Capítulo 1: Os Tubarões

Música Tema: Sharks - Imagine Dragons

Estádio Universitário Rei Saud

Respiro fundo antes de descer do carro, observo a movimentação em volta, ainda estava tudo calmo, por que tinha escolhido vir mais cedo para não ter problemas. Respiro fundo mais uma vez criando coragem, então agradeço educadamente:

- Obrigada Oton, qualquer coisa mantenho contato.

- Sim, Senhora.

Desço do carro e caminho pelo tapete vermelho da entrada VIP do Estádio, não era como os estádios que havia pisado antes, para ocasiões parecidas com a daquela noite, mas também não era dos menores.

Confesso que não queria estar aqui, mas tinha consciência que se não estivesse, diante de todos os fatos que giram em torno de nós, seria mal interpretado pela imprensa e geraria mais confusão ainda.

Não estava nem um pouco feliz com tudo aquilo, ainda estava digerindo toda aquela situação, na verdade tem sido longos meses de eventos que me fizeram estar tão cheia de coisas para digerir, que devo estar parecendo uma sucuri em plena digestão.

O problema é que as sucuris ficam calmas, no seu cantinho, diferente de mim agora, que tenho que gerenciar toda uma vida, além de lutar contra a vontade de socar a cabeça do meu marido na parede. Se fosse só meu marido...

- Boa noite Rick! - Falo secamente, por que esse é mais um dos que quero socar na parede.

- Boa noite Jo! Preparada para a grande noite! - Fala o rapaz todo empolgado, ignorando minha expressão de poucos amigos e minha secura.

- Ricardo, nós sabemos por que eu estou aqui, então não tenta extrapolar minha cota de simpatia. Você sabe que não estou concordando nenhum pouco com essa palhaçada toda que você e o seu amigo estão aprontando. - Nem preciso dizer que a parte do "seu amigo" falei com bastante desdém.

Você pode estar pensando que estou raivosa, agressiva, mas é por que não me viu com sangue nos olhos quando recebi as sucessivas notícias que um certo gajo vem me dando.

- Jo! Sei que tu não entendes o que se passa agora, mas no futuro vais nos entend... - Falava Ricardo, melhor amigos do meu amigo e o idiota que está ajudando nos planos dele, que tenta passar toda a animação do mundo, mas é interrompido com um erguer de mão.

- Ricardo, não força, ok?...Eu vim aqui, fazer o papel da esposa companheira e leal, que aceita até as merdas que o marido está fazendo. Eu vou entrar naquele estádio com um mega sorriso no rosto, plenissima, posar para fotos e ponto! E já estou dando demais, compreensão já é um pouco demais. Ok?

Perceberam que falei no bom português brasileiro, pelo que me conhecem já fazem ideia do nível da minha irritação com essa palhaçada.

- Onde posso ficar esperando minha hora de entrar no picadeiro com o palhaço?

Rick percebeu o peso da pressão, preferiu não discutir, apontou com a mão por onde poderia ir. E o segui até uma pequena sala de espera, que por hora estava vazia, mas logo iria ter que fazer a cordial com todos.

***

Quando chamaram meu nome, entrei no gramado, era uma "surpresa" para ele, coloquei meu melhor sorriso no rosto, enquanto ele me olhava com aquela cara de cachorrinho pidão, daqueles que caiu do caminhão de mudança, mas eu não caíria naquele truque.

Segurei a sua mão em sinal de apoio, enquanto a apresentadora agradeceu a presença e a confiança da família do Melhor do Mundo. Agradeci, e falei a pequena frase que aprendi em árabe para aquele momento "Shukran lieayilat Al-Nassr", traduzindo como "Obrigada família Al-Nassr".

Ele se inclinou e me deu um beijo casto nos lábios e apertou a minha mão fortemente, o estádio veio a loucura, pois todos ali vinham acompanhando nossa vida como uma verdadeira novela.

Caminhamos de mãos dadas para fora do estádio, assim que estávamos fora da visão de todos, o sorriso se apagou e as mãos se soltaram. Caminhei rapidamente para longe, mas ele segurou a minha mão e disse:

- Podemos conversar? Preciso falar contigo.

- Não, Ronaldo. Aproveite seu momento, ainda tem um jantar depois, eu vou para casa cuidar dos meus filhos. Foram muitas mudanças para eles.

- Se estivesse tão preocupada com eles, não terias passado 3 dias longe. - Assim que ele terminou a frase, pude ver o arrependimento cortar seus olhos.

- Vamos mesmo falar disso, gajo? Tens certeza? De certo isso se voltaria contra ti.

Deixo ele sem palavras, movendo a boca para dizer algo, e não tem o que dizer. Apenas dou as costas me retirando do lugar, o espetáculo havia acabado.

***

Ao chegar em casa, encontro a minha fiel escudeira dona Dolores, me esperando próximo a porta, pois certamente alguém já havia avisado que estava a caminho. E só poderia ser Oton.

- Boa noite, Mama!

- Boa noite, Filha! Como foi tua viagem?

- Foi bem, vejo que Oton ao passar por aqui não deixou só minha mala, não é?

- Sabe como sou, não pude deixar o miúdo sair daqui sem saber o que estava a se passar.

- Então sabes que fui participar daquela palhaçada preparada pelo seu filho.

- Sei, sei...Então?...Conseguiste falar com ele?

- Sim, mas está irredutível e não tiro a razão dele, seu filho foi um parvo, um imbecil. - Falo enquanto retiro os sapatos, suspirando de prazer ao sentir os pés livres. - Ah! Francamente, o homem tem brios, tem um nome a zelar e o seu filho foi um moleque.

- Nem me fale, pior que nem posso colocá-lo de castigo, que vergonha estou.

Reviro os olhos e então faço a pergunta que mais me atormentava:

- Como estão as crianças?

- Os miúdos estão bem, são novos, não sentem tanto, mas o Cristianinho está daquele jeito.

- Ah, meu Deus! Coitado do meu filho, que vontade de matar aquele pai dele. Idiota. Homem idiota. - Falo entre dentes. - Deixa eu ir ver meus amores.

Caminho através do corredor que era ladeado por um jardim interno como uma legítima casa árabe. Entrei em um dos quartos que a porta dava para o grande jardim, e encontrei meus três mais novos brincando. Eva e Mateo com cinco e a Valentina com 4 e meio. Como têm praticamente a mesma idade, dividem o mesmo quarto e as mesmas brincadeiras.

- Olá meus amores!

- Mama! - Foi o coral que me recebeu, de crianças correndo e me abraçando fortemente do jeito que se acomodavam.

- Queeeee saudade dos meus amores! Como estão? Respeitaram a vovó? Comeram tudinho? Não fizeram arte?

Estava de joelhos, olhando os rostinhos curiosos a minha volta, que do seu jeitinho infantil falavam.

- Mama, Eva e Tina não me deixa brincar com elas.

- Mas Mama, tem brincadeiras que o Mateo não pode brincar, não é Tina?

- Sim, Mama. Tem brincadeiras que são de meninas!

- Como assim brincadeiras que são de meninas? - Pergunto curiosa, já encontrando mais uma crise em casa.

- É que ele quer brincar de boneca e boneca não é pra ele.

- Mas por que não pode ser? Ele não brinca de bola com vocês, por que o soldado dele, não pode brincar com a boneca de vocês? Saibam que não tem esse negócio de brinquedo para menina e brinquedo para menino. Por exemplo, a mamãe faz algo que os meninos diziam que não era para ela fazer e ela faz. E dai? Todo mundo pode fazer tudo que quiser, basta ter vontade de querer e de fazer. Certinho? - Bato de leve com o dedo nas pontinhas dos narizes.

- Certo! - Eles respondem em uníssono.

- Agora deixa eu ver o irmão de vocês.

Logo eles voltaram a brincadeira, fiquei de pé com um sorriso olhando para os meus pequenos, toda boba. Eles eram meu refúgio, sempre. Mal sabiam o meio do furacão que estavam, porque tudo parecia uma nova aventura, sempre.

Me levanto e saio do quarto deles, rumo ao quarto do pré-adolescente da casa. Bato na porta, assim que recebo a permissão, eu entro. E pensar que quando o conheci, era apenas um menino, e agora está naquela transição para adolescência.

- Mama! - Ele fala com um certo desânimo, tirando os fones de ouvido.

- Quanta animação, devo voltar para a viagem? - Caminho até a cama onde ele estava sentado e me sento ao lado dele.

- Ah! Deixe de bromas, sabes que não é contigo.

- Sei meu pequeno, sei. - Abraço ele, meio de lado, passando o braço pelos ombros, olho para ele. - Estais tão desanimado que nem estais jogando com os teus amigos.

- Ah Mama! - Dá de ombro.

- Saiba que sua mama está tentando resolver as coisas, vamos sair daqui desse deserto, voltar para a Europa. Mas você sabe que para Manchester não voltamos mais.

- Ai que está o problema. E se... - Ele nem tem coragem de terminar a frase.

- Eu sei meu amor, eu sei. Mas no fundo sabemos que seu pai não podia ficar lá, ele só não soube resolver direito a situação, enfiou os pés pelas mãos, como tem feito nos últimos anos, mas o desfecho ia ser sair de lá inevitavelmente, então de qualquer forma você ia se afastar da Claire. Você é muito novo para entender essas coisas, mas um dia você entenderá, ainda não é o momento. Está bem?

Beijo o topo da cabeça do meu filho mais velho.

- Tudo bem, mama. Mas não espere que eu esteja feliz.

- Nenhum de nós está, meu amor. Nenhum de nós está.

Suspiro, deposito um beijo na testa do meu menino e me levanto saindo do quarto e deixando ele só com seus pensamentos. Sigo pelo corredor, até o chamado quarto das mulheres.

Isso mesmo, as casas árabes tem um quarto só para a mulher ou mulheres, dependendo da quantidade de mulheres que o homem tenha, dividido do homem, o único elo de ligação é uma pequena sala íntima que liga os dois quartos, e os quartos podem ser acessados tanto pela sala que serve de ligação entre os quartos, ou pelo corredor, que foi assim que acessei o meu.

Entrei, larguei o sapato em um canto, retirei o terno que usava e pendurei no mancebo, fui até o banheiro e coloquei a banheira para encher, precisava de um longo banho, para ver se relaxava um pouco e conseguia dormir.

***

NOTA DA AUTORA: Como sempre eu vou avisar que não estou revisando, para não sair deletando tudo. Então deixa fluir, deixa quieto, quando tiver com coragem, eu reviso.

E vamos lá descobrir o por que da guerra entre o casal Aveiro.

Assim como It's a Man's World, essa aqui tem playlist também, aonde você encontra a música tema de cada capítulo:
https://open.spotify.com/playlist/3mrYZ4Bj4kqTgktkXVL0U3?si=96755d7dd3f346ff

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