Na íntegra
Perda: Sentimento de dissecação interno, onde algo ou alguém foi tirado e você.
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10 years before...
Rules Maniza Bagchi não era adepta a mudanças. Odiava esse negócio todo de embalar, transportar, desembalar e ter que arrumar tudo em um novo ambiente depois. Rules odiava, tanto que nem conseguia por em palavras.
Mas era necessário.
E foi por isso que havia passado seus dois últimos dias embalando suas coisas para a mudança. E consequentemente havia ficado irritada também, e só não mais porque tinha Scarlett para lhe ajudar com tudo que precisasse. Até mesmo em melhorar seu mau humor.
─ Tem coisas aqui de quando você era uma pirralha ainda. ─ Scarlett falou, enquanto xeretava suas gavetas. ─ Tenho pena desse bebê que terá uma mãe acumuladora.
─ Se procurar muito acho que ainda tenho coisas de quando tinha 10 anos.
─ Repito: acumuladora.
─ Acumuladora não. Guardo as coisas que acho importantes.
─ O que é isso? ─ Aos risos, Scarlett tirou uma roupa toda gliterizada de lá.
Rules observou tudo, parando até mesmo de dobrar sua parte e se lembrou de todos aqueles babados e cores.
─ Acho que usei na terceira série. É uma fantasia de fada. ─ Declarou: ─ Se continuarmos procurando talvez achemos as asas.
─ Ah, claro. E para que mesmo você precisa disso? ─ Ela questionou.
─ Bom... ainda não sei. ─ Riu, se dando por vencida.
Talvez fosse realmente acumuladora. Sua mãe, Ágata havia lhe ensinado que objetos guardam lembranças. Então quando tiveram que se separar, Rules herdará esse pensamento dela. As aproximava, mesmo que do outro lado do oceano. E toda vez que encontrar algo de determinado tempo, havia determinada lembrança para recordar.
A fantasia de fada que usará na terceira série tinha a lembrança de uma apresentação onde havia passado mais vergonha que o habitual. O que a fez rir. Seus novos pai e mãe estavam na platéia, alvoroçados com a apresentação da filha, enquanto guardavam a cena no pensamento.
Rules é nativa da índia, porém criada no Brasil até os três anos de idade. Seus pais foram imigrantes ilegais, e isso fez com que perdessem a guarda da pequena Rules, ainda muito nova. E a morena acabará indo parar na Alemanha com sua nova família, longe de tudo que era conhecido até então. Fora difícil, mas não tanto que não poderia suportar.
Estudou, trabalhou e teve uma vida regada a amor. Quando tinha 8 anos, Jordana sua mãe engravidou de Iana, sua irmã caçula. E foi a maior alegria de sua vida. E aos 10 conheceu Evan, a pessoa pela qual ainda não sabia, mas entregaria seu coração de ponta a ponta.
─ Será que vocês precisam de um gás nessa arrumação toda? ─ Evan entrou no quarto, trazendo uma sacola do Cooks com ele.
─ Não acredito que veio. ─ Rules sorriu, assim que ele se aproximou, beijando-a rapidamente. ─ Derek te liberou?
─ Não exatamente, mas tenho algum tempo livre. ─ Respondeu, abraçando a namorada. ─ Oi, Scarlett.
─ Tô vazando, casal. Não precisa nem pedir duas vezes. ─ A amiga de Rules negou enquanto partia, mas então parou na porta: ─ Ah, e Evan? Cuidado para a fada não te encher de glitter.
E vazou, fechando a porta atrás de si.
Evan encarou Rules pedindo uma explicação, mas a namorada apenas riu, deixando-o no escuro e logo sendo surpreendido por um beijo, que o animou.
─ Sobre o que Scarlett estava falando antes?
─ Sobre ter cuidado com a fada e o glitter? ─ Ele assentiu, ela riu. ─ Nada demais. Apenas uma fantasia boba.
─ Não me diga que sua fantasia é me ver em uma roupinha de fada. Porque se for, eu me recuso a... ─ Rules o beijou antes que terminasse a frase. ─ Rules, é sério.
─ Não tinha pensado nisso, mas agora que você falou...
Rules e Evan tinham tudo para ser como um casal comum, juntos desde a pré adolescência. Ninguém sabia estipular o momento em que começaram a se relacionar, já que sempre estiveram juntos a vida quase toda. Cidade pequena. Pessoa iguais. Relacionamentos também.
E com Evan, Rules sempre se sentiu uma fugitiva desse clichê. Nada com Evan parecia comum, nada parecia como com os outros. Ele era um ponto com vírgula no meio de uma frase solta. Evan nunca fazia sentido, mas era o sentido de sua vida. Ele lhe mostrou cor, lhe ensionou a aquarela inteira.
Ainda sorrindo, Evan enganchou sua cintura, recebendo um par de pernas ao redor de sua cintura, e os dois caíram na cama, num beijo aflorado e um momento perfeito na cama de seu quarto, na casa de seus pais. Evan suspirou, quebrando o momento íntimo, mas ainda continuando ali, sem forçar seu peso em cima da namorada, a qual amava mais que a si mesmo.
─ Está pronta para isso? ─ Incerta sobre a pergunta, Rules apenas confirmou. ─ Se achar que não está pronta para largar Jordana e sua casa, eu vou entender completamente.
─ É claro que estou. ─ Sorriu, se dando conta do temor em sua última fala: ─ Vamos fazer isso juntos. Eu confio em você e quero que tenhamos nossa própria vida. Estou guardando seu filho e você vai guardar nossa família, Evan.
─ Não posso te oferecer luxo, Rules. Só a mim. Nem a você, nem ao bebê.
─ Com você do meu lado, o que mais posso querer? ─ Questionou, escorregando a mão de seu rosto, até tocar seu coração. ─ Eu te pedi amor e você me deu tudo. Não vamos dividir a vida, vamos dividir tudo. Eu quero, Evan, você. Como nunca quis ninguém. E nosso filho vai ser mais amado do que é possível contar.
Então ele sorriu e a beijou novamente. Evan sentia-se o homem mais sortudo do mundo por ter Rules ao seu lado, e um homem completamente feito por ter a certeza de que sua vida ao lado dela nunca seria chata ou tediosa. Rules era uma caixa de surpresas e sempre tinha algo em mãos para alegrar até o mais triste dos sorrisos. Tinha o dom e o usava. E saber disso só o permitiu dizer uma coisa em resposta:
─ Eu te amo tanto, Rules. Não consigo imaginar a minha vida sem você. ─ Ela sorriu. ─ Vocês dois são minha alma. Nolan, meu amor... ─ Rules riu quando Evan se afastou dela, buscando encontro com a barriga agora carregando os já contábeis 8 meses do pequeno Nolan. ─ Você tem muita sorte, filho. Terá a melhor mãe desse mundo.
─ Terá o melhor papai também.
─ Vou tatuar meu amor por vocês em breve. Nossa casa, nosso canto, nossa família. Vou tatuar tudo isso.
─ Não vou deixar que encha sua pele de tinta, queridinho. ─ Indignada, Rules riu enquanto lhe dava um tapa sútil na cabeça.
─ Não se preocupe, bebê. Vou tatuar no coração. ─ Emocionada, a menina sentiu os olhos marejarem. ─ Eu preciso ir. Nos vemos mais tarde?
─ Nos vemos mais tarde.
Evan lhe deu um último beijo e então saiu, levando consigo o frio na barriga de Rules e a sensação de que tudo logo ficaria bem.
Mas não ficou.
Rules apenas suspirou e não tinha muito o que dizer, nem do que reclamar com sua partida. Mas podia dizer que seu coração tremeu na base ao ouvir a confirmação daquelas palavras.
A lembrança do show de balé havia sido substituída pela lembrança da última vez que vira Evan com vida, sorrindo e trajando aquele uniforme horroroso do Derek's Officina.
Hoje fazia quase dois meses desde o acidente. Quase dois meses desde que haviam cancelado o casamento ─ Planejado desde seus quinze anos. Quase dois meses desde que havia enterrado Evan. Quase dois meses desde que perderá o amor da sua vida. Quase dois meses. E nada dessa dor passar. Ainda era uma incógnita para Rules como havia suportado aqueles quase dois meses.
Se lhe perguntassem: Como havia conseguido? Ela mesma não conseguiria responder, porque nem se lembrava de ter os vivido. Sentia como se alguém tivesse posto sua vida no modo suporte de ajuda e ela apenas tivesse piscado seus olhos, e agora estava ali: quase dois meses depois, ainda naquele leito de hospital, encarando a parede sem cor e pensando em como sua vida fora chegar a esse ponto.
Ela orou. Orou por dias. E não era adepta a nenhuma religião, mas orou por ele. Orou por Evan. Por sua vida. Por seu filho, que agora não tinha pai. Orou pelo medo, por todas as lágrimas, orou por cada segundo que respirava sem ele ao seu lado.
Ouviu batidas na porta, e limpou os olhos, sentando de forma confortável no momento em que Marco Reus atravessou a porta com o bebê Nolan, de 2 meses nos braços. Marco sorria com ternura para o pequeno, que apertava com força o dedo do alemão.
Encantadores.
─ Oi. ─ Ele disse ao se aproximar de Rules, que sorriu sem mostrar os dentes, ignorando o bebê. ─ Você quer pegar ele?
─ Não está na hora de amamentar ainda.
─ Sei que não, mas pensei que fosse querer vê-lo ou então...
─ Não, obrigada. ─ Extasiada, Rules se deitou e virou para o lado, ignorando ambas as presenças. ─ Quando sair fecha a porta, por favor.
─ Rules, Scarlett está preocupada com você. Ela passa a maior parte do tempo aqui e me disse que você nem olha para o bebê direito.
─ Eu só preciso de um tempo, Marco.
─ Quanto?
─ Não sei. Quando eu descobrir eu te aviso, pode ser?
─ Tudo bem. ─ Assentiu sem se virar. ─ Iana vive chorando em casa. Jordana pediu para te avisar que ela sente sua falta.
─ Eu vou voltar, Reus. Só preciso de um tempo.
Reus e Evan eram amigos. Amigos como todo ser humano deveria ter pelo menos um nessa vida. Mesmo em Dortmund, eles sempre se falavam. Marco ficou extremamente feliz ao descobrir que o amigo seria pai e que tinha encontrado alguém para viver a vida. A primeira vez em que fora para Munich, logo de início Rules e Scarlett se tornaram as melhores amigas que poderiam ser. Boas amigas e com bons namorados. Isso aos 17 anos de idade, enquanto Marco já trilhava seu caminho no mundo esportivo, Evan trabalhava com o avô em uma oficina.
Mundos e sonhos completamente diferentes, mas que se tiveram a oportunidade de se esbarrar, fazendo bom uso da chance.
E agora Marco perdera o melhor amigo, Rules o namorado, Nolan o pai. Evan dizia que ninguém realmente perde algo, mas que agora não fazia mais sentido pensar assim. Não sem ele.
Evan Laurent está morto. E Rules Maniza Bagchi mais sozinha do que nunca.
Até o próximo.
Vão para o Instagram seguir a Rules.
@rulesmaniza
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