Capítulo 19

O luto durou três meses e não dava sinal de que iria passar tão cedo.

A cova fora feita ao lado da de Elizabeth.

Não levou mais do que alguns minutos mas, para Halt, o ritual levou dias.

Ele mesmo que cavou utilizando a pá que encontrara na sala do coveiro que ainda não havia chegado.

Depois de enterrar o amigo, ele foi até uma bica lavar as mãos sujas de sangue.

Sangue de Dylan.

Ele também tirou a camisa e a jogou no lixo. Também estava suja.

Ele não se sentia triste assim desde o dia em que seu avô Ted havia morrido e, mesmo depois de todos esses meses, a dor continuava com a mesma intensidade.

Callie fazia de tudo para alegrar Halt: passou uma noite em claro para colocar as ponteiras em todas as flechas e treinara sozinha a carregá-las com energia cinética e a descarregar. O resultado não podia ser melhor e, apesar de nunca ter podido atirar uma com todo o seu potencial energético, era nítido o incrível poder delas.

Mas Halt apenas se limitou a um sorriso triste e a bagunçar o cabelo da adolescente.

A qualidade dos treinos não caíram, mas Halt não tinha mais a mesma energia de antes e isso preocupou Callie mais do que ela gostaria de admitir.

- Halt, já chega! - disse ela de repente após disparar algumas flechas. Das cinco presas ao alvo, quatro atingiram o centro. - Vamos sair.

De seu banco, Halt se limitou a abrir os olhos.

- Muito perigoso - disse.

- Eu não me importo que isso seja perigoso. A casa inteira já está empestiada com essa sua energia depressiva e isso nunca vai passar ao menos que você saia desse lugar.

- Callie, não podemos sair... - começou, desanimado, mas Callie o interrompeu.

- Podemos sim. Vamos, Halt, podemos levar tudo o que você quiser, mas eu insisto que temos que sair. Não está dando mais.

Ele suspirou. Além de ser perigoso, ele não tinha a mínima vontade de sair. Na verdade, sequer de se levantar da cadeira e subir aquele enorme lance de escadas até a superfície.

Por outro lado, sabia que Callie estava certa: o luto nunca ia passar se eles não saíssem para, pelo menos, uma volta ao parque.

- Tudo bem... - disse por fim com um suspiro e Callie pulou em comemoração.

- Leve o arco - disse e Callie assentiu, se virando para ir buscar as flechas.

Com um grunhido, Halt se levantou da cadeira e foi até a estante de armas e pegou uma Beretta M9, onde prendeu atrás da calça. Nunca mais sairia sem uma arma.

Elijah havia lhe enviado um carro novo assim que soube do ataque, e essa seria a primeira vez que ele o usaria.

Halt dirigiu até um parque vazio algumas quadras dali. Não queria chamar atenção com o arco e flechas de Callie e também não estava nem um pouco animado para ficar perto de muita gente.

Callie apontava com o dedo para todos os lugares e fazia comentários inteligentes sobre eles, mas Halt não parecia muito interessado.

- Ainda estamos em hora de treino - disse Halt quando a garota já estava começando a irritá-lo. - Controle a velocidade para a humana normal, mas dê duas voltas no parque.

Ela reclamou, mas obedeceu.

Halt se sentou na grama em frente a lagoa. Dizer que haviam dez pessoas naquele parque inteiro era muito. Ainda era muito cedo e a cidade, pequena. Apenas senhores e senhoras já aposentados andavam por ali.

Era um lugar com uma visão periférica boa e, por isso, não era necessária muita atenção para vigiar o perímetro.

Mas mesmo com todo aquele espaço e verde a sua volta, Halt não se sentia feliz. Verde e lugares arejados sempre o animavam, mas, naquele momento, era como se ele continuasse dentro de casa.

Ele ouviu as flechas de Callie quicando dentro da aljava quando ela passou correndo atrás dele, mas logo sumiu.

Ele sabia que não podia estar com a guarda tão baixa daquele jeito, mas sempre que ele tentava ficar atento, as lembranças voltavam e novamente lá estava ele mergulhando na tristeza.

Era um ciclo sem fim, que o homem tentava a todo custo quebrar.

Mas não conseguia.

E também, não sabia.

Ele olhou para o relógio. Já havia se passado meia hora e ele queria voltar para casa. O ambiente não estava o ajudando e as árvores pareciam julgá-lo.

Esperou Callie voltar da última volta.

Esperou, esperou, esperou... Dez minutos se passaram e nem sinal de Callie.

Halt se levantou. O parque era grande, mas Callie com certeza não levava mais do que isso para terminar o trajeto.

Ele se preparou para correr na direção contrária da que ela tinha ido.

Era estranho usar suas pernas para um exercício de novo e ele reparou que estava começando a ficar fora de forma, o que o preocupou.

Uma tempestade começou a se formar no céu limpo e automaticamente isso o fez apressar o passo. Callie sabia muito bem que não poderia usar seus poderes fora de casa e, se essa tempestade estava se formando, algo muito errado estava acontecendo.

Ele não deu nem meia volta quando viu um raio caindo na proxima curva.

Ele se aproximou o mais rápido que pode com a pistola nas mãos e o que viu foi nauseante: sete kallckaras cercavam Callie. Oito, se contasse com um caido no chão, torrado pelo raio.

Estavam todos distraídos olhando para a menina com olhares maldosos. Ela estava tão apavorada que sequer se lembrava que tinha um arco em mãos.

De fato, eles eram assustadores, mas Elijah, no seu treinamento, o fizera se acostumar com as figuras sádicas.

Conseguiu atirar na cabeça de dois antes que notassem sua presença e o recebessem com tiros de suas armas vermelhas brilhantes.

Dos cinco restantes, três usavam essas armas e dois, espadas tão lisas e negras como obsidianas lapidadas.

- Callie! - gritou Halt, rolando para se desviar dos tiros.

A menina olhou para ele parecendo acordar de um pesadelo. Ela olhou para trás, onde os kallckaras com espadas já se preparavam para atacá-la. Ela pulou para trás e posicionou uma flecha no arco, carregando-a com uma energia quente e puxou a corda.

Os monstros olharam para a flecha brilhante com hesitação e isso foi o bastante para Callie atirar a flecha em um que se fincou em seu sobretudo.

Ele pegou fogo na hora e se espalhou pelo pêlo grosso.

O outro olhou para Callie com raiva e atacou antes de ela conseguir pegar outra flecha.

A garota usou a mesma tática de rolamento de Halt e, ao fazer isso, concentrou-se no céu fechado acima deles.

Ela não era rápida com os raios. Foi muita sorte ela ter conseguido matar um kallckara antes de Halt chegar e ela duvidava que iria conseguir matar aquele.

Matar. Ela nunca havia matado.

...ela gostou da sensação e isso era assustador.

Um trovão soou no céu, mas ela não teve mais tempo para formar um raio.

O kallckara feriu-a na assim que a garota se levantou. Com um grito de dor, ela pulou na direção do monstro e, formando duas chamas com suas mãos, tocou no peito do kallckara.

Os pelos ásperos, notou Callie, pegavam fogo rápido e bastou apenas um contato de três segundos para que ficasse mais ocupado em tentar apagar o fogo de si mesmo do que pegar Callie.

Seu grito de dor era o pior som que a adolescente ouvira na vida (e olha que ela já ouvira muitos sons péssimos). Sua vontade era de arrancar os próprios tímpanos fora.

Ela sacou uma flecha e atirou na cabeça do peludo para acabar com o sofrimento de seus ouvidos.

Ela se virou na direção de Halt bem no momento que o último kallckara caía no chão.

Ele fora baleado no braço, mas não parecia sentir dor.

Arfante, ele encarou os kallckaras caídos com uma expressão indecifrável.

- Temos que nos mudar - disse de repente. - Hoje mesmo.

Eles correram para o carro e Halt fez um breve resumo sobre os acontecimentos. Elijah rapidamente passou instruções para Halt e disse que iria imediatamente esconder os corpos.

Callie tremia. Agora que a adrenalina passara, ela estava realmente se dando conta do que acabara de fazer. E ver.

- Foi muito fundo? - indagou Halt, referindo-se ao ferimento na perna.

- Um pouco. Não sei direito, mas não estou sentindo nenhuma dor - disse.

- Vamos ver isso melhor quando chegarmos em casa.

Ela assentiu e o silêncio tomou conta do carro. Halt olhou para a menina e reparou que ela se segurava para não parecer assustada.

Mas era nítido que ela estava apavorada.

- Desculpe, Callie - disse, de repente, abaixando a cabeça.

Ela olhou para ele, confusa.

- Pelo o quê?

- Eu deixei o luto tomar conta de mim - admitiu. - E isso fez com que eu fosse irresponsável e te deixasse sozinha. É muita sorte que você ainda esteja viva e, se morresse, seria totalmente culpa minha.

Ela negou com a cabeça.

- Eu que pedi para que viéssemos. Se não fosse por isso, estariamos em casa em segurança.

- Sair foi bom - disse, e então sorriu para a menina. - Sua ideia deu certo, obrigado.

Ela sorriu em retribuição. Sorrisos normalmente já eram muito raros em Halt, mas depois da morte de Dylan, ele os banira totalmente. Era bom ver seu protetor sorrindo de novo.

- Não me deixarei abalar novamente. Não por tanto tempo - disse, subitamente sério. - É uma promessa.

🔥⚡🔥

Capítulo longo, Jesus. Isso não pode acontecer em e-book...

Obrigada por lerem! 

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