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"E agora há uma faca de aço na minha traqueia
Não consigo respirar, mas ainda luto enquanto puder lutar
Desde que o errado pareça certo, é como se eu estivesse em pleno voo"
— Love The Way You Lie, Eminem (ft. Rihanna)
Não vou mentir, parece que minha mente estava paralisada desde a noite anterior. Algo daquele tipo nunca havia acontecido comigo, quase ser estuprada não é algo que as pessoas desejem ou prevêem, infelizmente.
Eu sempre aprendi a me defender sozinha, e para ser honesta, minha personalidade um tanto impaciente e facilmente irritativa, afastava muitos caras que "tentavam" algo comigo ou garotas que até queriam ser minhas amigas. Bom, não tenho muito do que reclamar na verdade, isso não é tão ruim.
O problema foi me deparar com uma situação daquela e ainda ser ajudada por um desconhecido que, eu manteria distância em circunstâncias normais por motivos óbvios, mas o que eu queria agora era que ele aparecesse naquele maldito bar.
Depois de conversar com meu pai a noite sobre o que aconteceu, ele disse que eu tinha de encontrar esse rapaz e agradecê-lo, claro que eu omiti algumas coisas como o fato dele ser um líder de gangue totalmente perigoso. Mas eu sabia que devia agradecer ao tal Ander por isso, só não sabia como, quando e onde.
Então, depois de passar na casa da megera, fazer o café da manhã e lhe dar os remédios, eu vim trabalhar esperando esperançosa que ele aparecesse para tomar uma cerveja e eu poderia falar com ele, tentar retribuir a ajuda que ele me deu ontem era prioridade, eu não gostava de "dever nada" para ninguém, mas não tinha nada que eu pudesse fazer afinal.
- Cuida aqui pra mim, vou ao banheiro. — avisei e vi Billy assentir com a cabeça sem reclamar, até porque o dia estava tranquilo, não tinha nenhum cliente ali.
Mas assim que me virei para ir até o banheiro feminino que tinha um pouco mais nos fundos do bar, vi quem eu tanto queria que aparecesse.
Ele estava ali. No bar. Se sentando na banqueta e apoiando as mãos no balcão enquanto esperava atendimento tranquilamente, mexendo no celular.
Billy saiu do caixa e foi na direção dele para atendê-lo, mas eu fui mais rápida.
- Esquece, pode deixar que eu atendo. — falei, sem me importar em segurar o xixi mais um pouco. Billy me olhou, parecendo desconfiado. — Preciso de pontos com o Griffin. — falei e ele continuou me encarando daquela maneira, mas aceitou a resposta e voltou ao caixa. Suspirei e pela primeira vez me senti nervosa; caminhei até ao cliente. — Boa tarde, o que vai querer?
- Uma cerveja e um maço de cigarro bello. — ele falou naturalmente, sem tirar os olhos do celular. Decidida, peguei o cigarro e enchi uma caneca de vidro com o álcool pedido. — Quanto é? — ele foi retirando a carteira do bolso.
- É por conta da casa. — respondi e o mesmo pela primeira vez me olhou com as sobrancelhas arqueadas, confuso. — É que... — soltei um pigarro. — Ontem, na rua, eu nunca tinha passado por algo daquele tipo antes então não sabia bem como lidar, por isso não disse nada. Nunca precisei que me ajudassem numa briga, mas quase ser estuprada não estava na minha lista. E mesmo que eu pudesse lidar com aquela situação, reconheço que você foi de grande ajuda.
- Então isso é um... — ele sorriu de lado. — Jeito de agradecer? — o desgraçado perguntou, parecendo se divertir com o jeito embolado no qual eu falei. Qual é?! Eu nunca tinha precisado daquilo!
- É. — dei de ombros, sem graça. — Mesmo que seja estragando seu fígado e seus pulmões, tô te poupando uma grana, então...
Ele riu com minhas palavras e eu não pude evitar de sorrir minimamente.
Colocou o capacete preto que carregava e o celular sobre o balcão e estendeu sua mão direita para mim.
- Ander Ballard. — se apresentou.
- Eu sei. — o olhei sem perder o mínimo sorriso, que quase se tornou um deboche, mas estendi minha mão para ele e apertei antes de me apresentar: — Katerina Serebryakov.
- Que sobrenome difícil. — Ander comentou soltando minha mão.
- Sou russa. — falei normalmente e vi uma de suas sobrancelhas arquearem.
- Ah. — ele murmurou e seus olhos passaram a me encarar de cima a baixo, mas mantendo sua expressão de pura neutralidade, o que fez um arrepio correr como um raio pela minha espinha. Ele desviou o olhar após alguns segundos e a quentura que meu corpo tinha pareceu sumir. — Será que dessa vez você me deixa ascender um aqui? — perguntou, abrindo o maço e pegando um cigarro.
- Só dessa vez. — especifiquei e vi um outro sorriso nascer no rosto dele. O telefone dele fez um barulho e ao olhar a notificação, seu semblante ficou sério.
- Merda, mal saí e já tem problema. — ele resmungou e se levantou, pegando o celular e o capacete. — Valeu pela cerveja e pelo cigarro.
- Não foi nada. — murmurei, acenando com a cabeça para ele, simplesmente.
- Te vejo por aí. — ele piscou, saindo do bar logo em seguida e eu pude respirar fundo.
- Cara... — Alissa saiu dos fundos, segurando os papéis da contabilidade que ela calculava para o tio e entregou ao Billy, enquanto me encarava com um sorriso malicioso. — Que tensão sexual foi essa que surgiu?
- Não sei do que você tá falando. — franzi o cenho.
- Eu não tô cega. — ela cruzou os braços.
- Até eu notei. — Billy deu de ombros, guardando os papéis com ele para entregar ao Griffin mais tarde, já que ele não estava ali, havia ido receber uma carga de cerveja.
- Acabamos de nos conhecer. — revirei os olhos.
- É assim que começa. — Billy levou os olhos até os meus. — Primeiro, é uma chama pequena, e quando você for ver, nem os bombeiros vão conseguir apagar o incêndio do amor.
- Ou do fogo no rabo. — Alissa recrutou e vi ambos segurarem o riso, o que me irritou profundamente.
- Dá pra pararem?! — elevei a voz, sentindo as bochechas ficarem quentes. Eles ainda se seguravam e eu quis arrancar os fios de cabelos deles. — Vou no banheiro.
Saí, podendo ter pelo menos alguns minutos de paz.
E o dia se passou mais tranquilo do que eu esperava que fosse para um segundo dia de trabalho em uma cidade famosa e movimentada até demais.
Um incômodo se fazia presente desde que Ander havia ido embora, mas eu não sabia o que era. Eu o agradeci, não como deveria, mas o fiz; eu tirei um pouco do dinheiro que meu pai havia me dado e paguei a cerveja e o cigarro que lhe dei de graça e fora que Alissa e Billy pararam de me encher o saco.
Talvez fosse o fato de que o telefone dele tocou e, eu percebi que a postura dele mudou drasticamente quando ele saiu pela porta daquele bar.
De qualquer maneira, aquilo não me interessa, não me importava. E mesmo assim, eu me senti... Preocupada? Não, não era para tanto, no máximo incomodada, eu nunca lidei com situações assim, líder de gangue que ajuda mulheres que quase são estupradas, em filmes isso não acontece, eles se juntam aos estupradores porque são do mau. Mas Ander não era assim.
Suspirei.
Alissa já tinha ido embora há muito tempo, o trabalho na revista devia ser claramente puxado, e ela havia comentado que tinha de fazer uma matéria nova; algo que chamasse atenção dos nova iorquinos, e aquilo devia ser difícil demais.
Eu e Billy já estávamos nos preparando para fechar o bar, já passava das 23h e só continuamos ali para esperar o senhor Griffin chegar, que demorou um bom tempo para voltar, mas estava lotado de caixotes em seu carro que ajudamos a descarregar.
Cada um foi para seu lado, e confesso que fiquei receosa de ir embora sozinha, tanto que Billy se ofereceu para me levar até em casa, mas eu recusei. Claro que ainda estava com medo, mas agora acho que eu saberia melhor como tratar a situação; além do mais, enquanto estava fazendo o almoço da megera e o meu hoje pela tarde, aproveitei para fazer daqueles spray de pimenta caseiro, bem ardido. Eu deixaria alguém cego caso me tocassem.
Atravessei a rua e logo virei a esquina, pronta para ir para casa tirar uma boa noite de sono, afinal, eu mal havia dormido direito por conta da noite anterior e no fundo estava torcendo para que nada de incomum acontecesse.
Mas meus pensamentos se esvaíram rapidamente quando vi Ander andando por aquela esquina todo molhado, cambaleando e com uma ferida de bala no braço esquerdo.
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