II
– E agora? – Pergunto para mim mesmo, observando o grande muro que barra o nosso caminho. – Como vamos atravessar isso?
– Josué... – Naomi aperta minha mão, se agarrando na minha perna ferida.
– Espere um pouco, Naomi. Deixe-me pensar um pouco aqui. – Digo pensativo. Escalar isso está fora de cogitação. Estou todo queimado e mal consigo me manter em pé. E, mesmo que eu estivesse bom, nem eu e nem Naomi temos o preparo físico para escalar um muro dessas proporções. Quer dizer, ninguém tem. Será que dá para dar a volta?
– Josué... – Naomi chama de novo, e eu me viro irritado para ela.
– Caramba, Naomi! Você não vê que eu estou pensando aqui? – A repreendo, mas ela não se intimida, e aponta para um pequeno buraco na base do muro, alguns metros para a direita. – A gente pode passar por lá.
Me aproximo do local apontado rapidamente e o observo. Ele não tem mais do que meio metro de largura, deve ter sido escavado por algum animal ou algo do tipo, mas não penso muito nisso. O que importa é que essa será a nossa passagem.
– Naomi, você é um gênio! – Exclamo, pegando-a no colo e a colocando dentro do buraco. – Vamos, passe para o outro lado e me diga o que vê.
Ela anui e faz o que pedi, se rastejando facilmente pela pequena passagem.
– Há casas lá longe. – Ela diz após alguns segundos. Digo, muitas casas.
Franzo o cenho com o que ela disse.
– Não tem mar? – Pergunto.
– Nadinha. – Responde. – Venha ver você mesmo.
Entro no buraco e me arrasto por de baixo do muro com um gemido de dor quando a terra raspa como uma lixa pela minha pele em carne viva.
– Droga. – Xingo baixinho assim que saio do buraco observo as milhares de casas "entulhadas" ao longe. – Aqui não é a faixa de Gaza...
– E não é mesmo, amigo. Se você quer chegar lá, vai ter que andar muito ainda. – Uma voz até então desconhecida por mim diz a minha direita, e eu me viro para ver quem é.
– Quem é você? – Pergunto, observando o velho senhor aleijado sentado na base do muro. Eu não havia percebido sua presença aqui quando passei.
– Jacobssen é o meu nome. – Ele se apresenta. – Bem-vindos a Cisjordânia. – Ele torce o nariz de uma forma engraçada antes de acrescentar. – ...ou nem tão bem-vindos assim...
– Cisjordânia?! – Exclamo atônito, um pouco mais alto do que eu planejara.
– Sim.... Por que? Não era para cá que você queria vir?
– Queríamos ir para a faixa de Gaza. – Digo, já começando a ficar perdido.
– Ah sim... É por causa dos botes que estão enviando?
– Botes?
– Você está perdido mesmo, não é, criança? – Ele solta uma risada. – Os Italianos irão enviar uma frota de botes para alguns refugiados serem resgatados.
– Sério? – Eu e Naomi nos entreolharmos surpresos, a chama de esperança voltou a se acender.
– Vocês têm no máximo três dias para chegar na faixa de Gaza. Logo depois dos italianos virão os Americanos..., e eu não acho que eles virão resgatar os civis... – Jacobssen continua, claramente se divertindo com a nossa surpresa diante da notícia que para ele, provavelmente, já estava bem velha.
– Só isso? Como chegaremos lá a tempo?
– Ora, pelos túneis, é claro. – Ele dá de ombros, e eu franzo o cenho em forma interrogativa. – Deixe-me adivinhar.... Você não faz a menor ideia de onde se encontram os túneis, não é mesmo?
Nego com a cabeça.
– Tudo bem. Irei mostrar a vocês. – Ele se levanta com dificuldade e pega um pedaço de galho para usar como uma muleta. – Venham. Cada segundo é precioso.
– Obrigado. – Agradeço, e sigo o senhor até a cidade.
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