•| Capítulo 18 - És só meu.

— Vou apenas pensar nisso, não quer dizer que vou sair.
— Já é um começo visto que nunca pensaste em fazê-lo. - diz o meu pai depois de entrar na cozinha.
— Pensei sim, mas pensei sempre no risco em que corria ao sair por aquela porta à noite.
— Mas hoje eu estarei contigo e não irá haver risco nenhum.
— Vai sim... Tu mal me conheces Harry. Pensas que chegas aqui e mudas completamente a minha vida de um momento para o outro? Conhecemo-nos apenas à dias e mais parece que estamos juntos à anos. Eu não sei o que se passa, mas podendo parecer bom pode ser mau. Por isso mesmo acho melhor nos afastarmos.
— Achas melhor nos afastarmos só porque nos estamos a dar bem? Eu quero dar-me bem contigo. Acredita que nunca quis que tal acontecesse com mais nenhuma rapariga. Tal como acontece contigo. Eu sei que tu queres estar comigo e que sentes que precisas de mim. Afastares-me só irá piorar as coisas.
— Que coisas?
— Tudo.
— É impossível piorar.
— Nada é impossível querida. - interrompe o meu pai olhando para mim - Eu achava que era impossível eu e a tua mãe termos uma filha e aconteceu.
— Sinceramente, era preferível que eu não tivesse nascido!
— Não digas isso.
— Mas é verdade. Vocês odeiam-me tal como toda a gente. - digo correndo para o meu quarto.

Harry

Não acredito que ela está a dizer todas estas coisas. Ela pode estar a sofrer, mas o pai também está. Não sei se ela se culpa pelo que aconteceu à mãe, mas sei que a culpa não é dela. Ela é como é. Ela é o que é. Todos temos qualidades tal como defeitos, mas é isso que nos torna especiais. Ela é diferente de todas as outras raparigas, o que a torna ainda mais especial e única.

— Chloe!

Chamo por ela, mas o pai dele agarra forte no meu braço, para que eu a deixa-se sozinha neste momento. Eu não a vou deixar sozinha nunca, ela não pode ficar sozinha.

— Eu sei o que se passa, por isso peço que me largue.

Peço, tentando parecer calmo, mas apenas tento pois não estou, e sei que se nota que estou a ficar fora de mim, só pela cara do pai da minha menina, que já deve de ter reparado nos meus olhos negros e nas minhas veias a quererem explodir. Não o quero assustar, não quero que ele tenha medo de mim. Só quero que ele saiba que sei o que ela sofre, porque sou como ela.
Respiro fundo de olhos fechados, pensando apenas nela. Abro os olhos e tenho aquela figura masculina a olhar para mim cheia de medo.

— Peço desculpa, eu exaltei-me.
— Nã...nã...
— Não tenha medo. Apenas quero que saiba que sei o que se passa com ela. Eu já passei por isso, aliás, continuo a lidar com isso todos os dias da minha vida tal como irá ser sempre assim. Eu quero protege-la, quero tê-la comigo, quero-a para mim. Peço que não lhe conte o que viu. Apenas porque só eu a posso ajudar e se ela souber, vai querer-me longe por achar que somos perigosos juntos.
— Est... está bem.

Respiro fundo.

— Obrigado.

Chloe

Subo para o meu quarto, fechando a porta do mesmo com tanta força que quase que parte, mas mantem-se intacta . Atiro-me para cima da cama e agarro-me à almofada a chorar.
Posso parecer seja o que for. Pode parecer que estou a fazer uma grande cena para o maior filme do ano, mas ainda não conheceste sequer metade da verdadeira Chloe.
Sabes o que é passares a vida com medo? Mas não me refiro a medos estúpidos como de repteis, elevadores ou de alturas. Refiro-me a teres medo de ti própria. Já pensaste no quão isso pode ser assustador? Nem tenho medo de me magoar a mim mesma, até porque já o fiz milhões de vezes e não me dói, é como se não sentisse nada. Tenho é medo de magoar os outros. Eu não quero magoar o Harry. Prefiro que ele se mantenha longe, assim sei que não acontece nada. Apesar de que quando estou com ele não me sinto a verdadeira Chloe, sinto-me apenas eu. Um eu, que eu não conhecia. Um eu bastante diferente de mim mesma. Pode soar estranho, mas é isto mesmo. E, quando estou com ele, sinto-me protegida, o que é muito estranho mesmo. Porquê? Não entendo.

— Podes parar de chorar?
— Deixa-me, sai daqui!
— Tu não queres que te deixe, tu precisas de mim.
— Como é que sabes isso?
— Podes achar que não mas conheço-te.
— Como?
— Tu lembras-te de como éramos quando nos conhecemos?
— Claro, fui assim toda a minha vida e tu eras igual.
— Exato. Éramos assim, não somos mais porque nos encontrámos um ao outro. Tenho a certeza absoluta de que tu és a mulher da minha vida, e não te quero perder por nada depois de tudo.
— Porque é que tu chegas e mudas tudo?
— Faço a mesma pergunta e adiciono outra. Como é que tu chegas e me mudas?
— Achas mesmo que fomos feitos um para o outro?
— Tenho a certeza disso. Nunca ninguém me fez tão feliz como tu fazes. Nunca ninguém me fez sorrir como tu fazes, desde o primeiro dia em que nos conhecemos.
— Não acredito! - levanto-me e olho para ele sorrindo.
— Podes acreditar. Lembras-te de me encontrar no parque? Pouco antes estive deitado na relva a olhar o céu e a relembrar o teu rosto... Eu sorri ao fazê-lo. Aliás, já sei o que é que vamos fazer hoje.
— O quê?
— Vamos ao parque, vamos deitar-nos na relva a observar as estrelas. Que achas?
— Acho uma ótima ideia. Mas vamos jantar primeiro, pode ser?
— Claro que sim, aquilo deu trabalho a fazer.
— Vou só lavar a cara.

Rimos e ele foi indo para baixo, enquanto eu fui passar um pouco de água na cara.
Cheguei à cozinha e estava o meu pai sentado à mesa pelos vistos à nossa espera. Quando deu conta da nossa presença, porque pelos vistos o Harry tinha ficado à porta da cozinha a observar o meu pai, levantou-se e serviu-nos aos três. Não sei o que se passa com este homem.

— Já sabes se vais sair querida?
— Sim, vou com o Harry ao parque, depois logo se vê.
— Acho que fazes bem em sair e na companhia dele, mas... ao parque a esta hora?
— Sim pai, é uma coisa nossa. Depois logo se vê o que fazemos.
— Estás a pensar em ir a algum lado depois de vermos as estrelas?
— Peço desculpa meninos, mas acho melhor deixarem isso para amanhã. Ouvi dizer que vai chover hoje à noite.
— Mas o céu está tão bonito. - digo depois a olhar pela janela da cozinha.
— Pois não sei. Vocês é que sabem. Tomem é bem conta um do outro.
— Pensei que ias dizer para ele tomar bem conta de mim.
— Eu sei, por isso é que disse assim, e também porque acho que é assim que deve de ser. Bem, eu já acabei de comer, vou deitar-me. Amanhã vou arranjar alguém que me substitua nestes dias. A mãe das tuas amigas deve de andar farta de trabalhar coitada, é o que dá trabalhar na secretaria depois do jardim de infância fechar. Depois vou almoçar e vou ver da tua mãe.
— Está bem pai. Qualquer coisa diz.
— Sim, eu digo. Vocês igual.
— Eu ainda não sei se amanhã vou à escola. Depende como e quando acordar amanhã, tal como depende da noite de hoje.
— Está bem querida. Mas tenham juízo.

Ele levanta-se da mesa e vai para o seu quarto descansar.

— Mas estás a pensar em ir a algum lado depois?
— Sim. Estava a pensar em ir ter com a meninas. Elas sempre me tentaram convencer em sair à noite e nunca conseguiram.
— Estás-te a esquecer que é terça feira e de que amanhã há aulas, não?
— Pois é, já nem me lembrava. Mas elas disseram que iam sair hoje. Tanto faz, podemos ir apenas a um café ou assim. Depende do apetite.

Acabo de comer, dando conta de que sou sempre a última a acabar a refeição. Coloco a loiça na máquina com a ajuda do rapaz do cabelo encaracolado e ponho a máquina a lavar. Arrumo o resto da cozinha e vamos para o quarto. Pego na minha mochila tirando de lá os livros da semana passada e coloco uma manta velha para colocar no chão para não nos deitarmos mesmo na relva. Vesti algo mais quente e o casaco por cima.

— Vamos?
— Claro. - responde-me meio atrapalhado.

Saímos de casa e caminhamos até ao parque. Ele insistiu em levar a mochila às costas por isso coloquei apenas as mãos nos bolsos do casaco. Pouco depois sinto o seu braço à volta do meu pescoço e apertar-me contra ele, deixando um beijo nos meus cabelos e um sorriso estúpido nos meus lábios, acabando por se tornar num riso por tropeçar e quase cair.

— Nunca te irei deixar cair. Podes tropeçar, mas não cais. - ele diz olhando os meus olhos.
Eugh que lamechas. - digo com cara de enjoada, começando a andar de novo e ao afastar-me dele sorrio.
— Tá, obrigada.
— Oh que fofura! - digo depois de olhar para ele - Ficas tão giro aziado.
— Isso é um elogio?
— Pode dizer-se que sim.
— Deves de estar parva. - ele diz com aquela cara de cu que eu odeio mas que nele lhe fica bem e avança no seu percurso deixando para trás.
— Estás-me a imitar oh palerma?
— E eu sou palerma desde quando?
— Desde que me imitar.
— Estás a tentar ofender-me?
— Nããããããão! Achas? - pergunto irónica.
— Acho, mas só tentas porque não consegues.

Rio e abro o fecho da mochila que já estava nas minhas mãos. Tiro a manta e estico-a no chão pousando a mochila num dos cantos. Olho para o rapaz que se encontrava a olhar para mim e deito-me na manta a olhar o céu que ainda continha algumas estrelas.

— Estás a ver aquela estrela? - pergunta já deitado.
— Qual?
— Olha para o céu e foca-te na estrela mais brilhante do céu.
— Sim...
— Esquece.
— Estás a gozar certo? Diz.
— Não, tu vais gozar comigo.
—Diz. Eu não gozo contigo. Prometo.
— Estás a ver a estrela mais brilhante do céu?
— Sim.
— Para mim é como se tu fosses essa estrela, e as outras mulheres no mundo são as menos brilhantes. Sabes porquê? Porque só tu brilhas aqui. - diz apontando para o seu coração.
— Oh... - aproximo-me dele e beijo-o - És mesmo um lamechas de primeira!
— Ei! Tu prometeste que não gozavas!
— Estava a fazer figas atrás das costas! Mas estou a brincar... És um querido. E só meu.
— Só teu? Estás a falar a sério? Ou estás mais uma vez a gozar comigo?
— Não, estou a falar mesmo a sério.

Não estava a contar com isto, mas de repente, ele salta para cima de mim atacando os meus lábios, mas atacando de uma maneira querida, não era a atacar feito bicho-papão. Retribuo o beijo e sinto um frio na minha barriga quando ele agarra o meu rabo apertando-me contra... ele. Começo a ficar com calor até que começa a chover.

— Pelos vistos o teu pai tinha razão!

Agarro na mochila e ele na manta e começamos a correr até ao Mc'Donalds que era o estabelecimento que havia mais perto. Sentamo-nos numa mesa a descansar da corrida.

— Já estou melhor, mas parece que vai continuar a chover.
— Mesmo...
— Olha, acho que vou pedir uma salada ou uma sopa para mim, esta corrida deixou-me com fome. Queres algo?
— Concordo, mas não foi só a corrida. - digo mordiscando o lábio - Para mim, pode ser uma sopa por favor.
— Trago já.

Deposita um beijo nos meus lábios e vai pedir. Procuro o meu telemóvel para me entreter a jogar, mas não o encontro por isso encosto-me ao banco. Pouco depois, sinto o ar fresco da rua vir contra o meu rosto após abrirem a porta da rua. Porque é que nos sentámos mesmo em frente à porta? Mas continuando. Olho para a frente e vocês nem acreditam quem estava a olhar para mim.

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