele falava.
Eu pego o lado dele todo empoeirado e junto com o outro que segurava, enquanto respondia:
- Está tudo bem, Cabeça! Relaxa!
- Já entreguei o seu celular com o Senhor Ronaldo. Acho que a tela rachou. - Explica meu braço direito.
- Não te preocupes, Cabeça. Já estou a cuidar desta parte. - Cris se encarregou logo de tranquilizar o rapaz.
- Obrigada, Juninho! Relaxa! - Falo toda tranquila.
- Ali do céu! - O rapaz fala surpreso e fala como se o Engenheiro fosse entender. - Rapá, colocou a patroa de porre! Homi do céu! - Ele confere o balde.
- Do you want? (Você quer?) - Oferece Ali para o Cabeça, estendendo uma cerveja.
- Gostei deste gringo que vem com a linguagem universal. - Falo rapaz animado, pegando uma garrafa, brindando com Ali e logo brindando comigo.
- Este gajo é Engenheiro ou Garçom? - Pergunta Ronaldo impaciente.
- Vamos, gajo Aveiro! Está rabugento demais. - Reviro os olhos e enquanto puxava o rapaz para fora do canteiro. - Bye, guys! Tchau, rapazes!
Caminhamos até o carro, ele abre a porta da frente para mim, enquanto me acomodava, Cris assumia o banco do motorista. Dou um gole de cerveja e olho para ele intrigada.
- Aonde está...?
- Como não sabia até que horas ia ficar, liberei ele, para te levar para casa quando fosse melhor. - Cris responde antes mesmo que eu terminasse a pergunta.
Inclino a cabeça para o lado, confusa e ele tratou de me esclarecer:
- Logo que soube o que aconteceu, o Cabeça ligou-me preocupado contigo, dizendo que tu não estavas bem, então vim pra cá. Como não estamos tão bem, esperei tu desceres quando estivesse se sentindo bem, mas ao ver teu sapato cair, ficamos preocupados e resolvi então subir para ver como estavas.
- Então já sabes o que aconteceu. - Olho preocupada. - Tens algo relacionado com isso?
- Gostaria muito de levar este crédito, mas aquele desgraçado buscou o próprio caminho, cavou sua própria cova.
Respiro fundo, aliviada, dando mais um gole, olhando a paisagem que passava pela minha janela. Parecia que via o mundo de uma forma nova.
***
NOTA DA AUTORA: Gente, desculpa a demora. Mas é que no meu trabalho e na minha vida pessoal as coisas ficaram muito apertadas, muito corridas. Só que hoje, finalmente entreguei um projeto e fiquei livre para dar atenção para vocês.
Obrigada pelas mensagens de carinho e apoio, pelos comentários, acompanho todos sempre que posso. Muito obrigada mesmo! Vocês são maravilhosas e maravilhosos!
Prometo tentar não sumir agora. Por que agora está engrenando tudo.
Como sempre eu vou avisar que não estou revisando, para não sair deletando tudo. Então deixa fluir, deixa quieto, quando tiver com coragem, eu reviso.
Assim como It's a Man's World, essa aqui tem playlist também, aonde você encontra a música tema de cada capítulo:
https://open.spotify.com/playlist/3mrYZ4Bj4kqTgktkXVL0U3?si=96755d7dd3f346ff
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