22. Sobre as decisões difíceis
Que demanda esforço intelectual para ser entendido; complicado, obscuro.
30.
05.
2019.
Que dia!
Rules passou as mãos pelo cabelo, juntando os fios e os prendendo em um rabo de cavalo desengonçado e mal feito. Nem se importou. Mais uma noite chegava ao fim, e ela sabia que na manhã seguinte teria de voltar para Dortmund, novamente correndo paras os trilhos de sua vida comum e sem graça.
Já sentia falta de tudo. E mal tinha trocado três peças de roupas desde que chegará ali em Munich, a dois dias atrás. Após passar aquelas horas com Thomas e Nolan, ela tinha o dever de voltar. Voltar e reaver sua vida. Mesmo que agora, aquela rotina que vivia em Dortmund, não parecesse tão sua.
Ela pôs os pratos na lava louças. Podia ouvir Nolan e Thomas gritando um com o outro sobre um jogo perdido. Ela riu e fechou a máquina, se virando e vendo Marco Reus parado á alguns metros dela.
— Esqueceu esse. — Ele estendeu um prato em direção a ela. Rules o pegou. — Obrigada por me deixar fazer isso com vocês.
— Levando em consideração o fato de que a casa de Thomas está completamente dentro de uma caixa a pronta mudança, não tínhamos opção melhor do quê vir comer aqui. — Ela abriu a porta, colocando o prato junto dos outros. — E além do mais, Nolan o queria aqui. Só isso.
— Mesmo assim. Você podia não ter me deixado ficar.
— Eu tentei recusar sua presença, Mark não me deu escolha. Você sabe disso, Marco, então por favor, não faça parecer que eu te implorei para estar aqui.
Ele queria conversar. Queria colocar para fora suas angustias, preocupações e dúvidas. Ele queria mesmo. Mas sabia que no momento em que abrisse a boca, Rules sairia correndo. E a melhor forma de não deixar isso acontecer, era não cutucar a ferida. Não agora.
— Você sabia sobre isso? — Rules arqueou a sobrancelha para ele. — Sobre a mudança.
— Não. Estou tão surpresa quanto você.
— Pensei que estivessem em um relacionamento.
"Já era um diálogo", Rules pensava enquanto passava o pano no balcão para limpar os farelos que tinham se espalhado na pedra.
— Eu nem sei mais o que é um relacionamento, Marco. Thomas e eu não rotulamos nada. A gente só está vivendo.
— E quanto a Nolan? — Reus a questionou.
— Também estou me preocupando com isso, não se preocupe. — Rules negou, puxando uma cadeira e colocando em cima do balcão, de cabeça para baixo.
Marco fez o mesmo com a outra cadeira.
— Eu tive uma conversa com ele, Rules. Thomas é muito importante para ele.
— Eu sei disso. Já tive uma palinha do quanto a presença de Thomas é importante na vida de Nolan, mas também já conversamos sobre isso. Ele é uma criança. Esta exigindo demais de toda a situação.
— Ele só está feliz. Não é errado se sentir assim.
— Você acha que eu não sei? — De forma ignorante, ela fez questão de olhar para ele. Por que Marco estava fazendo tantas perguntas? Ele tinha apenas que estar lá calado e não se preocupar tanto.
Rules daria um jeito. Ela sempre dava.
A máquina apitou, alertando que o primeiro passo do progresso já tinha sido feito. Marco encarou a luz vermelha piscando, e apertou um dos botões, iniciando a sequência de auto secagem. Rules pegou a vassoura no armário e começou a varrer o chão.
— Em algum momento você vai me deixar falar com você sobre o que aconteceu com Iana? — Ele tomou coragem e fez a pergunta que até então, não tinha tido coragem de perguntar.
Da sala Nolan comemorou um gol eufórico. Rules ouviu as reclamações de Thomas e logo a falação diminuiu quando voltaram a jogar. Marco continuava olhando para ela. Rules travada com as mãos no cabo da vassoura.
Rules não soube porquê, mas o momento exato em que viu Marco com seu filho no colo pela primeira vez veio a sua mente. Ele era terno, carinhoso e família. Ele estendeu a mão, foi grato e os acolheu no momento de luto. Ela não podia odiá-lo. Podia estar magoada, ferida e confusa. Mas não o odiava.
Nunca odiou.
— Eu não tenho recordações da minha família biológica como gostaria. Jordana e Mark me adotaram muito jovem, talvez tenham salvo a minha vida. — Marco a ouviu falando, lembrando de toda a história que já conhecia a tempos. — No meio daquela guerra, que até hoje alguns países do continente alimentam, minha família foi se refugiar logo naquele país. E logo naquele momento. O Brasil os acolheu, mas não foi nenhum pouco gentil. Jordana e Mark foram. Minha mãe me entregou e hoje, sendo mãe eu sei como deve ter sido a coisa mais difícil da vida dela. Mesmo com esse sacrifício, eu não tenho recordações, Marco. Ela morreu tempos depois de eu ser entregue a Jordana. E adivinha? Zero recordações. Ela me amava e eu não duvidei jamais. Mesmo assim, continuo sem as malditas recordações. Mas eu a amo. Não pelo que ela foi, mas pelo que ela é. Ela é minha mãe. Independentemente do que tenha feito, de como ela fez e do que eu posso lembrar. E amo Jordana tão grande quanto. A diferença é que com Jordana eu tenho muitas e muitas recordações. Eu guardo as que tenho e penso nas que poderia ter. É como funciona no amor. É como funciona no perdão também. Tem que entender, Marco que você mexeu com a coisa mais importante da minha vida.
Se Marco resolvesse tampar o nariz, morreria. Na garganta na passava nada. Ele engoliu a seco as duras palavras da amiga.
— Eu mexi com a sua família.
— Você é minha família, Marco. — A informação o pegou de surpresa. — Você é.
— Então sobre a Iana, eu...
— Mas há limites. Scarlett é uma das pessoas mais importantes da minha vida. Você e ela são. O que Scarlett fez por mim, Nolan e principalmente Iana durante todos esses anos a torna incontestável na nossa vida. Ela é como uma irmã pra mim. E com certeza Scarlett é família para mim.
Nem mesmo o sentimento de derrota e fracasso eram páreos para o sentimento de angustia que atingiu como um soco na cara de Marco Reus. Ele sabia que a ferida era profunda. E mais do que ninguém, ele sabia que jamais poderia ser a cura daquela situação. No máximo um Band-aid.
— E não estou dizendo que Iana não é minha família. Pelo contrário, ver Iana ferir Scarlett é como ver família ferir família. Eu não suporto, Marco. Não poderia. Eu jamais vou perdoá-los por ter feito isso com a nossa família. De forma intencional ou não, você feriu todo mundo. Suas escolhas vão afetar minha irmã, minha melhor amiga, meu filho, minha vida. Você era o exemplo de pai que Nolan tinha e conseguiu ferrar com tudo. Pelo quê? Uma noite de sexo?
— Iana não foi isso! — Ele foi rápido em corrigir. — Pode não acreditar em nós e eu sei que não acredita. Eu amo ela, Rules. Eu não joguei tudo pro alto a troco de nada. Tem sentimento aqui.
— Tenho dó dos seus sentimentos, Marco. Consigo ver você corroendo por dentro de pouquinho a pouquinho. Iana é jovem, está perdidamente apaixonada por você. O que pedir, ela fará. — Ele negou. — Você sabe que é assim que as coisas são. Estar com você vai fazer ela sofrer bem mais do que já está sofrendo nesse momento. Você diz que não foi sexo, foi amor. Mas eu conheço a minha irmã o suficiente pra saber que ela não esconderia a gravidez assim, se não tivesse uma dúvida.
— Ela tinha medo. Você tem medo! — Ele apontou pra ela. — Não a julgue por sentir isso também.
— Eu não estou. Ela é minha irmã. E eu quero que ela fique segura, mas você põe tudo a perder.
Ele pôs a cabeça no lugar, tentando não se deixar levar pelo momento e pelas palavras que ele sabiam terem um peso maior do que realmente aparentavam. Marco levantou a cabeça, olhou para Rules e que pela primeira vez em tempos ela olhava para ele com ternura e carinho, implorando para ser compreendida. Marco era esperto. Ele negou, nasalou uma risada e estalou a língua.
— Está me pedindo para se afastar dela? — Rules não negou. — Não pode me pedir isso.
— Não estou pedindo. E eu com certeza não mando em você.
Estavam tão concentrados um no outro que nem notaram quando Thomas parou na porta. Ele viu a situação de Reus, as mãos fechadas em punhos, a negação evidente. Rules não falou nada por um tempo, e ele resolveu interferir.
Coçou a garganta, tossindo levemente.
Marco levou toda sua atenção até ele.
— Algum problema? Não pode só esperar que ela volte, tem que vim correndo atrás?
Thomas ignorou a pergunta desaforada e fez silenciosamente uma pergunta a Rules.
— Vou dormir com Thomas. — Ela encostou a vassoura na parede, e passou por Marco. — Pode descer as cadeiras?
— Essa é a única coisa fácil que me pediu hoje.
❦
— Não me pergunte. — Rules logo ditou ao entrar no quarto de Thomas.
— Eu nem ia perguntar. — Confessou sincero. E tirou a camisa. — O estado do Marco me alertou que não era coisa boa.
— Eu não pedi que ele fosse embora da vida dela, eu só... por um tempo, sabe? — Rules se embolou com a própria camiseta, Thomas riu indo ajudá-la a passar os braços e jogar a peça no chão. — Droga. Obrigada. Iana está tão confusa, Marco perto não é a melhor coisa.
— E ele longe é? — Rules sacudiu um pouco enquanto a calça escorria pelas pernas. Thomas amou a cena. Sentia falta daquelas pernas nuas desfilando em sua frente. — O melhor talvez seja deixá-los fazer o que quiserem e com o tempo, eles mesmos podem perceber que não vai funcionar.
— Não quero alimentar. — Ela virou de costas, Thomas tirou a presilha de seu sutiã. Quando ela virou, ele olhou bem o caimento de seus seios torneados, imaginando que logo eles estariam em suas mãos, bocas e passando por todo seu corpo.
— E você acha que deixá-los com fome ajuda?
— Não quero pensar também. — Ela jogou os braços em volta de seu pescoço e beijou ele.
Thomas a abraçou, com o corpo encaixado ao dela, sentindo seu corpo reagir ao contato direto pele com pele. Falta, falta, falta. Como sentia falta de terminar todas as noites com Rules assim: junta dele e sem preocupações. Müller deslizou uma mão pelas costas dela, descendo até alcançar a bunda, apertando nada sutil e sentiu quando ela se contorceu, cortando o contato dos lábios.
— Vamos pro banho?
— Sim, senhorita.
Com a água escorrendo em ambos os corpos e batendo contra eles, nem foi possível notar quem se derramou primeiro sobre o outro. Thomas sabia usar sua delicadeza e a falta dela no mesmo contexto, o que sempre fez Rules questionar se com ele era apenas isso. Apenas sexo. Se algum dia já foi apenas isso, ou se ela tentou por tempo demais se convencer de que não era nada mais que isso.
No terceiro orgasmo naquele boxe, ela quis se enfiar no abraço de Thomas e ficar lá para o resto da vida. Queria ter Thomas a seu alcance em todo momento. Sabia que sim, sobre seus sentimentos, sobre tudo que sentia em relação a ele. E mesmo que ainda não tenha dito que o amava, sabia que ele não estava cobrando nada dela.
Pelo contrário. Ele deu espaço, ele foi embora com a intenção de voltar. Ele nunca a deixou e não faria isso. Era uma promessa silenciosa que tinha feito a ela. Rules não esperava menos dele. Demorou tanto para amar novamente, e agora estava ali com ele.
Amor, né?
— No que está pensando? — Rules abriu os olhos, vendo Thomas massagear seus pés.
Eram 03:00hrs da madrugada. Nenhum dos dois tinha pego no sono ainda. Na verdade, nenhum dos dois tinha sequer tentado. Estavam de roupão, jogados no sofá, curtindo o silêncio, a madrugada e a companhia um do outro. Não tinha coisa melhor.
— Sua mudança.
Thomas suspirou.
— Ela foi de última hora? — Thomas negou. — Por que? Talvez não estejamos numa relação comum, mas não deixa de ser alguma coisa. E mudança é um tópico importante.
— Era para ser uma surpresa.
— Para?
— Você e Nolan. — Ok. Por essa Rules não podia esperar. Thomas notou a torção no sorriso dela. — A casa é maior, bem melhor. Fica no centro. É próxima a escola do Nolan, 30 minutos de carro até o Luminositá Munich.
— É um pouco longe do CT do Bayern, certo?
— Sim, mas isso não é um problemão pra mim.
— E o que estava pensando quando comprou a casa? — Ele tentou responder, Rules foi mais rápida. — Sabe que eu não posso só largar tudo e vim morar com você.
— Você pode. Pode sim. Só não quer, mas poder você pode. E eu não estou te pedindo para largar tudo. Você tem a Luminositá aqui em Munich, o Nolan ia adorar ficar aqui. Morariamos juntos. Eu não sei como isso pode ser ruim para nós.
— Não faz isso comigo, Thomas, por favor. Pelo menos não agora. Confusa ou não, a vida que eu tenho em Dortmund é a minha vida. Eu não posso deixá-la assim, não agora.
— Está me rejeitando. De novo.
— Eu nunca poderia fazer isso, Thomas, porque eu amo você.
Eu amo você.
Ele já tinha dito inúmeras vezes para ela, mas ouvir foi diferente. Rules deu uma segurada na sequência de informações, pois na frente do espelho soava tão ridículo, mas quando viu, já tinha dito. E notou os efeitos sobre Thomas, quando ele parou de massagear seus pés e puxou suas pernas para cima dele, colocando-a sentada em seu colo. Rules o abraçou.
Silêncio.
Silêncio.
— Não vai dizer nada? — Ela perguntou.
— Você e eu sabemos que eu não tenho mais 10 anos no futebol.
— Talvez tenha.
— Não, Rules, não tenho. — Ele segurou o queixo dela, vendo a linha que se formou em seus lábios. — Por mais que eu gostaria de ter, os anos estão chegando. Já tenho 29, esse ano faço 30 anos. E eu não quero jogar por tempo demais, até meu futebol ser feio e forçado. Isso poderia jogar toda a minha carreira fora. E eu quero deixar um legado para Nolan seguir.
— Você... não precisa fazer isso.
— Preciso sim. Eu quero fazer. — Não soube porque estava sentindo seus olhos formigarem logo agora. — Eu vou jogar por 3, talvez 5 anos. Ou menos, não sei. Só que vou me despedir do profissional num futuro breve. E eu quero que esteja na minha vida quando esse momento chegar.
— Thomas...
— Não vou pedí-la em casamento porque sei que não quer isso. — Ela assentiu, uma lágrima escorreu. Thomas a parou com o polegar. — Quero que venham morar comigo, eu vou ajudá-los no que precisar. Eu prometo que sempre será nós. Vou amar você para sempre, assim como vou amar Nolan. Não vejo um futuro diferente.
— Não me faça chorar, Thomas, por favor.
— Venha pra cá, vamos morar juntos. Vocês ficam comigo até o fim da minha carreira e quando isso acontecer, eu vou com você. A gente mora onde você quiser. Na França, na Itália. Você dita e a gente segue. Mas fica aqui comigo, por favor. Eu não consigo mais viver essa coisa distante que a gente tem.
Sim, Thomas, eu fico. Eu quero ficar. Se eu não ficar eu estou perdidamente louca.
— Eu quero.
— Deixa eu adivinhar? Mas não vai. — Thomas bufou, desgostoso.
— Não me tieta, Thomas Müller. Não tem nada que eu queira fazer, que eu não faça, meu bem.
Thomas demorou para entender que tinha ouvido certo o que ela tinha dito. Ela ficaria?
— Rules, você...
— Sim, com certeza sim! — Ela beijou ele, Thomas continuava sem crer. — Mas eu tenho que voltar com Nolan e Marco.
— Estava bom demais para ser verdade. — Ele jogou a cabeça para trás, fazendo-a rir.
— Eu tenho que voltar. Tenho coisas que precisam da minha atenção no momento. Mas é só tempo o suficiente para você terminar a mudança. E quando eu voltar, será para ficar.
— Você está me fazendo o homem mais feliz do mundo hoje, Rules Maniza.
— Eu não esperava menos. Vou sentir falta de Dortmund.
— Eu te levo quando você quiser.
— Também sei disso, mas tem uma coisa. — Thomas arqueou a sobrancelha. O que vinha agora? — Eu quero aquela aliança e quero aquele casamento.
— Sério? — ele riu.
— Seríssimo.
— Beleza. — Ele a tirou de cima dele, se levantando e pegou o celular. Rules não entendeu. — São apenas três e 56. Será que é tarde pra ligar para o padre?
— Thomas, idiota. Não agora.
Ela pulou em cima dele, recebendo amparo e Müller a tirou do chão, recebendo as pernas ao redor de sua cintura.
— Eu pensei que você fosse surtar quando eu confessasse que eu te amo.
— É que eu sempre soube, meu bem. Eu nunca duvidei.
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Se tem uma coisa que os anos ensinam, é que não importa o quanto você ignore uma dor, ela não vai parar de doer assim.
Talvez ela nunca pare. Você tem que aprender a conviver com ela, aprender a lidar com ela, se manter mesmo estando com ela.
A melhor forma disso é encarando de frente. Sofrendo de verdade, chorando de verdade, tapa na cara da própria verdade. Sentar e chorar faz parte. Encarar também.
E é por isso que Rules está sempre no paredão. Ela ama Thomas e a família é importante. Proteger sua base é o que a torna forte para todos os dias. E viva para todo o mundo.
E Naruto nos ensinou, né, babys: quanto mais pessoas você amar, mais forte você se torna para protegê-las.
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