6

"Coisas ruins
São muitas coisas ruins
Que eles desejam e desejam e desejam e desejam
Eles desejam pra mim"

God's Plan, Drake

Apaguei o cigarro que havia acabado de ascender no bar e subi na moto, colocando meu capacete.

A mensagem que recebi, era de Flynn falando que alguns dos homens de Brian estavam rondando o cassino desde que eu saí. Isso era uma merda, eu devia ter ficado lá, mas está tudo uma confusão hoje e, honestamente eu não me arrependia de ter ido ao bar.

Eu gostei de conversar normalmente com uma garota, apesar dos recentes acontecimentos.

Acelerei a moto e logo cheguei ao meu destino, estacionando a moto em frente a casa de jogos de azar. Flynn estava do lado de fora com mais 3 dos meus caras, e assim que eu cheguei, ele apontou para onde um grupo de 4 homens passavam de um lado para o outro, tranquilos, com seus semblantes cínicos.

- Já foram lá? — perguntei, encarando os malditos. Ascendi mais um cigarro.

- Estávamos só te esperando. — Flynn respondeu, com os braços cruzados.

Assenti e atravessei a rua, sendo seguido por eles.

- O que estão fazendo aqui? — arqueei as sobrancelhas, os encarando, superior.

- Que honra ser recebido pelo chefe. — um deles respondeu, debochando.

- Não é a área de vocês. — falei com desgosto.

- Sabia que a rua é pública? — um loiro respondeu, ironicamente. Aquilo estava começando a me irritar.

- Estamos só de passagem. — o outro respondeu.

- Por que eu não acredito nisso? — apertei os olhos, desconfiado.

- Porque você sabe o que se teme de verdade, né? — ouvi a voz de Brian atrás de mim e abri um mínimo sorriso em ironia, enquanto me virava para trás e o via com mais três homens.

Era óbvio que o desgraçado viria.

- É muita ousadia você aparecer aqui. — dei um trago no cigarro.

- Tenho negócios pra resolver. — ele respondeu simplesmente, com um sorriso que tive vontade de arrancar da cara dele no soco.

- No Brooklyn? — tombei a cabeça levemente para o lado.

- Manhattan se tornou um bairro muito violento, acredita? — o líder dos Bulldogs ironizou.

Flynn, furioso, tirou a calibre 38 do cós da calça, mas não foi rápido o suficiente para um dos capangas do Brian o surpreender por trás, colocando um canivete em seu pescoço. Pude ver um filete de sangue escorrer de tão afiado que aquilo tava.

- Melhor você ficar bem quietinho. — o loiro murmurou.

- Você é como um verme rastejante, Brian. — balancei a cabeça negativamente.

- Daqui você não sai vivo hoje. — ele disse e puxou a pistola, mas antes que ele pudesse destravar, corri em direção ao mesmo, dando um chute na arma.

Flynn puxou a mão do cara para longe de seu pescoço aproveitando-se distração do mesmo e deu um tiro no pé dele jogando no chão em agonia os outros três que estavam com ele brigavam com três dos meus, uma troca de tiros sem fim estava prestes a começar.

Peguei a pistola do chão e vi que um dos capangas se aproximou de mim rapidamente, pronto para atirar; desviei, mas sem dar tempo de destravar arma o cheiro cigarro da minha boca e apaguei no olho dele, vendo-o gritar em agonia, depois puxei a pistola e atirei na cabeça dele, matando-o na hora e peguei a arma dele também, logo matando também um dos caras que estavam brigando com um dos meus companheiros, enquanto o outro se colocou na frente do chefe para defendê-lo.

Sorri.

Fiz um sinal para Flynn que rapidamente correu até o loiro que estava no chão. Um dos meus homens acabou por ser baleado enquanto os outros dois corriam em minha direção. Três agora estavam com armas apontadas na minha frente e um deles atrás de mim, que foi morto por Flynn — que ainda segurava o loiro — antes que fizesse qualquer coisa.

Flynn estava com um refém, eu com uma arma apontada diretamente para a cabeça de Brian e a outra em um de seus capangas, enquanto meus outros companheiros, mesmo um deles gravemente ferido, continuavam a apontar a arma para os outros dois inimigos.

Brian fez um sinal de bater em retirada o mais rápido que pudesse, mas eu não deixsria isso tão fácil; a troca de tiros começou, e as poucas pessoas que passavam nem se aproximavam, voltavam correndo desde o início da confusão.

O barulho da sirene foi ouvida, por mais que tivesse sido bem longe do cassino.

A desatenção fez com que o tiroteio parasse e Flynn usava o loiro como escudo humano, caso uma bala perdida o acertasse. Brian e seus homens conseguiram sair roubando um carro, mas meus capangas continuaram atirando e eles revidando até sumirem em uma esquina.

Eu estava puto.

Olhei para meu companheiro ferido e pedi para que ele fosse para dentro do cassino se cuidar, junto com os outros dois.

Joguei a pistola no chão ao perceber que ela estava descarregada e fui até o rapaz loiro que Flynn mantinha como refém.

- Você vem comigo. — o puxei colocando a outra arma que havia pego dos capangas de Brian, na cabeça dele, deixando Flynn para trás.

Fui empurrando rapaz loiro até um beco e ali eu o empurrei na parede, dando uma sequência rápida de socos no nariz dele, sem chance ou abertura para que ele revidasse; o mesmo estava sem ar, o olho já estava até inchando e o sangue escorria tanto de sua testa quanto de seu nariz e boca. O joguei no chão, o fazendo bater as costas na parede, e levantei a perna dando um chute na barriga dele e quando eu ia continuar ele me interrompeu:

- Por favor, pare! — ele gritou desesperado. — Por favor!

- Tudo bem, vamos dar uma pausa. — falei abrindo um sorriso de canto, e me agachei ao lado dele. — O que o Brian veio fazer aqui de verdade?

- E-eu não sei... — ele respondeu, tremendo.

- É melhor não mentir pra mim. — estalei a língua, o puxando pela gola e batendo suas costas na parede com muita força. — Vou perguntar de novo... — o vi tossir um pouco de sangue. — O que o Brian veio fazer aqui?

- E-ele... Ele já disse... — o vi engolir em seco, desviando o olhar. Mentiroso. — N-negócios.

- Negócios? — perguntei com a voz carregada de ironia e me levantei.

Puxei a arma que havia pego de um dos capangas de Brian e dei dois tiros um de cada lado da cabeça dele, errando propositalmente.

- Não! — ele chorou e pude ver suas calças molharem. Sorri de modo perverso. — Por favor, chefe, não faça isso!

- Faz um tempo que eu não uso uma dessas. — encarei a colt 45 em minhas mãos, falando tranquilamente. — Vocês tem armas de qualidade por lá, ein. Essa aqui faz um belo estrago.

- P-por favor... — o loiro ofegou. — N-não me mate...

- O que o Brian veio fazer aqui? — repeti mais uma vez a pergunta, me aproximando dele novamente, colocando a arma em seu rosto.

- Nada! Ele só queria te provocar, queria te matar de uma vez por todas! Ele tá querendo atacar em todo lugar depois de saber que você fez parceria com o Ethan, logo seria no Queens e no Staten Island. — ele gritava, chorando e tremendo em desespero.

- Você não está mentindo pra mim... — apertei o nariz dele e o mesmo urrou de dor, pude perceber que estava quebrado. — Está?

- Não! — o mesmo gritou. — Eu juro que não!

- Jura pelo quê? — puxei um canivete do bolso e segurei apoiando a mão em cima da coxa dele.

- Pela minha mãe! Eu juro pela alma da minha mãe! — o loiro chorou.

- Não significa muita coisa pra mim. — dei de ombros. — Será que eu devo cortar seu pau fora pra mandar um recado pro Brian e você aprende a não mentir?

- Pela virgem Maria, não faz isso! — ele gritou em desespero e o sangue escorreu ainda mais da boca dele pelo esforço. — Por favor, você é o chefe! Você, só você, não me mate!

- Conveniente. — me levantei. — Dá o fora.

O vi respirar aliviado e mesmo com dificuldade pelas dores que causei nele e até pela calça encharcada de urina, se levantou e saiu correndo como um verdadeiro covarde.

Respirei fundo e me encostei na parede do beco, quase calmo. Quando ouvi o barulho de um disparo, corri para fora e um dos homens que trabalhavam para mim no cassino, baleado na cabeça. Óbvio que eu me lembrava dele, o conheci quando estava dependente e o ajudei, ele só tornou parte de uma família que eu acabei criando sem querer com todas aquelas pessoas.

Aquilo me deixou puto.

Vi o loiro desgraçado jogar a arma no chão, provavelmente sem balas, e pegar uma moto aleatório que tinha ali, ligando-a facilmente. Ele cuspiu sangue no chão e seu olhar de "isso é pelo que você me fez", me deixou ainda mais furioso.

Saquei a arma e tentei desparar, mas as balas já tinham acabado.

- Merda! Devia ter cortado o pau dele. — liguei a moto ao subir nela, sem ao menos colocar o capacete. Olhei para o outro segurança do cassino. — Me dá a arma!

- Mas, chefe... — ele hesitou.

- Não tô gaguejando, porra, me dá a arma! — gritei, com a paciência no limite.

Eu ia perder o cara de vista, se eu não tivesse deixado minha arma em casa eu já tinha matado aquele idiota e nem dependeria de ninguém.

Nervoso, ele me entregou a arma e vi Flynn sair do cassino, nervoso, preocupado e claramente desesperado. A polícia provavelmente não estava muito longe, os corpos ainda estavam jogados no chão, não tínhamos estratégia para driblar os policiais e eu estava em cima da moto, com uma única arma, indo matar um cara nojento sem dó.

Olhei para o meu melhor amigo como se disse que deixaria tudo nas mãos dele, e acelerei com a moto, sem capacete, sem porra nenhuma, só com a minha arma em mãos.

- Ander! — ouvi Flynn gritar, tentando me impedir. — Ander, não faz isso!

Era tarde, eu já estava virando a esquina e vendo um pouco longe o loiro maldito. Eu não ia atirar no meio da rua por conta das balas perdidas, mas honestamente, vontade não me faltou.

O segui quase na mesma velocidade até chegar na ponte, mais conhecida oficialmente como Manhattan Bridge, é famosa e liga o bairro do Brooklyn com o de Manhattan e também tem diversos nomes. Ele desceu da moto, indo para perto de um carro que reconheci como o que Brian tinha roubado para fugir.

De lá, saiu o líder dos Bulldogs e os outros 4 caras que ainda estavam vivos. Mas eu estava pouco me fodendo para eles, era o loiro que eu queria matar.

- Não pode sair atirando nos meus homens e achar que vou deixar. — gritei com raiva, descendo da minha moto.

- Corajoso vir sozinho. — Brian cruzou os braços, ainda desarmado e vendo que eu estava sozinho.

Ignorei, saquei a arma e antes que eles pudessem ver, estava atirando em uma distância de 15 metros bem na cabeça no loiro imbecil. O grito de Brian mandando os outros me matarem pareceu ser ouvido na ponte toda, do começo ao fim, os carros que passavam ali nem ousaram chegar muito perto.

E eu, quando vi os 4 capangas dele sacando suas armas, só tive reação para conseguir acertar dois deles na cabeça e correr para a beirada da ponte, enquanto ainda trocava tiros com dois deles e Brian, que também havia pego a arma de um dos que eu matei.

Um dos tiros pegou no meu braço esquerdo, um pouco acima do cotovelo, e a última coisa que ouvi antes de pular no Rio East, foi o líder dos Bulldogs me chamando de demônio.

Afundado lá embaixo da água, sem ser louco de colocar minha cabeça para fora e tomar um tiro, eu consegui nadar até o cais leste, sendo observado por muitas pessoas com medo ou pena.

Tossi pela falta de ar e faltou eu beijar o chão daquele cais. Fui me arrastando até um canto cheio de sacos de lixo, próximo a um restaurante chinês, e me sentei atrás das caçambas apesar do cheiro horrível.

Eu estava fedendo e meu braço doía muito, olhei a situação e vi o sangue escorrer cada vez mais. Rasquei um pedaço da blusa, e com um pouco de dificuldade, coloquei o pedaço de pano sobre a ferida para estancar o sangue por um tempo.

Quando notei, percebi que o sol tinha finalmente se posto, e mesmo ainda encharcado e com o braço quase caindo de tanta dor, resolvi me levantar após um tempo sentado ali; ainda verifiquei no bolso se minhas coisas permaneciam lá, e vi minha carteira absolutamente encharcada e meu celular sequer deu sinal de vida.

Bufei. Talvez aqueles idiotas já tenham parado de me procurar, mas de qualquer forma, resolvi previnir e dei a volta, passando pela rua de trás do Brooklyn.

Ao que parecia pelo horário, já era mais de 23h da noite e só então percebi o tanto de tempo que fiquei no cais e depois andei.

Me senti tonto por causa do sangue que escorria já para fora do pedaço de pano, deixando o ferimento ainda pior e com certeza muito infeccionado. Amaldiçoei-me mentalmente por estar sendo fraco daquela maneira; faltava pouco para chegar no esconderijo.

Apoiei-me em um muro e logo mais a frente, vi uma sombra se aproximar e até ia puxar a arma que ainda estava comigo, mas a pouca luz ainda me fez reconhecer a mulher na minha frente, com uma expressão surpresa, assustada e nervosa.

- Você... — Katerina olhou meu braço pingando sangue. — Meu Deus.

- Oi pra você também. — murmurei, tentando causar algum humor naquela situação merda.

- Você precisa de um hospital, agora. — ela disse, observando atentamente meu estado.

- Não. — balancei a cabeça em negativa, vendo ela me olhar confusa. — Não posso ir pro hospital, vão ver que eu estou com uma ferida de bala e logo me reconhecerão, vou ser preso. Não se preocupe, meu destino não é muito longe.

- E você vai sangrando assim até "seu destino"? — ela ironizou, parecendo até meio irritada, fazendo aspas com as mãos.

- Já estive pior. — sorri.

Ela então, pareceu ponderar um pouco, como se pensasse se me largava ali ou me ajudava.

- Merda. — Katerina resmungou, mas logo deu um suspiro derrotado. — Olha, minha casa é bem ali. Eu posso cuidar disso pra você se quiser vir comigo.

Talvez a escolha dela não tenha sido das melhores.

Vi ela retirar o casaco de moletom e amarrar as mangas do mesmo sobre meu braço machucado, apertando-o forte para parar de sangrar. Afrei com forte dor.

Me apoiando nela, fomos andando até o prédio — visivelmente ferrado — que ela morava, e ao passar pelo porteiro que nos olhava um tanto horrorizado, levei o dedo indicador até minha boca fazendo um sinal de silêncio para o mesmo. Antes de entrar no elevador, Katerina pegou o kit de primeiros socorros do prédio, o que eu pensei ser a única coisa que realmente valia a pena naquele lugar, nem os extintores de incêndio estavam nas paredes.

Ao chegar no apartamento dela, até que me surpreendi com a arrumação e a limpeza em comparação com o lugar velho e pobre. Ela praticamente me colocou sentado no sofá, enquanto me encarava seriamente.

- Tira a blusa, vou pegar uma toalha pra você. — Katerina falou e eu, com certa dificuldade e uma dor insuportável, tirei a peça de roupa ao mesmo tempo que ela voltava com duas toalhas, um pote, uma pinça, álcool e o kit de primeiros socorros. — Primeiro eu vou lavar e desinfetar a ferida. A bala saiu?

- Não, ainda tá presa aí, e tá doendo pra cacete. — murmurei, vendo ela abrir a caixinha e analisar o que tinha ali dentro.

- Okay. — ela acenou e começou a limpar o sangue em volta do buraco da bala, molhando a toalha no pote com água.

- Você é enfermeira por acaso? — perguntei, não segurando minha curiosidade.

- Não. — ela negou simplesmente, e eu a olhei como se pedisse uma explicação para o fato de que ela fazia aquilo com muita atenção, tipo uma profissional. Ela suspirou. — Meu pai costuma caçar nos feriados de inverno, já levou muita bala acidentalmente de outros caçadores, daí aprendi pra que ele não precisasse ficar gastando dinheiro com hospital toda vez que isso acontecesse.

- Aprendeu fazendo algum curso? — perguntei e ela passou um pouco do remédio que tinha no kit para desinfetar a ferida no meu braço, e ardeu como o inferno. — Ai. — reclamei e a vi dar um sorriso.

- Na verdade, eu aprendi só olhando minha vó fazendo uma vez. Desde então fiz meus primeiros socorros sozinha sempre que caía de bicicleta e quando percebi, até balas eu tirava. Pra sorte dele, ele nunca se feriu gravemente, só tiro no braço ou na perna. — Serebryakov explicava, mas totalmente focada e concentrada em limpar meu machucado.

- É, eu queria ter essa sorte. — coloquei a mão direita na minha costela, mostrando a cicatriz que tinha ali. — Fiquei dias na cama por causa desse tiro.

- Dias? — ela arqueou as sobrancelhas. — Isso aí é ferida pra meses.

- Já me aconteceram coisas piores, acredite. — ri, me secando com a outra toalha que ela havia me dado. Já estava praticamente seco, mas as roupas encharcadas ainda me deixavam daquele jeito e meu cabelo ainda estava molhado.

- Não vá me dizer que sempre se cuidou em casa? — ela perguntou, obviamente se lembrando do que eu disse sobre não poder ir ao hospital.

- Não, eu não sou de ferro. — balancei a cabeça, negando e coloquei a toalha em volta do pescoço. — De um jeito ou de outro, minha irmã e um amigo meu conseguem me tirar da prisão, mas eu evito ao máximo, ninguém tá podendo gastar dinheiro demais, ainda mais com isso.

- Você evita se machucar pra que isso aconteça? — os belos olhos azuis de Katerina me encararam e um sorriso irônico cresceu em seus lábios.

- Geralmente eu que machuco as pessoas, então sim. — falei dando um sorriso.

- Vou tirar a bala. — ela disse, olhando para o kit, enquanto pegava a pinça que trouxe do quarto e passou álcool nela. — O anestésico daqui acabou, então se prepara pra uma dor fodida.

- Eu aguen... — antes que eu pudesse terminar a fala, ela enfiou a pinça dentro do meu braço sem nenhum aviso prévio e eu só tive reação para gritar com aquela dor insuportável. Depois, não tão rápido, ela tirou a bala e jogou dentro do pote de água, que já estava vermelha com tanto sangue. — Puta merda. Nunca doeu tanto.

- Foi mal. — Katerina riu e me entregou a toalha que só estava com a ponta molhada e suja de sangue. — Faz compressão aqui, vou ter que dar uns pontos. Não tem hemorragia, pra sua sorte.

- É engraçado falar isso pra um cara que foi baleado. — ironizei, segurando a toalha no braço esquerdo, apertando um pouco; já não doía como antes.

- É. — ela deu de ombros e foi até a cozinha. Conseguia vê-la, já que era praticamente colada na sala. — Posso perguntar o que aconteceu pra você levar um tiro?

- Eu fui atrás de uns caras na ponte do Rio East. Está tendo uma confusão entre as gangues, daí eu reconheço que foi imprudência minha ir lá, mas eles mataram em um dos caras que trabalha pra mim, e eu não aceito isso de forma alguma. — expliquei, omitindo algumas partes.

- Espírito de companheirismo. — ela falou, vindo até mim com dois copos do que parecia ser álcool, com certeza.

- De família. — falei e ela se sentou do meu lado com um sorriso pequeno.

- Isso é legal. — me estendeu um copo, soltei a toalha para pegar com a mão direita e ela pôde ver o ferimento.

- Valeu. — agradeci tanto pela fala, quanto pela bebida, que quase fiz uma careta ao tomar e perceber que era uma vodka pura, forte e até adocicada; russa.

Katerina colocou a toalha de volta no sofá e pegou uma agulha e linha dentro do kit, até estranhei por aquela caixinha de primeiros socorros ser muito bem equipada até com pequenas agulhas de anestésico, que no momento estavam em falta. Talvez tivesse sido usado por muita gente naquele prédio, então Katerina desinfetou cada coisa que tinha ali e que ela ia usar.

Suportei a dor dos cinco pontos que ela deu no meu braço, e notei que ali ficaria uma cicatriz horrível, mas era o de menos.

- Prontinho. — ela falou cortando a linha com a mini tesoura e por fim, passando uma faixa de compressão pelo ferimento. — Melhor não mexer muito o braço por agora, talvez passe daqui um tempo, mas por enquanto, não use muito ele. — sorriu maliciosamente e só então eu notei a piadinha do " usar muito braço esquerdo".

- Que mente poluída. — balancei a cabeça negativamente, com um sorriso levemente depravado. Tirei o maço de cigarros do bolso, vendo que uns estavam estragados depois de caírem no rio, mas um deles ainda dava para fumar. — Posso? — a encarei.

- Nem pensar, meu apartamento vai ficar com cheiro de fumaça. — Katerina cruzou os braços.

- Um só não tem esse poder. — falei tentando convencê-la, o que não pareceu dar muito certo. Me levantei do sofá e fui até a cozinha, ascendendo uma boca do fogão e colocando cigarro ali para o fogo pegar. — Isso me acalma em situações assim, pra ser sincero. Deve estar um caos no cassino.

- Cassino? — ela franziu o cenho, me observando enquanto jogava as coisas fora e guardava outras, do que foi usado no meu braço.

- Meu cassino. — ri sem vontade e dei uma tragada no cigarro, desligando o fogão, enquanto ela me encarava com um olhar desaprovador, mas pela minha expressão, ela pareceu não se importar mais. Continuei: — Flynn já deve estar sabendo do que aconteceu comigo e está fechando o negócio mais cedo, meus lucros vão ladeira abaixo assim. Fora que quando eu chegar no esconderijo, certeza que a Malia vai falar demais na minha cabeça, vai surtar por eu ainda estar na rua, achando que ainda estou com ferimento de bala, mas eu não podia ir pra lá direto, tive que dar a volta porque iam descobrir onde eu me escondo ou até a polícia. Eles vão ter que entender.

- Não sei quem são, mas estão certos. A prioridade não é cuidar do chefe? — ela falou um tanto debochada.

- Não o chefe. Não deles. — a olhei com um sorriso leve e suspirei. — Malia é como minha irmã e não "trabalha" com isso, e o Flynn é meu melhor amigo, passamos por muita merda na infância, com certeza ele é meu braço direito nisso tudo.

- Pessoas queridas preocupadas com você nunca é demais. — a mesma deu de ombros. — Eu só tenho meu pai, você tem uma gangue enorme.

- Não tem mãe? Irmãos? — perguntei, indo até ela e lhe entregando a toalha que ainda estava em meu pescoço.

- Sou filha única, e bom, eu não considero a megera que me abandonou como mãe. — Katerina me olhou sem emoção, pegando as toalhas para lavar e o pote para jogar a água de sangue no vaso sanitário. — Mas ainda assim, estou aqui por causa dela.

- Sério? — dei uma tragada.

- Nova York não era minha primeira opção como viagem dos sonhos, muito menos trabalhar em um bar aqui e morar em um apartamento ferrado, tem que ter um motivo, né? — ela perguntou, retórica, me encarando como se fosse óbvio. E bom, fazia sentido.

- Se importa de dizer? — perguntei, vendo ela ir até a máquina de lavar que ficava na cozinha mesmo, colocando as toalhas ali e o pote já vazio dentro da pia.

Ela não parecia lavar roupas ali, provável que o tempo que esteve ali, estava juntando para mandar para a lavanderia, menos as roupas íntimas, que parecia ficarem em um pequeno varal do lado da máquina de lavar.

- Ela tá doente. — começou a explicar, mesmo que um tanto desconfortável. — Meu pai sabe que ela não está em condições pra pagar uma enfermeira, aí me mandou pra cá. Eu larguei tudo; faculdade, amigos e família, tudo por uma mulher que me deixou há 16 anos atrás. Meu pai tem um coração muito mole quando se trata dela, e eu até entendo, foi a única mulher que ele amou de verdade.

- Sinto muito. — murmurei, vendo que o cigarro já estava quase no fim.

- Não sinta. — ela riu. — Ver meu pai sofrer por anos por essa mulher, não chega nem perto disso, eu passo qualquer coisa por ele. Não é o suficiente pra me derrubar. — aquela última frase foi como um soco; era claramente o que eu sentia. Vi que ela me encarava.

- O quê? — franzi o cenho.

- E você? — ela perguntou.

- O que tem? — continuei confuso, e ela revirou os olhos, impaciente.

- Disse que você e o tal Flynn passaram por muita merda na infância. — se lembrou, e foi minha vez de ficar desconfortável.

- É. — murmurei e por instinto acabei olhando a hora no sensor do celular dela que estava sobre o sofá. — Talvez eu te conte algum dia, mas agora, eu realmente tenho que ir. — já passava de meia noite e como diria Malia: "era hora de virar abóbora". Fui até a porta, com ela me acompanhando. — Obrigado, você pode ter salvo minha vida.

- Você fez a mesma coisa por mim ontem, pensei que não ia poder retribuir à altura, mas essa troca de favores foi mais rápida do que eu imaginei. — Katerina falou em ambos rimos. Ela me entregou minha blusa que consegui vestir rapidamente, e a caixa de primeiros socorros, como se pedisse óbvia e silenciosamente para que eu a deixasse de volta na portaria.

- Enfermeira particular que dá cigarro e álcool de graça. Você por acaso é um anjo? — sorri, encarando seus olhos azuis, que pareceram me perfurar por um momento.

- A última coisa que eu sou nesse mundo, é um anjo. — ela sorriu.

- Acho que temos isso em comum. — pisquei, e me virei para ir embora.

Depois de descer no elevador e deixar o kit na portaria, fui andando tranquilamente pelas ruas escuras do Brooklyn, observando um pouco de Nova York aonde passava.

Joguei a bituca de cigarro no chão e pisei em cima, bufando por ter que ir para casa. Ainda estava com dor e claramente com uma aparência ferrada, ainda teria que escutar a ladainha de Malia e Flynn.

Casa.

Era mais um esconderijo do que um lugar que uma pessoa normal gostaria de morar, mas eu considerava ele um lar, um lugar aonde eu podia viver enquanto eu não estava matando ou cuidando de um cassino e de gangues. Eu me sentia bem, morava lá com Flynn, Malia e alguns dos meus homens como Jimmy, Max, Lou e Peter, minhas reuniões também geralmente aconteciam lá, era um lugar tecnicamente sagrado.

Perdido em pensamentos, notei que já estava chegando em casa e minhas pernas estavam tremendo de cansaço, era uma merda não poder usar minha moto, já que eu tinha a abandonado na ponte para fugir.

Assim que passei perto da escadaria do metrô, logo cheguei, e foi então que eu percebi que não tinha nenhum dos meus caras nas ruas "patrulhando", alguns deles ainda estavam do lado de fora do esconderijo, observando tudo atentamente e quando me reconheceram, arregalaram os olhos para meu estado e ouvi coisas do tipo "o chefe voltou" ou "ainda bem que ele está vivo". Ignorei e subi para onde era a casa.

- Ander! — Malia correu até mim assim que entrei na porta, me abraçando. Pude ver a minha gangue toda ali, numa única sala minúscula, me esperando. — Por Deus, onde você estava?!

- Por aí. — resmunguei, tirando os sapatos.

- "Por aí"?! — ela me olhou, indignada, enquanto todos observavam sem pronunciar nada; tensos e nervosos, mas aparentemente feliz com meu retorno.

- Malia, eu não tô com paciência agora. — joguei a arma que peguei de um dos meus subordinados no sofá.

- Pouco me importa, Ander. Você levou um tiro porque é um inconsequente! Ninguém mandou você ir atrás daquele bandidos imbecis. Saiu em todas as notícias! Sabe a mentirada que tiveram que inventar pra ninguém ir preso? — a Finley gritava.

- Malia... — Flynn tentou a acalmar.

- Não. — ela murmurou nervosa, fazendo ele dar uns passos para trás e levantar as mãos em sinal de rendição. Ela voltou a me encarar. — Deixa eu ver seu braço, Ander.

- Para com isso, Malia... — passei a mão pela testa. Ela era muito observadora, já tinha percebido que eu estava bem, por mais nervosa que estivesse, por mais adrenalina que acontecesse.

- Ander. — ela falou meu nome de maneira dura e eu suspirei antes de obedecê-la, tirando e largando a camisa úmida no chão. Os olhares surpresos direcionados para meu curativo não vieram de Malia, mas de todos os outros que estavam na sala.  — Eu sabia... — murmurou. — Quem fez isso?

- Alguém. — bufei.

- Ah, você jura? — ela debochou e eu suspirei. Ela me encarou, vendo eu ficar ainda mais nervoso. — Foi uma mulher.

- Chega. — pedi, me alterando.

- Foi uma mulher que fez isso no seu braço, né? — falou como se tivesse ganhado na loteria, mas seu sorriso era cínico. — Quem é? Com certeza uma das mulheres que você come não é, elas não tem cérebro pra fazer esse tipo de curativo.

- Foi a moça que eu impedi de ser estuprada, satisfeita? — me larguei no sofá.

- Não, não estou. — ela balançou a cabeça negativamente. — Quero saber quem é, onde mora, como vive e profissão.

- Se chama Katerina, mora há uns 3 quarteirões daqui, mas é russa, vive bem e trabalha no Griffin's Bar. Ela quis retribuir ajuda que eu dei ontem a noite e me levou até a casa dela pra me curar, só isso. — respondi e expliquei para que tudo aquilo acabasse logo, estava me irritando.

- Me parece decente. — ela analisou e eu só tive reação para levantar novamente, dessa vez realmente nervoso.

- Acabei de conhecer ela, Malia, não começa a inventar, você sabe que não dá. — falei e encarei Flynn e os outros. — Agora, o interrogatório e o esporro acabaram? Tô com dor de cabeça, levei um tiro, perdi minha moto, celular estragou, meus documentos estão fodidos, mal dormi a ontem e pelo visto os lucros dessa noite foram por água abaixo, como se já não bastasse termos perdido clientes de manhã por causa do Matt. — reclamei alto. — Será que posso me deitar?

Sem esperar uma resposta fui para o meu quarto, ouvindo a movimentação e até suspiros de alívio de todos os que estavam presentes, apesar do momento de tensão, eles ainda eram como uma família para mim e eu tenho certeza que eu também era para eles, então até fiquei feliz pela consideração.

Mas eu estava nervoso, e me joguei na cama depois de tomar um longo banho e tirar aquele cheiro da água suja do rio, pensando sobre o que mais eu tinha falado sobre Katerina.

Não vou negar, me interessei por ela hoje, a mesma é extremamente bonita e com certeza gostosa, mas não era só isso, ela tinha uma conversa envolvente e apesar de ser claramente impaciente, isso não impediu o fato de eu achá-la divertida e confiável.

Eu não podia.

Simplesmente não dava.

E eu só conseguia pensar só quanto aquele dia tinha sido uma grande e nojenta merda.

Me virei para o canto depois de apagar a luz e cai no sono.





.
.
.



Oioi, gente!
Passando pra desejar
um feliz natal pra todo mundo
e agradecer pelo apoio, fiquem
bem e se cuidem em casa com suas
famílias.

Até domingo!
<3

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